O Gil Vicente e o Académico de Viseu serviram como uma espécie de bálsamo depois das duas derrotas consecutivas na Liga dos Campeões, com a manutenção do registo perfeito no Campeonato e apuramento para a final four da Taça da Liga, mas o FC Porto ainda não tinha propriamente conseguido regressar às boas exibições, convincentes e dominantes, mantendo-se tímido e em serviços mínimos. Este sábado, porém, a ideia era mudar isso mesmo.

No Dragão, dias antes da complexa deslocação a Itália para defrontar o Nápoles na próxima jornada da Liga dos Campeões, o FC Porto recebia o Estoril — ou seja, recebia uma equipa que ainda não tinha vencido no Campeonato, que já despediu o treinador com que começou a temporada e que está claramente afundado no último lugar. Algo que não esvaziava a ambição e a preocupação de Francesco Farioli, até porque o Sporting já tinha jogado e vencido e o Benfica só entra em campo esta segunda-feira.

“Não podemos falhar, olhar para a tabela e acreditar que vamos ter um jogo fácil pela frente. Se analisarmos melhor, os números dizem coisas diferentes. E agora, com a mudança de treinador, foi preciso preparar os jogos tendo em conta alguns que vimos dos Sub-23. Temos de estar preparados para o desconhecido, para uma nova energia e aspetos táticos que não controlamos e que não sabemos. O facto de voltarmos a jogar em casa é muito importante, mesmo na Taça da Liga foi muito importante. Claro que teve impacto no jogo e fez com que os jogadores sentissem a importância do jogo”, atirou o treinador italiano na antevisão da partida.

Assim, depois de ter surpreendido com uma linha de três centrais na Taça da Liga e contra o Académico de Viseu, Francesco Farioli voltava à fórmula inicial e lançava Samu como referência ofensiva, apoiado por Pepê e Borja Sainz, com Gabri Veiga, Pablo Rosario e Victor Froholdt no meio-campo e Hwang In-beom e Alan Varela a começarem ambos no banco, sendo que Martim Fernandes era baixa de última hora devido a uma amigdalite. Do outro lado, no terceiro jogo como interino após o despedimento de Vasco Matos, Sérgio Raimundo proporcionava uma autêntica revolução no onze inicial, mudando sete peças face à derrota da semana passada contra o Moreirense, com Peixinho, Rafik Guitane e André Lacximicant no ataque.

O Estoril até teve o primeiro remate, com André Lacximicant a atirar fraco e ao lado logo aos 50 segundos, mas o jogo não demorou praticamente nada a cair para o lado do FC Porto. Os dragões começaram com tudo, aproveitaram a fragilidade constrangedora do adversário e abriram o marcador praticamente na primeira vez em que se aproximaram da baliza contrária, com Victor Froholdt a desviar depois de Pepê cruzar na direita na sequência de um passe de Borja Sainz no lado contrário (4′).

Os minutos depois foram de autêntico sufoco para o Estoril. O FC Porto ligou os motores, instalou-se no meio-campo contrário e somou oportunidades: Pablo Rosario rematou para defesa de Martin Turk (9′), Bednarek cabeceou para o guarda-redes também defender junto à trave (10′), Borja Sainz atirou de fora de área para nova defesa (10′) e o central polaco, de primeira na sequência de um canto, rematou por cima (11′). Os estorilistas sobreviveram, porém, e saíram vivos do autêntico ataque dos dragões.

Ainda assim, não existiu propriamente uma mudança de dinâmica. O FC Porto quebrou o ritmo, é certo, mas continuou a dominar todas as ocorrências e o Estoril não parecia sequer interessado em explorar o ataque, mantendo-se André Lacximicant completamente abandonado. Alberto Costa teve uma oportunidade brutal para marcar ainda antes da meia-hora, num lance em que recebeu na área e rodou para Martin Turk defender em direção à trave (25′), e Samu cabeceou ao lado pouco depois e após cruzamento de Zaidu na esquerda (32′).

Nada mudou até ao fim da primeira parte, com os estorilistas a terem ainda uma presença inédita, mas inofensiva, no meio-campo contrário, enquanto que os dragões se limitavam a gerir a total superioridade de que beneficiavam, mas sem grande acerto, engenho ou sequer criatividade. Ao intervalo, no Dragão, o FC Porto estava a vencer o Estoril. 

Francesco Farioli mexeu logo no início da segunda parte e aparentemente de forma forçada, já que Zaidu desceu ao balneário já em dificuldades físicas e acabou por dar o lugar a Souza. O mesmo aconteceu a Sérgio Raimundo pouco depois, já com o jogo a decorrer, quando Peixinho caiu no relvado lesionado e acabou por ser substituído por Nail Omerovic. Os estorilistas tiveram a primeira situação de algum perigo nos instantes iniciais do segundo tempo, quando André Lacximicant rematou contra Kiwior na área depois de uma boa jogada na esquerda (55′), e o jogo parecia algo diferente.

O FC Porto continuava a dominar, é certo, mas sem a mesma assertividade e permitindo que o Estoril respirasse e até tivesse algum tempo no meio-campo contrário, principalmente em situações de erro dos dragões na saída a jogar. Sérgio Raimundo voltou a mexer já depois da hora de jogo, lançando Xeka, Samuel Amissah e Axel Camblan de uma vez, mas a dimensão individual acabou por tornar o equilíbrio de forças absolutamente desigual.

Gabri Veiga recuperou a bola na esquerda, colocou de calcanhar na área e Borja Sainz, com um remate perfeito em jeito, atirou sem qualquer hipótese para Martin Turk (64′). Francesco Farioli tirou Samu logo a seguir, colocando André Silva, e o internacional português demorou instantes a fazer a diferença, acabando por aumentar a vantagem ao encostar depois de uma defesa do guarda-redes a um remate de Gabri Veiga (70′). Pouco depois, o próprio Gabri Veiga carimbou a goleada ao aparecer na área após deixar dois adversários para trás (73′). 

Seko Fofana, Alan Varela, Gabriel Mec e Nehuén Pérez ainda entraram, com o jovem brasileiro a estrear-se no Campeonato, mas já nada mudou até ao fim. O FC Porto goleou o Estoril no Dragão e somou a décima vitória em dez jornadas na Primeira Liga, mantendo o registo perfeito e a liderança isolada — e Gabri Veiga voltou a mostrar que só precisa de pegar na batuta para a música que se ouve ser mesmo clássica.