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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como o Volta fez regressar a caça ao lixo a Lisboa. Há três meses que todos os dias, por todo o país, se ouve este som, o das latas e garrafas a entrar no sistema Volta. Mas o que foi apresentado como um incentivo à reciclagem começou a ter uma consequência inesperada. Cada vez mais gente à procura do desperdício dos outros para garantir o reembolso de 10 cêntimos. Hoje eu vou conversar com o jornalista do Observador, Martim Andrade, que foi com o repórter fotográfico Diogo Ventura para as ruas de Lisboa à procura da nova caça ao lixo. Ele vai contar-nos histórias de pessoas que reuniram centenas de garrafas num saco, vai falar-nos dos contentores revirados, dos riscos para a saúde pública que preocupam os autarcas e dos episódios violentos de territorialismo. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 15 de julho. Olá, Martim.
Olá, Pedro, tudo bem?
Tudo bem. Se calhar, vamos começar por uma pergunta que tem a ver com o que te levou à rua para ir à procura desta história.
Nós começámos a receber uns relatos de presidentes de junta de freguesia, principalmente ali na zona da Misericórdia. Tem muitos turistas, tem muita gente, tem muito movimento.
Na cidade de Lisboa.
Exatamente. A dizer que de manhã, quando os profissionais da higiene urbana iam recolher o lixo, reparavam que estava muito lixo no chão, começavam a ver muitas gaivotas perto da cidade, que estava um bocado uma confusão.
Percebendo que alguma coisa estava diferente.
Exatamente. E depois começaram a associar também o timing da introdução do sistema Volta, aquele da introdução das garrafas e de latas naquelas máquinas azuis para devolver 10 cêntimos numa caução que também pagámos quando fomos fazer a compra inicialmente, e perceberam que havia pessoas que durante o dia, durante a noite, iam aos caixotes buscar essas garrafas, essas latas, para depois irem ficar com o dinheiro, com aqueles 10 cêntimos.
Porque este sistema do Volta, basicamente, as pessoas, quase sem se aperceberem, estão a pagar os 10 cêntimos de uma lata ou de uma garrafa, e basicamente estão a pagar para serem incentivadas a irem a este sistema, introduzir as garrafas, introduzir as latas, para receber de volta esse dinheiro que já tinham pago. Houve denúncias das juntas de freguesia e resolveste ir para a rua e ir à procura do que se estava a passar.
Exato.
Uma espécie de caça ao mistério.
Sim, e eu estava na expectativa de ser um pouco mais complicado, porque nós fomos pra lá às 18h, ainda quando estava de dia, ruas muito movimentadas, e conseguimos ver claramente pessoas com sacos cheios de garrafas a movimentar-se de um lado para o outro, pessoas mesmo a enfiar os braços todos no lixo, nos contentores do lixo.
Portanto, é uma coisa real.
É uma coisa real.
Há uma caça ao lixo, literalmente, a acontecer agora em Lisboa, pelo menos em Lisboa, não sabemos se isto se replica noutras zonas do país, por causa deste sistema do Volta. E quem é que são essas pessoas?
Daquilo que conseguimos perceber, é transversal a idade, transversal a estatuto social, transversal a nacionalidades, a tudo. Há desde casais reformados, desde jovens imigrantes, por exemplo, pessoas em condições mais desfavorecidas economicamente. É uma coisa que não depende tanto da condição da pessoa, depende só de se precisam ou não mais uns trocos e é uma coisa fácil de arranjar. Não é propriamente ilegal.
E, sobretudo, se calhar não gostam de ver desperdício.
Exato.
Porque há muito dinheiro que foi pago e que pode ser recuperado. Tu tiveste contacto com casos concretos, pessoas que conheceste pelo nome, que histórias é que elas te contaram?
Sim. Logo a primeira pessoa com quem nos encontrámos foi, se calhar, dois minutos depois de termos chegado à zona do Bairro Alto, que era um senhor que faz limpezas em Airbnbs e hotéis, por exemplo, lá naquela zona, e que no final do dia acabava por recolher o lixo dos hóspedes que lá ficavam e fazia a separação das garrafas e das latas que eles lá deixavam nos alojamentos e depois ia levar. Ele próprio ficava com o benefício dos 10 cêntimos de cada garrafa.
Quanto é que ele conseguia fazer por dia, mais ou menos?
Ele fazia uma média. Quando nós o encontrámos, ele estava com uma garrafa de cerca de 50. Ele não tinha feito o depósito, não sabia o número ao certo, mas ele vinha com cerca de 50 e normalmente é o que ele costuma arranjar e que dá € 5, sensivelmente.
Cerca de 50 garrafas a 10 cêntimos.
Exato, € 5 por dia.
€ 5 por dia. Tu encontraste algum nível de sofisticação já neste sistema de pessoas que já estão muito organizadas para fazer este tipo de trabalho, digamos assim?
Não encontrei pessoas que estivessem muito organizadas. Ouvi relatos de pessoas que já têm mesmo um horário. Falei com um funcionário do supermercado ali na zona, que é o único que está agora em funcionamento com o Volta. Contaram que havia um casal reformado, que acordava todos os dias por volta das 05:00.
05:00 da manhã?
Ali na zona do Cais do Sodré, de Santos, que ia apanhar as garrafas que ficavam, viravam os contentores e depois faziam fila à porta daquele supermercado de manhã, à espera que abrisse pra introduzir as garrafas todas. E o que o funcionário me disse é que havia dias, e houve um dia especificamente que ele me explicou, que eles chegaram a fazer € 150, não só de manhã, eles ainda voltaram lá ao longo do dia.
Mas nesse dia conseguiram fazer € 150 à conta dessas garrafas. Não admira por isso que haja muita gente à procura.
São mais de mil garrafas que eles tiveram de apanhar durante o dia.
O que é impressionante.
Impressionante.
Há uma história curiosa Antes de entrarmos na questão problemática disto, porque estes relatos iniciais parecem uma história simpática e até bonita. Há pessoas que, de acordo com o funcionário do supermercado com quem falaste, conseguiram mudar ligeiramente a vida à conta disto.
Sim, e ele não fala de exemplos concretos, mas diz que enquanto funcionário nota, especialmente naquela zona tão movimentada, que havia muita gente a roubar. E o que ele notou é que as mesmas pessoas que ele apanhava a roubar naquele supermercado são pessoas que agora têm poder de compra graças a este novo incentivo à reciclagem.
Todos os dias conseguem uns euros extra.
Exatamente.
E é o suficiente. E ele notava isso.
Sim, ele notava isso, porque ele fixava as caras das pessoas que roubavam e que apanhava a roubar, interceptava nessa operação, e que agora vê-os a ir com os talões ao supermercado e consegue comprar o que precisavam.
Em vez de roubar. É um lado claramente bonito desta história. Acontece que há aqui também uma pequena ironia, que este sistema que foi criado para reforçar as preocupações ambientais de cada um de nós, de incentivar a reciclagem, para que as garrafas voltem a ser garrafas e as latas voltem a ser latas, a verdade é que este sistema que supostamente protege o ambiente, tu há pouco usavas uma expressão que era "reviravam o caixote do lixo", e isso está a acontecer. E foi isso, aliás, que deu origem às denúncias das Juntas de Freguesia. Há muito lixo que começa a ser espalhado pela cidade.
Sim, porque quem me disse inicialmente foi até a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia. Ela disse-me que especialmente agora com o calor, o lixo ficar todo espalhado na rua durante horas, porque acaba por ficar durante a madrugada inteira, porque a recolha é só por volta das 6 h, 7 h, acaba por atrair montes de bichos, de animais, e também acaba por ser um risco para a saúde pública, para toda a salubridade urbana naquelas zonas. E é uma coisa que não acontece só nesta freguesia, pelo que eu vim a perceber. Mesmo na conversa que tive com a presidente da Junta, ela disse-me que eles, em assembleia municipal, também discutem que é uma coisa transversal à cidade inteira. Acontece também em Arroios, acontece em Santo António, acontece em Santa Maria Maior, acontece em todo lado.
Isto significa o quê? Porque já agora, este sistema não é uma invenção portuguesa. Existem vários países, pelo menos na Europa, eu conheço alguns países onde isto funciona. A Alemanha é talvez o exemplo mais significativo, onde isto está introduzido na rotina do dia a dia. Mas a Alemanha não é Portugal e este sistema tem aqui uma coisa nova ou recuperou uma ideia que antigamente também havia aqui em Portugal, também funcionava. Mas a ideia que dá é que talvez a cidade ou o país não se tivesse preparado para esta coisa de, de repente, o lixo passar a valer dinheiro e depois acontecem essas situações.
Sim, e houve uma outra questão que também mencionaram, foi que começaram a registar alguns episódios de violência associados também a este fenómeno, de pessoas a começar a definir territórios de: "Ok, tu podes vasculhar estes caixotes desta zona, eu fico com estes. Se houver uma mistura, pode dar episódios de violência."
Portanto, já há registos disso, aquilo que tu na reportagem chamas de territorialismo, não é?
Exatamente, sim. Foi uma descrição que me deram na altura também no terreno, depois a presidente da Junta também confirmou que tem relatos de moradores e de comerciantes também a notar este fenómeno.
Ou seja, basicamente, precisamente por causa do dinheiro que está envolvido, que para algumas pessoas pode não parecer muito, para outras pode parecer quantidades significativas, já há grupos organizados que começam a tentar tomar conta de determinadas áreas para explorar economicamente. É uma espécie de economia informal que se instalou aqui.
Sim, não sei quão organizado exatamente eles estão, sei que há estes territorialismos, mas acho que é importante salientar o facto de as histórias que eu consegui colher nesta reportagem são maioritariamente de pessoas que fazem isto de uma forma um bocado mais recreativa. Por exemplo, no caso do senhor que é funcionário de limpeza nuns Airbnbs, é sempre no final do dia, depois de trabalhar, que vai acumulando. Outras pessoas que eu vi que também vão apanhando do lixo esporadicamente, vão acumulando três a quatro dias e depois é que vão à máquina. Portanto, nunca acaba por ser uma cena muito ativa.
Sim, para não se pensar que de repente estamos aqui no meio da máfia da garrafa de plástico. Porque não é o caso. Agora, há aí duas questões importantes. Uma é que esse senhor do Airbnb, que basicamente faz isto, porque há efetivamente muito desperdício, as pessoas estão a gastar esse dinheiro e nem sequer se estão a aperceber.
Principalmente se forem turistas, que não estão a par do sistema que está em curso.
E, portanto, podem deixar as garrafas.
Deixar as garrafas não saber que estão a pagar.
Imagina, muitos portugueses também. Agora, a minha segunda questão tinha a ver com isso, que era: já temos números, conhecemos números de como é que este sistema está a funcionar, se é bem-sucedido, se não é.
Sim, o Público fez um balanço no início deste mês, porque o sistema foi implementado em abril, início de abril, portanto, já está em vigor há cerca de três meses. E o que notaram é que já foram depositadas mais de 55 milhões de embalagens, ou seja, garrafas de plástico, latas de alumínio, essas são as que estão envolvidas. Fora aquelas todas que foram tentativas de tentar colocar na máquina, mas por falta de rótulo ou porque estão danificadas, também não puderam entrar.
Depois também há esse lado, que isto tem que ser muito especificamente as garrafas. Não podem estar danificadas, às vezes um rótulo que já está danificado é o suficiente para a máquina não aceitar.
Sim, nem todas as garrafas podem ser, porque neste momento ainda está numa fase de transição, ou seja, nem todas as garrafas que estão no mercado a circular podem ser inseridas nestas máquinas. Eles estimam que dia 9 de agosto acaba esta fase de transição e a partir de agora todas as garrafas que vão entrar em circulação vão ter o selo do Volta para poderem ser inseridas.
É preciso estar atento a isso?
É preciso estar atento a isso.
Ter o selo, ter o código de barras.
Exatamente.
E depois o processo é relativamente simples.
Exatamente. E a tampa, também é preciso ter a tampa.
E tendo isso tudo, a máquina, aquilo é um processo relativamente automático.
Exato. Sim, é inserir a garrafa dentro daquele orifício que tem.
Ou a lata.
Exatamente, ou a lata. Aquilo contabiliza. E depois é só carregar, escolher a opção, se queremos um vale para gastar no supermercado, podemos ter o vale e trocar por dinheiro naquele mesmo supermercado. Podemos pedir um vale para trocar num outro supermercado qualquer, portanto, não precisamos de gastar o dinheiro no supermercado em que fazemos a devolução. E também podemos devolver o valor para uma instituição de solidariedade social, não sei quais é que estão disponíveis, ao exemplo da Liga Nacional de Bombeiros, que é um exemplo que eles têm nas máquinas.
É uma das instituições para as quais se pode doar dinheiro. E se estamos a falar de 55 milhões de garrafas, estamos a falar de 550 milhões de euros de taxa que se paga para depois se recuperar. Não é pouca coisa.
Sim.
Martim, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei com o jornalista da secção de sociedade do Observador, o Martim Andrade, sobre a forma como o Volta criou uma autêntica caça ao lixo em Lisboa, em apenas três meses e com o mercado português ainda em fase de adaptação. Estará assim até dia 9 de agosto. Depois disso, o sistema conta ter cerca de 3000 postos em todo o país, capazes de recolher qualquer lata de alumínio ou embalagem de plástico até 3 litros. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Werner, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.