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Este episódio contém descrições de violência que podem impressionar algumas pessoas. É perto da uma da madrugada. Maria Cândida sai da estação do Rossio e caminha sozinha por Lisboa. Sobe a Avenida da Liberdade praticamente deserta. Antes de chegar à rotunda do Marquês de Pombal, vira na direção do Largo do Rato, sobe até ao Jardim da Estrela, vira à direita para Campo de Ourique e continua a andar. Está na Rua Ferreira Borges quando repara no carro. Um Fiat Uno vermelho que a tem vindo a seguir. Lá dentro está um homem, sozinho, que abre a janela e lhe lança uma série de piropos. Cândida diz-lhe que está enganado. Não é prostituta. Está só a dar um passeio. Aliás, vai agora mesmo apanhar um táxi para casa. O homem sai do carro. Tem barba e bigode fartos e cabelo cortado em mullet, mais curto à frente e comprido atrás. Está de calças de ganga, camisa e pullover. E mede cerca de 1,70 metro, a altura que a polícia acredita que o Estripador de Lisboa tem. O homem desfaz-se em desculpas. Depois, pergunta-lhe para onde vai e oferece-se para lhe dar boleia até à Amadora. Até faz questão de abrir a porta do lado do passageiro para ela entrar. Andam uns metros quando Cândida lhe pede que abrande. A alça da mala ficou presa quando entrou no carro. Precisa de abrir a porta num instante. Ele diz-lhe que não e explica-lhe que não há problema nenhum, até porque ela nunca mais vai voltar a precisar da mala. Dá uma guinada e segue em direção à Avenida de Ceuta, em sentido contrário àquele que deviam ir. Quando ela reclama, o homem dá-lhe um violento soco no nariz. A seguir, tira uma espécie de corta-papéis do tablier e tenta esfaqueá-la. Ainda consegue acertar-lhe num braço, mas ela reage. Puxa-lhe os cabelos com tanta força que ele se vê obrigado a parar o carro. Nesse momento, Cândida tira as chaves da ignição, abre a porta e começa a correr. Quando ele está quase a apanhá-la, atira as chaves para longe. Uma manobra de diversão que lhe permite finalmente escapar e apanhar um táxi. Conseguiu fugir, mas a mala com todos os documentos ficou no Fiat Uno. Agora, o homem sabe onde ela mora. Nos jornais, todos os dias há notícias sobre crimes atribuídos ao Estripador de Lisboa. Em Camarate, uma mulher foi atacada em plena luz do dia por um homem armado com um punhal. Escapou por pouco. Várias prostitutas são dadas como desaparecidas depois de deixarem de ser vistas nos locais onde costumavam trabalhar. Às redações dos jornais começam a chegar telefonemas ameaçadores: "Procurem cadáveres nos olivais. Voltei a matar e vão morrer muitas mais". Até agora, o assassino só matou prostitutas, mas a verdade é que nada garante que o resto das mulheres de Lisboa estejam a salvo. O pânico é cada vez mais generalizado. Passam oito meses desde o primeiro crime e a PJ continua sem conseguir resolver o caso. Os agentes da secção de homicídios reconhecem que precisam de ajuda de uma polícia habituada a apanhar assassinos em série. Decidem chamar o FBI. "A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, com banda sonora original de Mário Laginha. Episódio quatro: É preciso chamar o FBI.

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O caso de Cândida não chega aos jornais, mas ajuda a provar a ideia de que qualquer mulher poderá vir a ser vítima do Estripador. Quando telefona para o piquete da PJ a apresentar queixa sobre a violência de que foi alvo na madrugada de 26 de março, faz questão de frisar várias vezes que não é prostituta. Explica que é de Braga, mas está a morar na Amadora e tem o hábito de dar passeios noturnos por Lisboa. Só isso. Mesmo assim, diz que enquanto a tentava apunhalar, o homem continuava a gritar coisas como: "Por causa de putas como tu é que o meu pai me deixou na miséria". Está muito assustada. Como deixou os documentos no carro, ele sabe onde ela mora Há dias tocaram-lhe a campainha às 5 am. Quando foi abrir, não viu ninguém, mas descobriu a mala à porta dentro de um grande envelope. Conta que tem recebido vários telefonemas, alguns ameaçadores feitos pelo próprio homem, outros da parte de uma mulher a avisar que ele tem andado a segui-la. A boa notícia é que como conseguiu apontar a matrícula do Fiat Uno, em minutos a PJ sabe tudo sobre o proprietário. Suspeito número seis: o atacante do corta-papéis. É um homem de 31 anos, casado e com duas filhas, uma de dois anos, outra de oito. Trabalha no bairro Padre Cruz e mora em Odivelas. Nesta altura, o jornalista Valdemar Pinheiro está a fazer uma espécie de investigação paralela à da PJ.

Foram muitas noites na rua, em contacto com as mulheres, que davam informações. "Esta fulana desapareceu." Na altura começou a surgir montes de informações de mulheres que eram dadas como desaparecidas, porque não apareciam nos locais habituais e, portanto, as colegas diziam: "Isto naturalmente foi o estripador e deve estar morta para qualquer lado".

Há muitas denúncias. O problema é que a maior parte delas não trazem pistas novas à investigação. A polícia está convencida de que o estripador de Lisboa mora na zona em que aconteceram dois dos crimes, Póvoa de Santo Adrião ou Odivelas. E isso faz com que o caso de Cândida seja diferente. Aqui há pelo menos um indício forte de que o denunciado possa realmente ser o estripador. Por isso mesmo, a PJ não perde tempo. No dia 30 de março, 24 horas depois da primeira chamada de Cândida para o piquete, três agentes batem à porta do suspeito. Está em casa com a família, por isso convidam-no a acompanhá-los a Gomes Freire para esclarecimento de factos que podiam, pelo menos, implicar a viatura dele. O homem parece genuinamente espantado. Diz que não costuma sair à noite, muito menos frequentar prostitutas. Questionado sobre o que fez na noite do passado dia 25, até admite que saiu com amigos para beber umas cervejas, mas garante que não se aproximou da Rua Ferreira Borges nem de Campo de Ourique. Esteve sempre na zona de Santa Marta e à 1 am já estava em casa. Aparentemente, é mais uma denúncia que não vai dar em nada, mas os agentes ainda não estão convencidos. Ao longo das semanas seguintes, Cândida vai continuar a apresentar queixa. Os telefonemas por parte do homem, a altas horas da noite, não param e são cada vez mais suspeitos. Numa das conversas, ele diz-lhe que precisa de desabafar, que está aflito e com um peso na consciência. Quando ela lhe pergunta por que motivo não se entrega à polícia, ele responde que se o fizer vão dar cabo dele. Explica que há ocasiões na vida em que um homem quer ter controle e não se consegue controlar. Diz que a mulher já está a ficar desconfiada e que não sabe mais o que fazer. Os indícios são tão fortes que no dia 23 de abril, o juiz de instrução recebe um pedido de escuta telefónica. A PJ quer ouvir as conversas que Cândida tem descrito. O agente responsável lembra as mortes de Valentina, de Fernanda e de Maria João e recorda a amplitude e complexidade das investigações. Justifica o pedido com a dificuldade de obtenção de prova e com o comportamento muito estranho do suspeito. Três dias depois arrancam as escutas. Passa-se uma semana e nada. E depois outra, e outra, e mais outra. Não há um único telefonema como os que Cândida denunciou. Aliás, não há um único telefonema feito do número do homem para o dela. No dia 1 de junho, o período de escuta acaba e a PJ não pede que seja prolongado. Não há indícios para isso. O que os agentes pedem é que as 18 cassetes que foram gravadas sejam apagadas. Não há ali nada de relevante para a investigação. Quinze dias mais tarde, Cândida vai finalmente confessar que inventou tudo. Nunca foi agredida, nunca aceitou boleia de um estranho, ele nunca lhe telefonou para casa. Tudo não passou de um embuste. O homem trabalhava com uma cunhada dela. Tinha havido um roubo na empresa e alguns colegas achavam que podia ter sido ele o responsável. Como se andava a falar muito nos crimes do estripador, Cândida achou que acusá-lo era uma boa ideia para levar a PJ a agir e resolver o roubo Os agentes nem querem acreditar. Foram enganados. Perderam quase três meses a investigar um ataque inventado. O Estripador de Lisboa não está mais perto de ser apanhado. E isso começa a tornar-se intolerável. Até no interior da própria Polícia Judiciária.

Veio o primeiro caso, veio o segundo caso, veio o terceiro caso e o diretor nacional não estava, obviamente, muito satisfeito com o assunto. Eles tiveram uma reunião dos diretores, que o meu diretor, na altura, o falecido dr. Elias da Fonseca, veio muito desanimado daquilo, isto numa sexta-feira, salvo erro. E pôs-se a hipótese de o inquérito ser transferido pra outro departamento, o que é sempre uma ofensa para todos nós.

Em 1993, José Ferreira Leite é subdiretor da PJ de Lisboa. Foi nomeado há um ano e tem apenas 38. Andou no Colégio Militar, é licenciado em Direito. Passou pela seção de investigação de assaltos a bancos e mudou-se pra Direção Central de Combate ao Banditismo, a DCCB, assim que foi fundada. Trabalhou no combate ao tráfico de droga e às burlas, passou pelo Fundo Social Europeu e teve um cargo na coordenação do combate à criminalidade econômica e financeira. Não lhe passa pela cabeça que um caso como o do Estripador de Lisboa possa ser retirado aos Homicídios. Aproveita o fim de semana e vai pra casa pensar. Na segunda-feira, apresenta uma alternativa.

Por que não tentamos montar aqui um sistema que vá um bocadinho além do clássico? Os americanos têm sempre procedimentos com o que eles chamam investigações multiagências. E foi o que nós fizemos, ou seja, o inquérito continuou. O que nós fizemos foi criar ao lado, à volta, digamos, outras estruturas.

Os agentes dos Homicídios estão habituados à intuição e à dedução. Ferreira Leite é de outra escola. E acredita que se o objetivo é alcançar resultados diferentes e apanhar de uma vez por todas o Estripador de Lisboa, vai ser preciso usar métodos diferentes.

Os sítios por onde tinha passado não davam muito pra andar com intuições. Mas nos homicídios existe muito isso, ainda hoje. A escola de homicídios da Polícia Judiciária, que teve e tem excelentes investigadores, mas é sempre baseada no princípio da ligação vítima-autor. Vai se pegando aqui, contactando, falando, à procura dessa ligação, mas às vezes pode não haver.

Estamos no final de junho de 1993. Valentina foi assassinada há praticamente um ano. Fernanda morreu há seis meses e Maria João há cerca de dois. Primeiro, é criado um grupo para centralizar e analisar as denúncias que continuam a chegar por telefone e por carta. Depois, é nomeada uma subdiretora para lidar diretamente com a comunicação social. A DCCB fica encarregue de desenhar fluxogramas e cronogramas para esquematizar e analisar a informação recolhida. E grupos de estagiários e de alunos do Instituto da Polícia Judiciária são chamados para fazer inquéritos e levantamentos porta a porta na área dos crimes.

Fomos criando assim atividades à volta com o objetivo, por um lado, de não desaproveitar nada, por outro, de não sobrecarregar quem tinha que ver suspeitos, lidar com outras prostitutas, nomeadamente no caso da Póvoa de Santo Adrião.

Só não foi criada uma linha telefônica verde, direta e gratuita para receber informações sobre o Estripador. Mas não porque Ferreira Leite não tenha tentado.

Toda gente tem medo disso, porque depois é muita coisa. Mas realmente, os ingleses é logo, automaticamente, faz parte dos procedimentos deles uma linha e recebem tudo e mais alguma coisa. Porque quando há ligação entre vítima e autor é uma coisa, quando não há, já não pode ser o método clássico.

Já não há dúvidas de que é mesmo preciso mudar. E Ferreira Leite faz questão de seguir todos os principais pontos dos manuais das polícias mais bem-sucedidas do mundo. Só fica mesmo a faltar um: pedir ajuda diretamente à polícia internacional mais habituada a lidar com assassinos em série, o FBI. Cristina Soeiro tem 25 anos, é psicóloga e trabalha há três anos como formadora no Instituto da Polícia Judiciária, mas nunca viu um morto. O que ela faz é dar aulas aos futuros agentes e inspetores. Ensina-lhes técnicas de liderança e as melhores estratégias para interrogar testemunhas de crimes ou entrevistar vítimas. Não lida com investigações em curso. O trabalho dela é a teoria, mas isso está prestes a mudar.

Na altura, nós tínhamos uma subdiretora na diretoria de Lisboa que se lembrou que havia uma psicóloga aqui e que talvez eu pudesse ajudar. E o meu diretor da escola na altura, do instituto, na altura chamava Instituto Nacional de Polícia e Ciências Criminais, telefonou-me e disse-me: "Olha, ligaram-me agora a perguntar se você estava disponível para analisar este caso, que agora está nos jornais, o Estripador de Lisboa". E eu disse: "Claro que quero". No dia seguinte eu estava dentro de um carro com agentes especiais do FBI.

Os agentes norte-americanos, três da Unidade Especial de Perfis Psicológicos do FBI, dão formação aos agentes e inspetores da PJ e têm reuniões com os responsáveis pelo caso para traçar o perfil do Estripador de Lisboa. Cristina Soeiro, que entretanto foi integrada na equipa coordenada por Ferreira Leite e até já tem uma secretária na sala número 15 do primeiro andar da Gomes Freire, está sempre com eles. Diz que passam uma semana inteira a rever casos de mulheres mortas. No final, há boas e más notícias. Primeiro as boas. Casos como os do Estripador de Lisboa são muito raros, mas na comparação com o padrão americano, o número de crimes registados em Lisboa até está muito abaixo da média.

Eles diziam: "Vocês têm três casos. Realmente é difícil de investigar. Nós em média para identificar um indivíduo com este tipo de comportamento precisamos de 10, 11 casos". E eu lembro-me do chefe da brigada dizer assim: "Bolas, eu espero que isto não nos aconteça".

E agora as más notícias. O Estripador de Lisboa não é um simples psicopata e tudo aponta para que não tencione parar de matar. Existem três tipos de homicídio múltiplo: o homicídio em massa, que acontece quando alguém mata várias pessoas no mesmo local; o homicídio por dispersão, em que as mortes acontecem não em simultâneo, mas umas após as outras e em locais diferentes; e o homicídio em série, que acontece de forma repetida, mas não seguida, usando sempre o mesmo modus operandi.

Enquanto as outras duas formas de homicídio múltiplo é: encheu a panela de pressão, descompensou e faz aquilo, e depois alguns deles até suicidam ou fazem o suicídio pela polícia, que é porem-se a jeito para serem abatidos, porque sabem que não têm retorno, os homicídios em série são pessoas completamente diferentes. Aquilo é algo que faz parte da sua vida mais oculta e podem fazer aquilo ao longo de anos.

E há mais. Como qualquer homicida em série, o mais certo é que o Estripador de Lisboa acumule várias doenças psiquiátricas graves que podem ou não estar diagnosticadas.

No homicídio múltiplo, os homicídios em série são os mais complexos do ponto de vista psicológico. Porque geralmente acumulam vários quadros clínicos graves, nomeadamente a personalidade sádica, que é o fato de eu tirar prazer de controlar o outro, de o ver sofrer. Por exemplo, ser eu a decidir quando é que mato aquela pessoa e ver o seu horror, que não sabe o que é que lhe vai acontecer. Há um tipo de homicida em série que tem estas características, chama-se poder. Ou então, podemos ter indivíduos que, além disso, também têm traços psicopáticos, que é pouca empatia, uma visão instrumental utilitária da pessoa. E alguns dos homicidas em série mais conhecidos têm também algumas questões ao nível da psicose, ou seja, têm ideias delirantes, alucinações, as vozes dizem que eu devo matar.

"Há uma grande diferença entre estrangular alguém e retalhar um corpo e retirar-lhe vários órgãos como troféus", diz José Ferreira Leite. O homem que procuram não pode, definitivamente, ser um simples homicida.

Nitidamente. Tinha que ser alguém com perturbações mentais e fortes. Retalhar um cadáver não é propriamente uma coisa que corresponda mesmo a vingança ou crime de paixão, como dizem os anglo-saxónicos. Tem que haver mais qualquer coisa para aquele resultado.

Com a transição para um sistema de investigação diferente, há egos feridos, conversas de corredor e desconfiança em relação aos novos métodos. O normal, diz Carlos Ademar Fonseca.

Por causa deste caso, houve uma série de terminologias novas que passaram a ser ouvidas no corredor e nas salas do primeiro andar, designadamente, psicologia criminal, o que é isso da psicologia criminal? Malta da velha guarda. Agora vêm estes tipos com estas coisas das psicologias criminais. Nem se sabia muito bem o que isso era e em que isso podia ajudar a investigação.

Cristina Soeiro passa dois ou três dias por semana na sede da PJ. Não tem só uma secretária, também ocupou parte da parede. Afixou um quadro onde vai ligando datas, características e pistas sobre o Estripador. Está a trabalhar no perfil do homicida em série, mas não só. Se o Estripador tem problemas psiquiátricos, é preciso ir aos hospitais, tentar perceber se têm ou tiveram pacientes que possam encaixar no comportamento do homicida. E a psicóloga vai com um intérprete. Quando também essas diligências se revelam ineficazes, a PJ e o FBI tentam outro caminho. E é aqui que começam a investigar os talhantes da região, recorda o coordenador José Ferreira Leite.

Porque as características, o que nos diziam do Instituto de Medicina Legal é que o retalhar dos cadáveres tinha sido feito por alguém com prática de utilizar facas, de cortar carne, passe a expressão.

Sob indicação do FBI, vários agentes fazem o levantamento exaustivo de todos os talhantes nas zonas dos crimes. Cruzam os nomes com registros criminais e administrativos em busca de alguma coisa que bata certo com o perfil do homicida. Quando não resulta, alargam o círculo, juntam mais algumas dezenas de nomes ao rol, mas também não há resultados. Por isso, mudam de estratégia. Decidem montar uma armadilha. O plano chama-se Operação Mala de Mão. A ideia é simples, mas a logística nem tanto. É preciso um armazém, quatro carros, 11 operacionais, equipamento de escuta, um isco e, claro, uma mala de mão. O mais complicado é encontrar o isco.

Tinha que ser um isco a sério, porque senão, só lá ia uma vez. "Então, mas agora", essa foi uma pergunta, "agora quem é a colega que se vai suscitar? Então quem é que vai agora arranjar uma colega para pôr ali? Está tudo maluco". Não, nem pensar nisso. Vamos arranjar é uma profissional.

O objetivo é montar uma cilada ao Estripador de Lisboa. Plantar uma prostituta num local estratégico na Póvoa de Santo Adrião e ficar à espera que ele apareça. A mulher vai estar permanentemente protegida. Há quatro carros a cobrir todas as saídas do armazém para onde leva os clientes. Em cada carro há dois agentes, mais outros dois dentro do armazém, numa divisão à parte. Todos conseguem ouvir tudo o que se passa a todo o instante. A mala dela vai estar equipada com um microfone que vai transmitir em direto para os rádios dos carros e para os intercomunicadores. Ao agente Carlos Ademar Fonseca cabe a coordenação e supervisão do plano e o recrutamento do isco. Não é fácil, mas uma amiga de Fernanda, a segunda vítima do estripador, acaba por alinhar. Começa a operação de espera e paciência.

Podíamos nunca apanhar o fulano, porque o fulano podia nunca mais lá aparecer.

As noites sucedem-se, umas atrás das outras, com mais ou menos clientes. Mas do Estripador de Lisboa, nem sinal. Até que ao fim de duas semanas, há finalmente ação.

Estava num dos carros e pelo rádio, o rádio sempre ligado, ouve-se uma moto a parar e: "Passa para cá a mala", eu: "Isto é um assalto, eu não acredito". Eu não acredito nisto. É um assalto. E então, os quatro carros a acelerar, a ordem para a malta arrancar toda. Em 30 segundos, não mais, estávamos ali a 100, 200 metros afastados dela. Ali em menos de 30 segundos, os quatro carros em cima dos tipos da moto, que eles ainda hoje não perceberam o que aconteceu. Saíram no dia errado para fazer um assalto.

Em vez de um homicida em série, a PJ apanha dois ladrões de ocasião e perde o isco. A amiga de Fernanda está fora. Não contem mais com ela para a Operação Mala de Mão. O telefone toca na redação do Correio da Manhã. Uma voz masculina pede para falar com Valdemar Pinheiro. Não se identifica, mas ainda assim o jornalista atende a chamada. Do lado de lá, garante a voz, fala o Estripador de Lisboa.

Pela voz aparentava andar na casa dos 40, 50 anos. Disse que era o assassino das prostitutas. Tinha terminado a missão e que se ia embora. E desligou. Eu fiquei: "Tou?". Sem resposta. Fiquei na dúvida se seria de fato o assassino ou se seria algum brincalhão. Não faço ideia.

Por esta altura, o grupo especial de investigação continua a desdobrar-se em tentativas e operações. Suspeito número sete: o marinheiro jugoslavo. Desta vez a chamada é feita para o piquete dos homicídios. Há um homem, jugoslavo, tripulante de um cargueiro, que tem um comportamento muito suspeito. Sempre que o navio para em Lisboa, ele desaparece em terra e só volta a embarcar dias depois, em cima da hora de partida É sabido que frequenta prostitutas e é um tipo rude, de difícil convivência com os colegas. Detalhe: o cargueiro em questão, tal como o marinheiro jugoslavo, estavam em Lisboa em julho de 1992 e em janeiro e março de 1993. Justamente as datas em que Valentina, Fernanda e Maria João foram assassinadas. Não há tempo a perder. O cargueiro não está atracado no porto de Lisboa, está no estuário do Tejo. Os quatro agentes sobem para a lancha da Polícia Marítima e seguem a toda a velocidade em direção ao navio.

Vamos os quatro, estão todos a tremer. Este quem é?

O comandante está à espera deles. Já sabe do que se trata. Sobem as escadas de corda até ao convés e depois ele próprio os guia até aos aposentos da tripulação. O jugoslavo é engenheiro, tem um camarote individual. Mais do que preocupado, parece intrigado com a invasão. Anda na casa dos 40 anos, é magro, alto, tem o cabelo loiro cortado rente. Encosta-se à parede ao lado do comandante enquanto os agentes lhe revistam o quarto. Estão à procura de provas, de armas ou dos troféus que o Estripador retirou às vítimas, como órgãos preservados em formol. Carlos Ademar Fonseca está a revistar a cómoda. A primeira gaveta está limpa, a segunda também. Quando abre a terceira, sente que acabou de ganhar o jackpot. Está a segundos de apanhar o Estripador de Lisboa. Finalmente, conseguiram.

Encontro uma coisa comprida, fina, com uns 2 cm ou 3 cm de largura, seca, ressequida. 30 cm, orgânica, rugosa e agarro naquilo com um ar de vitória. Está aqui um pedaço de intestino, bolas, isto não pode ser outra coisa.

Naquele instante, não consegue conter a euforia. Vira-se para o jugoslavo com a prova na mão e sorri. Não para de sorrir. Percebe que alguma coisa não está bem quando o homem lhe sorri de volta.

E o tipo olha para aquilo e ri-se ainda mais do que eu. Eu fiquei completamente desarmado. Então o que é aquilo? Era o sexo de uma tartaruga macho seco, que ele dizia que metia no copo do uísque, que era afrodisíaco.

Desde que perceberam que as três prostitutas tinham sido assassinadas pela mesma pessoa e lançaram a caça ao homem, os investigadores têm tido muito poucas certezas. Mas há pelo menos duas coisas que nunca foram postas em causa. Uma é que o Estripador de Lisboa começou a matar no fim de julho de 1992. A outra, Valentina foi a primeira vítima. Agora, até isso vai ser questionado. Quando as notícias sobre os crimes chegam à imprensa internacional, há uma velha suspeita que volta a ganhar força numa cidade a mais de 5 mil quilómetros de distância de Portugal. Se esta teoria estiver certa, isso significa que o Estripador de Lisboa já começou a matar há cinco anos e antes de Valentina, pode já ter assassinado pelo menos outras 11 mulheres. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

O ADN não estava a ser usado em Portugal para fins de investigação criminal, quando já estava a ser usado em vários países da Europa, há quatro, cinco anos.

Ou tinha falecido, ou tinha sido preso, ou tinha emigrado voluntariamente, não parava.

There's been some speculation that the killer may have moved to Portugal.

"A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, e tem banda sonora original de Mário Lajinha. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.