Em Lisboa, existe uma casa cujas portas são borboletas. Por trás do tic-tac dos dedos anónimos nos escritórios do Saldanha, esconde-se a primeira casa-atelier do país. Encomendada por José Malhoa, que não é o mesmo autor de “Baile de Verão”, numa altura em que os artistas ainda viviam confortavelmente, serviu de lar e oficina ao pintor, até mergulhar numa depressão.
Nos anos 30, quando é adquirida por Anastácio Gonçalves, médico-oftalmologista, que gostava mais de porcelanas do que de dioptrias, a casa transforma-se numa colecção viva. São mais de duas mil obras de arte reunidas, que vão de uma paixão obsessiva por Silva Porto ao fascínio por louças orientais.
A pergunta impõe-se: quem foi Anastácio Gonçalves? No único parágrafo que lhe dedicam os panfletos da entrada, ficamos a saber que morreu na URSS, depois de uma visita ao Museu Hermitage. Sentiu-se de tal maneira em êxtase que o seu coração parou, subitamente, nessa noite. Morreu feliz.
Era um ateu que coleccionava arte religiosa, tinha olhos azuis da cor dos azulejos, e certa vez comprou uma quinta em Santarém para ficar apenas com duas jarras chinesas – era a condição do seu proprietário.
O propósito de Anastácio Gonçalves quando ofereceu ao Estado a sua casa e mais de trinta anos de coleccionismo ficou bem claro, convidar desconhecidos a visitá-la e aproximá-los do seu legado.
A prática de partilhar um espólio privado de objectos íntimos, sentimentais e de valor artístico é bizarra em Portugal. Mais fácil seria vender tudo num leilão da Cabral Moncada e comprar, com a receita, um T5 na Avenida da República. Por isso, o meu entusiasmo era gritante, mas não ao ponto de morrer ali.
No entanto, a Casa-Museu que contém o maior conjunto de obras de pintores naturalistas portugueses, vários quadros da Escola Francesa, um impressionante acervo de porcelanas Song, Ming e Qing, e outras tantas dinastias de armários, falha no seu único objectivo.
Num dos corredores encontramos uma pintura de uma floresta de araras, com fruta madura e odorosa no chão, um deus mulato e peixes com feições humanas. As paredes estão despidas, sem qualquer identificação, à espera que o visitante adivinhe o que tem à frente. Questionei um dos assistentes de sala sobre a autoria do quadro. «Ah, isso é um Brueghel.»
Brueghel, o Velho: pintor de origem holandesa que marcou o Renascimento europeu pela audácia e pelo imaginário das suas composições. Actualmente, existem pouco mais de quarenta quadros em todo o mundo, muitos deles com quase quinhentos anos, o que talvez justifique a impressão de uma modesta tira de papel identificadora para os transeuntes mais distraídos.
O visitante agradece.
Deixo aqui o meu contributo para uma eventual legenda. Mas engana-se o leitor que pensa que é um caso único. Por todo o museu faltam folhas de sala, legendas, guias e roteiros.
Nem sequer encontramos uma nota biográfica sobre Anastácio Gonçalves (a não ser aquele parágrafo microscópico no panfleto) ou sobre a passagem fundamental de José Malhoa, o pintor, sempre o pintor, por esta Casa.
Quase nada está identificado, o que faz com que a maioria das peças sejam só acessíveis a sábios da porcelana, carpinteiros e estudantes de Belas-Artes.
Vi-me obrigado, em pleno Museu, a consultar a Wikipédia (visto que não faço parte de nenhum dos grupos anteriores) para investigar rapidamente sobre as quatro paredes onde me encontrava, tal era a escassez de informação.
A iluminação nalgumas salas, apesar de ser compreensível por motivos de conservação, é adequada para os tempos que antecedem a luz elétrica. Paredes com brechas e buracos, tinta em falta nos corredores, janelas com vitrais a derreterem ao Sol.
Apesar de conhecer o estado actual de muitos museus e o fraco investimento na sua conservação, sinto que a Casa-Museu Anastácio Gonçalves é um fracasso quanto ao objectivo do seu fundador, democratizar a arte.
Somos obrigados a vasculhar assinaturas nas telas em busca de respostas, e quando encontramos o nome Columbano ficamos espantados por não existir qualquer explicação. É como andar às cegas num bordel, onde pagámos para entrar.
Ao falar com os funcionários, verificamos que existe uma política da Direcção em “conservar a casa como uma casa, excluindo legendas e excesso de informação museológica”. Os responsáveis escondem-se por trás desta corrente medíocre para ocultar o que me parece ser o problema desta colecção, uma Casa-Museu preguiçosa.
Não queremos uma Casa em que cada peça está etiquetada, como na IKEA, mas ao mesmo tempo não podemos fingir que um armário holandês do século XVII merece a mesma atenção que um móvel HEMNES da última colecção sueca.
Não é uma simples linha, parágrafo, ou enquadramento histórico (pelo menos nas peças de maior relevância, que são várias) que vai desvirtuar a Casa-Museu, mesmo no centro da cidade, em decadência, e com um potencial por explorar.
Num museu em que o Prémio Valmor é sinónimo de janelas que se desfazem e a casa de banho do fundador tem mais letreiros que as suas pinturas, podemos falar numa Casa-Museu da Preguiça.