No início do séc. XIX, reinava em França Luís XVIII, irmão do XVI, que foi guilhotinado, e tio do XVII que morreu criança na prisão do Templo, e cujos políticos da altura tendiam a querer ver como representante e executor de um Ancien Régime continuado, mas céptico por tudo o que tinha visto e vivido (um pouco à imagem do nosso D. João VI de que foi contemporâneo), perguntaram-lhe se não se opunha à transladação para o Panteon National, na altura igreja, do Filósofo Voltaire que, considerado um livre-pensador, pelo seu pensamento e escritos se tornara num dos anátemas do Cristianismo. Luís XVIII parece que sorriu e disse: “Ponham-no lá. É da maneira que ouve duas missas por dia…”
Pensei nesta graça ao ver esta transladação de plástico (O’Neil onde andas…) do nosso grande Eça para um Panteon, edifício que sempre foi um acto falhado desde a sua construção.
Como Igreja ficou inacabada durante séculos. Como acto político Marcello Caetano ordenou a sua conclusão, com a justificação de que se deveria ter um Panteon e ficticiamente se instalaram lá arcas tumulares com nomes da nossa História, enquanto se mantinham os restos mortais noutros lados.
Foi um tempo em que se encarava essas coisas, para o bem e para o mal, com outra autoridade e outra dimensão.
O que se ganhou com este passeio dos restos mortais do Eça?
Passou a ser mais respeitado? Não me parece. O respeito que lhe devemos está no que escreveu e como nos retratou e influenciou.
O País entendeu necessária a trasladação? Na prática passou ao lado de quase todos os portugueses e ainda por cima foi motivo de guerra na família.
Nos tempos que correm a memória é muito importante. Mas ter-se-ia ganho mais em, numa parede do Panteon, escrever apenas o nome de José Maria Eça de Queiroz, dizer que estaria sepultado em Baião, e que nós portugueses não seríamos o que somos sem ele.
O espectáculo oitocentista que foi encenado, sem brilho nem graça (é preciso ter o dom do teatro dos ingleses para o fazer bem feito) seria evitado, e não nos lembraríamos menos dele por isso.
A gente que se lembra destas cerimónias quer andar a cavalo na glória de outros, mas segundo parece até um cavalo escorregou e caiu…