A pedra basilar de um bom casamento é a confiança. Confiança essa que dá imenso jeito quando os membros do casal são espiões. É o que acontece à dupla de protagonistas de Black Bag, o enxuto mini-filme de espionagem de Steven Soderbergh, escrito de novo por David Koepp após A Presença, e em que o realizador mostra mais uma vez o seu talento exímio de salta-pocinhas de géneros cinematográficos e o seu dom para pegar nos modelos narrativos, personagens-tipo, temas estabelecidos, situações tradicionais e lugares-comuns de funcionamento destes, dar-lhes uma voltinha e fazer o velho parecer novo. E também mais uma vez, Soderbergh consegue-o com um orçamento poupadinho, filmando em digital e acumulando a direção de fotografia e a montagem.
[Veja o “trailer” de “Black Bag”:]
George (Michael Fassbender) e Kathryn (Cate Blanchett) são marido e mulher, vivem em Londres, trabalham ambos nos serviços de informações britânicos e confiam inteiramente um no outro. Certa noite, George recebe, de outro agente, uma lista com os nomes de cinco colegas que podem ser traidores e que vão passar para mãos perigosas um dispositivo secreto que pode desencadear um conflito nuclear com a Rússia. George vê que um desses nomes é o da mulher, que, por coincidência, vai ausentar-se alguns dias para uma missão em Zurique, cuja natureza não revela ao marido, por ser, no jargão do ofício, “black bag” (uma operação confidencial cujos detalhes não podem ser partilhados) Poderá ela ser a traidora?
[Veja uma entrevista com Michael Fassbender:]
Como parece que os membros da comunidade da espionagem têm uma vida sentimental e sexual restrita aos do seu meio, George organiza um jantar em casa, para o qual convida os quatro outros suspeitos, que são casais de amantes. E tempera o prato principal com soro da verdade (aconselhando a Kathryn que o evite), para os pôr a dar à língua e tirar nabos da púcara. Eles são Clarissa (Marisa Abela) e Freddie (Tom Burke), peritos em cibervigilância, James (Regé-Jean Page), um operacional, e Zoe (Naomie Harris), a psicóloga do departamento. A refeição acaba com um dos convivas a espetar uma faca na mão de outro, e George mais informado sobre os problemas das relações íntimas deles do que sobre qual será o traidor. Mas o jogo continua.
[Veja uma entrevista com Cate Blanchett, Naomie Harris e Tom Burke:]
Em Black Bag, Soderbergh e Koepp fazem de George e Kathryn o equivalente contemporâneo, e no ramo da espionagem, do casal de detetives privados Nick e Nora Charles criados por Dashiel Hammett e imortalizados no cinema por William Powell e Myrna Loy na série de filmes O Homem Sombra; lançam mão de todos os ingredientes do filme de espiões – sem esquecer o MacGuffin – e constroem uma fita que sabe a John Le Carré com condimento de James Bond, com uma clareza de exposição que caminha sempre de mão dada com o suspense, sem perderem o fio à meada do enredo, tropeçarem em siglas e dispersarem-se em minudências tecnológicas; e last but not least, fazem o elogio do casamento perfeito através do casal protagonista (e tudo isto sem qualquer palha e na canónica hora e meia).
[Veja uma sequência do filme:]
Black Bag é um filme tão consumadamente profissional, seguro de si, desembaraçado e cheio de estilo como George e Kathryn, que encaixam um no outro como duas peças de Lego. Michael Fassbender e Cate Blanchett deleitam-se a interpretá-los, ele compondo George com uma capacidade de análise e um uso da lógica inatacáveis, que também aplica ao governo da casa; ela numa Kathryn que é toda elegância, desenvoltura e astúcia da mais fina. Poderão ter os seus pequenos arrufos e desentendimentos pontuais, mas no que interessa mesmo, e nos momentos decisivos, estão em sintonia perfeita e partilham uma confiança inabalável. O que é preciosíssimo, dado trabalharem ambos numa área em que a mentira, o engano e a traição são o pão nosso de cada dia.
Steven Soderbergh teve ainda a boa ideia de entregar a Pierce Brosnan o papel do aziado diretor do departamento em que George e Kathryn trabalham, permitindo ao antigo intérprete de James Bond mostrar-se, gostosamente, num registo oposto ao de 007 que tão bem personificou. E dado que o cinema de espionagem não tem andado nada famoso (o género, aliás, parece ter migrado para o streaming) e que a aquisição dos direitos da franquia James Bond pela Amazon não parece augurar nada de bom (veja-se o que aconteceu à de Guerra das Estrelas nas mãos da Disney), temos que saber valorizar e saborear filmes como Black Bag.