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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Os cookies vão acabar? O que faz o Monstro das Bolachas da Rua Sésamo num episódio da história do dia? Chora o fim das bolachinhas. E é uma excelente forma de ir direto ao tema de hoje, o pré-anunciado fim das cookies na internet. A indústria está a dar passos nesse sentido, mas será que isto significa que a nossa privacidade online vai aumentar? Vou conversar com Cátia Rocha, jornalista do Observador, especialista em tecnologia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia, ao episódio da história do dia, com a abertura talvez mais peculiar em mais de 300 episódios.
Mas eu acho que neste caso era necessário, diria até obrigatório. Se bem que numa das últimas vezes que cá vim, ouvimos Bad Bunny para falar sobre o ChatGPT.
Exatamente, acho que há aqui um padrão cada vez que a Cátia Rocha vem à história do dia. Infelizmente, não temos bolachinhas para a conversa, até porque não ia soar bem se estivéssemos aqui a comer bolachinhas, mas podemos dizer a palavra bolachinhas e podemos começar por explicar o que são, afinal, os cookies.
Basicamente, são um ficheiro que é guardado no navegador quando abrimos, por exemplo, um site, e por navegador estamos a falar dos principais do mercado, um Chrome, Safari, o Firefox, e são registados dados, neste caso, idealmente dos clientes e da pessoa que está a navegar. É uma das bases da indústria da publicidade online, que é para tu conseguir estabelecer uma relação entre os comportamentos, neste caso, dos clientes, que é quem se quer obter.
Dados pessoais, se é homem, se é mulher, que idade tem.
Sim, ou por exemplo, se entras num site de uma loja de roupas, imagina que pesquisaste um vestido verde. No teu caso, não pesquisarias um vestido verde, estou eu a assumir. Mas é basicamente tirar essa informação e fazer corresponder àquela pessoa aquilo que, neste caso, a indústria considera que seja um interesse dessa pessoa.
E que é por isso, quando fazemos uma pesquisa por vestido verde, depois nos aparecem uma série de anúncios sobre vestidos verdes.
E nem sequer da mesma loja.
Exatamente.
É por isso que o utilizador tem um bocadinho a sensação de que está a ser perseguido pela internet, independentemente daquilo que esteja a ver.
E quando entramos num site, lá aparece a pergunta se aceitamos ou não os cookies, se queremos escolher. A ideia que tenho, não sei se será assim, Cátia, é que a maioria carrega em aceitar, sem pensar.
E é uma coisa que devido a uma regra europeia, agora todos os sites têm de indicar que estão a utilizar cookies e a transmitir essa ideia ao cliente ou utilizador. E já percebemos muito pela lógica dos termos e condições, que é algo que as pessoas nem sempre leem ou que não têm sequer paciência para ler. E dependendo muito do site, há quem tenha opções de cookies que são mais exigentes ou que demoram mais tempo a configurar e, portanto, há utilizadores que desistem e carregam em aceitar tudo, porque é mais fácil. Mas quem tiver paciência pode fazer as escolhas, até para tentar não deixar tantas migalhas, já que estamos a falar de bolachas online.
Já agora, diz-nos lá de onde é que veio este termo, cookies.
Não há bem uma ideia fixa sobre isto. Sabe-se que os cookies foram inventados ainda nos anos 90, muito para conseguir tornar os sites numa experiência viável e que as empresas que na altura estavam a dar os primeiros passos na internet conseguissem ser empresas viáveis e tirar partido e ganhar dinheiro. É um bocadinho essa a lógica. Mas a teoria é que se chama cookies porque pode estar mesmo ligado a esta ideia de migalhas de informação.
Que vamos deixando. E os cookies, e tu estavas a falar nisso, há aqui um lado positivo disto, penso eu. Porque podem ser muito úteis, sobretudo para as empresas, para os criadores de conteúdos, para quem tem um comércio online, porque isto ajuda a conhecer ao pormenor o cliente e o utilizador daquele site. Isto apesar de tudo tem um lado positivo, porque pode tornar o site e aquele negócio mais eficaz.
Exatamente, são úteis para muitas empresas e há todo um ecossistema que depende destas bolachinhas, que é essa a questão que estamos a falar, como é que uma mudança de repente pode mudar completamente o paradigma da indústria da publicidade online. E sim, a grande lógica dos cookies é tu conseguires estabelecer uma relação com o teu cliente e, em teoria, melhorar a experiência do cliente quando volta a visitar o site. Já há uma relação, já sabes quem é aquela pessoa, é principalmente essa a ideia. Mas a ideia que enquanto consumidores nós temos é uma ideia já de intrusão, é uma coisa que está demasiado presente, se calhar.
Mas Cátia, há diferentes tipos de cookies ou são todos iguais?
Quem tem paciência para ler as políticas de cookies e os avisos, percebe rapidamente que há muitos tipos diferentes. Existem os cookies de analítica, que é para quem está do lado, neste caso, anunciantes ou um publisher, conseguir perceber quem é que está a ver o que e em que é que as pessoas têm mais interesse. Outros são funcionais, por exemplo, quando alguém entra num site, o site conseguir lembrar-se que a pessoa A que iniciou sessão no dia X e manter esta ideia de utilidade para a pessoa não estar sempre a introduzir os mesmos dados. Mas neste caso, a distinção mais relevante para este plano de despedida dos cookies, vamos chamar assim, é mesmo a ideia dos cookies de terceiros. Ou seja, a informação que o site A consegue obter de um utilizador, mesmo que a interação esteja a ser feita com o site B. Há ainda os cookies first party, ou seja, que são recolhidos mesmo durante a interação direta entre um cliente e um site.
Mas isso quer dizer que uma pessoa pode estar a consultar um site e a informação que está a dar àquele site vai para outro, vai para outra empresa, é isso?
Exato. É por isso que voltando ao exemplo-
Acho que nunca desliguei essa opção.
Voltando ao exemplo do vestido verde, podes pesquisar numa determinada loja, mas o anúncio que te aparece a seguir nem sempre é da mesma loja. Pode ser de outra loja, mas ser algo semelhante ao que procuraste da primeira vez.
E se agora aos ouvintes da História do Dia começarem a aparecer anúncios de bolachinhas e vestidos verdes, a culpa não é nossa, a culpa é mesmo dos cookies, não é? Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Rocha. Vamos então procurar perceber porque está aqui no horizonte o fim dos cookies e se isso significa que vamos ter mais privacidade online.
Em 1980, um avião da TAP com 83 passageiros a bordo é desviado para Madrid.
Entrou por ali dentro e apontou-nos a arma.
Mas o sequestrador, que tem uma arma carregada apontada aos pilotos, não é um pirata do ar comum. Chama-se Rui, vive no Feijó e só tem 16 anos.
Levo uma pistola, que o meu pai tem. "Então mas está lá pistola?" Ele de facto mostrou-nos a pistola.
Este é o Piratinha do Ar, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e a banda sonora original é de David Fonseca. Pode acompanhar todas as semanas no site do Observador, nas plataformas de podcast e no YouTube. Um novo episódio a cada terça-feira.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
Voltamos à conversa com a jornalista Cátia Rocha, especialista em tecnologia. Cátia, afinal, quem é que quer reduzir as migalhas que vamos deixando por aí?
Na verdade, muita gente, até porque já temos que ter em conta que há uma percepção e uma compreensão por parte do cliente em relação aos termos da privacidade, que é completamente diferente do que era quando os cookies foram criados.
Sim, sem dúvida.
Até por 1500 coisas que já vimos acontecer, por exemplo, os casos do Facebook, Cambridge Analytica, tudo isso. E há muita ideia de que os consumidores sentem-se quase como perseguidos.
Vigiados, não é?
Vigiados, exatamente. E a indústria também tem de responder a esta mudança nas vontades dos utilizadores.
E a Google quer acabar com os cookies, é isso?
A Google quer descontinuar os cookies de terceiros.
Descontinuar, gosto. Gosto da tua escolha de falar.
Descontinuar os cookies de terceiros no navegador, neste caso no Chrome, e também no Android, que é o sistema operativo móvel criado pela Google. Mas não é a única. Também o Safari da Apple ou o Firefox também já deixaram ou já bloquearam os cookies de terceiros.
Já bloquearam?
Exatamente.
Mas qual é o calendário? No fundo, qual é o calendário para este termo, achei muito curioso, cookie apocalipse?
Exato. Há que ter em conta que este plano da Google não pode ser feito de forma tão rápida como é o de outras empresas, porque além de ser a Google, que é uma gigante de pesquisa e também que domina na publicidade online, há aqui muitas empresas, como já falamos há bocado, que dependem destes cookies. E portanto, é preciso criar aqui não só uma alternativa que seja capaz de responder ou substituir os cookies de terceiros, mas que também consiga não desestabilizar por completo a indústria. E neste caso, não desestabilizar também aquele que é um dos principais negócios da Google.
Mas isso quer dizer que estão a ser desenvolvidas alternativas ou não? Imagino que, como estavas a dizer, muitas empresas, sobretudo comércio online, não gostem muito desta ideia.
Está a ser desenvolvida uma alternativa num projeto que se chama Privacy Sandbox, que neste caso pertence à Google e que tem diferentes etapas para não ser uma mudança súbita. E também para a indústria se habituar à ideia de que tem de deixar de depender dos cookies de terceiros. Neste caso, a principal data a reter é que no primeiro trimestre de 2024 vão ser descontinuados os cookies de terceiros para 1% dos utilizadores do navegador Chrome.
Só 1%?
Só 1%, mas se pensares que as estimativas apontam para que o Chrome seja usado por 2,65 mil milhões de utilizadores, 1%...
São números gigantes.
Exatamente. 1%, estamos a falar de milhões de pessoas. E por que vai ser 1%? A ideia é começar com um teste pequeno Pequeno entre aspas, obviamente. Pequeno para os anunciantes perceberem como o mercado responde, não só a esta solução alternativa aos cookies, mas também como os utilizadores respondem.
Mas isto é uma genuína preocupação com a privacidade dos utilizadores?
A ideia é que, neste momento, com estas tecnologias que estão a ser desenvolvidas, não seja possível ter tanta informação sobre o cliente. A ideia é que tu percebas o que a pessoa está à procura, neste caso, os tópicos de interesse desta pessoa, que é para a experiência continuar a ser relevante para o cliente, mas também há a percepção de que não é preciso ter tanta informação sobre o que as pessoas estão a fazer.
Porque as pessoas conseguem aceder a localizações, o sexo, a idade, o peso.
Dependendo sempre daquilo que o utilizador aceita na política de cookies.
No fim das contas, Cátia, vamos ou não ter mais privacidade online num curto, médio prazo?
Isto promete ser uma mudança grande e vai ser feita de forma gradual, mas o objectivo é que sim. Pelo menos é isso que a Google e outras empresas dizem. O objectivo é que seja uma experiência que tenha em conta a privacidade das pessoas e que possa também tornar o ecossistema digital um pouco mais sustentável desse ponto de vista e menos intrusivo para as pessoas. Mas só o tempo é que vai dizer como é que o mercado reage e como é que os próprios utilizadores reagem a esta mudança. E há aqui outra questão também importante de se ter em conta. Além dos cookies, já se inventaram outras formas de ter informação sobre o utilizador, que são consideradas mais intrusivas, tem um nome que se chama fingerprinting.
No fundo, a impressão digital. Retirar as impressões digitais.
E que é mais difícil de perceber quando é que está a ser utilizada e também eliminar esse rasto, porque as cookies podem ser apagadas dos navegadores. Os utilizadores têm essa escolha, mas é algo que as pessoas não estão a fazer gradualmente.
Realmente só se faz quando o computador está cheio, não é?
Sim, não é algo que as pessoas façam porque lhes apetece ou uma definição que já esteja instalada por defeito. A ideia aqui vai ser perceber o que é que vai acontecer nos próximos tempos. Para já, temos um calendário. Resta saber como é que toda esta indústria vai responder. E a Google também diz que está a aceitar comentários e vai ter em conta tudo o que acontece durante estes testes para perceber como é que esta solução se vai desenvolver.
Obrigado, Cátia. Queres uma bolachinha?
Por acaso, sim.
Cátia Rocha é jornalista do Observador, é especialista em tecnologia. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos na abertura é de uma canção da Rua Sésamo, "Adeus, Adeus, Bolachinha", a versão portuguesa da série de televisão. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.