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Vamos a mais uma edição do "Sem Falta" com o Pedro Henriques, o nosso audioárbitro. Pedro, sê muito bem-vindo.

Boa noite.

Boa noite. Vamos falar do trabalho do árbitro Miguel Fonseca, tem 30 anos, é da Associação de Futebol do Porto. Esteve no comando deste jogo entre o Casa Pia e o Sporting, da 10ª jornada, terminou com vitória do Sporting por 2 x 0. Pedro Henriques, vamos desde já falar sobre os lances escolhidos por ti. Queres começar logo aos quatro minutos, porque, no teu entender, ficou por mostrar um cartão amarelo para um jogador do Casa Pia.

E este lance é importante para mais à frente explicar o lance de um possível pênalti a favor do Fábio Gonçalves. Vamos lá. O árbitro não assinalou nada, nomeadamente a falta do Afori que existiu sobre o Pedro Lima. O Pedro Lima vai na frente, o Afori vai atrás e no ato da corrida, o Afori com o pé esquerdo pisa e descalça toda a zona do calcanhar da bota do Pedro Lima, depois até saiu aquele episódio da bota toda rasgada. E o Pedro Lima, à conta deste pisão por trás, naturalmente na bota, nem sequer acertou no calcanhar, é a parte de trás da bota, perde a possibilidade de continuar com a bola, cai e isto tem impacto direto na ação do jogador. Ainda por cima, sendo à entrada, zona quase central e muito pertinho já da meia-lua, portanto entrada da área, seria livre direto e cartão amarelo. Infração que não foi assinalada e ato contínuo, não marcou o livre, também não mostrou amarelo, mas ficou aqui um amarelo por mostrar.

Pedro, vamos avançar, minuto nove, cartão amarelo mostrado a David Sousa.

Bem, agarrou e puxou o Pedro Lima. É uma situação em que podia deixar dúvida se o Pedro Lima ficava isolado em situação de declarar o penálti de gol. Os tais fatores que são relevantes, importantes, que são quatro, que temos tido aqui vários lances agora recentemente sobre isso. E há um deles que nos diz, quando paramos a imagem, que o Seba Pérez, que está conforme o Pedro Lima está a atacar sobre o seu lado esquerdo, e mais à frente em relação à jogada, para a distância que falta percorrer, teria a hipótese de poder interferir, isto é, ir disputar o lance. E dentro desta perspectiva, estamos perante uma situação de ataque prometedor e não declara o penálti de gol, e por isso correta a decisão, livre direto, cartão amarelo.

Vamos avançar, minuto 20, Pedro Henriques, mais um lance de castigo, neste caso, cartão amarelo mostrado a Cali.

Não é bem um agarrar, mas é parecido. O Yarikunda vai a fugir pelo corredor esquerdo, já no meio-campo do Casa Pia, e o Cali, durante vários metros, vai por trás, colado, e com o braço e mão esquerda, vai a tocar no corpo e na mão direita, vai no fundo a retardar a ação. Não é propriamente um agarrão, não é propriamente um puxão, mas é o retardar com aquela ação contínua da mão e do braço, no corpo e no braço do Yarikunda, até que ele cai. Bem o árbitro no livre direto e no cartão amarelo que mostrou ao jogador, que é a defesa e angolano da equipe do Casa Pia.

Vamos avançar, Pedro Henriques, minuto 29, mais um cartão amarelo, agora a Silas Anderson.

Sim, ele cai literalmente em cima do Henrique Araújo. Relembrar que havia uma falta no ataque que não foi assinalada a favor do Sporting, e o Sporting, por isso, perdeu a bola, o árbitro não assinalou a falta que existia, e na saída em contra-ataque, o Silas Anderson, para tentar reequilibrar a equipe, fez aquela chamada falta útil, falta tática, mas cai claramente em cima do Henrique Araújo, ele é mais alto, o Henrique Araújo, ainda por cima, estava meio já dobrado, e o Silas Anderson cai completamente em cima dele, parando a jogada. Estamos aqui perante um cartão amarelo bem mostrado, até pela chamada falta tática, que o objetivo foi parar a jogada.

Pedro, vamos ainda, pelas minhas contas, o último lance da primeira parte, aos 45 mais dois, faltar um cartão amarelo para Pedro Lima.

Quanto mais não seja, até pela questão do critério que o árbitro tinha vindo a utilizar em situações de agarrões, em que foi, e bem, praticamente, tirando aquela falha que teve, esta é a segunda que tem, que é também uma situação de agarrão. É aquele lance do Pedro Lima sobre o Cali e que para mim este agarrão é muito mais ostensivo e evidente até que outros que houve. Está certo que o árbitro olhou para o lance, viu aquilo ali na zona do meio-campo e com muitos jogadores para trás que podiam interferir no lance, não olhou para aquilo como uma jogada de perigo ou travar uma saída em contra-ataque, mas é o agarrão em si do Pedro Lima, que é claramente, como disse, evidente e ostensivo, e que era motivo e razão para ser punido com cartão amarelo. O árbitro teve um entendimento diferente, mas claramente que aquilo que choca, entre aspas, é a falta de critério relativamente aos outros agarrões onde o árbitro esteve bem.

Pedro, vamos avançar para o próximo lance, já segunda parte. Lance de Diária, há ou não pênalti de Altimira?

Para mim, não. O Altimira é aquele lance em que o Benjamin Pawles vai entrar na forma como o Casa Pia estava a atacar pelo lado esquerdo da área, de forma lateral. Há dois jogadores do Sporting à frente do Pawles e aquele que vai disputar o lance é o Altimira, que deixa a perna direita para trás. Estás a ver aquela coisa que a gente faz no futebol quando tu vais querer passar e metes uma perna para frente e dobras o joelho e baixas a outra perna para a bola não passar por baixo das suas pernas, mais ou menos esse movimento. E o Altimira, ao deixar a perna direita para trás, toca com o pé, neste caso direito, na bola. Ato contínuo, depois de tocar na bola, isso para mim é uma ato importantíssima, o Pawles que também já pelo movimento da finta para dentro, acaba por procurar o contato posterior com o jogador. Eu diria que tanto o Altimira como o Pawles acabaram por, à posterior, depois do Altimira tocar na bola, potenciar esse contato. Depois a queda do Pawles não tem nada a ver com esse contato, é claramente quem está a tentar tirar partido desta jogada, não há causa e efeito. O fato do Altimira ter tocado na bola para mim é fundamental, porque toca e desvia a trajetória do esférico e para mim, sem motivo para pontapé de pênalti.

Pedro, avançamos para um lance que poderia ter sido capital, que é de novo a envolver Silas Anderson, que nesta altura já tinha cartão amarelo, foi substituído na sequência deste lance, há um momento em que há efetivamente uma falta do médio do Sporting, era ou não para segundo cartão amarelo o lance?

Não, não era para segundo cartão amarelo. Primeiro lugar, os cartões amarelos temos aqui sempre dois momentos, que é a entrada em si e é O contexto da jogada, se corta uma jogada de perigo, se é um contra-ataque, etc. E muitas vezes a própria zona do terreno onde ela ocorre. Em relação à infração, são dois toques de rasteira. Portanto, neste aspecto, não há cartão amarelo pela rasteira em si. É um lance normal, de falta. Normal no sentido da falta. Não é um pisão, sola de pitons, não é uma entrada por trás, não é uma entrada a varrer, não é um tackle, é uma rasteira na disputa de bola. E por si só, esta rasteira não é para cartão amarelo. A outra questão é que o João Regue estava a correr na direção da linha lateral. Aliás, a falta é quase colada à linha lateral e não é uma situação em que o jogador vai fugir pelo corredor e que se não sofre a falta, embala. Não, ele está a correr na direção da linha lateral, portanto, não há qualquer perigo sob o ponto de vista daquilo que nós podemos dizer uma jogada de perigo, de ataque promissor, não existe. E portanto, para mim, naturalmente, o árbitro ter assinalado o livre direto sem cartão amarelo. É claro que o Sporting, não querendo entrar aqui nos outros aspectos.

Pedro?

Se expulso e por isso é que o tirou. Não, aqui a perspectiva é outra. Ele já está a fazer faltas e se calhar numa próxima, com mais risco, uma entrada mais dura ou custar um lance de contra-ataque, corre-se o risco de poder eventualmente ver o segundo amarelo e é por isso que o treinador faz a substituição, porque às vezes temos situações em que os árbitros não mostram o amarelo que deviam mostrar e os treinadores percebendo isso tiram o mesmo jogador. Não é o caso e portanto correta a decisão disciplinar, não era motivo para cartão amarelo.

Pedro Henriques, há ainda mais dois lances que queres destacar neste Sem Falta. O primeiro é, de novo, um lance de área. Há ou não penalti sobre o Flávio Gonçalves, aconteceu ao minuto 70.

70. E aqui para distinguir daquele primeiro pisão que houve por trás, que eu falei, sobre o Pedro Lima, que descalça a bota e faz com que o jogador perca a bola, caia na área e tenha impacto na jogada. O que acontece neste lance? O Flávio Gonçalves já rematou, portanto a bola já não está a ser disputada e o Kali vai travar mesmo em cima para tentar parar o movimento que ia tentar chegar ao Flávio Gonçalves, que estava numa posição privilegiada para rematar, e ao apoiar o pé esquerdo no solo, acaba por, mesmo com a pontinha da bota, com a zona ali de um piton, encaixar na zona lateral da bota. Portanto, não é pisão, como foi o outro, é um encaixe do piton no lateral da bota do jovem do Sporting, do Flávio Gonçalves. Por um lado, não tem qualquer impacto no desfecho do lance. E a UEFA disse uma coisa muito importante, que é o seguinte, e reforçou esta situação ano passado. Sempre que, e sobretudo a nível das áreas, haja eventualmente um contacto, em que esse contacto já não tem qualquer impacto em relação ao lance, quer dizer, que o jogador já rematou, já pontapeou, e a UEFA diz o seguinte: se realmente a entrada desse jogador, que acabou por chegar tarde e depois pisar o adversário, aquilo que nós chamamos ou entrar de tackle ou entrar de carrinho, ou seja, a entrada em si, nós dizemos assim: "Isto é cartão amarelo, porque a entrada é negligente, não tem conta o perigo consensuado, mesmo que já não tenha impacto na jogada, penalti com cartão amarelo". Se eventualmente esse contacto é o que eles chamam de imprudente, mostra pouca atenção e consideração por o adversário, palavras do texto da lei. Ou seja, se houver esse tal contacto que já não tem impacto no desfecho da jogada e que se porventura se marcasse falta, era só o penalti, só entre aspas o penalti, sem cartão amarelo, a UEFA não quer. Isto basicamente por quê? Para tentarem tirar uma situação que ocorria com muita frequência, que era estar-se a marcar sistematicamente penaltis, jogadores que já tinham rematado a bola, já tinham desfeito da bola, já não conseguiam fazer mais nada. Portanto, uma eventual falta posterior já não tem impacto em relação à jogada propriamente dita e muitas vezes eram contactos menores de alguém que não para o movimento, de choque com o adversário, pequenos contactos. E o que a UEFA diz é: só vamos assinalar nesta situação em que já está desfeita a bola e já não há qualquer impacto em relação ao resto da jogada. Se nós olharmos para esse contacto e dizermos assim: "Não, esta entrada é para cartão amarelo". Então aí, sim, dá-se o cartão amarelo e pontapé de penalti. E este é um lance que encaixa exatamente nesta recomendação da UEFA, que é já zero impacto em relação ao desfecho da jogada. O Flávio já não podia fazer mais nada. E é um ligeiro toque de alguém que quer parar o movimento e de repente, ao parar com a pontinha da bota, com o piton, acaba até, claro, que depois tem mais impacto porque descalça a bota. Se a bota não se tem sido descalça, é quase imperceptível. E quando se para as imagens, meti lá as bolinhas todas e ampliei, eu tenho quase dificuldade em perceber o contacto. Ou seja, não é um pisão daqueles que a gente vê a sola bater em cima. Não, não é isso que aconteceu. E portanto, dentro desta lógica e com as imagens disponibilizadas nas repetições, eu dou como boa a decisão de não ser pontapé de penalti.

Pedro, vamos ao último lance.

Certo.

O golo de Geny Catamo aos 90 mais três, que acaba por sentenciar a partida por 2 x 0 para o Sporting.

É só para dar aqui uma explicação técnica, eu acho que a maior parte das pessoas já percebe isso, porque é muito engraçado. O guarda-redes do Casa Pia, o Patrick Sequeira, foi lá ao pontapé de canto. E o Sporting acaba por, desse pontapé de canto, sair em contra-ataque. Quer dizer que o guarda-redes ficou lá para trás. Quando o Fredy, nós estivemos aqui a falar, foi mesmo o Fredy que o pé direito fez a assistência para o Geny Catamo. Quando o Fredy passa a bola para o Geny Catamo, é engraçado que o Geny Catamo, onde está no momento do passe entre ele e a linha de baliza adversária, só tem um jogador pela frente, que é o Gabi, que é o número oito. Não há mais ninguém. E, portanto, a nível do fora de jogo, a gente sabe que para não ser fora de jogo é preciso estar dois. Se só tiver um, é fora de jogo. A questão é que no momento do passe, o Catamo está no seu próprio meio-campo. E como penso que as pessoas sabem, de uma maneira geral, a lei 11, nomeadamente a página 109, que é a lei que fala do fora de jogo, diz que basicamente o jogador só está em fora de jogo se qualquer parte da cabeça, corpo aos pés, estiver no meio-campo adversário. Dito de outra maneira, sempre que eu estou no meu meio-campo e recebo um passe do meu colega, até posso não ter ninguém pela frente que eu nunca estou fora de jogo. O fora de jogo só conta a partir do meio-campo. E portanto, porque pode às vezes gerar esta dúvida, acho que já a maior parte das pessoas já sabe isto, de qualquer maneira, o gol é completamente legal, porque o Geny ao estar no seu próprio meio-campo, não está em fora de jogo. Foi mais por esta explicação didática que propriamente alguma confusão que possa gerar o lance.

Analisados os lances, falta conhecer a nota, Pedro Henriques. Miguel Fonseca passa na tua análise?

Sim, nota 6. Tiro-lhe aqui um pontinho por causa dos dois cartões amarelos, que acabam por não ter impacto no jogo, que ficaram por mostrar. Mas nota 6, porque aquilo que para mim mais relevante e importante do jogo foi nas áreas, de uma maneira geral, tudo certo, e sobretudo aqueles dois lances que para mim são mais impactantes. São os dois, curiosamente, na segunda parte, o tal lance em que o Altimira não faz penalti ao minuto 46 e ao minuto 70, em que também não há penalti sobre o Flávio Gonçalves. Portanto, eu diria tudo certo nas áreas. Os amarelos que mostrou foram bem mostrados, ficaram dois por mostrar. E é esta a questão, este é um árbitro que tinha uma média de faltas de 20 antes deste jogo, agora passou para 21,5. Tinha dois cartões amarelos de média nos três jogos que tinha feito, agora passou para 2,5. Portanto, é um árbitro que assinala poucas faltas, deixa jogar, também puxa poucas vezes pelo cartão. Qual é o risco? Eu gosto disto. Gosto que se privilegie o contacto físico, deixar o jogo fluido. Tivemos 61% de tempo útil de jogo, que é bastante bom. Ano passado não tivemos muitos jogos com tanta percentagem de tempo útil. O risco que se corre é que ficaram faltas e amarelos por mostrar, mas isto é o risco de quem apita e deixa jogar. De qualquer maneira, nota positiva, nota 6.

Nota 6 dada pelo Pedro Henriques ao trabalho de Miguel Fonseca, árbitro que esteve no comando deste Casa Pia-Sporting, que terminou com triunfo leonino por 2 x 0. É desta forma que fechamos mais uma edição do Sem Falta. Pedro Henriques, muito obrigado, é sempre um gosto.

Até amanhã.

Até amanhã. Fica sempre o Sem Falta disponível em podcast.