Desde o princípio dos tempos, antes do nosso tempo mundano, anjos transformaram-se em demónios, como mais tarde, já num plano preternatural terrestre, Adão e Eva tomariam a opção rebelde. O livre-arbítrio é condição necessária para entendermos o Homem, apesar de jamais se apresentar como condição suficiente para o Bem. Como reforçaram Foucault, Bataille e Sade, a originalidade e a criatividade, áreas de alternativas por excelência, têm uma ligação com o Mal, condenando o artista a uma estranha, mas indesmentível, perversidade. Reprodutores do pecado original no seu ato criativo, repetem os gestos definidores da essência da Humanidade (o que terá levado, eras mais tarde, um pintor a intitular uma obra Ceci n’est pas une pomme). Tal como Adão e Eva, ao apropriar-se de algo divino, o génio é um transgressor: através da sua criação, essa ínfima linha fronteiriça entre a genialidade e a loucura, essa nebulosidade que Nietzsche também atribui aos filósofos, marca inescapável do visionário e do louco, o artista faz o papel de Deus.

Espelhando esta realidade, a própria arte foge de si mesma, sucedendo ao longo da modernidade essas vanguardas na perseguição de um fazer e de uma conceção alijados de qualquer produção em massa, como que procurando uma maldição pura, ou seja, estranha a qualquer indústria, por definição, desalmada. Warhol e a Pop Art, ao arrancarem as vestes virginais, encarregar-se-iam de fechar o círculo, fazendo do artista definitivamente e assumidamente um produtor (e por vezes recolector) e um artífice, com uma téchne mal definida, retornando ao espírito da antiguidade clássica. A ágora renascia na fábrica.

Nesse sentido, podemos, a posteriori, anunciar o último estádio do artista: o visionário empresarial, criador da start-up e do unicórnio, o revolucionário tranquilo, o inocente pagão que transforma, melhorando-o, o mundo profano. A maldade, tal como as categorias de oposição Belo e Grotesco, é descartada da equação: na época da liquidez e do investimento e do lucro (ou do algoritmo, vide Tecnofeudalismo de Varoufakis) opera-se a inversão de Oscar Wilde – na exposição artística, o ideal é haver tanta gente que deixe de ser possível observar as obras.

Jeff Koons e Damien Hirst, por exemplo, desmentem a velha e cansada tese da morte da arte. O conceito vai-se modificando e os novos multimilionários, entre outros, Musk e Bezos, indivíduos com visão, autênticos génios e detentores de uma criatividade ímpar, moldaram e moldarão cada vez mais o nosso mundo, influenciaram e influenciarão decididamente a nossa forma de viver, impondo uma novel forma de o encarar (ao conceito). Aí, a conceção romântica de uma arte desinteressada e que não tem utilidade é chão que deu uvas.

O capitalismo é o único modo de produção que incentiva a criatividade e a criação. A Space X e a Tesla e a X são frutos da economia de mercado. Além disso, é o único sistema económico que permite a todos, cada um à sua maneira – a cada um conforme as suas necessidades –, potenciar as suas qualidades e gozar os produtos (obras) de outrem – a preços cada vez mais convidativos.