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Esta é a história do dia da "Rádio Observador". As exigências dos ativistas do clima fazem algum sentido?
As nossas emissões, fazendo o nosso contributo, estando à altura daquilo que são os nossos compromissos. Por outro lado Desculpe. Sem futuro não há paz! Sem futuro não há paz!
Aconteceu na terça-feira. O Ministro do Ambiente tinha começado a falar numa conferência sobre transição energética, quando foi atingido no rosto e no peito por ovos cheios de tinta verde.
Não vamos ser nós a pagar o preço mais alto.
Um dia depois, à porta de um evento sobre aviação, ativistas climáticos despejaram um extintor cheio de tinta vermelha.
Nesta conferência estão os maiores criminosos do século XXI.
Os dois momentos motivaram uma enorme atenção mediática, que é, afinal, um dos objetivos deste tipo de protestos. Mas motivaram também muitas críticas, acabando por reduzir as manifestações à forma muito mais do que ao conteúdo. Que eficácia têm, afinal, estes protestos? Alertam para o problema ou afastam cada vez mais pessoas do debate? E as exigências que fazem são possíveis de cumprir? Vou conversar com o ambientalista Francisco Ferreira, que é um dos nomes mais conhecidos da ciência climática em Portugal, fundador e presidente da Associação Zero. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia. Bem-vindo, Francisco Ferreira.
Olá.
Na terça-feira, depois do ataque com tinta verde ao Ministro do Ambiente, uma das ativistas falava em duas exigências: eletricidade 100% renovável e acessível até 2025 e o fim dos combustíveis fósseis até 2030. Isto é exequível, Francisco Ferreira?
Não é. Sendo eu um universitário, dou aulas, faço trabalhos, faço investigação com ligação a estas temáticas do clima, seria completamente desonesto da minha parte se dissesse que sim, é possível, é exequível, porque realmente nós não conseguimos nem técnica, nem politicamente chegar a estas metas.
O que seria preciso pra isso acontecer?
No caso de eletricidade 100% renovável em 2025, nós precisávamos baixar imenso o seu consumo, era uma das hipóteses. E o que é facto é que nós, também à custa da própria transição energética, estamos a passar dos combustíveis fósseis para a eletricidade nos autocarros, nos veículos. Muita dessa transição passa por uma eletrificação e, portanto, nós estamos a aumentar o consumo de eletricidade, mas é bom sempre lembrar que o ideal é também termos medidas de eficiência pra esse aumento ser tão restrito quanto possível, e precisávamos de fontes de energia renovável e de uma rede elétrica que nos permitisse atingir esses 100%.
Quantos anos é que serão precisos pra isso?
O governo tem uma meta que não deixa de ser ambiciosa, que é 80% em 2026. E nós temos aqui que cozinhar critérios de sustentabilidade, porque a pressa também pode ser inimiga de outros aspectos que estão fora da descarbonização. Ou seja, eu tenho que acelerar o licenciamento de muitas das instalações de solar, de eólico e outras, mas eu não posso ter ultrapassagens que ponham em causa a paisagem, o território. Eu preciso de um sistema elétrico que tem que aguentar com todas estas renováveis, atingir 80% em 2026, atingir 90% em 2030 e, idealmente, até 100% em 2030, como o Presidente da República até disse agora recentemente nas Nações Unidas, é um desafio muito grande e que é ótimo nós termos essa visão, mas precisamos de um bocadinho mais de tempo. E nem estamos a pedir muito. Acabar com os combustíveis fósseis em 2030, nós não conseguimos até do próprio ponto de vista social. E, portanto, nós precisamos de mensagens que também credibilizem esta informação. É certo que, se calhar, nós vamos ter realmente que ir mais depressa e, se calhar, nós vamos ter que reduzir mais do que neste momento pensamos, porque as alterações climáticas estão a ir muito mais depressa do que os próprios cientistas pensavam.
Do que se pensava também.
Portanto, quando nós começarmos a ter ondas de calor muito mais dramáticas, quando as consequências começarem a ser brutais, se calhar nós vamos ter mesmo que ter uma emergência ainda mais emergente.
Os objetivos têm que ser exequíveis.
Exato. Na contabilização entre aquilo que pode ser uma enorme revolução, uma emergência quase imediata, como tivemos na Covid-19, e aquilo que é manter a sociedade à escala mundial a funcionar, tem que haver Há questões que têm que ser contempladas e o fim dos combustíveis fósseis em 2030, não sei se a exigência é à escala mundial, se é para Portugal, não é social e economicamente viável. E eu sei que nestas alturas vale sempre pôr a fasquia mais alta pra nós chegarmos lá perto, mas também se a pomos demasiado alta, esse objetivo deixa de ser credível.
Este protesto tinha como alvo o ministro do Ambiente, por estar sentado num evento apoiado pela Galp e pela EDP. As grandes empresas energéticas não são também das que mais têm trabalhado na transição energética e no investimento na energia verde?
Não queria estar aqui a diferenciar empresas, mas eu acho que temos bons casos e maus casos. A Galp tem dois terços dos seus investimentos em extração e em refinação de combustíveis fósseis, portanto, é difícil dizer: "Sim, é louvável". Também aí temos que ser honestos. Acho que posso ser mais honesto com a EDP, as duas grandes empresas por trás do evento, quando têm um compromisso para 2030 e pode-se dizer: "Bem, então e Portugal? Portugal vai deixar de ter combustíveis fósseis na produção de eletricidade?" Bem, a Lei do Clima diz-nos que esse fim é permitido, digamos assim, até 2040. E, portanto, eu acho que aqui também temos tido diferentes respostas. E os próprios cidadãos, atenção, quando nós estamos a aumentar o consumo de gasóleo e de gasolina, que se traduz em mais 6,2% de emissões de dióxido de carbono pra atmosfera, entre 2019, pré-pandemia, e agora, 2023. Isto também não é só não termos transporte público, que deveríamos ter, e bons serviços de mobilidade, é também nós não estarmos a dar a prioridade devida.
Num novo protesto, já esta quarta-feira, durante um evento relacionado com a aviação, ativistas de um grupo semelhante pediam que fossem banidos todos os jatos privados e que fosse reduzida toda a aviação, proibindo a construção de novos aeroportos, limitando voos, investindo na ferrovia, garantindo que esta transição seja paga pela indústria da aviação. Isto também lhe parece que pode acontecer?
A questão dos jatos privados é extremamente pertinente. Mas começamos pela aviação. A aviação não paga impostos. Eu, no meu gasóleo e na minha gasolina, pago ISP, imposto sobre os produtos petrolíferos, pago IVA, pago taxa de carbono, e mesmo assim até estou a ser subsidiado. Na aviação, eu tenho, para os voos europeus, 15% das emissões a fazerem parte do chamado mercado europeu de licenças de emissão. É muito pouco. Aliás, a própria Europa reconhece que isto é uma borla para a aviação. Portanto, os jatos privados, em que a pegada é brutal por cada viagem que seja feita, é evidente que são um alvo que tem todo o sentido, eu não sei como é que alguém pode viver bem com a consciência de usar, a não ser por razões de emergência, a não ser por razões muitíssimo bem justificadas, nas suas viagens do dia a dia, um jato privado. E quando eu tenho a aviação comercial com pegadas maiores, se eu for em classes mais confortáveis, etc, mas mesmo assim ficam a uma distância enorme da pegada se usar um jato privado. Agora, a aviação, que representa cerca de 4% das emissões à escala europeia, realmente, o grande problema é que está a crescer exponencialmente. E os 4% é quando eu contabilizo os chamados efeitos dióxido de carbono. Mas eu tenho efeitos não dióxido de carbono, ou seja, outros efeitos na atmosfera em termos de aumento da retenção do calor e, portanto, do aquecimento global, que se entrarem nestas contas, a percentagem é muito mais significativa, nomeadamente aquelas riscas nos céus que nós acabamos por ver e que são, portanto, pequenas gotículas que acabam por absorver mais a radiação solar e aumentar o aquecimento. Ora bem, o que é facto é que aqui também nós temos que ser razoáveis nas exigências. E as exigências, a Europa, por exemplo, para os voos intra-europeus, é que eu daqui a dois, três anos, pago por toda a emissão de CO₂. Mas isso não é suficiente. Para além de eu ter os custos verdadeiros do impacto da aviação, de eu não estar a subsidiar os combustíveis fósseis para a aviação, eu preciso realmente de ter políticas também. Por exemplo, pra sair de Lisboa e ir pra Madrid, que é o número de voos e o número de passageiros maior que tem a partir do Aeroporto de Lisboa, e não ter que estar a mudar de comboio e a viagem demorar 11 horas. Portanto, há aqui realmente que ser razoável no viajar menos de avião, do encontrar alternativas e realmente de penalizar os piores casos. Se isso transparece numa frase simples e acusando, no fundo, as companhias aéreas de criminosas Penso que, mais uma vez, é esticar ou estender, se calhar um pouco demais, uma mensagem importante, justificada, mas que não sei se depois é descodificada, como eu estou aqui um pouco a procurar fazer.
Já voltamos à conversa com o ambientalista Francisco Ferreira. Vamos olhar pra forma como estas exigências têm sido feitas e o risco de afastarem mais pessoas das preocupações com o clima. Estamos de volta à conversa com o ambientalista e presidente da Zero, Francisco Ferreira. Quando há uns anos era um jovem, ainda mais novo, associado a movimentos climáticos, o que era pra si um protesto radical?
Eu estive envolvido em muitos protestos radicais, que incluíram, por exemplo, bloquear o acesso de um navio com madeira tropical em Leixões, ou pôr um cartaz da Ponte 25 de Abril, desde lá de cima até cá abaixo, ou ainda impedir um navio de atracar em Lisboa. Portanto, esses eram protestos de grande magnitude, diria eu, ligados a questões como os oceanos ou as florestas. E sem dúvida que era algo que na altura não fazíamos sozinhos. Tínhamos que fazer todo um trabalho com outras organizações internacionais e, neste caso, estava em jogo a Greenpeace.
E qual era o grande objetivo desses protestos na altura? Chamar a atenção pro problema, provocar uma mudança? Qual era o foco daquilo que faziam?
Eu diria que tudo isso fazia parte dos objetivos. Quando nós mostrávamos, porque havia dados suficientemente rigorosos para esse alerta, de que madeira tropical vinda, salvo erro, do Congo, na altura, e que estava a ser descarregada em Portugal, em Leixões, e depois também iria continuar a ser descarregada noutros portos da Europa, era efetivamente um alerta para as questões da floresta tropical, a forma como ela estava a ser destruída e a falta da parte das empresas, neste caso em Portugal, de verificação e a conivência que havia com este mercado, que estava a pôr em causa um valor essencial em termos de biodiversidade. No caso dos oceanos, por exemplo, foi a quando da Expo 98, e aí, obviamente, era um alerta com outro sentido, acima de tudo para chamar a atenção daquilo que era o estado dos oceanos e para a necessidade de quem viesse a Lisboa nessa altura, não apenas visitar a exposição, mas ir mais longe na ação.
Como é que olha agora para os movimentos atuais e estes protestos mais midiáticos e um pouquinho mais extremos a que temos assistido?
Eu penso que do ponto de vista do movimento ambientalista e também de diferentes movimentos associados às camadas mais jovens, é bom nós termos diversidade. Eu ficaria muito triste se todas as associações fossem iguais a zero e que tivessem um determinado tipo de conduta, de abordagem, de ação e de alerta. É bom nós termos quem atue, por exemplo, do ponto de vista jurídico, como ainda hoje vimos através da ação dos seis jovens portugueses no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Mas, ao mesmo tempo, nós nesta ação mais extrema de alerta, aquilo que é importante é balancearmos o que deve ser o conteúdo e a forma. E além disso, a perceção também da população sobre o alerta que está em causa. Ou seja, se nós olharmos para um conjunto de movimentos noutros locais do mundo, o que é facto é que muitos repensaram este tipo de atividades porque elas estavam a ser contraproducentes. Outros, sem dúvida, que as têm continuado, mas talvez de uma forma diferente. Em Portugal, nós também já tivemos este tipo de ações, não é nada de novo. Aquilo que realmente eu acho marcante é, em primeiro lugar, são ações que para muitas pessoas constituem atos já violentos e que vão pra além do aceitável, mas ainda pior, pra mim, é nós não explicarmos devidamente, porque têm que ser palavras de ordem rápidas, porque mesmo nas entrevistas há uma simplificação da realidade, não explicarmos o que está em jogo nestes dois dias.
E porque às vezes também se erra o alvo?
Eu acho que os alvos, neste caso, até eu penso que sim.
Não falo destes dois dias de protestos, mas às vezes parece que há protestos menos bem preparados.
É verdade. Mesmo os protestos que ocorreram em museus, por exemplo, é preciso dar uma volta grande para se perceber a relação com as alterações climáticas.
Com a sopa atirada a quadros, a pintura.
Exato. Mas, por exemplo, nestes, vamos a factos objetivos. Ontem era uma ação apoiada pela Galp, cuja refinaria de Sines é a instalação que mais dióxido de carbono emite em Portugal. A EDP utiliza ainda muito os combustíveis fósseis, apesar de prometer que em 2030 irá apenas ser uma empresa baseada em renováveis. E o governo, o ministro, o que é facto é que nós temos muitas políticas e medidas que estão longe daquilo que é necessário da parte do governo, máxime porque, feitas as contas, as nossas emissões estão a subir e não a descer. Portanto, há aqui essa necessidade de explicar melhor, ainda hoje na aviação.
Mas o facto de os alvos aí poderem eventualmente estar corretos justifica o tipo de ação?
Para nós é uma ação já excessiva e exagerada, e que eu acho que é simultaneamente justificada, obriga-nos a esta reflexão, a esta discussão nestes últimos dois dias. É essa discussão que tem sido feita, mas temos estado a discutir a forma e não o conteúdo. E eu percebo que nós, em termos de objetivos, estejamos na mesma linha dos grupos, das pessoas, dos jovens que estão a fazer estas ações, mas o que é facto é que quando nós olhamos para a realidade, ela é impossível, e nós temos que combinar a emergência climática com toda uma mudança do ponto de vista das políticas e medidas, que é essencial para conseguirmos concretizar uma aceleração da política climática em Portugal e no mundo.
Obrigada, Francisco Ferreira.
Obrigado também pela oportunidade.
Francisco Ferreira é ambientalista e um dos nomes mais conhecidos da ciência climática em Portugal. Fundou e é, nesta altura, presidente da Associação Zero. Esta foi a história do dia. O episódio de hoje teve a colaboração do jornalista Vasco Maldonado Correia. A sonoplastia é de Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.