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Foi preciso um Río(s) para atravessar o deserto de ideias (a crónica da final da Supertaça entre Sporting e Benfica)

Este artigo tem mais de 1 ano

Sporting foi ligeiramente melhor (ou menos mau) na primeira parte, Benfica soube materializar boa entrada no segundo tempo para marcar com culpas para Rui Silva e Supertaça acabou mesmo na Luz (0-1).

Richard Ríos teve uma boa estreia oficial pelo Benfica numa final decidida pelo golo de Pavlidis no início da segunda parte
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▲Richard Ríos teve uma boa estreia oficial pelo Benfica numa final decidida pelo golo de Pavlidis no início da segunda parte

Gualter Fatia

▲Richard Ríos teve uma boa estreia oficial pelo Benfica numa final decidida pelo golo de Pavlidis no início da segunda parte

Gualter Fatia

Mais de dois meses depois da final da Taça de Portugal e pouco mais de um mês após a eliminação do Benfica no Mundial de Clubes frente ao Chelsea, Sporting e Benfica tinham reencontro marcado em mais uma final. No Algarve, com muito calor, a tentar combater aquele ambiente de férias mesmo que as mesmas já tenham acabado. Com uma nuance, percetível logo no arranque deste texto: novela Viktor Gyökeres à parte, que só confirmou uma saída há muito anunciada mas atrasou a chegada de Luis Suárez, os leões partiam com essa pequena vantagem de terem oportunidade de planificar uma pré-temporada mais “normal” do que a equipa encarnada, que teve uma curta pausa após o regresso dos EUA, voltou, fez um encontro particular que visava também acelerar a integração das caras novas, ia agora ao jogo. Dúvida: seria isso uma vantagem real?

Sporting-Benfica. Borges com Fresneda e Maxi, Lage lança Barreiro (0-0, 1′)

Para Rui Borges, não. O técnico fez questão (por mais do que uma vez) de desdramatizar a saída de Viktor Gyökeres, reconhecendo que marcou uma era “no clube e no futebol português”, quis dar moral a Conrad Harder e Luis Suárez – sobretudo ao colombiano, último reforço a chegar a Alvalade tendo em conta que o esquerdino Ricardo Mangas ainda não foi apresentado – e relativizou o maior tempo de preparação para o início da época e a final da Supertaça em concreto, mesmo tendo margem para ir experimentando modelos diferentes, que não apresentaram propriamente grande evolução com o passar dos jogos apesar das vitórias com Sunderland e Villarreal, com pontos de contacto no plano ofensivo ao que existia mas com alguns comportamentos defensivos diferentes a começar pelo desenho de uma linha a quatro sem bola.

“Mercado? É tudo uma questão de adaptação. Sou o treinador mais feliz do mundo. É sempre importante a pré-época até porque durante a temporada é quase jogar, recuperar, jogar, recuperar. Perdeu-se uma referência, vamos ganhar outra, seja o Suárez ou o Harder. Há toda uma questão de tempo. Há coisas que são muito próprias deles. Tinham com o Viktor,  principalmente mais ofensivamente. Agora têm de ganhar rotinas com a malta nova e isso vai levar tempo, faz parte. Essas micro relações são de conhecimento do resto da equipa. São importantes e só o tempo as vai criar para perceber Suárez ou Harder e a influência que vão ter. Em termos táticos não mexe nada, sai um e entra outro”, apontara o técnico verde e branco.

Para Bruno Lage, talvez. Não deixando de reconhecer a qualidade do rival, que se sagrou bicampeão e ainda ganhou depois da Taça de Portugal, o líder das águias admitiu que a pré-temporada foi curta, não permitiu trabalhar tantos comportamentos coletivos como desejado também à luz da saída de jogadores como Ángel Di María ou Kökçü e da entrada de nomes de peso como Richard Rios ou Enzo Barrenechea, sendo que pelo meio ainda houve a grave lesão contraída por Bruma na Eusébio Cup, limitando ainda mais uma das posições onde estavam as maiores lacunas além do avançado que entretanto foi colmatado com Ivanovic.

Temos 14 dias de trabalho, dois jogos de treino. Temos um jogo com um adversário muito competente. É um troféu que queremos vencer. O maior adversário é o tempo ou falta dele, a falta de tempo de fazer uma pré-época ideal, mas isso não vai servir de desculpa. Estamos sempre à procura da evolução. Falamos ao longo do ano que sentimos que tínhamos que evoluir e que isso não acontecia somente com treino. Sobre a agressividade, sobre o controlo de jogo com bola. Principalmente na primeira parte com o Fenerbahçe mostrámos que podemos crescer nesse momento. Temos que receber os jogadores e ir ao encontro da melhor forma de jogar”, destacara o treinador dos encarnados, passando ao lado da ida de João Félix para o Al Nassr.

Era neste contexto que surgia o primeiro encontro oficial da temporada em termos nacionais, entre outras histórias paralelas que foram surgindo entre o comunicado do Benfica após a nomeação do Fábio Veríssimo apontando “quatro factos” para criticar a escolha ou o rebentamento do pneu do autocarro do Sporting na viagem para o Algarve na A2, que deixou alguns jogadores assustados e atrasou a chegada a estágio. De fora de campo para as quatro linhas, o futebol também chegou atrasado – de um lado e de outro. Houve entrega, houve a intensidade possível, houve demasiados passes falhados, houve vários erros individuais. O que teve o condão de mexer no jogo? O posicionamento de Richard Ríos, que quando procurou espaços centrais foi capaz de atravessar o deserto de ideias que de quando em vez se via no Algarve. O golo de Pavlidis, com culpas para Rui Silva, decidiu a décima Supertaça para um Benfica de duas caras que soube materializar o período que teve na final ao contrário do que aconteceu com o Sporting – e essa foi a outra grande diferença.

Ficha de jogo

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Sporting-Benfica, 0-1

Final da Supertaça Cândido de Oliveira

Estádio do Algarve, em Faro/Loulé

Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria)

Sporting: Rui Silva; Iván Fresneda, Diomande (Debast, 69′), Gonçalo Inácio, Maxi Araújo (Geovany Quenda, 73′); Hjulmand, Morita (Kochorashvili, 69′); Geny Catamo (Ricardo Esgaio, 85′), Francisco Trincão, Pedro Gonçalves e Conrad Harder (Luis Suárez, 69′)

Suplentes não utilizados: João Virgínia, St. Juste, João Simões e Eduardo Quaresma

Treinador: Rui Borges

Benfica: Trubin; Dedic (Tiago Gouveia, 87′), António Silva, Otamendi, Dahl; Enzo Barrenechea (Florentino Luís, 80′), Richard Ríos, Leandro Barreiro (João Veloso, 90+8′); Aursnes, Aktürkoglu (Prestianni, 80′) e Pavlidis (Henrique Araújo, 87′)

Suplentes não utilizados: Samu Soares, Rafa Obrador, Schjelderup e Gonçalo Oliveira

Treinador: Bruno Lage

Golo: Pavlidis (50′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Dedic (23′), Diomande (29′), Pedro Gonçalves (53′), Otamendi (73′), Hjulmand (81′), António Silva (90+1′), Luis Suárez (90+6′), Trubin (90+6′), João Veloso (90+9′) e Prestianni (90+9′)

O encontro começou com o Benfica a ter duas boas zonas de pressão altas que conseguiram forçar erros do Sporting na saída, numa delas com Pavlidis a fazer o apoio frontal para Aktürkoglu tentar o remate de fora da área muito por cima (4′). Os leões pareciam ansiosos na primeira fase de construção mas, na primeira vez em que conseguiram desenhar os movimentos a partir de trás capazes de jogar com os posicionamentos atrás dos encarnados, neste caso nas costas do lateral Dedic, com Harder a ganhar a profundidade na esquerdo do ataque, a cruzar rasteiro e a assistir Pedro Gonçalves na área para um golo que seria anulado por fora de jogo do avançado dinamarquês no início da jogada (6′). As cartas estavam lançadas e, para quem pudesse achar que seria normal haver mais especulação nos minutos iniciais, esse lance invalidado por apenas 28 centímetros, mostrava que as duas equipas sabiam bem como explorarem momentos frágeis do adversário.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-Benfica em vídeo]

Havia risco no jogo, havia saídas a causar calafrios nos próprios adeptos, havia momentos em que forçar o erro adversário era mais rentável do que tentar construir perante o encaixe tático que quem estava sem bola conseguia esboçar. Foi assim, por exemplo, que Pavlidis teve uma aproximação com muito perigo depois de um passe mal medido de Gonçalo Inácio mas a cruzar sem que ninguém fizesse o desvio na área (18′). Antes, Francisco Trincão tinha testado a meia distância por cima (17′). Depois, Pedro Gonçalves voltou a ter um lance de perigo num remate desviado nas pernas de um adversário que nasceu de um corte fantástico de António Silva quando Harder se preparava para ficar isolado na área (28′). O nulo mantinha-se, num jogo atípico (ou típico desta fase da temporada, como for preferível) e com os rivais ainda muito longe do patamar que irão atingir ao longo da época com mais semanas de trabalho e chegada de mais reforços.

Sem que existisse um domínio claro de nenhuma das equipas, até porque na meia hora inicial Trubin foi o único a fazer uma defesa e fácil a remate de Harder, era no meio que estava uma das “chaves” do jogo até ao intervalo: o Benfica não tinha unidades para construir por dentro perante os movimentos que os médios iam fazendo (e as diagonais que os alas não exploravam mesmo com a subida dos laterais) e também era por aí que sentia dificuldades quando o Sporting conseguia sair a partir de trás, com esses posicionamentos a terem o condão de permitir que Pedro Gonçalves e Francisco Trincão iniciassem por aí saídas rápidas que depois não se traduziam em oportunidades. De forma natural o jogo seguiu sem golos para intervalo, com Geny Catamo a ter ainda uma ameaça perigosa que nasceu de uma transição após canto… do Benfica (34′).

Ninguém mexeu ao intervalo em jogadores, o jogo também não sentiu grandes mexidas depois do intervalo. Conrad Harder, num lance que passou por Pedro Gonçalves e teve assistência de Morita, teve um remate com perigo na passada de pé direito que passou por cima (48′), Pavlidis foi bem mais eficaz no lado contrário com o primeiro remate enquadrado do Benfica a resultar no primeiro golo do jogo: jogada de envolvimento na esquerda com uma boa subida de Dahl, cruzamento rasteiro com corte incompleto a deixar a segunda bola na área e remate de pronto do grego a contar com a ajuda da má abordagem de Rui Silva para o 1-0 (50′). À semelhança do que podia ter acontecido na primeira parte, um lance mudava a final daí para a frente, deixando os encarnados bem mais confortáveis e a ficarem perto do bis com os mesmos protagonistas mas agora com o guarda-redes internacional português a levar a melhor com uma grande defesa para canto (59′).

Richard Ríos, a jogar mais por dentro onde podia fazer a diferença, estava a conseguir agarrar no jogo, Enzo Barrenechea mostrava-se muito mais em zonas mais altas do que fizera antes, o Benfica ia tomando conta do jogo. Rui Borges ainda demorou mas mexeu mesmo, fazendo entrar Debast, Kochorashvili e Luis Suárez para os lugares de Diomande, Morita e Conrad Harder para dar outra frescura à equipa no meio e procurar mais caminhos alternativos no ataque ante da presença de Geovany Quenda pela esquerda. Foi nessa fase, com o regresso a uma linha de três atrás mais declarada, que o Sporting conseguiu reagir, com Trubin a defender um remate de Trincão na área (75′) e um desvio de cabeça de Pedro Gonçalves (78′). Suárez até mostrou bons pormenores mas o resultado estava mesmo feito e seriam os encarnados a acabar o jogo em festa.

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