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João Frizza, responsável pela dramaturgia e direcção de figurinos de "Fátima", o objectivo foi representar a verdade de crentes e não crentes, sem se referir à fé das pessoas
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▲João Frizza, responsável pela dramaturgia e direcção de figurinos de "Fátima", o objectivo foi representar a verdade de crentes e não crentes, sem se referir à fé das pessoas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲João Frizza, responsável pela dramaturgia e direcção de figurinos de "Fátima", o objectivo foi representar a verdade de crentes e não crentes, sem se referir à fé das pessoas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

"Avé La Féria": a aparição de Fátima numa noite de ópera rock no Politeama

Está em cena há um mês na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa. É a mais recente produção do "senhor musical português". Estivemos dos dois lados do palco e procurámos os dois lados da fé.

Uma hora e meia antes do início do espectáculo, entro pela porta de artistas do Politeama em busca do João Frizza (Bazófia), responsável pela dramaturgia e direcção de figurinos de Fátima, a ópera-rock que Filipe La Féria estreou há um mês e que se prepara para uma longa temporada na rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa.

Sentamo-nos num sofá junto ao bar, ainda deserto, e o João conta-me como aquele novo projeto começou a ser concebido há já mais de um ano, explicando que desde o princípio o objectivo foi representar a verdade de crentes e não crentes, sem se referir à fé das pessoas. Pergunto-lhe se nunca se sentiu limitado na construção da peça, tendo tão presente que a sua criatividade jamais saltaria sobre as baias. Mas o João explica-me que o processo é muito natural e fala-me de uma liberdade independente das imposições. O teatro é, aliás, uma criação cooperativa, pelo que ajustes às sensibilidades dos outros surgem a cada passo, percebo agora.

Quero saber mais sobre o desafio das grandes temporadas, que, vistas de fora, parecem exigir dos actores uma resiliência incomum. Ele diz então que o trabalho criativo apenas se desloca. Não tem de se transformar bruscamente numa personagem, mas de viver com ela um ano inteiro, acrescentando-lhe aqui uma ruga, ali um rancor, além um fascínio, o que faz, segundo ele, com que nas grandes temporadas a qualidade vá sempre crescendo, apesar da aparente monotonia. Para isso, ensaiam constantemente, esforçando-se para limpar uma cena como quem limpa um cenário que a passagem do tempo vai acumulando de pó. Se o actor num dia não for à luz e ninguém o corrigir, dali a dois meses falará do fundo do palco sem que ninguém o veja.

▲ Paula Sá e Filipe La Féria nos bastidores, antes do início do espectáculo na sala do Politeama, ainda com tempo e espaço para os autógrafos e as fotografias

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Antes de nos despedirmos, fala-me da procissão com que o espectáculo termina e diz que, no mês e meio que têm de cena, já aconteceu as pessoas levantarem-se à sua passagem, rezarem para dentro ou cantarem o Avé Maria, como se se vissem transportadas para a Capelinha das Aparições.

Dali regresso aos bastidores para conhecer a Paula Sá (Maria Rosa, a mãe de Lúcia). Mal entro no camarim, a Paula insiste para que me sente na única cadeira disponível, enquanto se empoleira na mesa e me fala do passado. De como trabalhou pela primeira vez com o La Féria quando tinha catorze anos, no Todos ao Palco, das muitas revistas que protagonizou, dos coros em que cantou, das peças clássicas em que participou, do seu segundo lugar na Chuva de Estrelas e do protagonismo que os Xanadu lhe emprestaram. Mas não traz melancolia na voz. Diz que durante algum tempo teve um sucesso para o qual não se preparara, que ainda não merecera e que isso a deslumbrara, até perceber a superficialidade do mundo em que então vivia. Pergunto-lhe que remédio para a superficialidade encontrou no Politeama e a Paula diz-me que aprendeu a beleza de não ser protagonista, de fazer brilhar os colegas, o dramaturgo e o espectáculo. Nunca ela. Aprendeu a caminhar pela sombra todos os dias e, como diz, a abrir o coração para o novo. A sentar os outros na sua cadeira, tendo gosto em ficar ela de pé.

Falamos então sobre a Maria das Dores, que descreve como uma mulher triste e amargurada, mudando logo de assunto para a peça, como se também naquela conversa não quisesse ser protagonista. Diz que há agora uma aura mística, não terrena, no Politeama e que aquilo que mais admira na história dos pastorinhos é a forma como conseguiram arrastar repetidamente uma multidão até à azinheira. Aí percebo o paralelo que parece sugerir entre Fátima, o fenómeno religioso, e Fátima, a ópera-rock. Tal como os actores, os pastorinhos repetem diariamente uma longa prece na esperança de que o milagre aconteça. Tal como os pastorinhos, os actores esforçam-se por convencer a multidão a regressar.

▲ Filipe La Féria conta-nos que queria fazer este espectáculo há muitos anos e que o encara como homenagem à mãe de Lúcia

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Dali sigo para o escritório de Filipe La Féria, justamente colocado sobre o palco, ainda que, claro, sem vista para lá. Quando lhe pergunto os motivos para o interesse por Fátima, fala-me da sua família, metade católica e metade maçónica, e do contexto histórico que parece fasciná-lo. Depois, explica que o teatro é um fio muito débil e que toda a arte é interrogativa, querendo apenas que cada espectador do Politeama regresse a casa com uma manchinha de dúvida, dúvida essa que parece carregar subconscientemente num discurso polvilhado de “Não é?”.

Conta que queria fazer este espectáculo há muitos anos e que o encara como homenagem à mãe de Lúcia. Respondo-lhe então que, do pouco que conheço dos seus musicais, parece haver quatro categorias fortes, sendo que três delas confluem nesta peça: as mulheres (Amália, Maria Callas, Laura), a portugalidade (Passa por mim no Rossio, República das Bananas, Grande Revista à Portuguesa), a Broadway (My Fair Lady, Jesus Christ Superstar, West Side Story) e as histórias de infância (Rapunzel, A Bela e o Monstro, A Pequena Sereia). Ri-se e fala-me do seu fascínio pelas mulheres, que considera mais profundas e misteriosas do que os homens. Tento saber se esse fascínio virá da tal interrogação acerca do que desconhecemos, mas a conversa desvia-se para o interesse de La Féria por Shakespeare, que, segundo o director do Politeama, tão bem revelava a podridão escondida sob as coroas. A conversa acaba e tiramos fotografias no escritório e no palco, onde o seu lado teatral se revela mais do que até aí, ao voltar o olhar para cima, perguntando, tanto quanto eu visse, a interlocutor nenhum: “Está aí em cima alguém?” Não vejo ninguém, mas uma luz acende-se sobre La Féria, que sorri.

▲ O espectáculo onde as estrelas são lágrimas dos anjos e o olhar das crianças atravessa o invisível dura duas horas e meia, devidamente resumidas por legendas em inglês e espanhol

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Lá fora, a fila aumenta cada vez mais e Lá Féria vai então receber o público, um ritual que se repete todas as noites. Leva uma caneta de tinta dourada na mão, oferece-nos um programa autografado e refugia-se atrás de uma banquinha, onde, tal como em Fátima, se vendem canecas, T-shirts, porta-chaves e cantis, alusivos ao Evangelho de Nossa Senhora Segundo Filipe. Ali ao lado, sorteiam-se numa tômbola viagens ao Vaticano em regime de meia-pensão.

As pessoas, muito maioritariamente seniores, sorriem-lhe como se reencontrassem um amigo, que lhes vai vendendo autógrafos. As mulheres vêm arranjadíssimas como quem chega a uma festa e algumas delas anunciam que esta será a segunda volta. Um rapaz de fato e T-shirt preta, com um pin d’A Bela e o Monstro, entoa espaçadamente, numa voz bem colocada: “Leve o seu programa autografado por Filipe La Féria; A história de Fátima como nunca foi contada”, enquanto La Féria me conta que, há uns anos, um senhor gostou tanto do espectáculo que o parou ao pé do Coliseu e lhe ofereceu vinte euros. “Eu aceitei, claro”, remata a sorrir.

Uma octogenária de vison até aos pés pergunta a um jovem que idade lhe dá e fala ao encenador das muitas saudades que sente dele, tentando marcar um café, a que La Féria parece querer esquivar-se. Acaba por sair dali levando debaixo do braço um programa autografado por Filipe La Féria sobre a história de Fátima como nunca foi contada.

Entra um padre, depois os reis de Portugal e dos Algarves, Dona Isabel de Herédia e Dom Duarte Pio de Bragança, e, por fim, o bispo de Setúbal, devidamente paramentado. Cumprimentam o encenador e seguem para a plateia, misturando-se com o povo. No final, hão de surgir novamente perante todos, não em formato de aparição, mas para cumprimentar o elenco.

▲ Até o pessoal de sala solta convictos "Bravos", nas raras vezes em que não é um membro do público a fazê-lo

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Está quase a começar esse espectáculo onde as estrelas são lágrimas dos anjos e o olhar das crianças atravessa o invisível, que durará duas horas e meia, devidamente resumidas por legendas em inglês e espanhol, onde se anuncia logo a abrir que “The administrator is considered the villain of the story”. Mas este artigo não é sobre isso. Quando muito, será sobre o momento em que “el pueblo incrédulo empieza a creer”. Ou sobre o intervalo onde, junto ao bar, um intrépido plebeu, de barba branca à ZZ Top e óculos quadrados de lentes vermelhas, oferece uma queijada de Sintra ao rei. Ou sobre a forma como, para que o sol nunca deixe de dançar, até o pessoal de sala solta convictos “Bravos”, nas raras vezes em que não é um membro do público a fazê-lo. Ou sobre como, em cada aparição, Lúcia vê, ouve e fala com Nossa Senhora, Jacinta vê e ouve, Francisco só ouve e nós, o público, só ouvimos, tornando-nos assim nos quartos pastorinhos sem disso nos apercebermos.

A peça acaba e, à boca de cena, João Frizza agradece ao público, em especial às excursões vindas de tão longe e às muito aplaudidas pessoas da nossa praça que ali estavam, para que todos regressem a casa convictos de que viveram uma noite especial em que de novo o milagre se repetiu.

No fim, com a sala já vazia, atrás do palco, os pastorinhos e o restante elenco são cumprimentados pelo bispo e, num gesto final de resistência à maçónica Primeira República, houve beija-mão real nesse salão dourado de ambiente nobre e sério.

Só faltou cantar-se o fado.

“Passeio das Virtudes” é uma rubrica sobre vidas portuguesas e portugueses nas suas vidas.

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