O ritual repete-se há dez anos. Numa segunda-feira algures no início de novembro, um irlandês sobe ao palco da Meo Arena, em Lisboa, para inaugurar a maior conferência de tecnologia da Europa. A tradição vai voltar a cumprir-se já no dia 9, quando Paddy Cosgrave der as boas-vindas à Web Summit e às centenas de oradores e milhares de participantes que vão passar pelo Parque das Nações até quinta-feira. Mas essa parece ser das poucas tradições que ainda restam na cimeira tecnológica.
Sem grandes trunfos na manga nem cabeças de cartaz sonantes, os holofotes da conferência que ficará em Lisboa pelo menos até 2028 viram-se este ano para a China, a inteligência artificial (IA) e os robôs humanóides. A organização avança que os bilhetes estão esgotados. O preço do último lote, disponível até ao final desta semana, rondava os 1.600 euros. Mas passada uma década, a Web Summit ainda é o que era?
A política na mesa do fundo
Abrir a lista de oradores da Web Summit deste ano é uma experiência diferente da de outras edições. O evento que já trouxe a Lisboa figuras como Al Gore, Tony Blair, Tim Berners-Lee e, à distância, Stephen Hawking e Edward Snowden, e que convida como chamarizes figuras do desporto ou do espetáculo, optou, em 2026, por seguir outro caminho. Entre os 10 primeiros oradores destacados, oito são chineses e dois são robôs, também vindos da China. “Quem compreender o rumo que a tecnologia está a tomar, vai compreender porque é que o painel de oradores da Web Summit não tem paralelo no mundo ocidental”, escreveu há dias Paddy Cosgrave, o CEO da Web Summit, no X.
▲ Os oradores mais destacados pela organização da Web Summit.
A admiração de Cosgrave pela supremacia tecnológica chinesa está espelhada no programa dos quatro dias da Web Summit. Desde logo na cerimónia de abertura. A inauguração vai contar com Deli Zhao, fundador e presidente da Xpeng Aridge, a divisão de carros voadores da Xpeng, Yuli Zhao, da startup chinesa de robôs humanóides Galbot, e William Shi, presidente para a Europa e Américas da AgiBot, a maior fabricante mundial de robôs humanóides. Os próprios robôs também vão subir ao palco. A abertura terá ainda Tao Zhang, o cofundador da Manus AI, startup chinesa de agentes de IA.
Ao longo dos quatro dias não vão faltar painéis dedicados à tecnologia chinesa, sejam sobre carros voadores, os próximos “biliões” de trabalhadores robôs ou “a nova era do Made in China“. Segundo Paddy Cosgrave, “mais de 50 das empresas mais disruptivas da China” vão ter a palavra na cimeira.
De acordo com as informações disponíveis até à hora de publicação deste artigo, a noite de abertura da Web Summit contará também com Matthew Prince, cofundador e CEO da Cloudflare, com Anton Osika, CEO da Lovable, que já esteve na abertura do ano passado, e Richard Socher, CEO da Recursive, uma startup de IA autoaperfeiçoável. Isto além do próprio Paddy Cosgrave. No programa oficial não constam mais nomes, mas a agenda do ministro da Reforma do Estado indica que Gonçalo Matias estará esta segunda-feira na abertura oficial da Web Summit, e o Observador confirmou que discursará.
Habitualmente recheada de ministros, a Web Summit conta, para já, com dois. O ministro das Finanças, Miranda Sarmento, falará no terceiro dia do evento sobre “a história de sucesso da economia portuguesa”. Já Gonçalo Matias regressará na terça-feira para falar num painel sobre “a transformação do setor público na Europa”. O Governo será ainda representado por três secretários de Estado: João Rui Ferreira, da Economia, Bernardo Correia, da Digitalização, e Paulo Magro da Luz, da Simplificação. E se Marcelo Rebelo de Sousa era presença certa na conferência, não há indicação de que o Presidente da República António José Seguro vá passar pelo Parque das Nações.
A política sempre foi um dos pratos fortes da Web Summit. O próprio Paddy Cosgrave chegou a afirmar que a conferência não foge aos “temas difíceis”. Basta lembrar o destaque que a cimeira deu, em 2022, à invasão russa da Ucrânia, com a primeira-dama Olena Zelenska a abrir. Ou em anos anteriores o foco no Brexit, nas guerras comerciais, nas eleições nos EUA ou em ‘denunciantes’ de grandes tecnológicas como o Facebook. Ainda em 2023, a cimeira ficou marcada pela demissão de Paddy Cosgrave, na sequência de comentários que o CEO da Web Summit fez sobre o conflito entre Israel e o Hamas.
Se é verdade que em 2026 a política tem um palco só para ela (Policy Summit) num dos últimos pavilhões da FIL, também é visível que alguns dos grandes temas de política internacional foram arredados para as laterais do evento. Ainda esta sexta-feira Paddy Cosgrave escreveu, no X, que “o grande tema da Web Summit este ano é a ascensão dos modelos chineses de código aberto e a crescente probabilidade de as empresas ocidentais de IA se tornarem ultrapassadas”. Ou não fosse uma conferência de tecnologia.
The big theme at Web Summit this year is the rise of Chinese open source models, and the increasing likelihood western AI companies are yesterday’s news.
Too many tech conferences in Europe and the US are suiciding themselves by platforming yesterday’s news.
Europe’s tech… pic.twitter.com/HiuZR6AM3Z
— Paddy Cosgrave (@paddycosgrave) November 6, 2026
Os temas mais ‘quentes’ estarão no palco Policy Summit, onde será discutido, por exemplo, o novo panorama político nos EUA depois das intercalares, com um antigo conselheiro de Donald Trump; o que está a tecnologia a fazer pela Palestina; a “história judaica do antissionismo”; o que virá depois da guerra com o Irão; a geopolítica da IA ou as “interferências eleitorais” e a manipulação da opinião pública em países como o Brasil. Os protestos que alastraram nas últimas semanas pela Europa também terão direito a um painel, composto por dois jovens ativistas franceses.
Será também neste palco que a Web Summit vai fazer uma ‘experiência’: colocar as mesmas perguntas a modelos de IA desenvolvidos em geografias diferentes (EUA, China e Europa) e ver se respondem de forma diferente. Na mesma Policy Summit será possível ouvir o conselheiro do Vaticano para a IA, Paolo Benanti.
Para o palco principal estão reservadas conversas sobre a vantagem dos modelos de IA abertos, o “momento tecnológico” da Europa, a regulamentação das ‘big tech’, a influência das marcas ou o futuro do futebol, entre outras.
Numa altura em que se discutem os riscos da IA para a humanidade, é notória a ausência no evento de empresas como a OpenAI, dona do ChatGPT, Anthropic, Nvidia ou Google. Mesmo a Microsoft tem uma presença mais reduzida face a edições anteriores. Em entrevista ao Eco, Paddy Cosgrave garante que as empresas foram convidadas, mas que não se mostraram disponíveis para falar sobre alguns temas, como as suas avaliações antes de entrar em bolsa ou a IA chinesa. “A resposta é: ‘Nessa semana estamos ocupados’”, conta o CEO da Web Summit. Chegou a constar na lista de oradores, como testemunhado pelo Observador, o nome de Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook e que marcou presença na Web Summit Qatar, em janeiro. Mas foi retirado.
▲ Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, chegou a constar na lista de oradores
Além de mais ‘despida’ de governantes, a 11.ª Web Summit também dá menos atenção às estrelas do espetáculo. O destaque vai para o ator Liam Cunningham, conhecido pelo papel na Guerra dos Tronos, entre outros. Quem assistir a uma das primeiras conversas do evento, na terça-feira, verá no palco a atriz Tilly Norwood, que tem a particularidade de não existir fisicamente. É IA.
Já o desporto continua a ter um palco dedicado e figuras conhecidas do público. Entre os oradores que vão passar por Lisboa na próxima semana estão o guarda-redes do Real Madrid, Thibaut Courtois, o ex-futebolista belga Jan Vertonghen, o campeão olímpico norte-americano Michael Johnson e o antigo jogador de futebol americano e ativista Colin Kaepernick.
A presença portuguesa será assegurada, desde logo, por Carlos Moedas, mas até ao momento não está previsto que o presidente da câmara de Lisboa suba ao palco principal, ao contrário do que é habitual. Entre as figuras mais conhecidas constam ainda Nuno Gomes, Júlia Palha, a influencer Bárbara Corby e um nome que já é ‘da casa’: Cristina Ferreira. A apresentadora vai estrear-se no palco do Meo Arena, na quarta-feira, numa conversa com Daniela Braga, CEO da Defined.ai, sobre “reescrever as regras da longevidade feminina”. Logo a seguir dará uma conferência de imprensa sobre o mesmo tema.
O ‘made in China’ toma conta da Web Summit
O fascínio da Web Summit pela tecnologia chinesa começou a notar-se na edição do ano passado. Em 2025, Paddy Cosgrave não escondia a admiração pelos robôs desenvolvidos na China, que descreveu “como os mais avançados do mundo”. Em publicações nas redes sociais, o irlandês partilhou visitas às empresas chinesas que o deixaram “de boca aberta”. Os elogios aos avanços chineses continuaram na cerimónia de abertura, onde declarou à plateia internacional que “é difícil negar ou ignorar as conquistas da China”.
Na edição de 2025, a Web Summit dedicou até um palco à China e trouxe a Lisboa alguns empreendedores de destaque, como o CEO da chinesa Manus. Este ano, o destaque à tecnologia chinesa é ainda maior. “As empresas chinesas estão a liderar e/ou a revolucionar os setores da robótica, da IA, da indústria automóvel, da energia e da computação quântica — praticamente todos os setores”, disse Cosgrave no X.
Para o líder da Web Summit, as empresas que usam a cimeira para se apresentar ao mercado e procurar investimento podem tirar partido deste contacto com o mercado chinês. “Se as startups ocidentais querem concorrer no palco global a longo prazo, têm de aprender, conhecer e interagir com quem está no pelotão da frente da tecnologia”, assegurou numa publicação no X em outubro, onde voltou a destacar a programação do evento.
If you understand the direction of technology, you’ll understand why Web Summit’s speaker line up is unmatched anywhere in the western world.
There’s nothing even close.
Chinese companies are either leading in and/or disrupting robotics, AI, cars, energy, quantum – almost every… pic.twitter.com/ToJHTWxyLg
— Paddy Cosgrave (@paddycosgrave) October 30, 2026
Na conferência de imprensa de antecipação da Web Summit, Paddy Cosgrave continuou o rol de elogios ao país, assegurando que “será um dos grandes temas da cerimónia de abertura”. “A ascensão da China, em particular na inteligência artificial e na robótica, é esmagadora”, declarou. “No momento em que se vai a Shenzhen ou a Xangai, não se pode deixar de questionar, de certa forma, o futuro.”
Questionado sobre o foco da Web Summit na China, justificou que o evento só quer dar continuidade à fama de ser “a janela para o futuro”. E assegurou que, ao ter mais oradores e empresas chinesas, só está “a refletir o futuro da tecnologia, que não é norte-americana”.
Em publicações feitas em 2025, Cosgrave relatou viagens a cidades como Shenzhen, um dos principais polos de desenvolvimento da tecnologia chinesa. No LinkedIn, também já mostrou vontade de ter uma versão chinesa da Web Summit, para juntar às edições do Rio de Janeiro, Vancouver e Qatar.
Chegou até a admitir a possibilidade de uma versão chinesa em 2027. Um ano depois, o fundador da cimeira não se comprometeu com datas, mas admitiu que esteve na China, “em setembro, com muito boas ofertas”. “Vi excelentes locais para eventos”, sem adiantar mais.
Em Lisboa, há pelo menos 33 oradores ligados a empresas e entidades chinesas. Além de Tao Zhang, fundador da Manus, passarão também pelo evento Li Chen, cofundador da empresa de robôs Unitree, William Shi, presidente da companhia de robótica AgiBot Europe. Está ainda confirmada a presença de executivos da MiniMax, companhia que desenvolve modelos de inteligência artificial (IA), da fabricante de eletrónica Hisense e ainda da Moonshot AI, que desenvolve os modelos de IA Kimi.
Paddy Cosgrave diz que ainda não faz contas ao futuro. Mas a Polónia já entrou em campo
Passaram dez anos desde que a Web Summit se mudou de Dublin para Lisboa. Por agora, está assegurado que a cimeira tecnológica continua na capital até 2028. Quando o contrato assinado em 2018 para dez edições chegar ao fim, o futuro da versão europeia da cimeira é uma incógnita. Esta semana, Paddy Cosgrave deu sinais de que “há boas conversas” sobre a continuidade em Lisboa, mas admitiu que “há mais cidades na Europa”. Além disso, afirmou que “2029 ainda está muito longe”. Em entrevista ao Eco, Cosgrave avançou que quer revelar na edição de 2027 em que cidade será realizada a Web Summit de 2029. “E talvez seja Lisboa”, deixou no ar.
Mesmo que para o líder da Web Summit ainda haja tempo até lá, são notórias as movimentações para o pós-2028. Em dezembro de 2025, a Polónia entrou em campo, com o vice-ministro dos Assuntos Digitais, Rafal Rosinski, a confirmar que Varsóvia é uma das candidatas a receber a cimeira.
▲ Paddy Cosgrave, CEO da Web Summit, mostrou esta semana a imagem de um letreiro da Web Summit vandalizado em Lisboa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Implica certos custos, mas acho que vale a pena”, disse o governante, argumentando que o evento poderia atrair investidores para o país. Pouco menos de um mês antes das declarações da Polónia, o CEO da Web Summit teceu rasgados elogios ao país na cerimónia de abertura. “Diria que a Polónia está a tornar-se num emblema da nova Europa: motivada, ambiciosa, organizada.”
Varsóvia está na corrida para suceder a Lisboa na Web Summit
Mas, afinal, de que precisa Paddy Cosgrave para manter a Web Summit em Portugal? Ao Expresso, Cosgrave revelou que há três condições para manter a conferência cá. “Em primeiro lugar, é necessário um recinto de classe mundial, dos quais existem muitos na Europa.” Desde 2022 que o CEO fala num recinto “esticado até ao limite” — além dos quatro pavilhões da FIL, nas últimas edições tem sido usada uma tenda para criar mais espaço de exposição.
Em conferência de imprensa a dias da edição de 2026, Cosgrave voltou a falar num evento “novamente com lotação esgotada”, onde são esperadas 70 mil pessoas, número que não mexe desde 2018 (à exceção de 2020 e 2021 marcados pela pandemia). Em 2021, o então Presidente Marcelo sinalizava a ambição de receber 100 mil pessoas em 2022. A expansão da FIL é uma conversa que já vem de 2018, quando Fernando Medina era presidente da Câmara de Lisboa — mas até hoje continua sem acontecer. Há anos que Cosgrave é questionado pelos jornalistas sobre o assunto, sempre sem avançar detalhes sobre se ou quando acontecerá o tão ambicionado aumento do recinto.
As restantes condições reveladas por Cosgrave ao Expresso são um “aeroporto internacional com capacidade, algo que falta no continente”, o que se prevê que só aconteça depois de 2035, e “capacidade hoteleira” — algo que considera “que já não existe em toda a Europa”. No ano passado, por exemplo, a organização alertou na véspera do evento para a “escassez de slots de jatos privados” no aeroporto de Lisboa como constrangimentos nas deslocações.
Em 2016 a Web Summit era novidade e havia curiosidade sobre a cimeira que trazia unicórnios e figuras notáveis da tecnologia a Portugal. Passada uma década, foi o próprio Cosgrave quem puxou o tema da perceção do evento no país. “Embora a Web Summit possa ter contribuído para uma enorme mudança positiva em Portugal e em Lisboa na última década, há também uma geração que não sente esse benefício — e acho que tem todo o direito de estar revoltada”, declarou durante a conferência de imprensa de antecipação do evento, onde até mostrou um letreiro da conferência vandalizado em Lisboa. “Acho que podem estar errados em culpar a Web Summit”, disse o empresário irlandês.
Munido de um estudo feito pela consultora EY, Cosgrave salientou o impacto económico do evento. Ao longo de dez anos, é estimado um impacto na economia portuguesa de 2,49 mil milhões de euros devido à presença do evento.
Mas nem todos têm a mesma visão sobre o retorno do evento. Durante o verão, o financiamento que a Câmara de Lisboa dá à Web Summit foi alvo de críticas — mas ainda assim a despesa de oito milhões de euros foi aprovada. De acordo com o jornal Eco, António Valle, diretor-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), entidade responsável pelo Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa (FDTL), que avança o valor à empresa irlandesa, teceu críticas ao investimento camarário na conferência. “A Web Summit não é um atrativo suficientemente forte de turistas e de investimento para justificar o esforço financeiro que está atualmente a ser feito, considerando que há outras formas de investir estas verbas com maior retorno na qualificação do destino [Lisboa].”
Há dez anos, a Web Summit era inaugurada com pompa, circunstância e discursos otimistas. Até 2028, a estadia está garantida. O futuro, nem os modelos de IA mais avançados conseguem prever.