“Parlez-vous français?” Jodie Foster fala, e com toda a fluência, como se pode ver em Vida Privada, de Rebecca Zlotowski (Uma Rapariga Fácil, Os Filhos dos Outros). Houve quem ficasse muito admirado com o facto de Foster se expressar com tal perfeição na língua de Balzac, mas não é caso para tanto espanto. A atriz e realizadora frequentou o Liceu Francês de Los Angeles, onde aprendeu aquela língua na perfeição, e já entrou noutros filmes franceses, como Não Me Chames Miúda!, de Eric Le Hung (1977), ao lado de Jean Yanne e Bernard Giraudeau, e Um Longo Domingo de Noivado, de Jean-Pierre Jeunet (2004) — e até se dobra a si mesma nas versões francesas dos seus filmes.

[Veja o “trailer” de “Vida Privada”:]

Só é pena que a realização de Zlotowski não esteja à altura do francês falado por Foster em Vida Privada, e da sua interpretação. Ela personifica Lilian Steiner, uma psiquiatra americana divorciada que vive em Paris, e sofre um choque quando sabe que uma das suas pacientes, Paula Cohen-Solal (Virginie Efira) se suicidou de súbito. Quando vai ao velório, Lilian é confrontada com hostilidade por Simon (Mathieu Amalric), o marido da falecida, que a acusa de ser em parte responsável pela morte de Paula, com uma overdose dos anti-depressivos que ela lhe receitou. Mas pouco tempo depois, Lilian recebe a visita da filha de Paula, Valérie (Luana Bajrami), que lhe diz coisas que a deixam desconfiada. Terá ela na verdade sido assassinada?

[Veja uma entrevista com Jodie Foster e Rebecca Zlotowski:]

A psiquiatra vai então confiar-se ao seu ex-marido, Gabriel (Daniel Auteuil), um oftalmologista. E apesar do ceticismo deste, recruta-o para fazerem vigilância e aos possíveis suspeitos e seguirem-nos. Ao mesmo tempo, Lilian é processada por um antigo paciente, que reivindica o reembolso das sessões que teve com ela, alegando que não surtiram o menor efeito. E, como se isto não bastasse, o seu consultório é assaltado, e as gravações que ela faz das sessões com os pacientes aparecem remexidas. O que a leva a ficar ainda mais convencida de que Paula foi assassinada, e que o criminoso veio em busca das gravações desta, por o comprometerem.

Durante os primeiros 20 minutos, Vida Privada parece ser uma comédia policial na linha de O Misterioso Assassínio em Manhattan, de Woody Allen (1993) com Jodie Foster e Daniel Auteuil em papéis aparentados com os de Allen e Diane Keaton, e um enredo e peripécias em jeito de pastiche desta fita, mais uns pozinhos hitchcockianos. Só que o argumento dá uma guinada para o fantástico, quando a cada vez mais apoquentada Lilian vai consultar uma hipnoterapista, Jessica (Sophie Guilleman), e esta a mergulha num transe que a conduz à Paris ocupada pelos alemães da II Guerra Mundial, e ao que parece ser uma vida anterior, em que tocava numa orquestra com Paula e o seu filho Julien (Vincent Lacoste) fazia parte de uma milícia colaboracionista.

[Veja uma sequência de “Vida Privada”:]

E não só esta sequência bizarra e aparentemente importante para a intriga não vai ter seguimento relevante no seu desenrolar, como também a partir daí, e de forma desajeitada e adivinhável, RebeccaZlotowski faz o filme desdobrar-se em distrações, sob a forma de uma caça aos gambozinos e de acontecimentos à primeira vista decisivos para uma explicação final, mas na verdade dispiciendos. A realizadora conclui Vida Privada com um anti-clímax previsível, cujo único propósito é mostrar que Lilian deixa a desejar como psiquiatra, e ainda mais como detetive amadora. Se bem que seja compensada em termos sentimentais e maternais.

Vida Privada esbanja um elenco de primeira água, com a sempre irrepreensível Jodie Foster à frente (o lendário documentarista Frederick Wiseman aparece brevemente, no papel do psicanalista de Lilian), e desperdiça o tempo do espectador, que está, legitimamente, à espera de ser entretido, bem e com qualidade. Nem que Foster, além de falar francês, também tocasse piano, o filme conseguia poupar-nos a uma tal deceção.