A reflexão sobre os 900 anos de Portugal desencadeada pela Sociedade Histórica foi pensada como um projecto de longa duração destinado a criar uma nova percepção sobre a portugalidade. Não se deseja chamar a atenção do público com celebrações aparatosas destinadas a encher o olho e gerar uma emoção momentânea, tampouco com fanfarronices. Falar dos 900 anos de Portugal deve ser uma busca de nós próprios enquanto comunidade, através da análise da especificidade do país e da nação.
Olhando para a nossa História, logo sobressai o facto de termos a fronteira mais antiga do mundo e de nos termos consolidado no final do século XIII como uma comunidade única da Europa – um povo com uma língua e um rei. Mais nenhuma monarquia ou proto-Estado dessa época aglutinava dentro de si todos os falantes de uma língua. Estado-língua desde 1297, passados cem anos já havia dado mostras de ser um Estado-Nação, pelo modo como a maioria da população reagiu espontaneamente contra a possibilidade de o Reino ficar subordinado ao rei de Castela. Sendo um Estado-Nação precoce, não deixou de ser sempre um actor da política europeia e de ser uma potência marítima. Lembremo-nos que, logo em 1147, a conquista de Lisboa resultou da colaboração das forças de D. Afonso Henriques com soldados europeus vindos pelo mar, e que, em 1373, Portugal assinou com a Inglaterra a aliança militar mais antiga do mundo, para, poucos anos depois, se reconfigurar pelo mar, fazendo da descontinuidade territorial um trunfo, e desencadear um processo revolucionário que mudou a história da humanidade. De globalizador a criador de novas identidades foi um passo e a língua portuguesa voltou a ser a matéria aglutinadora dos novos Estados de língua portuguesa, que têm uma característica única: ao contrário dos Estados de origem colonial de línguas castelhana, francesa ou inglesa, os Estados de origem colonial portuguesa correspondem a ilhas linguísticas sem países vizinhos que falem a mesma língua.
Poucos são os portugueses que compreendem bem os factos atrás expostos e, sobretudo, a sua singularidade no âmbito da história da humanidade; quer isto dizer que, para celebrar os 900 anos, é preciso começar pelo essencial, tendo em conta o modo limitado como o país se vê a si próprio. Ora, se as bases do conhecimento são frágeis, urge ainda mais começar não só pelo básico, mas também pelos mais jovens. Ao promovermos a celebração dos 900 anos de Portugal, o primeiro objectivo tem de ser, pois, assegurar que a percepção da identidade e da relevância de Portugal será assimilada de uma forma compreensível e patriota pelas gerações futuras. Os portugueses que irão celebrar o final deste ciclo, quando passarem 900 anos sobre a morte de D. Afonso Henriques, já estão aqui, e os mais velhos desse futuro até já deixaram a escola. Urge, por isso, criar um paradigma novo, que sensibilize e consciencialize sem exageros, mas também sem apoucamentos. É, sem dúvida, através da Escola que este propósito poderá ser alcançado consistentemente, a longo prazo.
Assim, no âmbito do programa de celebração dos 900 anos de Portugal, a Sociedade Histórica criou o programa “Escolas 900 Anos”, que dá agora os primeiros passos. Pretende-se desta forma atingir a população juvenil do país, contribuindo para que os jovens se confrontem sadiamente com a sua própria identidade nacional e para que ganhem consciência da especificidade da História de Portugal, daquilo que os distingue dos outros povos, com a noção de que distinguir não significa ser melhor ou ser pior; apenas próprio e diferente.
Como tem sido explicado, a celebração dos 900 anos de Portugal não está focada nos acontecimentos do século XII, mas em toda a História de Portugal. Os eventos de ontem, de há cinquenta anos, ou de há oitenta, contam tanto, como os que sucederam nos séculos passados. Além disso, o perfil demográfico do país mudou muito recentemente e a população portuguesa voltou a incluir uma percentagem significativa de indivíduos de origem não portuguesa, como sucedeu noutras ocasiões, a começar pelo próprio século XII, quando grupos vindos do norte, nomeadamente da França, se foram instalando nas terras conquistadas pelos monarcas portugueses. Assim, hoje, uma parte significativa da população estudantil é composta por crianças e jovens oriundos de outros países, e, por isso, o programa “Escolas 900 Anos” deve ter essa realidade em conta, desdobrando-se sempre que necessário numa análise do que eram os territórios ou as civilizações antepassadas desses jovens, seja há 900 anos, seja há 600 ou 200, sempre em paralelo com as efemérides portuguesas ou mesmo explorando efemérides dessas civilizações e países e analisar o que se passava em Portugal no mesmo ano, por exemplo. A integração de milhares de jovens em Portugal não se pode fazer obliterando as origens das suas famílias, mas articulando-as com as do país em que se estabeleceram.
O que será uma Escola 900 Anos?
A Sociedade Histórica deseja criar uma rede de Escolas 900 Anos, em ligação com as estruturas do Ensino Público e do Privado, que será integrada por todas as que o desejem sem nenhum constrangimento especial. Uma Escola 900 Anos será um estabelecimento de ensino, público ou privado, que se compromete a desenvolver pelo menos uma actividade alusiva ao tema da portugalidade em cada ano lectivo. As actividades podem ser realizadas em disciplinas tão variadas como a Língua Portuguesa, a Geografia, as Artes ou as Ciências, além, naturalmente, da História.
Promover a cidadania portuguesa e proporcionar o sentimento de pertença a uma comunidade com nove séculos de existência não se alcança apenas através das aulas de História. Pelo contrário, deve ser um processo articulado que se faz através do conhecimento do território e da gastronomia, do bom uso da língua, da experiência do folclore e das tradições musicais, da percepção das variedades etnográficas e arquitectónicas e da noção do desenvolvimento económico em curso, seja dos empreendimentos industriais, seja dos muitos polos de inovação que existem espalhados pelo país. Promover a cidadania portuguesa é romper com pessimismos excessivos, quase sempre resultantes da ideologia e não da observação abrangente e sistemática, e é realçar o que o país faz bem e aquilo em que se supera, sem perder o espírito crítico e a consciência de que é sempre possível, e muitas vezes urgente, melhorar. Nenhuma instituição consegue fazer isto melhor do que as escolas modernas que, hoje, não são meros espaços de salas de aulas, mas que se distinguem pelo modo como estimulam os jovens a realizar estudos interdisciplinares, como são as “áreas projecto” e, tantas vezes, a aprenderem viajando e conhecendo a diversidade.
Uma Escola que deseje associar-se ao programa só precisa de contactar a Sociedade Histórica da Independência de Portugal e apresentar um plano de actividades para o ano lectivo seguinte (ou em curso). A Escola e a Sociedade Histórica estabelecem um protocolo de colaboração e a Escola recebe uma insígnia distintiva. É nossa vontade ter o projecto a funcionar no final do presente ano lectivo e fim de poder assinalar com algum destaque o início do próximo. Idealmente, a rede de Escolas 900 Anos pode estender-se aos países de língua oficial portuguesa, às Escolas Portuguesas no estrangeiro ou a escolas estrangeiras ligadas à população escolar não portuguesa. O objectivo é, pois, alargar ao maior número possível de crianças e jovens a possibilidade de se aperceberem das dinâmicas que possibilitaram a existência de Portugal e o modo como essa existência, antiga e presente, se repercute por todo o mundo.
Compromisso da Sociedade Histórica
A Sociedade Histórica iniciou esta celebração no início de 2025, mas tem-no feito sem apoios financeiros, inclusive do Estado. Aliás, o governo tem ignorado o projecto, mas os governos regionais da Madeira e dos Açores, bem como diversas câmaras municipais estão interessadas e contamos com o seu apoio num futuro próximo.
No entanto, a base deste projecto é assentar numa ideia simples, que, em vez de inventar e exigir meios suplementares, pode desenvolver-se sem custos elevados. O objectivo é sensibilizar e educar verdadeiramente para a Cidadania, pelo que a adesão ao projecto depende essencialmente, da atribuição do símbolo “Portugal 900 Anos” a muitas actividades realizadas naturalmente pelas escolas, que ganham uma significação complementar. De qualquer modo, como o projecto é resiliente e de longa duração, acabará decerto por alcançar a distinção governamental que merece.
Estamos certos, por isso, de que, num futuro não muito longínquo, começarão a surgir actividades inter-municipais, regionais e nacionais de redes de Escolas 900 Anos. Podem ser lançados, por exemplo, concursos sectoriais/etários, nomeadamente de texto literário ou monográfico, de fotografia, teatro, documentário ou cinema que mobilizem especialmente os estudantes. Também podem ser promovidas exposições itinerantes, preparadas pela comissão coordenadora e disponibilizadas no terreno com o apoio de entidades locais.
A Sociedade Histórica pretende, finalmente, acrescentar a este projecto com as escolas, parcerias com órgãos de comunicação social, de que esta coluna semanal no Observador é pioneira, para a divulgação de actividades e para introduzir o tema “Portugal 900 Anos” de um modo discreto na programação audiovisual de grande difusão destinada a audiências generalistas.
Visto as mais das vezes apenas como um país pequeno e pobre, Portugal é um protagonista incontornável da História da Humanidade, com impacto directo em territórios dispersos pelos lugares mais remotos do planeta, primeiro com a expansão do Reino, dos seus mercadores e dos seus missionários e, hoje, pela diáspora da emigração. Demos uma oportunidade aos nossos jovens de crescerem conhecendo a essência da sua nação como um bem, que os distingue e que os enquadra no mundo, e de vivenciarem a sua identidade em harmonia e irmandade com as identidades dos seus amigos e dos seus colegas.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]