O escritor e ensaísta alemão Stefan Weidner acusou esta quarta-feira os governos de responsabilizarem a esquerda pela polarização política nas sociedades ocidentais, quando são eles que detêm o poder e impõem restrições incomparáveis aos boicotes dos movimentos progressistas.
“Os nossos governos são (responsáveis pelos nossos problemas), simplesmente porque governam”, afirmou Stefan Weidner na abertura dos Dias da Literatura de Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, criticando os responsáveis políticos que — na sua opinião, se recusam a assumir as consequências das suas decisões e preferem atribuir responsabilidades à esquerda.
Na sua intervenção, intitulada “Literature Beyond Safe Spaces” (“A literatura para além dos espaços seguros”), o escritor considerou que as sociedades ocidentais, anteriormente liberais, se deslocaram politicamente para a direita, em alguns casos para a extrema-direita, apontando o atual Governo norte-americano como exemplo.
Em contrapartida, observou que setores frequentemente acusados de estarem demasiado à esquerda, nomeadamente nas universidades e nas instituições culturais, têm uma influência limitada e não dispõem dos instrumentos de poder dos governos.
Stefan Weidner contestou, assim, a ideia de que a chamada “cultura do cancelamento” promovida pela esquerda represente uma ameaça comparável à que resulta das decisões de governos e instituições com capacidade para impor restrições e exercer a força.
“Mesmo os representantes mais radicais do movimento woke não enviam drones Shahed para as nossas cidades”, afirmou, acrescentando que esses movimentos não controlam serviços secretos, não bombardeiam edifícios residenciais nem mobilizam porta-aviões.
Segundo o escritor, “o verdadeiro poder e o monopólio da violência estão do outro lado”, isto é, do lado do Estado e dos governos, que, na sua avaliação, se situam atualmente, em muitos países, à direita do espetro político.
O ensaísta considerou que movimentos como o Black Lives Matter e o BDS (Boicote, Sanções e Desinvestimento) não defendem a violência armada, mas são eles próprios alvo de repressão policial ou judicial.
Para ilustrar o que considera serem critérios diferentes no tratamento das posições políticas, referiu a perseguição judicial a ativistas pró-palestinianos e as restrições à sua entrada na Alemanha, contrapondo-as ao acolhimento de elementos ligados ao movimento dos colonatos israelitas.
A este propósito, evocou o caso da escritora irlandesa Sally Rooney no Reino Unido, criticando os obstáculos à circulação dos seus livros associados à legislação britânica sobre o movimento Palestine Action.
Apesar destas críticas à direita, o escritor fez questão de se distanciar dos movimentos woke, que descreveu como frequentemente dogmáticos, pouco reflexivos e convencidos de deterem a verdade.
“Não me considero de modo algum parte deste movimento”, afirmou, acrescentando que o considera também racista e discriminatório à sua maneira.
Stefan Weidner reconheceu que existem razões para criticar a “cultura do cancelamento” e os boicotes promovidos pela esquerda, mas defendeu que a sua legitimidade deve ser avaliada à luz da desigualdade de poder entre os diferentes intervenientes políticos.
Na sua perspetiva, esses movimentos dispõem de poucos meios para conquistar atenção pública ou influenciar decisões políticas, pelo que os apelos ao boicote constituem frequentemente um último recurso.
“Podemos não gostar disso, mas devemos pelo menos reconhecer o caráter pacífico e cívico deste protesto e não fingir que os manifestantes são responsáveis” pelos problemas das sociedades, afirmou, considerando que os governos “é que são, simplesmente porque governam” e que “é curioso que não queiram assumir a responsabilidade pela situação atual e, em vez disso, culpem a esquerda”.
O escritor atribuiu a crescente polarização a uma crise mais profunda do próprio poder político, que “já não está seguro de si próprio, sente-se ameaçado por tudo o que não é idêntico a si” e “inventa inimigos mesmo onde eles não existem”.
A instrumentalização política da cultura constitui, segundo o ensaísta, uma das consequências dessa crise, com escritores, universidades, festivais literários e instituições culturais pressionados a escolher um campo e a corresponder às expectativas dos seus apoiantes e financiadores.
O escritor criticou a transformação da literatura num instrumento de propaganda, considerando que a criação literária deve contrariar a divisão da sociedade em campos ideológicos, em vez de a reproduzir.
Para demonstrar a deterioração do ambiente cultural, evocou o ataque do Hamas contra Israel, em 07 de outubro de 2023, e a resposta militar israelita, considerando que os acontecimentos agravaram uma polarização política e cultural já alimentada pelas políticas ocidentais no Médio Oriente.
Na sua perspetiva, os Estados Unidos e outros países ocidentais responderam ao 11 de Setembro reforçando tendências imperialistas, em vez de reconsiderarem a sua política externa, contribuindo para sucessivos ciclos de confronto.
Paradoxalmente, o ambiente cultural europeu posterior àqueles atentados foi mais aberto ao debate do que o atual, apesar das profundas divisões provocadas pelas guerras e pelas relações entre o Ocidente e o mundo árabe, assinalou.
Como exemplos, recordou que a escritora indiana Arundhati Roy pôde apresentar posições fortemente críticas da política norte-americana, que instituições alemãs acolheram o poeta palestiniano Mahmoud Darwish e o sírio Adonis e que o mundo árabe foi convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt, em 2004.
Na opinião de Stefan Weidner, os festivais literários funcionavam então como espaços de encontro entre perspetivas divergentes, onde era possível ouvir opiniões inesperadas, contestá-las e participar em debates sem a exigência de alinhamento ideológico.
Esse período contrasta com a situação atual na Alemanha, lamentou, criticando o Governo do chanceler Friedrich Merz e o responsável pela Cultura, Wolfram Weimer, a quem acusou de ter tratado livrarias de esquerda como inimigas do Estado.
O ensaísta considerou ainda que as críticas à resposta militar israelita aos ataques de outubro de 2023 são frequentemente recebidas como acusações de antissemitismo, apontando este fenómeno como outro sinal do estreitamento do debate público.
Stefan Weidner questionou ainda o conceito de “espaços seguros”, considerando que a tentativa de proteger os ambientes culturais das tensões políticas e sociais pode conduzir ao isolamento e à perda de contacto com a realidade.
Por isso, propôs que os festivais literários se afirmem como “espaços osmóticos”, permeáveis às tensões políticas e sociais, sem se transformarem em instrumentos de propaganda ou em refúgios desligados do mundo.
Defendeu ainda que o setor literário reconheça a fragmentação da realidade contemporânea e continue a promover a diversidade de vozes, incluindo as literaturas historicamente menos representadas no mercado editorial dominado pelo Ocidente.