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Quem acham que devia ser o novo James Bond?
Tem sido um actor que não se está à espera, mas eu gostava muito de ver o Paul Mescal ou o Theo James.
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", a vossa via verde para as graças da cultura popular, especialmente vital em dias como estes. Esta semana, não sei se repararam, numa altura de tempestade política nacional e geopolítica internacional, reunimos as vozes sábias do costume, Maria Ramos Silva Bruno, Vieira Amaral e Pedro Boucherie Mendes, para falar daquilo que realmente interessa à humanidade: James Bond e a Amazon. Isto aconteceu ainda antes de Donald Trump ter dado os seus mais recentes espetáculos, antes das moções no Parlamento e antes até de o coitado de Timothée Chalamet ter perdido o Oscar. Aconteceu isto: a venda do franchise de 007 à Amazon MGM, que foi concretizada pelos produtores de sempre, os herdeiros de Albert Broccoli, o homem que transformou o agente secreto de Ian Fleming numa estrela planetária. E agora a grande questão é: o que é que vai acontecer e, sobretudo, o que é que vai ser de nós? Esse é que é o drama existencial. Pedro Boucherie Mendes, vamos começar por ti, posso dizer que és fã de James Bond? Estou certo?
Sim, se for fã de alguma coisa.
Era o que eu ia dizer.
Gosto muito de James Bond. Aliás, à medida que vou ficando mais velho, vou gostando mais.
Por quê?
Não sei, porque quero ser mais novo.
Muito bem. Nessa qualidade de fã de James Bond, quando soubeste desta notícia, o que pensaste primeiro? Isto está tudo acabado ou agora é que isto vai ser incrível?
Qual é o estado da arte, o estado da questão? Não há novo filme de Bond há muito tempo. Nem me parece que vá haver tão cedo.
O último é de 2021.
Sim.
Mas já houve intervalos maiores.
E mesmo assim-
Já houve.
Foi adiado.
Não.
Não houve.
O "GoldenEye", entre o anterior, talvez tenha sido mais tempo.
Mesmo assim, a estreia foi adiada.
Entre o último do Timothy Dalton. Exatamente, o do Pierce Brosnan.
Mesmo assim, a estreia foi adiada por causa da Covid, não é?
Sim.
Pronto.
Sim, verdade.
Nós não fomos ver.
Fomos todos ver isto.
Fomos e fomos muito felizes.
Certo.
Quer dizer, tirando aquele fim.
Foi um screening.
Foi para privilegiados.
Naquela IMAX, uma coisa assim?
Talvez, sim. Mas fico contente que não te tenhas esquecido desse momento.
Foi o quinto filme com o Daniel Craig, que foi uma escolha, na altura, surpreendente. O Craig, tal como o Brosnan antes e o Dalton, não era uma estrela de primeira grandeza quando foi escrito. Essa era, ou é, uma regra do mundo Bond. Mas no último filme, para quem não sabe, o James Bond morre no fim.
Pronto, eu acho que o spoiler já não entra aqui neste campeonato.
E parece que aconteceu uma coisa muito simples, que é os antigos produtores, esta senhora chamada Brócolos, que é um bocado estranho.
É um apelido italiano.
Barbara.
Já o pai era assim.
Exato. Eles eram os produtores, ou seja, eram as pessoas que tinham o controle criativo. No fundo, e simplificando, eram as pessoas que podiam dizer se o Bond era negro, gay, mulher, extraterrestre. Parece que o que aconteceu, tanto quanto pude apurar ou ler e ouvir, eles não conseguiram sair desse problema que criaram a si próprios, que é a morte de Bond. Ou seja, o que é que fazemos agora?
Para onde é que vamos?
Porque aquela atriz que entra no Dia de The Jackal na série, que é péssima atriz, ficou com o 007, com esse nome, na ficção. Isso está tomado. E agora não sabem o que hão de fazer. Entretanto, a Amazon comprou a MGM, que era a detentora dos direitos. E finalmente, para estas semanas, esses direitos foram cedidos à Amazon e à empresa de Jeff Bezos.
E o negócio foi concluído.
Independentemente disso, muita massa, com certeza, mas o controle criativo foi passado, como aconteceu há uns anos, em que a Disney comprou a Lucasfilm, e portanto, passou a deter o controle criativo do universo Star Wars e criou todas aquelas séries, filmes, spin-offs, aquela salganhada toda, que para alguns fãs mais antigos matou completamente a mitologia ou o apelo pela série, mas que renovou o universo Star Wars junto de milhões de outras pessoas. Aqui poderá acontecer o mesmo, porque é até interessante pensar que uma pessoa que tenha agora 14 ou 15 anos, em princípio, já será maior de idade quando houver um próximo filme de James Bond. Não há ator, não há argumento, não há ideia do que se vai fazer, pelo menos que nós saibamos. As hipóteses em cima da mesa são: um filme normal, um spin-off, imagina filmes passados nos anos 60 ou 70, quando Bond era jovem, porque o Bond de Daniel Craig supostamente nasceu em 1971. Portanto, se fizeres um próximo filme nos próximos anos, ele terá quase 60. Em princípio, poderá beber martinis e fazer amor com belas mulheres, mas em princípio não poderá fugir a correr.
Não será muito ágil.
Saltar um wall.
Exato. Como faz o Tom Cruise, apesar de o Tom Cruise já ter 90 anos ou uma coisa assim Estamos aqui num mundo sem Bond, que é um conceito um bocado perturbador pra mim.
Mas ao mesmo tempo não respondes à minha pergunta.
Que é para isso que o Pedro está cá. É para não responder à tua pergunta.
Mas temes o pior ou esperas o melhor?
Temo o pior.
Pronto.
Temo, sobretudo, que haja uma série de televisão. Isso em si não é um problema, mas estes filmes, como às vezes dizem, tentpole, estes filmes que são de orçamento brutal e cuja expectativa dos espectadores é imensa, têm imenso investimento e portanto, normalmente os filmes de ação têm um pico. E estes filmes, o Bond ou Missão Impossível, têm vários picos de ação. O tipo está a andar de moto na Muralha da China, esse tipo de coisas. Temo o pior. Temo que haja uma seriezita em que o Bond, no fundo, esteja sempre a dialogar com outros personagens e não faça coisas.
E não faça aquilo que tem que fazer, que é salvar o mundo.
Salvar o mundo de Smoking.
E garantir o equilíbrio emocional.
Acho que Smoking era Kanawi, não é? Acho que sim.
Não sei bem como comentar isto. Bruno Vieira Amaral, primeiro a ti. Tu és fã do James Bond?
Mais ou menos.
Médio.
Mais ou menos. Gosto de alguns filmes, gosto do conceito. Gosto desta coisa de discutirmos quem é o preferido e quem é que funciona melhor. Devo confessar, team Pierce Brosnan, Roger Moore, são pra mim os meus preferidos. Talvez com um bocadinho de preferência pelo Roger Moore.
Nunca vou perceber esse tipo de pessoas.
Mas gosto. Pronto, tudo bem.
É o que é.
É isso. Lá está, é por isso que isto é interessante.
Eu também gosto francamente destes dois. Qual é o teu favorito?
É o Sean Connery e Daniel Craig.
O Pierce Brosnan acho que agora-
Não suporto o Roger Moore como James Bond.
O Pierce Brosnan ultimamente tem sido alvo de reavaliações negativas. Eu acho que foi ele que salvou o James Bond.
Eu acho que o "Goldeneye" é bom, mas depois foi sempre a descer.
Pronto.
Mas atenção, ninguém ouve este programa pra ouvir as minhas opiniões.
Claro.
Bruno Vieira Amaral, diz-me lá uma coisa. O Pedro tocou aqui num assunto importante, e isto acho que está certo, parece que está certo, que é: os antigos produtores decidiam quando é que se fazia um novo filme, quem é que era o intérprete, tudo isso. E esta venda vai dar a oportunidade de os detentores dos direitos decidirem se querem fazer remakes, spin-offs, etc. Corremos o risco, eventualmente, de entrar neste mundo paralelo que aconteceu com a Guerra das Estrelas. Isto não vai ser venenoso?
Bem, vamos ver uma coisa.
Vamos lá ver.
Isto, quanto é que isto custou? Deve ter custado milhões.
Digo sim.
Muitos milhões.
É preciso rentabilizar.
Ora aí está. Se isto custa milhões, será para tentar rentabilizar de variadas formas. Esta ideia ou esta forma de gerir a personagem funcionou até agora. A prova de que funcionou é que entre 1960, a data do primeiro filme, creio eu, deixa-me confirmar, 62.
62.
E 2021, o James Bond está aí.
E o negócio vale milhões é por alguma razão.
Continua a ser relevante. Continuamos aqui a discutir, a propósito da questão dos intervalos entre o Spectre, de 2015, e o No Time to Die, foram seis anos.
Mas aí houve a tal questão também da pandemia.
Da pandemia, mas também houve aquele entre 89 e 95.
Exato.
Na transição do Timothy Dalton para o Pierce Brosnan. É óbvio que, pelo menos eu espero que isso aconteça, quem pegou nisto agora vai tentar arranjar aqui uma série de produtos diferentes que correm esse risco de matar a galinha dos ovos de ouro, porque o James Bond vive do James Bond. Isto não é o Star Wars, que de facto pode ter várias linhas narrativas, embora eu consiga pensar já aqui, rapidamente-
Em três ou quatro.
Três ou quatro, por exemplo, uma série em que tu acompanhas os vilões. Uma série em que vais ao lado familiar do James Bond. Podes fazer um drama daqueles, como é que era? Kitchen Sink, dos anos 60, do cinema britânico, em que em vez de teres explosões, tens um drama familiar. Aqui estou a brincar. Mas essa questão dos vilões, por exemplo, uma série, um spin-off, como se diz, que acompanhe a história do Dr. No. Ou então, que misture todos os vilões.
O Scaramanga, esse é que era.
Pronto, tens aqui uma série de possibilidades do James Bond.
Uma quinta das celebridades só com ex-Bond girls.
Sim, mas eu percebo o que dizes. Ou seja, Guerra das Estrelas a diferença é que há um universo.
Mas aqui também pode haver.
Diferentes tempos, etc. Planetas e coisas.
Aqui, meu amigo, é o que eles quiserem.
É uma questão de pensar.
É uma questão de pensar. Mas há aqui várias coisas.
Muita possibilidade.
Várias linhas temporais que se podem explorar. Imagina os James Bonds juntos, vários James Bonds juntos.
Ai, tu estás a ficar muito maluco.
A Amazon já tentou fazer isso. Eles têm uma série chamada Citadel. Não sei se alguma vez ouviram falar.
Já ouvi falar, mas nunca vi.
Com o Richard Madden e com aquela atriz que é casada com um dos Jonas Brothers, e aquilo não foi grande coisa. Ou seja, o Bond tem um apelo específico.
Pois é, era aí que eu estava a chegar. Aliás, já tinha dito que o fascínio do Bond tem a ver com a personagem, com o Bond. Obviamente que o sucesso de alguns filmes também depende, ou no caso dependeu anteriormente, do apelo, do fascínio exercido pelos vilões. Um filme daí se fazer o ranking dos melhores vilões.
Sim.
Claro, isso também conta, ou das Bond girls. Mas, e isso os antigos produtores perceberam claramente, o grande ativo do James Bond é a personagem.
É ele próprio.
É o James Bond, independentemente de quem desempenhe. Agora, a tentação para quem comprou isto por este dinheiro todo, será de explorar aqui várias possibilidades Corre esse risco. Corre o risco de ao tentar alargar também o público do James Bond, chegar a um público diferente, acabar por matar o fascínio da personagem.
Secar a fonte.
Matar a galinha dos ovos de ouro, se quiseres.
Maria Ramos Silva, este negócio deixou-me a pensar. Isto é uma saga ou uma série de filmes com mais de 60 anos de história. E se em vez de terem vendido, se os produtores tivessem acabado com isto, se isso tivesse parado, isto faz sentido?
Para mim há aqui um ponto muito interessante, que é o estado do Bond, do James Bond.
Adorei que tu disseste o Bond, James Bond.
Por acaso não foi intencional. Mas historicamente é um pouco também o reflexo e o estado do próprio Reino Unido, por um lado, em particular, e por outro também eu penso que do mundo ocidental, se quisermos expandir aqui um pouco.
Achas que podemos tirar...?
Acho, e já lá chego, porque é um mundo que, neste caso, basta olhar pela janela para perceber que é incerto. Eu até me parece que esta pausa, esta semi-retirada, é até um pouco estratégica e sintomática, não só do ponto de vista social.
Para ver onde é que isto vai.
Sim, porque repara, o próprio Bond foi encaminhando para um sítio um pouco perdido. Às tantas nós não sabíamos se era mais ou menos woke, se era mais ou menos feminista, se podia beber cerveja, como é que devia tratar as mulheres. Portanto, agora tem que resolver ali uma série de problemas. Mas recuando nestes 60 anos, é muito interessante, porque vivíamos tempos não desta pseudoguerra escaldante, mas uma guerra fria. E o Bond foi, como o Bruno dizia, um activo poderosíssimo, até durante essa guerra fria.
E era o combustível dessas histórias.
Totalmente. Aliás, ele foi usado, sobretudo pelos presidentes norte-americanos da época, de uma forma absolutamente óbvia. Aliás, há uma história muito engraçada. Antes dos filmes começarem a ser rodados, diz-se que o Kennedy, ainda senador, foi operado às costas, esteve em convalescença no hospital, deram-lhe a ler uns livros do Fleming, ele adorou aquilo e depois na relação com a própria indústria acabou por sugerir, não era bem uma ordem executiva, mas às tantas terá dito: "Olha, façam lá o 'From Russia With Love'." E aquilo acabou por ser feito.
É um dos meus favoritos.
E sabes que supostamente ele assistiu a esse filme na véspera de ser assassinado. Portanto, sim, também há essa relação. E nessa altura, o Broccoli, que curiosamente, ou talvez não, vem também dessa ressaca de ler os livros do Fleming, que eram, de facto, o combustível perfeito. As histórias eram ótimas. E nós hoje quando falamos destes guiões e destes argumentos, a base de trabalho também já não é esse filão. Estamos a falar de argumentos originais, com personagens, sim, muitas que são dessa época. O Bond é a figura que sobrevive desse tempo, mas hoje temos argumentistas que trabalham sobre isso. Portanto, é difícil imaginar quando perguntas: faz sentido hoje acabar? Eu acho que virtualmente, a partir do momento em que já não estamos sobre o Fleming, poderíamos ter acabado. Mas o filão foi continuando e foi continuando com relativo sucesso, para não dizer muito sucesso. Portanto, eu estou curiosa para ver o que é que pode seguir esta pausa. Também não acredito que tenham, enfim, ninguém compra um Ronaldo para ter no banco, sem aparecer. Portanto, se calhar, eu acredito que eles vão fazer qualquer coisa, o que é que me parece que é a grande surpresa e o grande enigma.
Mas já podia ter acabado.
Achas?
Acho.
Não, é verdade, podia francamente ter acabado.
Estamos aqui a discutir a morte do Bond e o que, ai, meu Deus, podia ter acabado. Na verdade, é esta ideia do Bond como uma espécie de termómetro.
Da realidade. Da geopolítica.
Deve refletir a realidade ou deve apontar novos caminhos? Deve ser mais ou menos woke? Deve ter um James Bond negro? Quer dizer, chega uma altura, na verdade, os filmes ou são bons ou não são. E aí isso pode justificar-se pela qualidade ou não do filme, mas o próprio conceito em si, de ter filmes, um franchising que dura, aparentemente, para a nossa realidade, eternamente. Não sei se continua a fazer sentido ou se é um drama tão grande se acabar. Por exemplo, se tivesse acabado com a morte do Bond, pronto, e acabou.
Estava arrumado.
Agora, a única razão para não acabar é o dinheiro, é porque aquilo continua a render.
O que eu talvez possa dar aqui a esta achega.
Diz.
O universo Bond era muito valioso em televisão e em vendas de DVD, que era uma coisa que existia há um tempo que não foi há assim tanto tempo.
Quando diz em televisão, o quê?
Eu fazia o filme, tinha a receita da bilheteira e depois tinha a receita das marcas que lá estavam dentro, das cervejas e não sei o quê.
E dos relógios.
Depois vendia os filmes por uma fortuna aos canais terrestrial, aos canais hertziianos, imagina como a SIC. Depois vendia os filmes por uma fortuna a canais de cabo, como a Fox, e depois ainda vendia os DVDs em venda direta e ainda vendia os DVDs para aluguer nos clubes de vídeo. Mas esse mundo acabou com o streaming. Hoje em dia, há muito pouco cinema nos canais generalistas e já ninguém vai comprar o Bond, mas eu ainda me lembro lá na SIC pagarmos uma pipa de massa por alguns destes filmes.
E valia a pena nas audiências?
Essa é sempre a pergunta do milhão de dólares. Não, mas os canais generalistas têm que ter estes bombons.
Bond Bond.
Desculpem.
Nem bom, nem mau.
Sendo que James Bond, eu tinha esta engatilhada, esqueci-me, agora vou ter que memorizar.
Vamos, enfim.
James Bond é um nome comum em inglês, é como Tiago Pereira, porque James é Tiago.
Exato. Vocês não sabem o que isso me deixa feliz.
Bond, não sendo Pereira, mas é um nome tão comum como Pereira será em Inglaterra. Fica aqui a reflexão.
Imaginem. Tiago. Pereira. Tiago Pereira. Só dar aqui uma nota antes do intervalo. Uma novidade para todos os que nos ouvem, que como vocês sabem, são muitos. A partir de agora, as sugestões da semana vão ser feitas num podcast à parte, que é publicado todas as segundas-feiras, o que é ótimo para os nossos queridos ouvintes, porque vão poder ouvir tudo em separado. Como diz o outro, cada um no seu quadrado. E também, mais ainda, vão poder gozar da nossa ótima companhia duas vezes por semana, o que é absolutamente extraordinário, digo eu. Agora sim, final da primeira parte do "Pop-Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já.
Estamos de regresso ao PopUp com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos a tentar responder à pergunta: o que vai ser de James Bond agora que foi comprado pela Amazon? Pedro Buchinho Mendes, há bocadinho estavas a falar aqui de uma coisa que me parece importante, que tem a ver com o streaming. Isto tem ainda mais graça, porque não sei se repararam no outro dia nos Óscares, ganhou o "Anora" e o Sean Baker, que realizou, escreveu e fez tudo no filme e ganhou só por ele quatro Óscares.
É um filme independente.
Exato.
Verdadeiramente independente.
Sim. Fez muito a apologia do cinema, salas de cinema, old school.
O Conan também teve ali um momento em que brincou um pouco com isso, os ecrãs.
Cinema stream.
O romantismo da ideia do cinema, a ideia clássica. Mas a verdade é que o streaming e os grandes grupos de mídia, tal como a Amazon, que, dissemos e bem, comprou a MGM, mudaram completamente as regras do jogo. Estávamos há bocado a falar de como o "Guerra das Estrelas", quando foi vendido à Disney, de repente, tudo mudou. Isto pode eventualmente acontecer com o James Bond.
Tudo mudou criativamente.
Não, e formalmente também.
Temos falado isso várias vezes, mas aqui também mudou criativamente.
Exatamente. A questão é, não só sobre o James Bond, mas de forma geral. Este negócio, tal como está, dos grupos, do streaming, de desmultiplicar os títulos, etc. Isto vai continuar? Isto está a correr bem ou estará condenado? Eu fico na dúvida, porque muitas vezes lemos as notícias em que os grupos têm prejuízos, as empresas têm prejuízo, depois têm que pôr mais publicidade, depois perdem assinantes.
Por onde começar? O que se começa a verificar é uma transferência das pessoas verem a televisão normal em televisão normal, para passarem a ver essa televisão normal em streaming. Por exemplo, nós na SIC temos muitas pessoas que em vez de seguirem as novelas na SIC, seguem as novelas na Opto, que é a plataforma da SIC. Isso é ver televisão ou é ver streaming? Porque tipicamente, quando falamos de streaming, ou está subentendido, quando estamos nos nossos jantares com pessoas interessantes, está subentendido que estamos a falar de séries incríveis e fantásticas que nos intelectualizam perante os outros. Ninguém vai para um desses jantares fantásticos dizer que esteve a ver a "Máscara" ou o "Big Brother" no streaming. Essa é a primeira questão. As experiências da Amazon e da Netflix, que são as duas que têm mais dinheiro, vêm demonstrando que estamos todos às apalpadelas. Nós, em português, à nossa microescala, e eles à grande escala. Por exemplo, um programa que não falámos aqui, o "MrBeast", não sei se viste na Amazon.
Não vi, sei qual é.
Aquele youtuber que fez um concurso com o maior prêmio de sempre, creio que o vencedor ganhou $5 milhões, uma coisa assim, estavam $100 milhões em competição. Eu vi os episódios todos na Amazon. É uma daquelas coisas que começas a ver e queres ver como é que vai acabar. E aquilo não é muito diferente de um concurso de televisão tipo "Squid Game", em que as pessoas têm que fazer provas físicas, de perícia, intelectuais e provas de sorte, com a diferença que o prêmio é muito significativo. Vou dizer a coisa desta forma: o objetivo número um de uma plataforma de streaming é não perder clientes, um pouco como um ginásio. E o objetivo número dois é conquistar novos clientes, um pouco como um ginásio. Portanto, é o negócio das assinaturas, das subscrições, como agora se diz também em Portugal. Se eu achar que o Netflix vai ter coisas novas e interessantes para mim todas as semanas, não desisto da minha assinatura. A Netflix está cotada em bolsa, é uma empresa que tem que prestar informações verdadeiras ao mercado. Tem aumentado as suas subscrições, tem aumentado a sua receita por subscritores, estão constantemente a aumentar o preço, não sei se as pessoas têm reparado. Acho que começou por €9 em Portugal e já vai quase nos €20, os pacotes mais caros. Esta coisa de atacarem as pessoas que partilham password.
Sim, contra a partilha de perfis.
Parece ter funcionado a favor deles, ou seja, não houve uma desistência massiva de subscritores. Agora, o que vai acontecer no futuro, parece que a televisão tradicional vai resistir da mesma forma que o cinema resistiu à televisão. Em que circunstâncias exatamente, não se sabe. Em princípio, teoricamente, o público da televisão normal é mais velho, em termos etários, do que o público das plataformas de streaming, mas esse público das plataformas de streaming não vai ter 18 anos a vida toda. Aliás, para o ano tem 19, daqui a dois anos tem 20, depois tem 21, depois tem 22. É verdade, às vezes não se pensa nisso. Pode ser que daqui a 10 anos estejam casados e com filhos e estejam a ver televisão normal com um copo de vinho à frente.
É uma boa perspectiva. Bruno Vieira Amaral, outra angústia que eu tenho, isto é doloroso. Se isto agora vai ser uma nova moda para outros milionários. Jeff Bezos é um dos homens mais ricos do mundo. Tem algum dinheiro, eu diria.
Sim, uns trocos.
Será que Elon Musk se vai meter no audiovisual a seguir? Ele às tantas parece um supervilão naquela novela da vida real que é a Casa Branca hoje em dia.
Sim, todos eles parecem um bocadinho, todos eles têm um pouco de vilão. Se pensarmos no Zuckerberg. Todos eles têm um bocadinho de vilão, porque correspondem a um tipo de poder não controlado, não escrutinado. Interfere em esferas da nossa vida, da informação e da política, que estávamos habituados a outro paradigma, em comparação com o que estávamos a falar do audiovisual. Sim, acho que é uma possibilidade. Eles querem ter esse poder de formar, contar ou de construir mitologias.
Mas isso também é interessante. Isto é um poder, esta coisa de ter a capacidade, por exemplo, de decidir sobre uma marca como James Bond?
Sim, claro que é poder. E é poder sobre o imaginário coletivo. É poder, como é poder também teres um jornal como o Washington Post e dizeres qual deve ser a orientação ou não. Primeiro, de uma forma um pouco envergonhada.
E agora cada vez mais óbvia.
E agora cada vez mais assumida. E esse poder sobre o imaginário. Quando se fala tanto das questões de saber se a indústria de Hollywood é mais woke ou não é mais woke, obviamente que isso também é um poder. Se tu dominas, controlas essas narrativas. Tem-se também falado muito ultimamente desta viragem dos Estados Unidos com Trump para uma postura mais agressiva no cenário internacional, de imposição das suas ideias e dos seus interesses pela força, descurando, por exemplo, o que tem sido, o que foi a estratégia americana de soft power também, não só soft, mas também de soft power, ao longo de mais de meia década depois da Segunda Guerra Mundial, em que o poder dos Estados Unidos assentou muito também no seu poder cultural.
Exato.
E de exportar estas ideias para outros países. E agora vemos uma postura diferente, mas continua a ser importante exercer influência que não seja pela mera imposição da força. E o audiovisual, o streaming, todas essas marcas são apetecíveis ou podem ser utilizadas. Não tenho a mínima dúvida acerca disso. Sobre as questões do streaming propriamente ditas, do futuro, se será esse o futuro, eu acho que pode haver nos próximos anos um refluxo em que as pessoas vão começar a ter saudades, como tinham do vinil, de ver coisas que lhes são servidas de uma forma mais clássica. Ou seja, muitas vezes, eu pelo menos sinto isso enquanto utilizador das várias plataformas, cria-se ali uma sensação de uma certa desorientação, de não teres uma programação. Tu tens ali um menu à tua escolha, mas às vezes tu queres ir a um restaurante onde te digam: "Bem, é isto que tens aqui, escolhe entre estes pratos." E tens três pratos. E aqui no streaming parece que tens uma multiplicidade, uma infinidade de escolhas e isso provoca também um certo cansaço, uma certa desorientação. E o streaming, como outras formas de exibição, também vivem muito do prestígio adquirido, por exemplo, no cinema tradicional, nas salas de cinema. Ou seja, tu queres ver também um filme que tenha esse prestígio de ter sido um grande sucesso de bilheteira. O Pedro estava a dar o exemplo das telenovelas. Provavelmente as pessoas não veriam a telenovela no streaming se a telenovela não passasse no canal normal.
Não fosse um produto do canal televisivo.
Exatamente. Portanto, eu não sei se isto é agora um caminho de sentido único. Acho que nos próximos anos pode haver retrocessos neste sentido, se voltar a um conceito mais tradicional de consumo de audiovisual.
Maria Ramos Silva, sobre o Jeff Bezos. Eu queria saber o que é que tens a dizer sobre o homem. Lançaste uma questão interessante antes do programa, que foi: imagina, e se ele decidisse ser o novo James Bond?
Acordava. Acordava um dia.
Acordavas tu, Maria, ou acordava ele, o Jeff Bezos?
Não, acordava ele.
Pelo menos ele, lá está.
Quer dizer, mas para acordar para ouvir isto tudo.
Exato. Mas ele dava, de facto, um ótimo vilão.
Mas eu não sei é se ele quer ser o vilão. Ele provavelmente quer ostentar o tal canal. Eu acho que ele quer ostentar o canal.
Ele quer conduzir aquele carro que faz imensas coisas, tem imensos botões.
É, sim. Mas repara, nós, de facto, parece que já estamos num mundo de fantasia. Só falta ver gente com câmeras à volta, registrar isto tudo. Não sei, mas se ele fosse vilão, provavelmente, neste caso, atendendo à conjuntura, se calhar seria mais um Dr. Yes, em vez de um Dr. No.
Exato.
Os americanos, de repente, são amíssimos dos russos. Portanto, havia aqui grandes guinadas nos guiões originais. Mas é curioso, porque, de facto, há ali muita coisa que se mantém. Nós quando olhamos para estes argumentos todos. O Bruno falava, e bem, desta questão do soft power, mas, de facto, há aqui um impacto cultural que vai muito para além disso. Não só este poderio veludado, que depois sempre vai deixando um rasto importante. Mas é curioso porque há ali muito em Bond que não só passa por essa disputa de poder territorial, quem manda, as figuras, as skills, o poderio tecnológico, que também está sempre ali muito em jogo, a estratégia militar, política. Portanto, quer dizer, tu sempre tens ali uma série de condimentos que, não tendo a necessidade nem a aspiração de ser um reflexo do mundo, porque nós, na verdade, só queremos, de facto, ir ao cinema ver um bom filme de entretenimento Mas eu penso que é difícil escapar.
E não fazer esse paralelo.
E não fazer esse paralelo, porque a própria trama vive disso, os protagonistas vivem disso. De facto, é muito curioso pensar o que estas pessoas podem fazer, porque, em última instância, não sei se o Bezos vai mesmo aparecer, mas sei lá, um cameo. Não parece uma coisa tão fora, tão descabida, sinceramente. E portanto, vai ser curioso ver também que mensagem, se é que haverá essa mensagem, poderão passar. E certamente aquelas questões que foram tidas até aqui, sobre quem é que vai realizar, quem é que vai interpretar, quem é que vai assinar a banda sonora. Tudo isso me parece que, mais do que nunca, será terreno pantanoso e levará ali uma série de bate-bolas.
Há aqui uma coisa que é inquestionável e acho que tem que ser dita. O sistema de crenças ocidental é refletido no James Bond, e ainda bem, não queremos que seja um tipo que é casado com nove mulheres ou que não as deixa sair de casa. Acho eu que não queremos. Às vezes é fácil criticar os americanos e essas coisas todas, mas é um sistema de crenças ao qual as pessoas aderem normalmente. Apesar de tudo, é o melhor, digamos assim, que temos, por pior que seja. Deixa-me só dizer uma coisa, que o grande vencedor até agora disso tudo é o YouTube. O YouTube, como sabemos, é um sistema de armazenamento gratuito de vídeos. Portanto, qualquer um de nós pode lá colocar vídeos.
Carregar vídeos.
Certamente. E esses vídeos nem sequer precisam de estar disponíveis, há um sistema qualquer de os fechar. Portanto, em vez de termos cloud, digamos assim, podemos lá meter os nossos vídeos familiares, que é uma coisa que algumas pessoas farão. Eu, por exemplo, este fim de semana passei mais tempo no YouTube do que em qualquer outra coisa, porque comprei lá um cogumelo. Aquelas coisas com calor, um aquecedor de exterior.
Ah!
Comprei um cogumelo desses de uma marca que agora não posso dizer, mas que acaba em Alp, e o livro de instruções as pessoas que estão à frente daquele departamento mereciam comer aquilo sem sal. E tive que ir ao YouTube à procura de um vídeo, saber como é que se monta. Então acabei por passar mais tempo no YouTube.
Ninguém filmou isto. Isto é extraordinário.
Acabei por passar mais tempo no YouTube, que é o grande rival, porque aqui competimos todos pela atenção. Se uma pessoa estiver a ouvir o PopUp, não está a ver a SIC, digamos assim, ou não está a ver o Netflix. Acabei por passar mais tempo no YouTube e o grande dilema das SIC, dos Netflix e de não sei o quê, é se devem estar no YouTube ou não devem estar no YouTube. O júri divide-se, está a debater. Está na sala a debater.
Está a deliberar.
Sim, a deliberar.
Muito bem. Agora sim, as duas perguntas que interessam a toda a gente. Quem é que acham que devia ser o novo James Bond? Pedro Boucherie Mendes.
Olha, tem sido um actor-
Ou seja, se tu pudesses escolher.
Tem sido um actor que não se está à espera, mas eu gostava muito de ver o Paul Mescal ou o Theo James. O Theo James, para quem não está a ver, é aquele bonitão que entra na segunda temporada de White Lotus. Aquele parecido connosco que tinha.
Sim, igual, aliás. São dois que estão a ter bastante saída.
Pelo menos nos sites. Mas eu votaria no Paul Mescal.
Paul Mescal. Eu não tinha pensado nisso.
Por acaso era a minha escolha.
A Maria está a dizer que não.
Não.
Não podendo ser o Bruno de Oliveira Amaral, porque não é britânico.
A minha escolha, uma das minhas escolhas era o Paul Mescal.
Muito bem. E mais?
E mais, o John Boyega.
John Boyega, sim.
E o Nicholas Hoult.
Nicholas Hoult fez o jurado agora, o jurado 21.
Não, não é o da Succession. É o que é igual ao Gui Ocáries, o do jurado dois.
É igual ao Gui Ocáries.
É o tipo que entra no The Great, não é? É o que entra no The Great com a Fanning. É, não é?
Isso agora é o protagonista do mais recente filme.
Exatamente. Pronto, mas destes, talvez o Paul Mescal fosse a minha escolha.
Vocês querem um jovem Bond, é isso?
Não, já passou. A época do Idris Elba já foi.
Por quê? Como assim?
Já foi, já não faz sentido. E o Clive Owen teria dado um excelente James Bond noutra altura. Há 15 anos, já passou também.
Exagerado.
Sim, mas há 15, 20 anos teria sido. Mesmo um Colin Firth talvez tivesse dado. Mas agora já passou.
Até o Hugh Bonneville.
O do Doctor House.
O do Downton Abbey. O Hugh Laurie, não.
Isso é o Hugh Laurie.
O Bonneville, sim.
Olha agora onde eu fui. Mas também é inglês, o Hugh Laurie.
É. Já lá está há bastante tempo.
Exato.
A intelectualidade lusitana foi ver.
Maria, tu que já percebemos que não és...
Não, a minha escolha, eu já tinha fora disto aqui tudo. Eu gostava muito do Elba, acho que ele ia muito bem. Acho que precisamos de gente com mais maturidade. Sinceramente, para endireitar aqui as coisas.
Olha, mas a Maria tem aqui alguma razão numa coisa. É que muito se falou sobre mudar o Bond, por exemplo, ser uma mulher, ser um actor negro. Não se falou ainda de ser um senhor de idade avançada.
Como o Idris Elba.
Quantos anos é que tem o Idris Elba?
Rapaz, deve ter uns 50 e poucos.
Não tem nada.
Achas? Sim, eu acho que sim.
Não vejo.
Tem 52.
Pronto, não vejo também.
Estou aqui a ver fotos.
Mais atuais, é isso.
Não pode fazer cinco Bonds.
Acho que ia bem.
Sim, está bem, mas o Daniel Craig fez o primeiro aos 40, não é? Ou 38, 39 anos.
Por aí, sim.
E também ninguém dava nada por ele, depois afinal é ótimo.
Eu acho que a história não o vai tratar bem como Bond.
Eu também acho.
O Daniel Craig?
Não, vai. Só para terminar, estamos a ficar sem tempo. Quem é que dava um bom realizador ou realizadora, naturalmente, para o novo filme de James Bond? Pedro Boucherie Mendes.
O Nolan é o que se fala. Mas tu concordas? Concordo. Mas ia ficar talvez numa fritaria se fosse o Nolan. E? Ok, sim senhor, não estava à espera. É assim. Esperavas mais ortodoxo no campeonato Bond? Não, estavas à espera que eu dissesse Um qualquer. Era giro. O Bryan Singer? Não, esse não. Pois, não. Era giro. Daquele filme, "Os Suspeitos do Costume", que aliás vai estar no domingo no Fora de Lisboa. Muito bem. Sim. Era giro e até acho que já foi pensado na altura, esteve em cima da mesa, era o Steven Spielberg. Olha. Ok. Steven Spielberg.
Acho que estamos num ponto em que vale tudo. Se é para fazer, sinceramente.
Não, mas tenho aqui uma ideia melhor, porque eu pensei: "Não, este tipo era o indicado", e eu pensei num filme, ele só realizou três, que é o Tony Gilroy, e eu pensei no Michael Clayton. E depois fui confirmar, e ele realizou o meu Bourne preferido, que é "O Legado Bourne". Qual deles é que é? O primeiro ou o segundo? Esse é o quarto. É o quarto. Com o Jeffrey Wright. Exatamente. Que é o meu preferido. Eu gosto do terceiro. Gosto muito do terceiro. Eu gosto muito dos primeiros todos, acho que só o último é que é muito fraco. Aquilo é que é do Greengrass. O último é. É, não é? E este é do Tony Gilroy, que tem sido também argumentista, ou seja, podia juntar as duas coisas, e que domina bem aqui, quer por um lado este lado de espetáculo, quer por outro, esta capacidade de fazer argumentos inteligentes sobre esses temas empresariais e essas coisas todas. Muito bem. Acho que era uma boa escolha. Só para terminar, temos que ir embora. Maria Ramos Silva, quem é que era bom realizar o próximo?
Eu gostava muito de ter aqui uma senhora a tratar disto.
Era a Greta Gerwig. A Bigelow.
Não, gostava da Bigelow. Gostava muito de ter a Kathryn Bigelow aqui a mostrar como é que se faz.
Era uma boa escolha. Meus amigos, acabamos este programa com se calhar a melhor dica em muito tempo. Fiquem a pensar nisso. Não sei se gostei disso. Final de mais um "Pod". Vou desfazer aqui das nossas sugestões. Não, voltamos na próxima semana. Até lá.