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Este episódio contém descrições de violência que podem impressionar algumas pessoas. Com a matrícula, é fácil chegar ao dono do Renault 5 bege. Antes de janeiro de 1993 chegar ao fim, a Polícia Judiciária já está a bater à porta do suspeito, no Cacém. Quem abre não se parece em nada com os retratos-robô feitos a partir das descrições de Marta e de Angélica, as duas prostitutas agredidas por um cliente. Mas isso não significa que o desenhador da polícia não saiba o que faz. Assim que lhe perguntam sobre o carro, o homem explica que está em nome da empresa de artes gráficas de que é sócio-gerente e foi atribuído em permanência a um vendedor de publicidade que também mora ali no Cacém. Quando os agentes tocam à campainha, o vendedor mostra-se muito surpreendido. Angélica disse à polícia que tinha sido atacada há cinco ou seis meses, em junho ou julho de 1992. O homem diz que só anda regularmente com o carro desde outubro e garante que não frequenta o meio da prostituição. É casado, jura que é um homem de família e que faz uma vida casa-trabalho, trabalho-casa. Às 20h já está sempre de volta ao Cacém e só sai para beber café a seguir ao jantar. E vai a pé. Admite que frequenta a zona do Restelo, mas só porque a sogra mora lá e os filhos andam num colégio perto da casa dela. Nega tudo. Nunca contratou uma prostituta, nunca maltratou nenhuma mulher, nunca violou ninguém. É inocente. Os agentes dizem que compreendem e perguntam-lhe se está disponível para se deslocar à PJ só para responder a mais algumas perguntas. Na verdade, estão a montar-lhe uma armadilha. Sabem que assim que o homem entrar na Gomes Freire, não vai ter saída possível. É literalmente a cara do retrato-robô feito a partir das descrições de Angélica. Até agora, o caso tem passado despercebido. As prostitutas de rua estão cada vez mais aterrorizadas e a seção de homicídios da PJ continua a seguir todas as pistas, mas os jornais não falam no assunto. Só houve algumas notícias logo a seguir às mortes e eram muito curtas, não tinham detalhes sobre os crimes nem sobre as vítimas e muito menos sobre o modus operandi do assassino. Aliás, pra imprensa não existe um assassino. Os jornalistas não relacionam o corpo encontrado na Póvoa de Santo Adrião com o da estação de Entrecampos. Não têm detalhes sobre o que aconteceu realmente. São vítimas sem interesse noticioso. Mas isso está mesmo prestes a mudar. Enquanto a PJ investiga os dois crimes do Estripador em Lisboa, começam a aparecer corpos na margem sul do Tejo. Já não vai ser possível continuar a ignorar a história. "A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, com banda sonora original de Mário Lajinha. Episódio três: o assassino comete um erro.

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Em novembro, tinha sido encontrada uma mulher morta numa ribanceira na Trafaria. Na altura, o jornalista Valdemar Pinheiro escreveu meia página no Correio da Manhã sobre o crime. A mulher chamava-se Ângela, tinha 22 anos, era toxicodependente e, refere a notícia, levava uma vida um tanto errante, uma espécie de eufemismo para prostituta. Aparentemente, tinha sido um crime isolado. Mas agora, no dia 24 de fevereiro de 1993, aparece outra prostituta morta num pinhal na zona de Belverde. Ângela foi encontrada vestida. A jovem de Belverde estava completamente nua. Ambas apresentavam sinais de estrangulamento e ambas eram de Lisboa. Valentina em julho, Ângela em novembro, Fernanda em janeiro e agora, em fevereiro, mais um corpo. São quatro mulheres mortas em sete meses. Ana Cristina. Assim se chamava a mulher encontrada na Mata de Belverde. Tinha 24 anos, era consumidora de heroína e prostituta Três dias depois, o jornalista Valdemar Pinheiro faz rebentar o caso no Correio da Manhã. É sábado. A manchete do jornal mais lido do país surge em letras garrafais: "Psicopata assassina prostitutas". Lá dentro, o jornalista descreve uma escalada mortífera contra mulheres da vida e recupera os casos dos últimos meses. Não revela nomes, não avança grandes detalhes e também não acerta em todas as circunstâncias dos crimes. Descreve que uma mulher encontrada num barracão em Odivelas foi morta a tiro e que outra, que apareceu perto da feira popular, foi assassinada com uma arma branca. Está a falar de Valentina e de Fernanda, ambas esventradas com objetos cortoperfurantes, segundo o Instituto de Medicina Legal. Na notícia, Valdemar Pinheiro cita o então diretor da PJ de Setúbal. Ilídio das Neves Luís diz que há uma grande possibilidade de as duas mortes da margem sul terem sido cometidas por um só homicida. Mas o jornalista vai mais longe e escreve que todos os quatro casos podem estar ligados.

Falei na altura com o doutor Ilídio das Neves Luís e comentei com ele: "Ó doutor, isto começa a ser um pouco estranho". "Mas o que você acha estranho?" "Estranho que já são quatro prostitutas que são assassinadas". Ele disse: "Pois, de facto. Temos duas em Lisboa e agora apareceu esta aqui na margem sul. Mas não sei se nós, Polícia Judiciária, estamos a fazer alguma relação entre os casos". Eu disse: "Não sei. O doutor, que é da PJ, não me sabe responder. Bom, então eu vou ligar os casos todos e vou publicar isto".

Mais de três décadas depois, o jornalista continua a acreditar que tinha razão. Isto apesar do modus operandi das mortes de Lisboa ser completamente diferente daquele que foi utilizado nas duas vítimas da margem sul.

É curioso porque estas duas vítimas apresentavam sinais de que eventualmente pudessem ter estado sequestradas, porque apresentavam nos pulsos indícios de terem estado amarradas e no corpo várias queimaduras de cigarros. Era um método diferente das prostitutas em Lisboa, mas isso não quer dizer que não fosse o mesmo indivíduo. Aliás, custa-me a crer que no mesmo espaço temporal, na mesma área, andassem dois assassinos à solta. Não sei, é possível que assim fosse, mas custa-me a crer. E acredito que a partir de uma determinada altura, este indivíduo mudou de modus operandi, até para despistar, provavelmente, a polícia e optou não por estripar as vítimas, mas por matá-las por estrangulamento.

O criminalista José Manuel Anes concorda com o jornalista, mas só num ponto. A dada altura, os crimes da margem sul despistam mesmo a polícia e baralham a investigação. Mas isso não foi porque o assassino decidiu mudar de método.

Imitação, claramente. Vamos matar prostitutas, esse era o objetivo, não com os pormenores, porque eles não sabiam e eventualmente esse criminoso da margem sul não saberia, mas vamos matar uma prostituta ou uma ou duas e acabou-se. E esse copycat é uma coisa que de vez em quando aparece, que é uma coisa que perturba a investigação, porque aparece outro indivíduo que quer fazer as mesmas coisas e que baralha toda a linha de investigação.

Para o criminalista, aquilo que está a acontecer na margem sul é obra de um imitador. Aliás, de um imitador que tem tanta falta de informação sobre os crimes originais que só consegue acertar numa coisa: o perfil das vítimas a abater.

Tinha apenas 22 anos quando foi brutalmente assassinada.

É a noite de 14 de março de 1993. No Jornal de Domingo, a RTP emite uma reportagem sobre os crimes contra prostitutas na zona de Lisboa.

Este foi apenas o primeiro caso registado aqui em Odivelas, justamente nesta barraca. Depois vieram mais quatro vítimas, brutais crimes, brutais assassinatos em diversos locais de Lisboa e arredores.

É a primeira vez que a televisão fala sobre o assunto. E é também a primeira vez que a imprensa usa a expressão "estripador". O nome é inspirado num dos mais famosos assassinos de sempre, que também matou e esventrou várias prostitutas, mas em Londres, no final do século XIX, e que nunca foi apanhado. Daí ter entrado para a história com o pseudônimo Jack, o Estripador. É a PJ que dá nome ao homicida de prostitutas que anda à solta em Lisboa, diz o agente Carlos Ademar Fonseca.

Pela necessidade que surge. Vamos dando alcunhas a pessoas ou aos casos e o Estripador admito que tenha surgido lá dentro, que depois tenha passado para a comunicação social.

O Estripador à portuguesa não . Esta noite Maria João não vai ficar em casa a ver a reportagem da RTP sobre o Estripador de Lisboa. Passa das 08h quando desce do sexto andar onde mora sozinha com dois ou três gatos e bate à porta de um vizinho. Diz-lhe que está desesperada, precisa de dinheiro emprestado. É toxicodependente. Injeta-se com heroína e toma quantidades cada vez maiores de Halcion, um medicamento para dormir que foi proibido há pouco tempo no Reino Unido, mas continua à venda nas farmácias portuguesas. Está a ressacar. Precisa de uma dose urgentemente, mas desta vez o amigo não a pode ajudar. Também está sem dinheiro. Desiludida, põe-se a caminho do parque de estacionamento do Pingo Doce da Póvoa de Santo Adrião. Vai ter de arranjar um cliente o mais rapidamente possível. São 08h45 do dia seguinte, segunda-feira, 15 de março de 1993. A PSP de Odivelas liga para a secção de homicídios da PJ. Foi encontrado o corpo de uma mulher à porta de um armazém na Póvoa de Santo Adrião. Tem sinais de ter sido vítima de crime e não tem mala nem carteira, por isso é impossível de identificar. A brigada que está hoje de piquete é exatamente a mesma que estava de serviço no dia 31 de julho do ano passado, quando o corpo de Valentina foi encontrado num barracão. Esta é a primeira coincidência. A segunda, o corpo encontrado esta manhã está à porta de um armazém de produtos alimentares que fica a apenas 250 metros dessa primeira cena de crime. Está caído no chão de barriga para baixo, praticamente nu e coberto com algumas das peças de roupa que a vítima estava a usar nessa noite fria de fim de inverno. Um blusão e três camisolas de lã. Quando finalmente viram o corpo para cima, os agentes surpreendem-se com um corte profundo e extenso na zona da barriga. Terá cerca de 50 centímetros. Como aconteceu com Valentina e Fernanda, os intestinos da vítima também foram arrancados e uma parte foi levada pelo homicida. É evidente que o Estripador de Lisboa voltou a atacar e que voltou também ao local onde tudo começou. A grande diferença desta para as outras vítimas é que assim que o agente responsável lhe vê a cara, identifica-a imediatamente. Não precisa de documentos nem da ajuda de amigos ou familiares. Falou com ela mais do que uma vez nos últimos sete meses. Vítima número três: Maria João Rodrigues Vieira Santos. A nova vítima é a companheira de prostituição de Valentina, a primeira mulher morta pelo Estripador de Lisboa, que foi à GNR oferecer-se para ajudar. Alto, magro e dono de um bigode prodigioso, Alexandre Simas chega à cena do crime com o piquete dos homicídios, mas deixa-se ficar para trás. São muitos anos de experiência. Primeiro, prefere observar à distância. Está na PJ há 12 anos como técnico de impressões digitais palmares e plantares. A designação oficial é loofoscopista. Antes disso, trabalhou durante anos no serviço de estrangeiros e também foi comando. Não suporta os que se atrevem a chamar-lhe homem do pincel, nem sequer lhes dá resposta. Alexandre Duarte de Cabedo Simas é muito mais do que o perito forense que analisa cenas de crime com pós de alumínio e pincéis sintéticos ou de pelo de esquilo. Sempre que é preciso, é o primeiro a oferecer-se como voluntário para outro tipo de missões.

Eu andava sempre metido em tudo quanto era confusões. Infiltravam-me quando era coisas de droga nas rusgas, eu ia para lá. Está a ver com o meu físico, camisola de alças e assim passava despercebido. Tiros e tudo, eu ia, oferecia-me mesmo, porque como tinha sido dos comandos, tinha alguma facilidade no gatilho.

15 de março de 1993 não é dia de disparar armas nem perseguir fugitivos. É dia de analisar mais uma cena de crime e de preferência, de encontrar vestígios que possam finalmente ajudar na investigação. Assim que chega ao local, o agente Simas teme o pior.

Polícias fardados, polícias à civil, guarda-noturno, uma carrinha a carregar os produtos alimentares de quem é de quem. Uns a fumar ali. A preservação do local de crime é essencial para qualquer descoberta do autor ou autores de crimes. Se não houver a preservação do local de crime, estraga-se tudo. Porque depois é uma misturaça. Aquilo estava tudo contaminado por tudo quanto era gente. Nós tivemos que empurrá-los dali.

O corpo de Maria João está ao cimo de uma rampa junto à porta do armazém O agente Simas começa a analisar a cena ainda cá embaixo, junto ao portão que dá acesso à propriedade.

Nós começamos de longe até ao cadáver. A gente não vai logo para o cadáver, senão podemos estragar alguns. É como se fazer uma fotografia a um cadáver. Começamos por aqui e aqui, até aproximar do cadáver. E eu fiz exatamente isso. Comecei ali a ver.

Na esquina da parede que dá para a rampa, faz a primeira descoberta: uma mancha de sangue. Percebe que é a impressão de uma mão, mas não se aproxima. Toma nota mental para voltar ali depois e continua a subir em direção ao corpo. Quando olha pela primeira vez para a vítima, intui que, para além dos intestinos, desta vez o homicida possa ter levado ainda mais órgãos com ele. E não está errado. O Instituto de Medicina Legal há de confirmar o desaparecimento de parte do estômago, de um rim, do fígado e do baço de Maria João. Tal como Fernanda, terá sido morta com o gargalo de uma garrafa partida, que está ali no chão, coberto de sangue. A seguir, Alexandre Simas protege as mãos da vítima para que as unhas possam ser analisadas em busca de pele ou de outros vestígios biológicos do agressor. E no fim, passa à zona envolvente. No chão, a cerca de um metro do corpo, há um maço de tabaco SG gigante e três cigarros por fumar, um paralelo à vítima, os outros dois em cruz. Nunca se viria a perceber se seria ou não uma mensagem em código do assassino. Há ainda duas notas, uma de 500, outra de 2000 escudos. O objetivo do criminoso não foi roubá-la. O caso é exatamente igual ao de Valentina. Alexandre Simas procura vestígios nos objetos que há em volta. E ali ao lado, está um caixote de papelão cheio de pacotes de leite fora de prazo e outras mercearias. Calça as luvas, começa a vasculhar e encontra num pacote de leite deteriorado aquilo que até hoje a PJ ainda não tinha conseguido: uma impressão digital parcial que poderá ser do assassino. Problema: só tem cinco pontos característicos e para identificar um suspeito, são necessários pelo menos 12.

Eu com esses cinco pontos não podia dizer que era aquele indivíduo, mas podia dizer que não era.

Só com aquela impressão digital, a PJ nunca conseguirá acusar um suspeito, mas pelo menos pode descartá-lo. Noutra caixa, Alexandre Simas consegue recuperar uma segunda impressão, não digital, mas palmar. De que zona da mão não consegue precisar, mas de uma coisa tem a certeza: aquela impressão tem pontos suficientes para identificar alguém, 13 no total. Só é preciso que a partir de agora, todas as superfícies das mãos de todos os suspeitos sejam minuciosamente recolhidas. Depois volta a afastar-se do corpo e desce a rampa. Ainda é preciso analisar a palma impressa com sangue na parede. A superfície é demasiado porosa para fixar as cristas e vales que compõem as impressões digitais. Alexandre Simas nem tenta passá-la para o papel, mas isso não quer dizer que não retire nenhuma informação daquele vestígio. É uma mão esquerda. O assassino ter-se-á apoiado ali na parede para espreitar. Pode ter suspeitado de que poderia aparecer alguém, pode apenas ter querido perceber se o caminho estava livre para fugir. E a posição da mão na parede revela a altura dele. A polícia pode não saber se é gordo ou magro, ou se usa bigode ou barba, mas a partir de agora, já sabe quanto mede. O Estripador de Lisboa tem entre um metro e setenta e um metro e setenta e cinco de altura. O essencial é não dar nas vistas. Não há sirenes a tocar e as luzes azuis também não estão ligadas. O pedido de mandado de busca feito pela GNR é suficientemente explícito. Presume-se que o indivíduo em causa possa estar relacionado com o homicida das prostitutas da área de Lisboa. Por isso mesmo, a PJ está a acompanhar. Dezessete de maio de 1993, 17h30 da tarde, Alcobadece, Cascais. Antes da morte de Maria João, a PJ já andava atrás deste suspeito. Passaram quase quatro meses desde que Marta, uma prostituta de 18 anos, contou aos agentes como tinha sido agredida num prédio em ruínas, depois de ter sido levada para Cascais num Renault 5 branco, com a promessa de receber 10 mil escudos. Na mesma altura, outra prostituta fez referência a um cliente violento que conduzia um Renault 5, mas bege.

Nós à partida pensamos que era só um, que era um Renault 5. Falava-se de um Renault 5 bege e um branco. E havia dúvidas: "Não, mas isso é confusão delas, é só um, ponto final. Acabou". Mas não, elas tinham razão. Quem dizia que era branco tinha razão e quem dizia que era bege tinha razão.

O condutor do Renault 5 bege já tinha sido identificado e detido logo em janeiro. Agora chegou finalmente o momento de prender o homem do Renault 5 branco, um técnico da companhia dos telefones, casado e com um longo cadastro. Já foi apanhado nove vezes a conduzir sem carta. Em 1973, foi condenado a 14 meses de prisão efetiva por ofensas corporais a menor. E atualmente está a aguardar julgamento por um crime de violação ocorrido em setembro de 1991, sendo que Marta foi violada no primeiro dia de novembro do ano seguinte. Os agentes encontram o Renault 5 branco na garagem do prédio onde o homem vive. No porta-bagagens, há um exemplar de setembro de 1991 do jornal "O Policial", que por esta altura já deixou de ser publicado. A manchete: "Violador de Cascais volta a atacar". Acompanhada de fotografias do Renault 5 branco e da casa em ruínas para onde Marta teria sido levada. "Uma boleia neste carro pode acabar mal nesta casa", avisava o jornal, que no interior identificava o suspeito com o nome completo. Interrogado, o homem diz que sabe que é suspeito de vários crimes de violação, mas garante que não passam de suspeitas infundadas. Só que quando for colocado entre agentes à paisana numa linha de identificação na sede da PJ, Marta vai apontar para ele sem hesitar. Não há dúvidas de que foi este homem que a violou. Só há um problema: os agentes não acreditam que ele tenha alguma coisa a ver com os crimes do Estripador de Lisboa.

Não tem condições para ser o nosso Estripador. Não era o modus operandi do Estripador. Havia, de facto, dois Renault 5, e ambos foram presos e presentes a tribunal. Ficaram presos porque tratavam muito mal as mulheres e obviamente cometiam crimes. Mais não seja por isso, e até para lhes dar confiança a elas também, esse trabalho foi feito e o caso do Estripador ajudou, no fundo, a fazer também uma certa limpeza na noite, no meio desta gente que frequentava o meio da prostituição em Lisboa.

Nesta altura, há três prostitutas mortas e esventradas na Póvoa de Santo Adrião e em Entre Campos, e outras duas assassinadas por estrangulamento na margem sul do Tejo. São mortes completamente diferentes, mas a tese do assassino único, que a comunicação social pôs a circular, vai ganhando adeptos. Um dia depois de Maria João aparecer morta, o tema é outra vez manchete no Correio da Manhã. "Estripador volta a atacar". A notícia, novamente assinada por Valdemar Pinheiro, diz que a descoberta deste corpo se soma aos casos das prostitutas mortas nos últimos meses. Carlos Ademar Fonseca revela que a dada altura, até a própria PJ pondera juntar os casos todos.

E os nossos colegas de Setúbal, porque aquilo era uma área, uma zona que é da competência do pessoal de Setúbal. Às tantas: "Vocês têm três casos, nós temos dois, vocês levam esses dois e a gente fica sem nenhum. E que isto é, a ter a ver com a mesma coisa". Deu reunião de altas esferas e tudo, em que eu estive presente e pude opinar e defendi que não, não faz sentido nenhum, porque o padrão de atuação é diferente, não tem nada a ver. A todos os níveis.

Tomada a decisão de não juntar os crimes da margem sul aos de Lisboa, os agentes seguem em contrarrelógio. O intervalo entre as mortes está a diminuir, o que significa que o ritmo do Estripador está a aumentar. Será só uma questão de tempo até aparecer outra vítima. Mas, pela primeira vez, a PJ não está completamente às escuras. E não é só por causa das impressões digitais que Alexandre Simas conseguiu preservar na cena do crime. Há uma outra pista. O facto de o primeiro crime e o terceiro terem acontecido a 250 metros de distância um do outro, indicia que o assassino pode ser da zona de Odivelas. Só há uma coisa que não se percebe: o segundo assassinato aconteceu no centro de Lisboa. Mas a PJ encontra uma explicação para isso. Fernanda foi morta no primeiro dia do ano.

Então por que é que aparece um caso em Entre Campos? Porque exatamente nessa noite não havia prostitutas na Póvoa de Santo Adrião e, portanto, o primeiro local onde existiam prostitutas, quem vem daquela zona, é exatamente Entre Campos.

Os agentes estão otimistas, até porque, para além de tudo isto, também acham que sabem o primeiro nome do Estripador de Lisboa. Quinta nova, Póvoa de Santo Adrião. O programa desportivo Grande Área está no intervalo quando um homem, morador de um dos prédios que tem vista para o armazém onde Maria João está prestes a ser assassinada, ouve gritos. Levanta-se do sofá, abre a janela, não vê nada de estranho, mas fica atento. E o que ouve é uma voz de mulher que grita: "Luís, não me faças isso!" Comenta com a mulher, mas não se dá ao trabalho de tentar perceber se na rua alguém precisa de ajuda e volta ao programa de futebol. No dia seguinte, há de ver as notícias e, por causa delas, vai procurar a PJ para contar o que ouviu. A caça a Luís está prestes a começar. Horas antes de morrer, Maria João tinha sido vista no parque de estacionamento do Pingo Doce, encostada a um carro azul, a conversar com o homem que estava lá dentro. Nesta altura, os agentes já têm o resultado da autópsia e já conhecem também a opinião da médica legista que está a acompanhar o caso desde o início. O assassino está a evoluir e tem demonstrado cada vez mais sangue-frio e conhecimento dos próprios atos. Não há tempo a perder. Sete dias depois do homicídio de Maria João, a PJ encontra o registro do carro azul, um Toyota. O proprietário é interrogado e explica que já não o tem. Vendeu-o a um carpinteiro da Póvoa de Santo Adrião, que se chama José Luís. Suspeito número três: o carpinteiro. É uma coincidência demasiado grande. Assim que saem dali, os agentes seguem para a morada do atual dono do carro. José Luís está prestes a fazer 50 anos e é um homem casado. Não nega que conhecia Maria João. Aliás, diz que era cliente dela há muito tempo e que a procurava regularmente. E sim, confirma que estiveram à conversa na noite do crime, mas diz que por volta das 22 horas já estava em casa. E tem a certeza da hora, porque quando chegou, a mulher estava a ver a telenovela "Felicidade". Fez-lhe companhia no sofá e quando o episódio acabou, foram dormir. Tinha um álibi. É um vizinho quem dá a pista para o segundo Luís, por causa de um episódio que aconteceu oito dias antes de Maria João ser assassinada. Na torre número dois da Praceta Manuel Fialho, em Santo António dos Cavaleiros, ouvem-se gritos. Amedro, alguns moradores espreitam pelos óculos das portas. Só um se atreve a sair para o patamar onde se passa a confusão. Quando o faz, vê Maria João, a vizinha do sexto B, a debater-se com dois homens. Percebe que eles têm cigarros acesos. Parece-lhe que estão a meio de uma tortura qualquer. Queimam-na e ela grita cada vez mais alto. Fogem quando o vizinho aparece, mas ele tem tempo para reconhecer um dos homens. Mora na torre ao lado. Há de explicar aos agentes da PJ: é solteiro, vive sozinho, trabalha como barman e chama-se Luís. Suspeito número quatro: o vizinho. Interrogado 17 dias depois da morte de Maria João, o segundo Luís também garante à PJ que está inocente. O que se passou naquela noite não teve nada a ver com o crime. Eram 3 am quando Luís e um amigo, o François, bateram à porta dela para ver se lhes arranjava heroína. Sabiam que quando voltava para casa, Maria João costumava trazer droga. Também vendia, para além de consumir. Mas claro que a ideia não era pagar-lhe. Queriam tentar que ela lhes oferecesse a dose. A fechadura do prédio estava estragada, portanto entraram à vontade. Depois, Luís ficou de guarda no quarto andar e François subiu até ao sexto. Ouviu o bater à porta e logo a seguir começou a confusão. Diz que Maria João se virou contra François e que quando Luís os tentou separar, se virou contra ele também. Depois, apareceu um vizinho e fugiram. Garante que não voltaram a importunar Maria João e garante também que não a viu na noite do crime. E sem provas que indiquem o contrário, os agentes não têm outra opção senão deixá-lo ir. Andam a bater às portas, a fazer um levantamento de todos os Luíses das redondezas, mas não encontram nenhum suspeito. Até que alguém lhes chama a atenção para um livro publicado oito anos antes. O título é "O Estripador de Lisboa". Suspeito número cinco: o escritor. O autor do livro tem 51 anos, é professor catedrático na Faculdade de Agronomia e escritor de policiais nas horas vagas, sob o pseudônimo Frank Gold. Na realidade, chama-se Luís. O protagonista do livro "O Estripador de Lisboa" é um jornalista que trabalha no jornal O Crime e está a cobrir os casos de um assassino que em apenas 12 dias já matou sete mulheres Vai publicar um artigo a desafiar o Estripador a encontrar-se com ele. As vítimas não são prostitutas, mas também terão sido escolhidas ao acaso, como a polícia acredita que aconteceu com o Estripador da vida real. Há uma empregada de cabeleireiro, uma funcionária de um bar, uma dama da alta sociedade, uma hospedeira, uma artista, a mulher de um jogador de futebol e uma bailarina. A primeira a morrer é Cândida, a cabeleireira. E é justamente a descrição desse crime que chama a atenção dos agentes. Diz o livro: "A última vez que alguém a viu foi à saída do autocarro, cerca da meia-noite e 20 minutos, quando se apeou junto ao parque de estacionamento de camionetas de Odivelas, no regresso a casa. Vieram a descobri-la na manhã seguinte, atirada para uma barraca abandonada depois das últimas cheias, nas traseiras de um prédio construído junto à ribeira. Faltava-lhe um seio e tinha o ventre tão retalhado que os intestinos se espalhavam pelas pernas abaixo". As semelhanças com a morte de Valentina deixam os investigadores assombrados. Por um lado, equacionam a hipótese de o próprio escritor ser o Estripador de Lisboa. Apesar de não morar na Póvoa de Santo Adrião, a editora do livro tem sede lá. Mas, por outro lado, também não põem de parte a possibilidade de o assassino ser apenas um leitor que se deixou inspirar pela história. Alexandre Simas, perito da PJ, lembra-se bem de o escritor ter sido um dos potenciais suspeitos.

Também se falou no escritor que escreveu o livro, que é anterior aos homicídios. Investigaram, mas não chegaram a conclusão nenhuma.

A verdade é que além do livro, não há nenhuma prova que o ligue ao crime. O escritor e professor nunca chega a ser interrogado, nem há qualquer menção a estas suspeitas no processo oficial da investigação. Depois da morte de Maria João, as dicas não param de chegar à PJ.

É uma bomba que estoura. A comunicação social agarra nisto, as televisões, particularmente, já havia três canais. E não largam o caso e isto mexe muito com as pessoas e todos querem colaborar e o meu vizinho do resto são esquerdo tem pinta de estripador.

Os telefones do piquete estão sempre a tocar e o mais difícil é fazer a seleção da informação, separar as pistas que podem ser mesmo relevantes das que não passam de paranoias ou efabulações. Maria João morreu há duas semanas. Mais uma vez, o telefone toca no piquete de homicídios da PJ. Do lado de lá está uma mulher em pânico, que conta todos os detalhes de como conseguiu escapar a um homem que a tentou matar. O suspeito ofereceu-se para lhe dar boleia e de repente atacou-a com um corta-papéis. Disse-lhe que se queria vingar das prostitutas. Antes de fugir, a vítima ainda conseguiu memorizar a matrícula do carro. O agente faz uma pesquisa rápida e descobre a morada do proprietário. Não tem dúvidas. O caso tem de ser investigado imediatamente. O homem vive em Odivelas, mesmo ao lado da Póvoa de Santo Adrião. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

Eles iam: "Vocês têm três casos. Realmente é difícil de investigar. Nós, em média, para identificar um indivíduo com este tipo de comportamento, precisamos de 10, 11 casos".

Nitidamente, tinha que ser alguém com perturbações mentais e fortes.

Disse que era o assassino das prostitutas. Tinha terminado a missão e que se ia embora. E desligou. E eu fiquei: "Estou, estou".

"A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, e tem banda sonora original de Mário Laginha. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.