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Esta é uma daquelas histórias onde cabem muitas outras. Entre mitos, verdades e interpretações sobre o que realmente se passou na estreia e na curta vida inicial desta icónica peça subsiste, por fim, a convicção que sem ela a dança, tal qual a conhecemos, como disciplina e expressão artística, não existia. Foi há 110 anos, mais precisamente a 29 de maio de 1913, que se estreou no Théâtre des Champs-Élysées, em Paris, “A Sagração da Primavera”, que juntou o compositor Igor Stravinsky, há época com 30 anos, e o coreógrafo Vaslav Nijinsky, de apenas 23 anos.
Tanto a partitura como a própria coreografia, desenvolvida sobre a vanguardista música, representaram uma rutura com os cânones anteriores – o que desde logo também explica muito do tumulto que provocou. A sua primeira apresentação instigou um dos maiores escândalos de que há memória na estreia de um espetáculo, o que levou a que, adorada por uns, repudiada por outros, “A Sagração da Primavera” acabasse por ser retirada do repertório dos Ballets Russes, de Sergei Diaghilev e, consequentemente, remetida ao esquecimento.
Entre a história da sua estreia e da sua curta vida, nas primeiras décadas do século passado, junta-se uma outra história, mais recente e, por sinal, bem mais feliz. Durante anos considerada como uma peça perdida, “A Sagração da Primavera” foi remontada e reposta na sua magnitude – tudo graças ao trabalho desenvolvido (e constantemente atualizado) pela coreógrafa e investigadora Millicent Hodson e o designer e historiador de arte Kenneth Archer. Juntos (também como casal) formam uma dupla, baseada em Londres, que ao longo de quatro décadas tem trabalhado na reconstrução de peças de ballet que se julgavam perdidas no tempo. É graças a eles que a Companhia Nacional de Bailado regressa a partir de 29 de abril à “A Sagração da Primavera”, com um programa intitulado “Noite Stravinsky”, que conta ainda com a estreia de duas obras do coreógrafo italiano Mauro Bigonzetti: “As Bodas” e “Intermezzo”.
▲ A reconstrução arqueológica da peça tornou-se um marco, mesmo para os criadores contemporâneos que foram reinterpretando aquela composição
HUGO DAVID
Mas como é que se revisita, mais de um século depois, aquela que é, porventura, a mais polémica estreia da história da dança? Como é que, 110 anos depois, se olha para uma coreografia sobre a qual recai uma aura mítica, confrontada anos depois por versões igualmente marcantes como a de Maurice Béjart (1959), Pina Bausch (1978) ou Martha Graham (1984)? Há muitas formas de olhar para estas questões, dizem Millicent Hodson e Kenneth Archer ao Observador. Eles próprios já tinham feito a reconstituição em Portugal, nos anos de 1994, 2006 e 2018, mas o trabalho não termina por aí.
Trata-se de um processo de reconstrução contínuo, a partir de uma coreografia “de coletivo, que não tem forma de ser feita na individualidade” e que não se esgota no encantamento que continua a provocar. Mais do que isso, explicam, é a forma de reporem um olhar sobre o papel essencial de Nijinsky na história da dança, da companhia Ballet Russes, que colocou o modernismo do avesso, mas também de Stravinsky, que compôs afinal uma partitura que ainda hoje suscita surpresa e espanto. O modernismo, apontam muitos críticos, começou verdadeiramente naquele dia.
Um ritual perdido
Regressemos a Paris. Mesmo com alguns membros da plateia bem informados sobre o que iria acontecer, ninguém esperava o que realmente se iria vivenciar. O público, cativado pela presença da famosa companhia, da responsabilidade do célebre empresário russo Sergei Diaghilev, enchia a sala deste recém novo teatro luxuoso da capital francesa. Precedida pelo ballet suave “Les Sylphides”, inspirada na música de Chopin, “A Sagração da Primavera” foi apupada desde os primeiros momentos, a começar logo pela partitura de Stravinsky, marcada pelas suas famosas dissonâncias. O próprio compositor diria mais tarde que o único presente na sala a perceber o que aquela música representava foi Maurice Ravel – já outros relatos dizem que Camille Saint-Saëns terá mesmo saído da sala furioso ainda antes do fim.
A confusão tomou conta do acontecimento: as discussões violentas e apupos perante o que se via em palco ultrapassavam em larga escala tumultos ocorridos anos antes, também em Paris, nas estreia de “Hernani”, de Victor Hugo, em 1830, e na estreia de “Tannhäuser”, de Richard Wagner, em 1861. Revolucionária, a peça dos Ballet Russes provocou gritos, chegou a ser interrompida, mas seguiu caminho até ao desfecho, para se eternizar como momento histórico, numa cidade também ela impactada pelos dias tumultuosos que se viviam à época.
Todos os elementos se pareciam conjugar. A polémica que o empresário russo quis provocar, os cânones estéticos subvertidos e a própria coreografia original de Nijinsky, que ofendia até os bailarinos, ao enfatizar movimentos staccato de terra com os pés voltados para dentro, após os saltos. A conceção de cenografia e os figurinos de Nicholas Roerich foram outro dos fatores a ter em conta, uma vez que nestes estavam plasmados ritos históricos baseados no paganismo russo. É afinal de um ritual de passagem que se fala em termos narrativos: estamos numa espécie de ambiente festivo de boas-vindas à Primavera, mas o que começa com a celebração da vida termina com o sacrifício de uma jovem.
Há mistério e um poder criativo que surge com a nova estação do ano, uma procissão e um confronto entre sexos, gerações e grupos rivais que se adensa. Mas é a música de Stravinsky que vai contribuir para o cunho mais radical da peça. Apesar das afinidades com “O Pássaro de Fogo” e “Petrushka”, há algo de novo na composição de “A Sagração da Primavera”, como o próprio escreveu: “Não faço aqui apelo ao espírito do conto de fadas nem à dor e à alegria humanas, esforcei-me por representar uma abstração mais vasta”. Para o caso, deve dizer que o sacrifício humano nunca deveu às convenções burguesas do bom gosto e a prova ficou à vista de todos
▲ coreógrafa e investigadora Millicent Hodson e o designer e historiador de arte Kenneth Archer. Ao longo de quatro décadas tem trabalhado bailados que se julgavam perdidas
HUGO DAVID
Quanto ao ballet, seguiram-se mais seis apresentações, em Paris e Londres. Mas a verdade é que os Ballet Russes nunca mais foram os mesmos depois de experiência – nem na sua passagem por Portugal que tanto marcou o modernista Almada Negreiros. A juntar a isso o afastamento Vaslav Nijinski, com quem Diaghilev tinha mantido uma relação amorosa, levou ao fim de uma época que parecia dourada e interminável naqueles anos. Sem imagens filmadas, e com apenas poucas fotos e relatos dispersos, o ritual acabou mesmo por se perder, até 1987, quando o Joffrey Ballet, de Los Angeles, fez uma apresentação da reconstrução, graças ao trabalho de Millicent.
Uma reconstituição arqueológica
Entre esboços, algumas fotografias e vários livros estão anos e anos de trabalho de Millicent Hodson. No final da década de 1960, a jovem estudante norte-americana da Universidade da Califórnia em Berkeley começava um caminho de redescoberta face ao que realmente tinha acontecido à coreografia de Nijinsky. Do outro lado, do Atlântico, o britânico Kenneth Archer estava interessado em saber mais sobre o trabalho do artista e pintor Nicholas Roerich. Foi numa visita de Millicent ao Reino Unido que se conheceram: “Assim que entrou na sala, sabia que seria o amor da minha vida”, conta. Certo é que não mais pararam de trabalhar em conjunto. Escreveram livros, deram conferências um pouco por todo o mundo e ajudaram a recriar peças icónicas do repertório clássico. “A Sagração da Primavera é como o nosso primeiro filho”, explica Kenneth.
Um dos grandes instigadores foi, precisamente, Robert Joffrey, coreógrafo e cofundador do Joffrey Ballet. “Quando ele soube que estava a desenvolver este trabalho de pesquisa, disse-me ‘não pares e quando achares que tem algo significativo diz-me primeiro’”, relata Millicent. Foi assim que se a peça voltou aos palcos, mas o trabalho estava ainda no início. “Só existiam três fotografias da estreia. Havia os fatos, desenhos feitos por pessoas na plateia, entre eles pintores e jornalistas e os relatos críticos que foram parar aos jornais”, explicam. Um dos mais notáveis testemunhos é o do escritor e crítico Jacques Rivière, na Nouvelle Revue Française, onde escreveu que “a grande novidade era a recusa do supérfluo”. “Eis aqui uma obra absolutamente pura. Tudo aqui é franco, intacto, límpido e rude. ‘A Sagração da Primavera’ é a primeira obra-prima que podemos opor às do impressionismo”. Para Millicent e Kenneth, todos estes vestígios constituíram-se como pistas determinantes.
“Primeiro tivemos de desconstruir… na partitura havia pequenos apontamentos de Stravinsky, mas foi sobretudo a cooperação da bailarina Marie Rambert, que ajudou Nijinjsy na coreografia, que se tornou vital. Foi o meu cálice sagrado”, sustenta a coreógrafa de 78 anos. “Foi a partir do que ela me disse que foi possível reconstituir os movimentos, ter as medições de palco e perceber como se desenrolava em conjugação com a música.” A reconstrução arqueológica que foram fazendo tornou-se um marco, mesmo para os criadores contemporâneos que foram reinterpretando aquela composição. “E nunca a fizemos para que se tornasse bonita, fizemo-la para que se tornasse icónica”, defende Millicent Hodson ao Observador.
Um legado transformador
Em conversa com o Observador os dois criadores debatem, a certa altura, a própria forma de traduzir o nome da peça em diferentes línguas. Em português, “sagração”, algo bastante mais correto do que o termo em inglês “rite” (‘ritual’). “Como vemos, ainda hoje há muitas questões com que nos deparamos e que, mesmo subtilmente, podem mudar a nossa perceção da peça e da sua partitura. Muito mais haveria também para dizer sobre o percurso de Nijinsky ou de Stravinsky, sintetiza Kenneth Archer. “Muitas vezes acedemos ao passado porque vemos objetos expostos num museu. Mas a verdade é que neste caso estamos a lidar com um acontecimento vívido, com biografias e uma música que está eternizada no tempo. Se estivéssemos a pegar agora nestes elementos o resultado também teria as suas diferenças”, explica o historiador e designer.
▲ Diz Millicent Hodson. “Trata-se de um ritual de passagem, semelhante aos mesmos rituais de passagem que vamos enfrentando ao longo da vida"
HUGO DAVID
Mantém um legado transformador, acredita a dupla. Mas pode perder a sua força? Já não causa, certamente, tanta impressão aos corpos de baile das diversas companhias; já não é uma partitura tão desafiante para as orquestras e mesmo a pop culture já fez questão de lhe atribuir um certo lado kitsch, com passagens que se tornaram orelhudas e facilmente reconhecíveis por todos. “A diferença é que não se trata de uma história que se conta e em que se coloca um ponto final”, diz Millicent Hodson. “Trata-se de um ritual de passagem, semelhante aos mesmos rituais de passagem que vamos enfrentando ao longo da vida – mesmo para os bailarinos que interpretam há um antes e depois de fazerem esta peça.”
Estão lá os diversos elementos que dão significado à vida humana: do desespero à alegria e, principalmente, um carácter disruptivo, vanguardista e cativante. “Até mesmo Nijinsky chegou a dizer a Stravinsky que não era exatamente assim que previa ser a peça e o seu movimento. Ele dizia que, por mais vezes que fosse dançada, mais se afastaria do que ele tinha realmente em mente”, sublinha. É um ritual sempre em mudança, que Millicent e Kenneth abraçaram de forma singular. Relembram as palavras de Robert Joffrey, da primeira vez que chegou ao palco: “Disse-nos: ‘pensam que agora chega ao palco e o vosso trabalho terminou? Estão muito enganados.’ Tinha razão! Quase 40 anos depois, continuamos a olhar com o mesmo entusiasmo para este objeto”, salienta Kenneth Archer.