Em abril de 2019, Mick Jagger, então com 75 anos, foi submetido a uma substituição da válvula aórtica por via percutânea, um procedimento conhecido como TAVI. Trata-se de uma abordagem minimamente invasiva em que não se abre o peito, com a nova válvula a ser introduzida pela artéria femoral localizada na virilha. Em maio do mesmo ano, tornaram-se públicos vídeos – ainda hoje disponíveis online – do músico a treinar as danças que executaria na tour “No Filter”. No mês seguinte, abria a digressão americana com o concerto no Soldier Field, em Chicago, com a energia frenética de sempre.

O aperto – ou, em termos médicos, a estenose – da válvula aórtica é a doença mais comum das válvulas cardíacas. Tem uma correlação direta com a idade, uma vez que, à medida que envelhecemos, a válvula vai-se calcificando e os “folhetos” – as “pás” ou “portas” da válvula – vão ficando mais rígidos, diminuindo a sua abertura e a quantidade de sangue que a atravessa.

Em qualquer válvula um aperto é um fator limitante, mas na aórtica é particularmente relevante, já que é a válvula de saída do coração – a última por onde o sangue passa ao ser bombeado para todo o corpo. Ao limitar a quantidade de sangue que irriga o nosso organismo, provoca os sintomas clássicos desta patologia: cansaço e falta de ar para esforços cada vez menores, pressão torácica ao realizar esforços, tonturas e até desmaios. O risco de morte súbita também aumenta, mesmo nos indivíduos que, tendo já um aperto grave, ainda não apresentam qualquer sintoma.

O diagnóstico é inicialmente feito pela auscultação – a estenose aórtica produz um sopro muito característico – e confirmado por um ecocardiograma, que quantifica se o grau de aperto da válvula é ligeiro, moderado ou grave.

Até abril de 2002, a única opção para os doentes com estenose aórtica grave era a substituição valvular através de cirurgia de peito aberto. Nesse mês, porém, o cardiologista de intervenção francês, Dr. Alain Cribier, implantou pela primeira vez uma prótese valvular aórtica sem abrir o peito, através de um vaso na virilha. Iniciava-se assim a era da TAVI, a implantação de válvula aórtica através de cateter, revolucionando o tratamento desta patologia naquilo que é consensualmente considerado o avanço terapêutico mais disruptivo na área cardiovascular dos últimos 25 anos. Desde então já se realizaram mais de 3 milhões de procedimentos e é hoje a técnica standard para pacientes com 70 ou mais anos (65 nos EUA).

Em Portugal, a primeira TAVI foi realizada em 2007. Atualmente, diversos hospitais públicos e privados disponibilizam esta intervenção e consultas especializadas em doenças valvulares. Nos quase 20 anos em que executo semanalmente esta técnica, assisti a uma evolução exponencial. Atualmente, cerca de 95% dos casos são feitos pela artéria da virilha, a maioria apenas com anestesia local ou sedação superficial. O doente levanta-se ao fim de 12 a 24 horas e tem alta entre o segundo e o terceiro dia, pelo próprio pé e sem necessidade de recuperação prolongada. Em muitas instituições, a alta é dada ao fim de 24 horas.

Frequentemente dou por mim a refletir se não estamos a subestimar o feito: substituir uma válvula cardíaca sem parar o coração e sem abrir o peito, com o paciente a falar connosco durante o processo. Como costumo dizer, é como arranjar o motor de um avião em pleno voo.

Na tour planeada para 2027, quando Mick Jagger entrar no palco a correr desenfreadamente ao som de Start Me Up – um dos títulos mais apropriados para quem fez uma TAVI –, a sua válvula terá 8 anos e ele 83. Longevidade com saúde e energia. Start one up – é isso que a TAVI faz.