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Esta é a história do dia da Rádio Observador: as histórias de vida que a tempestade levou.

Estávamos os três juntinhos a conversar e, de repente, não se consegue explicar, houve um estrondo. Como não estava inconsciente, eu consigo acordar o Fernando, mas não consegui acordar o Ricardo, porque o Ricardo já estava morto.

O Ricardo é um dos 15. Quinze, foi esse o número que ouvimos durante dias. O número que era atualizado diariamente, que era repetido em inúmeras reportagens de telejornal. Quinze mortos. As tempestades sucediam-se umas às outras e com elas o vento, a chuva e a destruição, e o número de mortos ia subindo até que, a certa altura, deixamos de pensar em nomes. Ficou o número.

Não conseguirem salvar um filho é das coisas piores que algum pai alguma vez pode ter.

Esta é a voz do pai do Ricardo, o Ricardo que morreu ao lado do pai. Ele era um dos 15 que, antes de ser número, foi uma vida inteira, com sonhos, com planos, com desilusões e com uma coleção de histórias que merecem ser contadas. É isso que vamos fazer hoje nesta conversa com o Pedro Jorge Castro, diretor-adjunto do Observador. Ele escreveu sobre cada uma destas 15 vidas, deu-lhes nome, deu-lhes corpo e, de certa forma, resgatou-lhes aquela dimensão que se perde quando passamos a ser apenas um número. Eu sou o Pedro Ben vides, e esta é a história do dia de sexta-feira, 27 de fevereiro. Olá, Pedro. Há uma passagem aqui no teu artigo, que está no Observador, sobre as histórias inesquecíveis de 15 vidas, e que diz isto, para explicar o que é este artigo: "Nós sabemos como morreram, vamos desvendar como viveram." Portanto, o que tu quiseste aqui foi dar vida, de facto, a quem morreu, a quem não era mais do que um número.

É, porque há instantes falava-se, quase uma contagem. Morreram 15 pessoas, morreram 17 pessoas, 18 pessoas, e já ninguém sabia muito bem, primeiro, o número exato e depois que pessoas eram estas. E de facto, cada uma destas pessoas tem uma história que merece ser individualizada, contada. Cada uma destas pessoas não escolheu ser protagonista da história, mas merece uma homenagem, um obituário, a retratar aquilo que fizeram na sua vida, os feitos da sua vida. E foi isso que tentei fazer. De facto, é a melhor forma, pareceu-me, de tentar combater uma certa insensibilidade que poderia haver.

Alguma anestesia, à medida que a notícia-

As pessoas são mais do que um número. Cada uma destas pessoas tem a sua história de vida. Tentei fazer isso, ao mesmo tempo, sem perturbar o luto dos familiares, natural.

É isso que eu ia perguntar, se foi fácil, se as pessoas queriam falar dos seus mortos ou se tiveste ali momentos mais difíceis, se o acesso não foi assim tão fácil. Como é que foi isso?

Houve um bocadinho de tudo, sendo que eu era o primeiro a compreender que as pessoas não quisessem falar. Eu, nas abordagens que fazia às várias pessoas, dizia logo, antes de elas dizerem fosse o que fosse, que eu compreendia que não quisessem falar e respeitaria isso, porque havia este equilíbrio entre tentar respeitar o luto, claro, não faria sentido perturbar as pessoas num momento destes, mas ao mesmo tempo, não deixar as pessoas de fora. No fundo, senti o dever de informar as pessoas que estava a preparar este trabalho e que gostava, se possível, de contar com a colaboração delas ou com alguém que tivesse conhecido bem as vítimas. Houve todo o tipo de reações. Claro, toda a gente muito dorida, mas houve pessoas que perceberam a intenção e colaboraram e até se sentiram, de alguma forma, a homenagear as pessoas que tinham morrido, e houve pessoas que não quiseram de todo falar. Houve uma viúva que me disse uma frase que ainda ecoa aqui, que é: "Acho isso muito interessante, senhor, fazer esse trabalho, mas não é isso que vai trazer o meu marido de volta." E, de facto, perante isto, é verdade, não é isto que vai trazer o marido de volta. Tem-se falado muito de indemnizações, reparações, mas estamos a falar, sobretudo, de coisas materiais, de estragos de empresas, em telhados. Não há, de facto, artigo nenhum que possa trazer a vida de volta, nisso a senhora tem razão.

E tu conseguiste, apesar de tudo, reunir aqui estas 15 histórias, que chamaste histórias inesquecíveis. Claro que quando escrevemos um artigo e quando lhe pomos um título, é um título que convida as pessoas a ler, mas tu conseguiste encontrar o inesquecível na vida destas pessoas.

Eu creio que na maior parte das pessoas, sim, surpreendi-me até com isso, com a quantidade de elementos da vida de cada uma destas pessoas, com os quais cada um de nós facilmente se consegue identificar. Na verdade, eram pessoas que tinham vidas normais, mas é um normal facilmente relacionável com qualquer outra pessoa que esteja a ler. Na verdade, qualquer um de nós podia ter sido apanhado numa circunstância destas. Qualquer um de nós, a qualquer momento, pode ser apanhado por uma tempestade.

Aliás, uma história que tu contas, que é de uma pessoa que mobilizou a sua comunidade para ir ajudar a dizer: "Hoje são eles, amanhã podemos ser nós", e ela acabou por ser também impactada.

Isso foi algo muito emocionante também, que é as pessoas que não morreram logo no dia da tempestade. Interessou-me tentar perceber como é que elas tinham vivido a tempestade e os dias a seguir. E de facto, confrontei-me com várias que se tinham empenhado ativamente a tentar ajudar de várias maneiras. As pessoas que morreram porque caíram de telhados, fizeram depois algumas de consertar 20 telhados de amigos, vizinhos, familiares, o que é de uma generosidade tocante. Esta pessoa, viúva de um empresário, de facto, uma pessoa a ler o apelo que ela fazia para ajudar as pessoas de Leiria. Portanto, ela ficou visualmente tocada com aquilo que aconteceu na região de Leiria e desafiou todas as pessoas de Serpa, a 300 quilómetros, a mobilizarem-se para recolher bens, para enviar para Leiria para ajudar. Fê-lo ativamente e foi lá depois entregar bens e entregar coisas. Ver que dias depois de ela fazer isto, acaba por perder o seu próprio marido na sequência do mau tempo, isto é inimaginável.

É uma história que faz Lança muitas perguntas, algumas delas eu até já vou fazê-las daqui a pouco. Deixa-me só perguntar-te sobre a organização deste artigo, porque é um artigo um bocadinho diferente dos outros, e apesar de celebrar a vida de quem morreu, está organizado por mortes, como é que morreram. Por que tu escolheste essa organização em primeiro lugar?

Escolhi para tornar mais organizado, precisamente, para não ser um texto muito grande. Portanto, parti por causa da morte, era a forma de as agrupar. Depois, cada pessoa tem um texto individualizado sobre aquilo que foi a sua vida. Mas pareceu-me interessante o ponto de partida ser esse. O ponto de partida ser a forma como morreram, a causa da morte.

Uma questão da organização, um ponto de partida para se conhecer depois as vidas.

Mas depois também mostra que em cada um, são vidas completamente diferentes. Nem toda a gente que morreu a consertar telhados tinha vidas iguais, nem toda a gente que morreu perto de geradores. Aliás, eram vidas bastante diferentes, na água e em aspas.

Já vamos conhecer mais a fundo essas vidas que falas neste artigo, quando regressarmos. Estamos de regresso à conversa com o Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador e que escreveu sobre as 15 vidas inesquecíveis que se perderam na tempestade. Pedro, há bocadinho falávamos de um caso de uma mulher que mobilizou a sua comunidade para ir ajudar os outros. Nalguns destes casos, muitas vezes há uma espécie de crueldade do destino. E muitas vezes as pessoas perguntam-se, sobretudo as que acreditam, ou mesmo até as mais céticas dizem: "Como é que se pode acreditar em Deus e depois haver um Deus que permite este tipo de coisas?" Há, no teu texto, um padre que teve de lidar diretamente com essa questão.

Teve de lidar com essa questão e atenção, ele teve de celebrar três funerais, portanto, de três vítimas diferentes que não se conheciam entre si. Ele foi procurado na noite da tempestade por um paroquiano antigo, ele está agora na Batalha, por um paroquiano de Carvido, ainda fica a um bom bocado, porque não havia comunicações, mas foi alguém que quis procurar este padre, porque sabia que era um padre muito importante para uma vítima que este padre tinha casado, batizado o filho e agora era chamado a celebrar o funeral.

Portanto, ele conhecia pessoalmente.

Ele conhecia pessoalmente. Mas como não havia comunicações, a única maneira de comunicar era irem pessoalmente, era falar. Ele não encontrou o padre, deixou um bilhete em papel a dizer que voltava à hora tal. Isto parece uma coisa do século passado, quase, mas foi assim que conseguiu ir lá assistir. E também mostra a importância de ser este padre, porque entre tantas coisas naquele dia, ele podia ter considerado que não era importante qual seria o padre. Mas não, fez aqueles quilómetros todos para que o funeral fosse celebrado por aquele padre em concreto. E sim, este padre, como muitos outros sacerdotes, tenho a certeza, têm sido confrontados com esta questão de: como é que Deus permitiu isto? Como é que Deus permite uma coisa destas? E é difícil para um padre responder a isto, ainda para mais num momento de dor. Por outro lado, muita gente também agarra a safa, curiosamente. Agarra a safa para dar a volta, para enfrentar isto. O que é também surpreendente e tocante. Há pessoas muito religiosas que dizem: "Pronto, Deus lá tem os seus caminhos."

Incompreensíveis. Mas é mesmo isso. E já agora, falávamos dessa pessoa que morreu e que esse padre conhecia. Estamos a falar de quem? Qual era a história desse homem?

Estamos a falar de uma das primeiras vítimas, por ordem cronológica, desta tempestade. Não das primeiras que nós soubemos, mas das primeiras a morrer, que é Ricardo Idoso, é um pintor de 38 anos, que foi esmagado pelo telhado da garagem, juntamente com o pai. O pai sobreviveu com grandes ferimentos e ele morreu. O pai foi procurar ajuda para o tentar salvar, mas já não havia nada a fazer. Tudo isto está contado aqui no artigo, mas, sobretudo, o que importava era ver a vida dele. E nós até podemos achar que todas estas pessoas são santos e anjos agora porque morreram. É aquilo que normalmente se diz. E, na verdade, são contadas uma série de tropelias e reguilices que ele fez na infância, na adolescência, na juventude. Criou até um grupo chamado Grupo de Arruaceiros de Carvido, que mostra bem da rebeldia que ele tinha. E fazia uma série de coisas para divertir as pessoas, para provocar as pessoas. Mas claro, isto tudo em contraponto também com a capacidade que ele tinha de ajudar os amigos e quem lhe pedia. E que estava num momento da vida em que finalmente o pai ia lhe passar a ele o negócio. E ele ainda não sabia. Isto foi-me contado não pelo pai, mas por um amigo do pai, até. Dias antes, o pai tinha estado a dizer: "Vou passar as coisas ao Ricardo." Disse a toda a gente, falou com o contabilista para mudar a sociedade, só não disse ao próprio filho, que morreu passado uns dias, sem saber que isto iria acontecer. Mas claro, interessante também perceber a história do casamento dele, como é que foi. A Viola falou comigo e aquilo que a sensibilizou nele, o facto de ele se deslocar bem longe, três vezes por semana, até às Caldas da Rainha, que é uma hora e tal de viagem, só para estar com ela e a forma como isso a conquistou. E depois os pequenos gestos que ele ia tendo no dia a dia, que a encantavam e que mantinham, no fundo, este casal juntos e a dificuldade que é, obviamente, viver sem a pessoa.

Viver agora nestas condições. Pedro, o Ricardo é uma das 15 histórias inesquecíveis que contas neste artigo, que está agora no Observador. São 15, mas morreram mais pessoas. Por que tu só retratas 15 aqui?

Eu retrato apenas 15 porque é o número oficial neste momento. Isto também é uma coisa um bocadinho surpreendente que descobri a fazer este trabalho, que é: não há uma centralização do número de vítimas. Houve até um certo momento, a Proteção Civil assumia isso, de cada vez que morria alguém A Proteção Civil confirmava que essa pessoa tinha morrido por causa do mau tempo, a causa e o local, obviamente não partilhavam dados sobre as pessoas. E deixaram de fazer isso. Percebi isso porque surgiram notícias, entretanto, de mais mortes, nomeadamente um senhor que morreu após uma queda do telhado em Pombal e até o casal em Montemor, que seria evidente que seria causa do mau tempo. Todos vimos o carro a ser retirado das cheias. E a Proteção Civil não assume esses casos como sendo provocados pelo mau tempo. Num caso remete para a GNR, noutro, por o caso estar em investigação, remete para o Serviço Nacional de Saúde. E portanto, deixou de haver uma contabilização oficial do número de casos. Sabemos que morreram mais pessoas, mas claro, não vou ser eu a dizer que as pessoas de facto morreram por causa do mau tempo.

Não há contabilização oficial, mas percebemos pelo caminho que Portugal continua a ser Portugal.

Sabremos em breve quantos casos mais têm havido.

Pedro, obrigado.

Obrigado eu.

O artigo do Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador, chama-se "As histórias inesquecíveis de 15 vidas que a tempestade levou". Na política nacional para hoje e depois das ondas de choque do discurso que fez na terça-feira, com muitas críticas ao governo, Pedro Passos Coelho volta a ter agenda e logo na sede do PSD. Ele vai falar sobre os tempos da JSD, mas o evento vai ser à porta fechada, pelo que o eco das palavras do ex-primeiro-ministro talvez não se oiça com o mesmo estrondo. Depois de ontem ter sido ouvida Hillary, hoje é a vez de Bill Clinton depor perante a Comissão do Congresso dos Estados Unidos que investiga o caso Epstein. É a primeira vez que os congressistas forçam um ex-presidente a depor. Clinton é referido várias vezes nos ficheiros, até porque se sabe que voou várias vezes no avião privado do criminoso sexual Jeffrey Epstein. Mesmo assim, aparecerá menos vezes do que o atual presidente. Ontem, Hillary Clinton lançava essa pergunta enquanto depunha: "Se querem saber mais, por que não convocam Donald Trump para depor sob juramento?" E hoje também arranca a 46ª edição do Fantasporto, com mais de 100 filmes, 31 deles em antes estreia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benvides. Bom fim de semana.