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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como foi vivido o Dia da Vitória em Moscovo. Às 10 em ponto, em Moscovo, nesta terça-feira, arrancava a parada do Dia da Vitória, um feriado quase sagrado. A ocasião é aproveitada por Vladimir Putin para exaltar o patriotismo russo num discurso de 10 minutos. O que ouvimos há instantes é o final desse mesmo discurso, em que Putin dá vivas à Rússia, às Forças Armadas e à vitória. Este é o segundo Dia da Vitória desde o começo da guerra na Ucrânia e desta vez não houve armas novas a desfilar na Praça Vermelha. E a tradicional parada do Regimento Imortal foi cancelada em 20 cidades russas por razões de segurança. Este Dia da Vitória mostrou um presidente russo cada vez mais isolado e enfraquecido? Vou conversar com Evgeny Moravets, jornalista correspondente da RTP, que a partir de Moscovo nos relata como foi vivido este dia tão especial para os russos. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Evgeny.
Olá, Ricardo, muito obrigado por teres ligado.
Evgeny, primeiro explica-nos o que é isto do Dia da Vitória e por que razão é tão importante, eu diria que é um feriado quase sagrado para os russos, ou estou a exagerar?
Não, não estás a exagerar. Os críticos mais severos da história russa costumam dizer que no século XX a Rússia só duas coisas magnas tinha: a vitória na Segunda Guerra Mundial, que os russos chamam de Grande Guerra Pátria, e o voo de Gagarin ao espaço. E a vitória, como se sabe, custou às nações que habitavam a então União Soviética quase 30 milhões de vidas, e são cálculos estimativas. A consolidação em torno da bandeira foi tão forte naquela altura, porque as pessoas defendiam sua terra, sua casa, seu direito à vida e valores essenciais, porque foi um purgatório incrível naquela sua dimensão. A vitória que custou tanto ajudou a criar, a cimentar a tal nação soviética, família dos povos que, apesar de pecar por defeitos de um regime totalitário, a nível das pessoas humanas, era uma sociedade viva e até progressista em muito. Não é por acaso que tanta gente no planeta tem até hoje nostalgia pela época soviética. Basta ver só em Portugal quantos são. Então a vitória sobre o nazismo não podia deixar de ser façanha sagrada. E é desta mais-valia que Vladimir Putin se aproveita hoje.
E é precisamente para celebrar a tomada de Berlim pelas tropas soviéticas que foi criado este Dia da Vitória, este feriado na Rússia. E este ano, Evgeny, a segurança foi ainda mais apertada do que no ano passado, ou não?
Sim, foi muito mais apertada devido aos acontecimentos dos últimos dias, por causa da guerra, da operação, como os russos dizem, a operação especial militar, por causa dos drones que atingiram a cúpula do Senado do Kremlin, e também por causa da idade do líder russo, já que as fobias e manias estão a crescer com a idade. Sabemos isto em vários ditadores.
E dá-me um exemplo de como se sentiu mais essa segurança aí em Moscovo.
Bom, eu estava a fazer um direto e desligou-se-me o telemóvel, porque as autoridades, os serviços secretos, se calhar, estavam a testar o regime de supressão.
De controlo de comunicações, supressão das comunicações.
Pois, e veem-se cartazes fixados nos postes de iluminação a dizer "no drone flying zone", zona livre dos drones. Não se pode agora usar drones nos arredores do Kremlin. Isto é normal, porque os drones agora já não são brincadeiras, já são armas.
Evgeny, e o que é o Regimento Imortal e por que razão não desfilou este ano e por que isto é tão importante?
Foi, porventura, por esta mesma razão das medidas de segurança apertadas e evitou-se concentração nas ruas. Evidentemente, as autoridades não queriam o movimento descontrolado ou pouco controlado de grandes massas das pessoas. No ano passado, a marcha do Regimento Imortal reuniu vários milhões de pessoas só em Moscovo. Foi uma corrente de gente. A iniciativa é muito cordial e humana. Cada família adere à marcha.
Sim, explica-nos lá o que é o Regimento Imortal.
Cada família adere à marcha Determinada hora no dia 9 de maio sai à rua ostentando, levando cartaz do tamanho A4 ou A5 com uma só foto preto e branco de seus avós ou pais ou familiares tombados na guerra. Só tem o retrato, a foto, normalmente essa foto usada para os documentos oficial e datas de vida e número do regimento onde serviu, onde foi morto.
Ou seja, este regimento imortal são os heróis soviéticos da Segunda Guerra.
Que não chegaram a ser heróis. Isso é uma espécie, uma versão russa do exército de terracota chinês, porque quando tanta gente, tantas pessoas humanas, nem que seja no papel, nas fotos, saem e andam pela rua, cria-se a impressão de qual foi o esforço dado pelo povo soviético, povos, nações soviéticas para esta guerra. Quanta gente tombou, quanta gente morreu e perderam a vida não em prol do Stalin, muito embora gritasse naquela altura pela pátria, pela Stalin, mas as pessoas foram combater pelos seus valores, pelos seus próximos. E daí o caráter sagrado daquela guerra. Para mim é pena que uma iniciativa tão humana e tão cordial chegou a contar com a imiscuição do Estado, das autoridades, dos órgãos executivos, porque neste caso, chegou a cheirar de políticas. É triste.
E também é habitual neste Dia da Vitória vermos Putin na Praça Vermelha rodeado por veteranos da Segunda Guerra Mundial, a guerra patriótica, como dizias há instantes, como explicavas há instantes, e também já deste este número, não podemos esquecer que morreram mais de 27 milhões de cidadãos soviéticos na grande guerra. Vemos habitualmente os veteranos com o peito cheio de medalhas, mas este ano o presidente russo também teve alguns aliados na bancada. Quem são os amigos de Putin que estiveram em Moscovo, Evgeny?
Como sabemos, Putin não tem amigos, como dizia Winston Churchill, tem interesses. E os amigos, desta vez, eram os sete presidentes dos países mais democráticos do mundo, são países da Ásia Central e da Bielorrússia e o líder da Arménia, o primeiro-ministro da Arménia. Eram só isso. Lembramos todos dos tempos em que os líderes ocidentais, presidentes da França, dos Estados Unidos, da Alemanha, estiveram lá nas bancadas no dia 9 de maio, mas estes tempos já passaram e nunca mais se vão repetir, pelos vistos. Putin sempre aparece rodeado de veteranos com medalhas e até más línguas já fizeram cálculos verificando-se que jovens que entravam na Segunda Guerra Mundial, mesmo nem chegavam a ter 18 anos de idade, e acrescentando-se 78 anos passados depois da guerra, esses veteranos deviam estar hoje na idade de 95 anos. Considerando o recurso administrativo do Kremlin, talvez seja possível reunir num local tantos veteranos com essa idade venerável. Não sei se são veteranos autênticos, mas pelos vistos são pessoas que viveram uma vida e viveram uma vida juntamente com o seu país e em prol do seu país. E Putin aproveita-se deles como qualquer líder se aproveita das coisas marcantes que o país dele tem elaborado.
E este ano assinalou-se o 78º aniversário do Dia da Vitória. Já voltamos à conversa com Evgeny Moravets, vamos tentar perceber se o desfile na Praça Vermelha pode indiciar que nem tudo corre bem na frente ucraniana. Bem-vindos à triangulação do paralelepípedo. Comigo estão os nossos comentadores. À nossa esquerda tenho Arménio Paulo. À nossa direita, Januário Canutilho.
O debate fraturante que se impunha. A triangulação do paralelepípedo. Eduardo Madeira na Rádio Observador, às quartas-feiras, às 21h30, e aos domingos, depois do Jornal das 11.
Estamos de regresso à conversa com Evgeny Moravets, jornalista correspondente da RTP em Moscovo. Estamos habituados a vê-lo nas reportagens na televisão portuguesa. Evgeny, os meios de comunicação ocidentais dizem que no habitual desfile na Praça Vermelha deste 9 de maio não foram vistos carros de combate, os tanques mais recentes. O armamento exibido este ano foi mais modesto do que aquilo que é habitual?
O armamento foi mais modesto e o tempo da parada também foi reduzido a escassos 20 minutos ou meia hora, não mais que isso. Foi omitido o componente aéreo, que é muito lindo e muito a ocorrência das pessoas aos cais do Rio Moscova, foi precisamente para ver os aviões passarem com o tricolor.
A bandeira russa.
Deixar em fumo a bandeira russa, sim. Mas isto não aconteceu. Em tempos de guerra não se fazem shows ostentosos, se calhar.
Em tempos de guerra não se limpam armas, como se diz em Portugal.
Não se limpam armas. Este é o caso. Talvez esta seja a razão e também tomando em consideração aquela briga entre o chefe dos mercenários do grupo Wagner, o Yevgeny Prigozhin, e o alto generalado russo, que lhe não fornece munições suficientes, talvez a decisão fosse não expor armas sofisticadas, porque dia antes da parada, o Yevgeny Prigozhin, que se atreve a declarações cada vez mais ousadas e mais irritantes, ele disse: "Quando nós passamos aqui dificuldades em Bakhmut", onde os mercenários do Wagner estão a tentar fazer frente ao exército ucraniano desde agosto passado, com grandes perdas humanas. "Então em tempos em que nós estamos a passar fome de munições, não faz sentido andar pela Praça Vermelha e chocalhar com bibelôs", disse o Prigozhin. Quem toma estas decisões é o próprio Putin, porque o Putin é responsável por tudo o que se faz no país e ele toma esta decisão, o que e como vai decorrer no desfile militar. E tal como sabemos, a lógica dele é uma incógnita desde há dois anos.
Vamos agora então concentrar-nos no discurso de 10 minutos do presidente russo.
"A segurança do país está em suas mãos hoje. O futuro de nossa estado e de nosso povo depende de você. Você cumpre com honra seu dever militar."
Evgeny, o que disse Putin?
A meu ver, ele formulou uma linha mestra estratégica que lhe permite prosseguir com uma guerra sem data, nem objetivos concretos. E a tarefa sagrada, de fato, é uma cruzada contra o Ocidente. O Putin, ao culpar o Ocidente, ele já tinha dito isso antes, mas dito isso numa circunstância de armamentos ostensivamente expostos na Praça Vermelha, na presença de tropas, na televisão, perante auditórios de 100 milhões de pessoas. Dito isto, fez-me soar como linha mestra estratégica. Portanto, estamos em guerra contra o Ocidente, porque não pode encontrar outros justificativos. Putin despacha-se em busca de Santo Graal, da defesa da Rússia do malévolo e amoral decomposição que o Ocidente produz. Uma tarefa nobre, mas infinita.
"Caros cidadãos da Rússia, as batalhas que decidem o destino de nossa pátria sempre se tornaram patrióticas, populares e sagradas."
E Putin fala precisamente em guerra sagrada. Isto, tal como estavas a explicar, Evgeny, é uma forma de tentar exaltar esse sentimento patriótico? É necessário alimentar a moral das tropas e também a moral da população, dos russos, ou Putin pode ver tudo começar a fugir-lhe entre os dedos?
Exatamente. Ainda não está lhe a fugir nada entre os dedos, pelo menos em grandes proporções. Mas é tempo, o Putin tem muito fino faro político e ele adivinha os desejos. Primeiro ele cria a propaganda e depois ele adivinha os desejos do povo preparado por essa propaganda. E a cruzada pela pureza da Rússia e contra as impurezas do mundo é uma guerra sagrada.
Mas, Evgeny, como é que os russos, no seu dia a dia, olham para tudo isto? Como é que leem este discurso, esta narrativa de que a Rússia está a ser atacada pelo Ocidente, que há forças nazistas na Ucrânia. Tudo isto para nós, aqui em Lisboa, é uma mensagem que parece assente num delírio. Como é que as pessoas lidam com isto aí?
Bom, é bastante simples. Quem tem capacidade crítica, são, na minha avaliação, não mais de 20% da população, discordam ou duvidam, porque discordar abertamente se torna cada vez mais perigoso. Agora, quem consome informações mastigadas e prontas a comer da televisão e dos sites de bloggers pró-governamentais, contestam-se com imagens de uma Ucrânia recheada de nazistas. E não só acontece na Rússia, pode ficar descansado que isto não é um delírio. Conheço em Portugal muitos portugueses e ucranianos mesmo entre apoiantes de Putin Porque é natural das pessoas humanas procurar os culpados pelas suas próprias insatisfações. Não é segredo que em 10 pessoas, cinco vão culpar os Estados Unidos de todo o mal na sua vida. Isso é assim em qualquer parte do mundo.
Então dirias que esta leitura que é feita um pouco no Ocidente e que foi feita um pouco durante este Dia da Vitória, de que ironicamente Putin estaria mais fraco no Dia da Vitória, achas que essa leitura para a base de apoio de Putin é manifestamente exagerada? Essa base de apoio mantém-se inabalável?
Inabalável não digo, porque há muitos que duvidam, mas também digo que é exagerado considerar que ele está fraco. Ele não está nada de fraco para já. 15 meses depois do início da guerra, já com as sanções do Ocidente, já com os cortes que o Ocidente fez à vida dos russos, ou que pretende pensar que fez. Putin ainda tem um amplo mandato popular para a continuação da sua política. E é verdade, muita gente na rua quando é instada sobre temas de grande política, responde: "Isso não é conosco, não depende de nós. Temos o presidente, quem decide, e o presidente que sabe o que faz". Pessoas delegam a ele as competências da guerra e da paz e recebem em troca garantias da dita estabilidade, que nada mude, garantias de que ele é o pai cuidadoso da nação e ele cuida de proteger os russos contra o mundo imundo. E claro, se a televisão mudasse do discurso e quando a televisão mudar do discurso, também essa gente muda do seu discurso. Mas aí está a televisão, grande e fortíssima arma de Putin. E é tão forte que ele nem precisa de mísseis nucleares, graças a Deus, para já.
Obrigado, Evgeny.
Muito obrigado.
Evgeny Morovitz é jornalista e correspondente da RTP em Moscovo. Esta foi a "História do Dia" e fica um pedido: clicar onde diz "seguir". É muito importante para nós que siga a "História do Dia" onde nos ouve habitualmente, seja no site do Observador, quer seja nas plataformas de podcast como o Spotify ou a Apple Podcast. É mesmo importante para nós e assim tem a garantia que não perde um episódio. Os sons que ouvimos foram retirados da transmissão em direto no YouTube da Parada do Dia da Vitória em Moscovo e este episódio contou ainda com a colaboração do jornalista Manuel Rocha Leite. A sonoplastia é do Diogo Casinha e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.