“A Comédia Francesa”

Realizada por Martin Darondeau e Bertrand Usclat, A Comédia Francesa é uma farsa passada nos bastidores do teatro. Mas não de um teatro qualquer: nada mais, nada menos do que a Comédie-Française, onde Nina (Pauline Clément) se prepara para fazer a sua primeira encenação, e logo de Macbeth. Mas três horas antes da estreia, onde estará presente a ministra da Cultura, o mundo está todo contra ela. A atriz que interpreta Lady Macbeth ficou retida algures na província, há egos que se chocam, um adultério que é revelado, uma atriz veterana que fumou erva forte demais, vários problemas técnicos bicudos, e o marido de Nina, um músico que vai dar concertos no Líbano, vem depositar nos braços dela o bebé do casal. Darondeau e Usclat alinham gag atrás de gag, nunca perdem o pulso ao ritmo, brincam gentilmente com as gentes do palco e seus tiques e manias, e até Molière aparece no final, para dizer cobras e lagartos de Shakespeare e salvar o dia. E tudo isto em apenas 70 minutos. (Pormenor: todos os atores do filme fazem parte do elenco da Comédie-Française).

“The Moneymaker — O Falsificador”

Na França do pós-guerra, um engenheiro polaco chamado Jan Bojarski tornou-se numa colossal dor de cabeça para o governo, a polícia e o banco nacional. Durante mais de 15 anos, até ser finalmente detido, nos anos 60, Bojarski, que durante o conflito fazia documentos falsos para resistentes e judeus, foi o maior e mais prolífico falsário da história, conhecido como “o Cézanne do dinheiro falso”, pela perfeição das notas que fabricava em casa numa oficina secreta, e sem que a família soubesse de nada, julgando que ele a sustentava com as suas invenções. Jean-Paul Salomé recorda a sua história e os seus feitos em The Moneymaker — O Falsificador, recriando muito bem as atmosferas e o clima social da França dessa época. O grande problema do filme é o ator que interpreta Bojarski, o franco-argelino Reda Kateb, que nem com a melhor das boas vontades consegue passar por polaco, muito menos por qualquer outro europeu. Como se pode aliás ver pelas imagens do verdadeiro Bojarski com que a fita encerra. Kateb e ele são como o ovo e o espeto.

“Memórias do Cárcere”

Foi durante a sua prisão na Cadeia da Relação do Porto, entre 1 de outubro de 1860 e 16 de outubro de 1861, sob acusação de adultério com Ana Plácido, que ali esteve encarcerada ao mesmo tempo, que Camilo Castelo Branco escreveu Amor de Perdição, baseando-se numa história de família. Sérgio Graciano adapta aqui Memórias do Cárcere, redigido por Camilo em 40 dias, após ter sido libertado, juntamente com a sua amante, e em que o autor de A Queda de um Anjo (interpretado por Albano Jerónimo) deixou o vívido e pungente testemunho do seu encarceramento, retratando ainda as difíceis condições de vida naquela cadeia, dando uma ideia das características da justiça que se fazia em Portugal pelos meados do século XIX e contando as histórias dramáticas de vários outros presos e presas. Memórias do Cárcere foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.