Pelas oito e meia da noite, e uma hora antes do espectáculo de Jerry Seinfeld que encerraria o Commedia a La Carte Fest, o perímetro da MEO Arena vai-se enchendo de casais ou pequenos grupos de jovens adultos que caminham apressadamente para uma fila que por esta hora se começa a adensar.
É menos fácil do que o habitual convencer espectadores a pararem por um minuto para conversar acerca do que está prestes a acontecer e, quando se aborda o tema na cabeça de todos — as polémicas geradas em setembro quando um grupo de artistas portugueses decidiu cancelar as suas atuações no festival por conta das posições do comediante estado-unidense em relação a Israel —, as respostas tornam-se frequentemente ora curtas, ora evasivas, talvez por receio de que a presença no espectáculo seja entendida como conivência ou concordância, talvez por temerem que as opiniões de cada um sejam mal interpretadas ou talvez simplesmente porque a fila, de facto, não pára de crescer. Seja como for, as opiniões dividem-se entre os que separam o artista da arte, os que afirmam terem vindo em resposta a uma polémica descrita como “um nojo” e os que dizem não terem gostado de descobrir uma faceta de um humorista que cresceram a admirar.
Os fãs de Seinfeld, entre o “cansaço da política” e a “separação entre o homem e a obra”
Seguimos então para o recinto onde passaremos os quarenta minutos seguintes, à espera de sermos revistados exaustivamente, com detetores de metais e tudo, à cata de armamento pesado, garrafas com tampa ou simples adereços de potencial conotação política. Antes, teremos ainda de colocar o telemóvel em bolsas vedadas, em parte para, como Seinfeld explicará, escaparmos por um segundo à ditadura digital (“o vosso trabalho [hoje em dia] é ajudar o vosso telefone a viver”, dirá Seinfeld logo a abrir), em parte para evitar que se filmem piadas que serão usadas toda a digressão (o próprio Seinfeld tem uma presença digital muito rarefeita) e em parte, supõe-se, para evitar dar palco a eventuais perturbações de protestantes pró-Palestina. Com tudo isto, o início é adiado para que o público, que deixará o anel superior vazio, possa entrar sem problemas.
São então 21h45 quando sobe a palco Ryan Hamilton, um comediante de Idaho muito parecido com Seinfeld, como Jerry comentaria no final da sua atuação, tanto fisicamente, como nos trejeitos vocais (punchline quase em falsete) e construção das piadas. Ryan fará, como vem nos livros, comentários elogiosos acerca da gastronomia e simpatia dos lisboetas, para depois se entregar, quase sem intervalo entre cada piada, a um monólogo assente sobretudo na ridicularização da sua aparência, vida pessoal e origens. Quando termina, sob bastantes aplausos, é rendido de imediato por um Seinfeld de blazer, camisa e os seus habituais ténis brancos, que, ao que consta, terá reproduzido em grande medida a atuação da noite anterior no Coliseu dos Recreios, onde se fez rodear dos seus melhores amigos.
Ao contrário de Hamilton, e fazendo jus à sua fama de misantropo, Seinfeld começará por troçar do recinto (“Meow [Miau] Arena”) e de uma Lisboa que, garante, não é o sonho de nenhum aspirante a humorista. Mais tarde, explicará que só é feliz quando pode odiar tudo.
É comum, e em boa medida corresponderá à verdade, associar-se o humor sempre preciso e meticuloso de Seinfeld à anotação da estranheza do mundo em piadas que começam tipicamente com um “já repararam que”. Mas talvez o traço central do seu humor seja afinal uma versão pessimista e/ou deflacionada das coisas que geram entusiasmo no humano comum. Assim, mais do que uma revolução no humor a que nos habituou, Seinfeld aplicá-lo-á agora a coisas que não pertenciam à sua ou à nossa vida nos gloriosos anos noventa em que era o nome maior do humor: primeiro, os telemóveis, depois a sua colossal fortuna e, por fim, os seus vinte e seis anos de matrimónio (cujos aplausos do público compara, com piada, aos dedicados a um atleta que abandona o relvado deitado numa maca).
Há, contudo, uma dificuldade que em vários momentos parecerá insuperável: Seinfeld é um nome tão incontornável e influente no mundo do humor que, em boa medida, todos os humoristas que vieram depois dele soaram, durante bastante tempo, a Seinfeld. E as arenas que o comediante foi enchendo e se rendiam a ele mal pisava as tábuas vieram permitir a perpetuação de fórmulas que, em bom rigor, pouco se foram alterando. E, tal como não haveria grande espaço hoje para uma banda que construísse uma carreira a soar aos Beatles, parece difícil achar inovador um modelo que vimos reproduzido com maior ou menor dificuldade por boa parte dos humoristas durante mais de duas décadas.
Porém, talvez a comparação com a música não seja a mais adequada, uma vez que o mundo do humor é bem mais parecido com o do desporto — em ambos será a capacidade de surpreender o adversário (no caso em apreço, o público) a ditar o nosso sucesso. Ora, se um treinador de futebol for revolucionário ao ponto de fazer as suas equipas vencerem uma batelada de títulos, cedo muitos sonharão em criar o modelo táctico perfeito para o travar enquanto outros o copiarão, de forma que essa táctica tão triunfal depressa se verá ultrapassada. Ou, se quisermos comparar um humorista a um boxer, à boleia da própria ideia de punchline, em ambos os casos o tempo será impenitente, tornando-os mais lentos e mais previsível a sequência de movimentos que dantes conduzia ao inevitável K.O.
Se a vontade for a de comparar um humorista a outro tipo de artistas, o mais semelhante será decerto o escritor de policiais, que incita no leitor os desejos contraditórios de se antecipar o final da piada/crime e de se ser surpreendido precisamente por esse desfecho. Ora, em ambos os casos o sucesso tremendo trará, com toda a probabilidade a morte do artista.
Em boa medida, é essa a dificuldade com que Seinfeld se depara nos espectáculos que a sua fortuna não o impede de dar, sempre em busca da piada limpa, precisa, perfeita. O que fez dele monumental, disruptivo e genial, cristalizou, transformando-se num altar a um tempo que não volta atrás.
Ainda assim, houve vários momentos altos nesta noite de domingo, que aconteceram sobretudo quando recorreu a um mecanismo que domina como ninguém: a inversão de prisma. Continua desarmante a maneira elegante como consegue subverter o nosso ponto de vista, de modo a que vejamos o mundo não a partir da nossa perspetiva já cansada, mas de objectos inanimados, como quando descreve a alegria do Titanic por saber que ainda hoje continua a matar milionários ou quando nos apresenta a cama como esse sítio que nos vê despertar gloriosamente a cada manhã apenas para depois nos ver chegar descompostos e desfeitos ao final da noite.
No fim, ainda teve tempo para responder a perguntas do público, polidas, elogiosas e desinteressantes, tendo-se salvado o momento em que um espectador lhe perguntou se algum dia regressaria a Lisboa, com Seinfeld a explicar que se um dia voltar será para fazer exatamente a mesma coisa, pelo que o senhor espectador, em vez de se perder com fantasias projetadas no futuro, deveria concentrar-se em tentar viver o presente.
No meio de um espectáculo meticulosamente apolítico, o único momento em que nos recordámos da polémica palestiniana foi quando Seinfeld sugeriu ter como mote para a sua vida um simples “I Don’t Care [Não quero saber]”, um lema com que tantas vezes nos fez rir na juventude, mas que, depois de o vermos apoiar repetidamente uma chacina, não deixará de provocar um certo incómodo.