Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este episódio contém descrições de violência que podem impressionar algumas pessoas. O fax é enviado pela Interpol em Bruxelas, a pedido da Brigada Nacional da Polícia Judiciária belga. E não chega só à sede da PJ em Lisboa. Espanha, França, Itália, Holanda, Alemanha e Áustria recebem a mesma informação. Foi detido um homem em Hasselt, na Flandres, acusado dos crimes de violação e homicídio de uma mulher de 78 anos. A vítima foi amordaçada e amarrada com um cinto durante a noite, na casa onde vivia sozinha. Morreu sufocada com uma almofada. Antes, foi agredida de forma violenta. O assassino chama-se Robert Berden, tem 46 anos, trabalha há 25 como motorista de caminhões e é a primeira vez que está acusado de um homicídio. Mas não é a primeira vez que comete crimes violentos. Ao longo dos últimos 25 anos, tem viajado com frequência por todos os países para onde a informação do crime que cometeu está agora a ser enviada. E se essa informação está a ser enviada, é porque a PJ belga acredita que Robert Berden possa estar na origem de crimes semelhantes nesses locais. "Pode concluir-se que as suas atividades violentas e assassinas são caracterizadas por um aspecto em série. Como motorista de caminhões, desloca-se com facilidade também a nível internacional", leem os agentes no fax que acaba de chegar à seção de homicídios da Polícia Judiciária. Os elementos da PJ que investigaram as mortes de Valentina, Fernanda e Maria João reconhecem várias semelhanças entre estes crimes e os que foram cometidos pelo belga. Acendem-se todos os sinais de alerta. Será Robert Berden o Estripador de Lisboa? Estamos no início de setembro de 1998. Quase um ano antes de surgir a pista belga, o Ministério Público tinha pedido à Polícia Judiciária o relatório final sobre o processo de investigação aos crimes do Estripador. Esse despacho, assinado pela procuradora Cândida Vilar, era duro. Acusava a PJ de não fazer qualquer investigação no processo durante os últimos 19 meses e exigia que o documento fosse entregue o mais depressa possível. Em janeiro, em resposta enviada à procuradora, a PJ lembrou que nunca antes Portugal se tinha confrontado com o caso de um homicida em série. Reforçou que só com paciência e persistência a investigação podia dar resultados. Mais uma vez, assinalou que o facto das diligências não estarem transcritas no processo não significava que não estivessem a ser feitas. E não entregou relatório nenhum. Passam mais de seis anos desde o primeiro crime e o Estripador de Lisboa continua a ser o maior falhanço do departamento de homicídios, que ainda assim, se recusa a parar. Agora, a investigação acaba de receber uma nova pista. Dentro de meses, três agentes da PJ vão estar sentados frente a frente com o assassino Robert Berden. "A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, com banda sonora original de Mário Lajinha. Episódio seis: Sei quem é o Estripador de Lisboa.

Na Kia, acreditamos que o movimento inspira ideias e é a partir das histórias do passado que estamos a escrever a história do futuro. Descubra o novo Kia EV3, um SUV compacto elétrico com mais de 600 km de autonomia. Kia, movement that inspires.

Suspeito número 11: o caminhonista belga. Robert Berden mora perto da mulher que assassinou. Nas redondezas, não há quem tenha um cadastro tão longo e tão cheio de crimes de natureza sexual. Mas nem sequer é por isso que a polícia o procura. Os agentes limitam-se a seguir as pegadas que começam no jardim da vítima e terminam à porta dele. Quando é detido, ainda tem as calças de ganga sujas de sangue. Mesmo assim, nega tudo. Primeiro, garante que nunca esteve em casa da idosa. Depois muda de estratégia. Diz que nessa noite tomou um comprimido para o alcoolismo com meia garrafa de conhaque e apagou. Não sabe o que fez, nem onde esteve Só cinco dias mais tarde é que vai acabar por confessar tudo. Um dia antes de ser detido, o camionista Robert Berdan tinha acabado de voltar de mais uma viagem de trabalho, desta vez a Itália. É sábado e ele faz 46 anos. Telefona a alguns amigos e saem para beber e comemorar. Regressa a casa no início da madrugada. Depois, sai outra vez. Por volta das 2 horas, sentiu necessidade de fazer alguma coisa, diz à polícia. Garante que não tinha nada contra a vizinha, mas não nega que o ímpeto que sentiu possa estar relacionado com o suicídio do irmão, que nunca conseguiu ultrapassar. Ou com os anos de abusos sexuais sistemáticos de que diz ter sido alvo em criança por parte do padrasto e de vários tios. Alguém tinha de pagar por tudo isso. Já não era a primeira vez que descarregava nos outros os ódios e traumas que foi acumulando. Quando cometeu o primeiro delito, só tinha 14 anos. Agrediu uma idosa para lhe roubar a carteira. A partir daí, foi uma escalada de violência. Aos 23 anos, foi condenado por violação. Aos 33, encontrou um casal a pedir boleia na berma da estrada. Deu um tiro ao homem e raptou a mulher, que também violou. E aos 45, foi acusado pela própria ex-namorada de agressão, violação e tortura. Olhando para tudo isto, Berdan encaixa ponto por ponto no perfil do Estripador feito pela PJ com a ajuda do FBI. E há mais. Num dos crimes, usou o gargalo de uma garrafa partida, justamente a arma utilizada pelo Estripador de Lisboa para matar e mutilar Fernanda e Maria João. O perito em impressões digitais, Alexandre Simas, é um dos três homens da PJ enviados à Bélgica para interrogar Robert Berdan.

Havia um camionista que fez várias vezes transportes para aqui de longo curso e eu fui lá recolher as impressões digitais à minha maneira, como eu achava que podia ser.

A tese do assassino itinerante esteve desde o início em cima da mesa do grupo especial de investigação, recorda José Ferreira Leite, que era subdiretor da PJ de Lisboa.

Com mais mobilidade, a hipótese que foi posta foi alguém que viesse cá, por exemplo, um camionista, alguém que de tempos a tempos vinha aqui.

A hipótese ajudaria a explicar a forma como o homicida desapareceu sem deixar rasto uma e outra vez depois dos crimes. Num livro publicado em maio de 2024, um antigo agente do FBI afirma que o transporte rodoviário de longo curso é a profissão número um dos assassinos em série. A caminho da pequena cidade junto à fronteira com os Países Baixos, onde Robert Berdan está detido a aguardar julgamento, os investigadores da PJ têm finalmente um suspeito que encaixa nesta teoria. O interrogatório acontece em abril de 1999. Muito colaborante. É assim que o perito Alexandre Simas recorda o suspeito. Tira-lhe todas as impressões digitais e palmares para comparar com os vestígios recolhidos na terceira cena de crime. Quem sabe não é desta que encontra uma correspondência para a impressão de cinco pontos que não lhe sai da cabeça desde março de 1993. E também guarda num envelope o punhado de cabelos que Robert Berdan se prontifica a arrancar para serem feitos testes de ADN, que agora já são comuns em Portugal. A dada altura, os agentes percebem por que é que o assassino belga está a ser tão colaborante. Robert Berdan diz que tem um álibi. Quando Valentina, Fernanda e Maria João foram assassinadas, trabalhava de facto para uma empresa de transportes que fazia viagens ao estrangeiro, mas não para o sul da Europa. Diz que a primeira vez que conduziu até Portugal foi ao serviço de outra empresa, onde começou a trabalhar no fim de 1994. E mesmo assim, garante que só esteve no país vários anos mais tarde, umas três ou quatro vezes entre 1996 e 1997. Explica que só esteve na zona de Lisboa para descarregar perto dos terrenos onde estava a ser construída a Expo 98. E assegura: já recorreu várias vezes ao serviço de prostitutas, mas só na Bélgica e em Itália. Em Portugal, nunca. Quando foi preso pela polícia belga, Robert Berdan estava coberto de sangue e mesmo assim mentiu Durante cinco dias jurou que não tinha nada a ver com o crime, só depois é que confessou. Por isso, a PJ sabe que não é a pessoa mais confiável do mundo. Pode estar mais uma vez a mentir. Mas as empresas onde o homem trabalhou confirmam tudo o que ele diz. Só resta à equipa especial enviada à Bélgica regressar. À chegada, a Polícia Judiciária informa ao Ministério Público que nem sequer vai submeter as amostras capilares do suspeito à análise. Robert Berdan também não pode ser o Estripador de Lisboa. A viagem à Bélgica em abril de 1999 é a última diligência transcrita para o processo de investigação às mortes de Valentina, Fernanda e Maria João. No dia 11 de janeiro de 2002, quase 10 anos depois do primeiro homicídio e após centenas de interrogatórios ou conversas informais, o processo é finalmente enviado ao DIAP para ser arquivado. No relatório da investigação, admite-se que identificar o criminoso se tornou uma tarefa de difícil ou impossível solução. Tantos anos depois, a PJ não está nem 1 mm mais perto de descobrir quem matou as três mulheres e sente que esgotou todas as possibilidades de investigação. É o fim.

É preciso dizer que os homicídios da PJ era das áreas mais competentes, com grande sucesso em diversos casos e, portanto, naquele, a coisa não deu para mais. Não há nada a fazer.

O criminalista José Manuel Anes garante que a PJ fez tudo o que podia para apanhar o Estripador de Lisboa.

Não faltou fazer nada. Absolutamente nada. Realmente, foi uma investigação interrompida por também não haver mais outras cenas do crime, mas sobretudo também porque realmente as condições de análise foram muito más e não houve mais dados. É uma pena e é uma frustração enorme.

No dia 7 de fevereiro de 2002, o Ministério Público envia duas cartas, uma para a mãe de Valentina, outra para o pai de Maria João. Para o companheiro de Fernanda não segue correspondência. Dias depois, quando abrirem as respectivas caixas de correio, vão ficar a saber que o processo dos homicídios das filhas foi arquivado. No espaço onde deveria estar identificado o responsável pelos crimes, vão ler uma única palavra: desconhecido. 36 anos depois dos crimes, o assassino da autoestrada de New Bedford também continua a ser um desconhecido. Mas há uma diferença. O homem que assassinou 11 mulheres na cidade conhecida por ser a capital portuguesa dos Estados Unidos e que chegou a pensar-se que podia ser o Estripador de Lisboa, continua a ser ativamente procurado.

Bem, é um caso parado, mas ainda está em aberto. Os casos de homicídio estão sempre em aberto. Aqui não há prazo de prescrição para homicídios.

A jornalista Maureen Boyle, que ainda hoje acompanha o caso e mantém contato com as famílias de algumas das vítimas, acredita que mais cedo ou mais tarde, o culpado vai ser encontrado.

Recuso-me a acreditar que alguém possa sair impune de um homicídio. Recuso-me completamente. E depois há o carma, o que vai, volta. E eu acredito firmemente que o assassino será identificado. Se ele estiver morto, saberemos quem é. Se estiver vivo, será levado a julgamento.

Em Portugal é diferente. Só há três tipos de crime que não estão abrangidos pelos prazos de prescrição: crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade. O homicídio não faz parte da lista, o que significa que, mesmo que o Estripador de Lisboa seja identificado amanhã, nunca poderá ser responsabilizado pelas mortes de Valentina, Fernanda e Maria João. Em 2008, todos os crimes do Estripador de Lisboa já estavam prescritos, mas a história não acabou aqui. 1 de dezembro de 2011. Carlos Ademar Fonseca é o único inspetor responsável pelo caso do Estripador de Lisboa, que nesta altura ainda está no ativo. Todos os outros já estão aposentados. Já não está nos homicídios, saiu há seis anos. Agora é professor no Instituto da PJ. Chegou há dias a Moçambique para dar uma formação.

E às tantas recebo uma chamada da minha filha mais velha a dizer-me que prenderam o teu estripador. Prenderam o teu estripador e eu: "Prenderam o meu estripador? Como é que é possível? Olha que eu não estou lá e prenderam o estripador. Até me sinto mal".

É quinta-feira A edição online do jornal Sol está a antecipar a manchete do dia seguinte. Escreve que uma investigação jornalística permitiu finalmente resolver o caso que a Polícia Judiciária nunca conseguiu desvendar. Revela a identidade do Estripador de Lisboa, anuncia vídeos com a confissão dos crimes e explica que o homem foi detido há uma semana pela PJ. Não pelas mortes de Valentina, Fernanda e Maria João, mas por ter confessado outros crimes mais recentes. E por ter ameaçado que ia voltar a matar.

O Sol chegava a Maputo e eu comprei o Sol e realmente, quem lia aquilo: "Epá, se calhar é mesmo ele". E convenci-me mesmo. Prenderam-no mesmo, ainda bem.

Suspeito número 12: o homem da confissão. José Pedro Guedes tem 46 anos, é casado e tem três filhos. Vive em Matosinhos e está desempregado. Mas no início da década de 90 estava em Alenquer a trabalhar nas obras de construção do gasoduto. Foi nessa altura, conta ao Sol, que matou as três prostitutas. Da primeira vez, foi para a Póvoa de Santo Adrião de táxi. Da terceira, diz que apanhou uma camioneta. É um homem magro, de estatura mediana, aparentemente inofensivo, que à data dos crimes tinha 27 anos. Encaixa no perfil traçado pela psicóloga Cristina Soeiro e confessa tudo. Conta que aos dois anos foi abandonado pela mãe, que era prostituta. Ficou ao cuidado dos avós, que depois o enviaram para um colégio interno. Diz que é por isso que só mata prostitutas e que também foi por isso que as cortou na zona abdominal. Explica que esventrava as prostitutas à procura do útero, mas como não tinha conhecimentos de anatomia, nunca chegou a encontrá-lo. Diz que numa altura em que esteve emigrado na Alemanha, assassinou mais mulheres. E confessa um outro crime mais recente, o da prostituta de 18 anos, que no ano 2000 foi encontrada seminua e brutalmente assassinada numa casa em construção em Cacia, nos arredores de Aveiro. É por esse homicídio que está em prisão preventiva. Esse ainda não prescreveu. E pode valer-lhe 25 anos de cadeia. "Sei quem é o Estripador de Lisboa e ele é da minha família". Foi com esta revelação bombástica que o filho mais novo de José Guedes tentou entrar na segunda edição do reality show da TVI, "Casa dos Segredos". Pedro Joel tem 21 anos e é o único dos três irmãos ainda a morar com os pais no bairro da Biquinha, em Matosinhos. Chega a ser contactado uma ou duas vezes pela produção. Conta que a conversa dura há anos na família. O pai diz que é o Estripador de Lisboa. Os filhos metem-se com ele em almoços e jantares e a dúvida mantém-se. No final, Pedro Joel acaba por não ser escolhido para participar no programa, que arranca a meio de setembro de 2011. O problema é que o segredo já não vai poder continuar guardado. A informação chega a uma jornalista do Sol, que começa a investigar. Primeiro encontra-se com o aspirante a concorrente à Casa dos Segredos, depois com o pai dele. Ao todo, Felícia Cabrita e José Guedes ter-se-ão encontrado três vezes, sempre no mesmo café-restaurante em Matosinhos. Ele não admite apenas ser o Estripador de Lisboa. No último encontro, também empresta à jornalista os diários da altura, onde diz que escreveu sobre os crimes. Quase 20 anos depois, um jornal parece ter conseguido aquilo que a PJ nunca foi capaz de fazer. Toda a imprensa vai acompanhar a história. Toda a gente vai falar sobre o assunto. Mas a euforia não vai durar muito.

Eu quando li aquilo, disse: "Epá, descobriram o Estripador, a Felícia Cabrita". Eu fui ler a primeira entrevista e disse: "Epá, este não pode ser". Mas era tudo mentira, tudo.

Ao ler as primeiras notícias, o perito Alexandre Simas acreditou que finalmente o caso tinha sido resolvido. Mas assim que viu as reportagens seguintes, percebeu que também não podia ser José Guedes o assassino de Valentina, Fernanda e Maria João. E o mesmo aconteceu com o inspetor Carlos Ademar Fonseca. Havia demasiadas incongruências e inconsistências. A confissão não batia certo com os crimes.

Lendo tudo aquilo que o homem disse, facilmente quem conhecesse o processo chegava à conclusão que não podia ser aquele Porque ele não conhecia locais, não conhecia coisa nenhuma, baralhava tudo. Baralhava o segundo com o terceiro, com o primeiro.

O próprio José Guedes acaba por negar tudo rapidamente. Jura que foi só uma brincadeira, que disse à jornalista apenas aquilo que ela queria ouvir e que forjou os diários entre entrevistas, porque ela não parava de insistir para que lhos desse a ler. O diretor da PJ de Aveiro vai pedir ajuda ao inspetor Carlos Ademar Fonseca para analisar o processo.

Disse-lhe: "Ó doutor, isto não tem pés para andar. Não é o nosso Estripador. Na minha opinião, é essencialmente um aldrabão. Um aldrabão que depois quer ser credível. O mais possível, como qualquer aldrabão. Pode enganar algumas pessoas, mas a mim não me pode enganar. A mim não me engana".

Mesmo assim, José Guedes não vai ser libertado. A brincadeira vai custar-lhe 13 meses de prisão e uma acusação pelo crime de homicídio de Filipa, a prostituta de Cacia. Em janeiro de 2013 vai ser finalmente absolvido. Sai do tribunal com uma reprimenda do juiz por causa das despesas enormes a que o processo o obrigou. "Medite bem nisto, para se alguma vez lhe passar na cabeça querer ser famoso outra vez".

Não há crimes perfeitos. A polícia é que falha. A polícia falhou. Falhou não por incompetência, mas por falta de elementos. Ou o indivíduo morreu, ou desapareceu, ou nunca mais cometeu crimes deste género. Portanto, estamos nisto. Com muita pena minha.

Mais de 30 anos depois, Alexandre Simas continua a pensar no caso do Estripador de Lisboa quase todos os dias. Por muito que o processo tenha sido arquivado, há outros peritos e inspetores que continuam a não conseguir desligar-se por completo do assunto. Alguns, assinala o jornalista Valdemar Pinheiro, nem conseguem falar nele.

Isto foi o maior desaire de toda a história da Polícia Judiciária. Aliás, hoje em dia também poucos responsáveis ou investigadores que estiveram ligados a este caso querem falar nele. Foi uma grande frustração não terem conseguido descobrir este indivíduo.

O inspetor Carlos Ademar Fonseca é uma das exceções. Fala sobre a investigação, mas sente o peso do caso por resolver.

Puxar o fio nem sempre é fácil e aqui revelou-se que não foi fácil. Não foi mesmo possível chegarmos lá, porque não chegamos. E quando não chegamos, os casos ficam sempre a mexer conosco. Eu trabalhei quase 20 anos nos homicídios, deixei três casos por resolver. Eu investiguei e resolvi dezenas, centenas de casos. Ficaram três por resolver. E desses três eu conto-lhes as histórias todas, percebe? Quase em pormenor, porque ficaram por resolver.

"A verdade", diz José Ferreira Leite, na altura subdiretor da PJ de Lisboa, "é que os homicídios do Estripador de Lisboa continuam a ser os mais bárbaros, violentos e misteriosos da história do crime em Portugal. E isso faz com que o caso nunca acabe verdadeiramente". Três de abril de 2021. São 08h39. O telefone toca no piquete da Polícia Judiciária. É uma mulher que, depois de se identificar, diz que está na posse de informações sobre a verdadeira identidade do Estripador de Lisboa. Suspeito número 13, o amigo da pulseira. Na noite passada, viu uma reportagem sobre os crimes na televisão. Tem um amigo que na década de 90 era muito parecido com um dos retratos-robô que foram divulgados. Conta que esse amigo é do Porto, mas que na altura estava a morar em Lisboa. Andava à procura da mãe, que tinha fugido com um padre e o tinha abandonado, a ele e aos dois irmãos, quando eram pequenos. Explica que naquela altura o amigo tinha um carro pequeno. Não se recorda de que marca, só sabe que era branco ou bege, tal como o Renault 5 de que falaram na reportagem. E acrescenta que se lembra bem de algures em 1993, ele ter regressado a Matosinhos à pressa. Diz que nesse mesmo dia passou por casa dela e disse: "Tive de vir embora de Lisboa, pá. Foi uma loucura. Parecia o Hannibal. Até perdi a minha pulseira". Naquela altura, a mulher não sabia quem era Hannibal the Cannibal Lecter, o personagem de ficção representado por Anthony Hopkins no filme "Silêncio dos Inocentes", que tinha uma predileção por fígados humanos com favas e chianti Mas agora que viu a reportagem sobre os crimes, que até referia uma pulseira com iniciais encontrada junto a um dos corpos, acaba de juntar todas as peças. O amigo só pode ser o Estripador de Lisboa. Havia várias coisas na história que não batiam certo. Os retratos-robô que apareceram na reportagem não eram do Estripador de Lisboa. Eram dos homens que chegaram a ser procurados pela polícia por terem agredido prostitutas. De facto, um tinha um Renault 5 branco e o outro um bege, mas ambos foram descartados como suspeitos neste caso. Quanto à pulseira encontrada junto ao corpo no primeiro crime, a polícia investigou e concluiu que era da vítima e não do assassino. Mesmo assim, a Polícia Judiciária investiga e acrescenta a informação ao processo que tinha sido arquivado em 2002. Pede mais informações à mulher, que responde com longos e-mails em que desenvolve a teoria de que o amigo é o assassino das prostitutas. Explica que ele é baixo para homem, mas tem uma força de touro. Envia várias fotografias dele para comprovar as semelhanças com o retrato-robô. Sorridente junto a uma árvore, de óculos escuros ao volante de uma carrinha branca, sentado num sofá ao lado de um avião de aeromodelismo. Diz que se ele assassinou três prostitutas, só pode ter sido para se vingar da mãe. Uma morte por cada criança abandonada, uma por ele e as outras por cada um dos dois irmãos. No fim, vai ainda mais longe. Noutras cidades e países onde ele morou ao longo da vida, houve outras mulheres assassinadas. Não acredita em coincidências. Quem sabe não terá sido ele a cometer também esses crimes. Os crimes do Estripador de Lisboa aconteceram há 30 anos. O processo foi arquivado há 20 e há 15 anos que, por lei, ninguém pode ser criminalmente responsabilizado por eles. O homem denunciado pela amiga é chamado à PJ em janeiro de 2023. Tem 62 anos, é engenheiro civil, casado e vive em Matosinhos. Os inspetores querem fazer-lhe algumas perguntas sobre os homicídios de Valentina, Fernanda e Maria João. O homem admite que no início da década de 1990 viveu e trabalhou na zona de Lisboa, no Estoril, mas garante que nunca foi a Odivelas, que não conheceu as vítimas e que nunca frequentou prostitutas. Nega todo e qualquer envolvimento nos crimes e no final disponibiliza-se para que lhe sejam recolhidas as impressões digitais e palmares. Há anos que estes registos deixaram de ser guardados em gavetas. Agora está tudo informatizado. Nesse mesmo dia, a informação é inserida na base de dados da PJ, onde estão também as impressões recolhidas pelo perito Alexandre Simas, na Póvoa de Santo Adrião, no local onde Maria João foi assassinada. A pesquisa demora alguns segundos e o resultado não deixa margem para dúvidas. Não há correspondência. O ex-namorado de Valentina, o condutor do Renault 5, o carpinteiro, o vizinho, o escritor, o atacante do corta-papéis, o marinheiro jugoslavo, o serial killer americano, o médico, o assassino alemão, o camionista belga, o homem da confissão e o amigo da pulseira. Ao longo de mais de 30 anos, a PJ investigou muitos homens, mas o Estripador de Lisboa continuou à solta. Ninguém sabe onde. O caso não marcou só os investigadores da Polícia Judiciária. O jornalista Valdemar Pinheiro andou anos a escrever sobre a história. Procurou pistas, passou várias madrugadas a falar com prostitutas. Tentou deslindar o mistério. Em 1993, recebeu uma chamada de alguém que se identificou como o autor dos crimes. Na altura, o homem ligou para a redação do Correio da Manhã. Disse apenas que tinha terminado a missão dele e que se ia embora. Passaram muitos anos, mas o jornalista continua à espera de outro telefonema.

A ser vivo, não sabemos, ninguém sabe se está morto, se está vivo, já não perde nada em revelar-se e, a estar vivo, dizer: "Fui eu". Ninguém lhe pode fazer mal, os crimes prescreveram. Deixo aqui este repto ao Estripador: assuma, porque já não lhe acontece nada.

"A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, e tem banda sonora original de Mário Lajinha. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A voz da jornalista Maureen Boyle é dobrada por Inês André Figueiredo. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.