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Não são ‘ondas de calor’, são ‘tempestades de calor’. Entre 1960 e setembro de 2026 foram identificados 2.527 destes episódios de altas temperaturas em alguma região da Terra. 327 deles passaram por território português, continente e ilhas. Além de terem aumentado exponencialmente década a década — de 5 para 102 por ano —, também se expandiram. Algumas destas tempestades atingiram enormes regiões do mundo ao prolongarem-se por semanas e meses até mais de um ano. É o caso-exemplo da Vera. Teve 367 dias e uma trajetória equivalente a quase 85% da circunferência do planeta, em que Portugal se inclui. Os dados e o novo conceito são de uma grande investigação da Reuters.
A intensificação destes episódios aconteceu a partir dos anos 90. A conclusão da investigação bate certo com todos os estudos e dados sobre o agravamento da intensidade das ‘ondas de calor’ e a subida das temperaturas. De acordo com os dados a que a Reuters chegou, desde 6 de julho de 2008 não houve um único dia sem existir pelo menos uma gigantesca tempestade de calor ativa em qualquer parte do mundo. O que, fazendo contas, mostra que estamos há mais de 18 anos consecutivos sob efeito de grandes episódios extremos. São 6.681 dias. Ou seja, as grandes ‘tempestades de calor’ deixaram de ser fenómenos isolados, que surgiam de vez em quando, para passarem a ser sucessivos. Os investigadores da Reuters chamam-lhes ‘cascatas de tempestades de calor’.
Uma ‘onda de calor‘ corresponde a um período de seis dias ou mais em que numa região ou no país as temperaturas estão 5ºC superiores à média para o local comparativamente ao mesmo período na década 1991–2020. Este é o conceito do IPMA. É semelhante ao da maioria dos institutos meteorológicos de outros países, mas há diferenças entre eles, não há um sistema de medição comum. Por isso a Reuters criou um: ‘tempestades de calor’. Um período de pelo menos cinco dias consecutivos com temperaturas máximas anormalmente elevadas em que um episódio atinge, no seu máximo, pelo menos 1% da superfície terrestre — são cerca de 5,1 milhões de quilómetros quadrados, 55 vezes a superfície de Portugal (incluindo Madeira e Açores).
Como nasceu o novo conceito de ‘tempestade de calor’?
“Tudo começou quando eu e o meu colega Maurice Tamman decidimos procurar resposta para uma pergunta bastante simples: as ‘ondas de calor’ são hoje mais frequentes do que antigamente?”, começa por explicar Ben Welsh, editor da Reuters em Nova Iorque e membro da equipa responsável pela análise de dados da investigação. O colega, Maurice D. Tamman, é jornalista de investigação da Reuters. Ben diz que a descoberta de não existir essa “definição científica universal de onda de calor” o deixou “surpreendido”.
Achou estranho. “Até há muito pouco tempo, aquilo que era considerado calor extremo era determinado localmente. Diferentes regiões estabeleciam critérios diferentes”. Sobretudo porque atravessamos tempos em que os extremos de calor estão na ordem do dia. “Os cientistas do clima têm dedicado enormes esforços à promoção de indicadores como a temperatura média global, de que tanto ouvimos falar, mas a verdade é que nunca chegaram a um consenso sobre a forma de medir aquilo que constitui uma ‘onda de calor’”. Foi por isso que decidiram fazê-lo eles mesmos. “Depois de entrevistarmos alguns dos maiores especialistas mundiais, analisarmos a forma como outros indicadores são estabelecidos e realizarmos um extenso trabalho de investigação, chegámos a um critério de medição que consideramos simples e cientificamente fundamentado”, diz Ben Welsh.
Não é, de facto, uma nova designação científica da meteorologia. É, sim, um conceito da própria Reuters que explica a metodologia rigorosa que usou. Com dados de temperatura da ERA5, do Copernicus/ECMWF, e a análise de mais de um milhão de células geográficas desde 1960, criou um algoritmo para identificar e acompanhar estes sistemas num longo período de tempo. Depois, com o apoio de cientistas e meteorologistas, desenvolveu um modelo para identificar e acompanhar as áreas onde se verificaram as maiores anomalias térmicas. Não ‘ondas de calor’ localizadas. Mas sistemas de calor anómalo em enormes áreas que pudessem seguir por semanas ou meses, mesmo quando mudavam de localização e de tamanho. Como a ‘onda de calor’ que atravessou Portugal, Espanha, França e seguiu até à Alemanha em julho. É um bom exemplo e está nas contas. As ‘tempestades de calor’ podem começar numa região, estender-se a outras e manter-se durante muito tempo.
“Aplicámos esse critério a todos os dias desde 1960 e colocámos os resultados num mapa. Foi então que as coisas se tornaram verdadeiramente interessantes”, volta a contar Ben Welsh, um dos responsáveis da investigação. “Nos anos 60 e 70, as ondas de calor eram fenómenos raros e isolados, que apareciam e desapareciam como um aguaceiro a atravessar um ecrã de radar meteorológico. Mas, nos últimos anos, à medida que a Terra continuou a aquecer, transformaram-se em fenómenos enormes, que se sucedem e se encadeiam, cobrindo vastas extensões do planeta durante meses ou até anos.”
Daí, nasceu o novo conceito. “Quando olhámos para aqueles mapas, percebemos que não tínhamos palavras para descrever adequadamente aquilo que estávamos a ver. ‘Onda de calor’ simplesmente já não chegava”, explica Ben, que tem uma opinião muito própria sobre o que se está a passar com o clima. “Este é um sinal claro de que estamos a viver uma nova normalidade, em que temperaturas que antes eram extremas se tornaram comuns”, diz, contente com o nome encontrado. A ideia era alargar a perspetiva e pôr as pessoas a olhar para o panorama geral. “Quando acordamos de manhã, estejamos onde estivermos, e sentimos que está mais calor do que aquele de que nos lembramos, é muito provável que isso faça parte de uma história maior — uma história que não diz respeito apenas ao nosso bairro, mas ao mundo inteiro.”
Aplicado a Portugal, que números extraímos?
Esta é pois uma nova forma de medir o calor, ainda que sem aval científico. Cada unidade de análise não é feita por país e pelas suas estações meteorológicas, mas sim pelo sistema geográfico por onde passou o calor extremo. A Reuters disponibilizou o código, tornou pública a forma como as tempestades foram identificadas e acompanhadas. O que permitiu extrair os dados para o território português. Identificados os 2.527 episódios registados, bastou depois cruzar as respetivas áreas geográficas com os limites de Portugal continental, Açores e Madeira. Uma mesma tempestade pode ser contabilizada em mais de uma região portuguesa. E chegámos assim às 327 tempestades de calor que passaram (tiveram interseções) por território português: 186 pelo continente, 175 pelos Açores e 230 pela Madeira (não há erro matemático, não há aqui uma soma dos valores do continente, Açores e Madeira. Cada tempestade é contada apenas uma vez, mesmo que tenha abrangido duas ou três regiões).
O crescimento em Portugal destas tempestades de calor torna-se claro a partir de 1990. Segundo os dados extraídos da investigação da Reuters para Portugal, na década de 60, quando começa o período em análise, foram identificadas apenas sete tempestades com passagem ou interseção com o nosso país. Na década de 90 já eram 46. E nos anos 2000 vamos em 67. A análise da agência contabiliza tempestades distintas e atribui cada episódio ao ano do seu início global.
Portugal atravessa uma fase excecional de temperaturas extremas. No balanço provisório do IPMA de 18 de outubro, 2026 já contabilizava nove ‘ondas de calor’, um total de 98 dias, o recorde da série histórica que começou em 1942. Mas não é possível comparar o critério do IPMA para ‘ondas de calor’ com o da Reuters para ‘tempestades de calor’. As nove ondas portuguesas com as 102 tempestades mundiais. Mas há um dado comum: o calor persistente está instalado no clima atual. E a Reuters dá-lhe essa nova dimensão: não são episódios locais, atravessam continentes e podem durar mais de um ano.
Como afetam estes episódios grávidas e bebés?
A investigação conclui que o aumento global das temperaturas favorece este tipo de episódios de calor extremo. E mostra como se tornaram mais extensos, mais frequentes e mais globais. É possível ver a organização geográfica e a persistência destas tempestades de calor em grande escala, em vez de contabilizar apenas as ‘ondas de calor’ país a país. Mas não é possível perceber ou comparar a evolução do risco de mortalidade, os incêndios ou outros impactos do género em Portugal ou qualquer outro local. Os dados portugueses também não dão o detalhe de quantos dias de calor houve localmente, nem que intensidade tiveram. A explicação fundamental está no aquecimento global: à medida que a temperatura média do planeta aumenta, é normal que muitas regiões ultrapassem, a cada ano que passa, os valores de temperatura que eram habituais. Mas o problema é que também aumentou a duração e a extensão. Nos anos 60, as tais ‘cascatas de grandes tempestades de calor’ duravam cerca de dois meses. Nos anos 2000, já eram de quase nove meses.
Não tem a ver com estes nove meses, mas como é que estas tempestades de calor afetam as grávidas e os bebés? Este é o tema da segunda parte da investigação da Reuters, publicada esta sexta-feira, dia 30. A Reuters analisou 8,3 milhões de partos no México entre 2008 e 2025 e cruzou esses dados com vários estudos internacionais. No final, cinco conclusões: o calor aumenta o risco de partos prematuros até 18% nos últimos meses de gravidez; o risco não surge apenas quando estão 40°C, basta que as temperaturas estejam acima do normal para o local; o calor também aumenta o risco de aborto espontâneo, morte fetal, pré-eclâmpsia e problemas no desenvolvimento da gravidez; há um aumento de 4% de possibilidade de parto prematuro por cada 1°C superior à temperatura média local: a seguir a uma tempestade de calor, esse risco pode subir para 26%; e as mulheres com gravidezes de risco ou com doenças enfrentam maiores problemas.
▲ A 'tempestade de calor' Vera, que também chegou a Portugal
A acabar, saiba que neste momento há uma tempestade de calor ativa. Chama-se Raimundo. Nasceu a 28 de fevereiro de 2026 e já atingiu, segundo a Reuters, cerca de três quartos da superfície terrestre. Pode bater a Vera, a maior das analisadas, com um alcance de 85% do planeta, Portugal incluído. É a área total atingida ao longo da tempestade de calor, 367 dias no caso da Vera, um ano e mais dois dias, e não 85% da Terra ao mesmo tempo. A Vera começou em 29 de julho de 2023 e terminou em 29 de julho de 2024. Atingiu regiões de todos os continentes, algumas muito afastadas. Foi uma verdadeira tempestade global.