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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o caso FTX, do estrelato à ruína num clique no mundo das criptomoedas.

"What do we know about how Sam Bankman-Fried F'd up, in his words?"

"Yeah, he did tell investors that he would be extremely grateful, he asked investors if they would step in and help fill this hole. It's an $8 billion hole in FTX's balance sheet that is bigger than the size of Robinhood's entire market value. And remember, last year alone, they raised $2 billion in six months from investors."

Este é um excerto da emissão do canal norte-americano Bloomberg. Sam Bankman-Fried, o criador da plataforma de transação de criptomoedas FTX, diz que reconhece, e cito, que fez . O império que criou em poucos anos ruiu. Não conseguiu os $8 bilhões necessários para o salvar. Também à Bloomberg, o ex-secretário do Tesouro norte-americano, o equivalente a ministro das Finanças, Larry Summers, diz que o esquema montado pela FTX é semelhante ao caso Enron.

"I would compare it to Enron, the smartest guys in the room, not just financial error, but certainly from the reports, whiffs of fraud, stadium namings very early in a company's history, vast explosion of wealth that nobody quite understands where it comes from."

É o segundo grande abalo no mundo das criptomoedas este ano. A FTX era uma das mais importantes corretoras de moedas virtuais e caiu quase da noite pro dia. Transacionava milhares de milhões de dólares e algumas empresas e muitos particulares tinham dinheiro à guarda da FTX, com sede nas Bahamas. Vou conversar com a editora de Economia do Observador, Alexandra Machado, sobre a FTX e sobre o homem que a criou, um jovem chamado Sam Bankman-Fried. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Alexandra.

Obrigada, Ricardo.

O que é ou o que era a FTX?

A FTX é ou era uma plataforma de compra e venda de criptomoedas.

E o que tinha de tão especial esta empresa?

Pra começar, era uma das maiores plataformas de negociação e era tida como confiável pela aura criada à volta do seu presidente e fundador, Sam Bankman-Fried, e conseguiu grandes investidores pro seu capital, como o fundo Sequoia, o SoftBank ou BlackRock.

Nem sei bem do que é que estás a falar.

São grandes fundos de investimento.

Soa a muito dinheiro. Sabemos quanto é que movimentava?

Segundo as contas apresentadas pelo empresário no Congresso norte-americano em 2021, o movimento diário seria qualquer coisa à volta de $15 bilhões. Isto antes dos crashes que houve já este ano nesta indústria de criptomoedas, qualquer coisa como 10% do volume que se transacionava na altura nesta indústria, e tinha mais de 1 milhão de clientes.

$15 bilhões todos os dias. É isso?

Exatamente.

E o que aconteceu?

Começou tudo por uma notícia da CoinDesk, que é um site de informação desta indústria, divulgou que a Alameda, que ainda não falamos dela, mas é a outra empresa do grupo, estava cheia de moedas virtuais nativas da FTX. A moeda virtual nativa da FTX chama-se FTT.

Isso é a mesma coisa que a Bitcoin, mas é outra moeda, é isso?

É uma moeda que pertence à própria FTX. E no balanço da Alameda, de quase $15 bilhões de ativos, cerca de $6 bilhões eram de FTTs. Está tudo ligado. E no passivo também tinha $8 bilhões de FTTs, além de outras exposições grandes a criptoativos. Um mercado que, como se referiu, este ano tem estado a cair e perdeu muito dinheiro desde os escândalos da Luna Terra e da Celsius. E a jovem CEO da Alameda, Caroline Ellison, que se diz ter sido namorada de Sam e que agora divulgou no Twitter até que estava no Dubai, não se sabe bem a fazer o quê, fez saber que depois desta notícia da CoinDesk, que o balanço da Alameda não mostrava toda a realidade, havia cerca de $10 bilhões de ativos não refletidos e não se sabe onde é que está esse dinheiro. Mas depois desta notícia da CoinDesk, percebeu-se que havia alguma coisa de errado, o que levou a uma corrida de depósitos da FTX. Até chegou a um ponto que a plataforma FTX teve de suspender os levantamentos, pois já não tinha mais fundos para cobrir estes resgates. Isto tudo aconteceu no início de novembro.

Ou seja, as pessoas ouviram essa notícia e correram a tentar resgatar o dinheiro.

Correram a resgatar o dinheiro, até porque um dos principais rivais, a Binance, também disse que iria vender todas as FTTs que tinha no seu balanço, o que aumentou ainda mais a fúria de resgates.

E no início deste episódio, ouvimos o ex-secretário do Tesouro norte-americano dizer que esta situação se assemelha mais ao caso Enron do que ao Lehman Brothers Qual é a diferença, Alexandra?

Creio que essa declaração parece sugerir que, neste momento, está-se a acreditar que este é um caso de fraude financeira, tal como aconteceu em 2001 com a Enron, uma empresa de serviços energéticos que empurrava as suas receitas para as contas parecerem um pouco melhores e o balanço maior. Curioso também neste caso, já agora que se fala da Enron, é que o gestor de insolvência escolhido pra FTX é o mesmo que liderou a falência da Enron, o advogado John Jay Ray III, que até já declarou agora que nunca na vida tinha visto uma tão completa falha de controles corporativos. E eu só recordo que a Enron, na altura, foi a maior fraude contabilística dos Estados Unidos.

Exatamente, e ele agora diz que nunca viu nada assim, é isso?

Exatamente. Ele escreveu no processo de falência: "Nunca na minha vida vi uma tão completa falha de controles corporativos e uma tão completa ausência de informação financeira confiável como a que ocorreu neste caso da FTX".

E no meio disso tudo, há muitos particulares e empresas expostas a esta falência.

Estima-se em um milhão, que eram os clientes da FTX.

E há algum mecanismo, e este ponto é muito importante quando falamos em criptomoedas, que defenda estas pessoas, quem pôs dinheiro na FTX?

Não existe, como existe na banca tradicional, um fundo de garantia de depósitos, que é o que está implícito, creio eu, na tua pergunta.

Sim, é nisso que eu estou a pensar.

Exato. Não existe, os criptoativos, as criptomoedas, não têm esse tipo de regulamentação e, portanto, não existe um fundo de garantia de depósitos. No caso português, na banca tradicional, protege depósitos até € 100 mil, mas aqui não existe. A única hipótese é, no âmbito do processo de falência, registrarem-se como credores e rezarem para que haja ativos que cubram os créditos que têm sobre a empresa.

Já voltamos à conversa com a editora de economia do Observador, Alexandra Machado. Vamos falar um pouco mais sobre quem é este homem, Sam Bankman-Fried, que juntou nomes tão diferentes como Bill Clinton e Gisele Bündchen.

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Estamos de regresso à conversa com Alexandra Machado, a editora de economia do Observador.

I grew up in Stanford, California, went to MIT, where I majored in Physics.

Este é Sam Bankman-Fried numa audiência no Congresso dos Estados Unidos. Alexandra, quem é este jovem?

É um jovem, como disseste. Agora tem 30 anos, nasceu por isso em 92, na Califórnia, é filho de professores e foi criado no campus da Universidade de Stanford, onde os pais davam aulas relacionado com o curso de Direito. Estudou Física no MIT, uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, e em 2017 fundou a Alameda e dois anos mais tarde a FTX. Antes tinha trabalhado na indústria financeira, na Jane Street Capital, mas é um percurso pequeno nessa indústria financeira tradicional. No crash que houve no início deste ano, Sam correu a salvar algumas das plataformas de criptomoedas e por isso ganhou a comparação de JP Morgan moderno.

I used to go out and say I'm gonna bail out certain companies, and you were called the JP Morgan of crypto.

Yep.

Did that bother you or did it not?

It doesn't bother me too much. I mean, I think it's something I felt was the right thing for the industry.

JP Morgan foi o banqueiro que em 1900, mais ou menos, comprou vários bancos que estavam em dificuldades e criou o grande banco que hoje conhecemos. Mas depois de ser conotado com JP Morgan, agora faz-se a comparação mais com Bernie Madoff.

E ele consegue atrair uma série de estrelas pro negócio, como Larry David, o cocriador da série Seinfeld, por exemplo, é o protagonista de um anúncio no intervalo da Super Bowl.

Like I was saying, it's FTX. It's a safe and easy way to get into crypto. I don't think so. And I'm never wrong about this stuff. Never.

E este anúncio com Larry David, além de extremamente divertido e deve ter sido caríssimo, por acaso também acerta na mousse aqui neste final. E depois há também o então casal, mas já não é, Tom Brady e Gisele Bündchen.

Believe I'm in, but still hate you.

Understood.

Take care. Best to the family.

Is he in?

Yep.

Did he say he hates you?

He did.

Even on the phone, that guy sounds handsome.

E além destas celebridades, há nomes como Bill Clinton, Tony Blair e o apoio financeiro a uma candidatura de Joe Biden. Este rapaz de cabelo desalinhado e calções, Alexandra, tinha mel?

Parece. E tinha outra coisa, que era: dava-se com as celebridades, tentava colocá-las no seu meio, não só celebridades, como também políticos. Aliás, foi referido Bill Clinton e Tony Blair, por exemplo, ou Katy Perry, que também lá esteve, estiveram nas Bahamas, onde ele mora, em abril deste ano, pra assistir ao festival organizado por ele sobre criptoativos e cada bilhete custava qualquer coisa como $ 3 mil.

$ 3 mil tinha acesso ao bufê?

Tinha acesso a um bufê, mas teria uma grande componente vegetariana, porque Sam é vegetariano.

Ok.

E Sam também foi um dos principais financiadores até às eleições Intercalares de novembro dos democratas em várias eleições. Este rapaz tem aquele ar de o cabelo encaracolado, desalinhado, como disseste, sempre de t-shirt e de calções, sabia movimentar-se muito bem nos meandros da política e das celebridades. Conquistou várias figuras públicas para anúncios publicitários, como ouvimos, e também para serem embaixadores da FTX. Algumas dessas celebridades, aliás, já movimentaram um processo contra os fundadores da FTX depois da falência da plataforma. Sam tornou-se o rosto das criptos e o menino de ouro. Era um dos maiores milionários desta indústria e tinha menos de 30 anos. Mexia-se muito bem junto do jet set e como se disse, também junto dos políticos. Além disso, também estava muito ligado, ou pelo menos fazia crer, a muitas ações de filantropia, até criou uma fundação para apoiar várias causas. Ou seja, tinha tudo a seu favor. Vai ser posto em filme, creio, a história de Sam, portanto vamos poder ver essa história um pouco mais à frente.

Mas sendo um jovem genial, ele não teve noção daquilo que estava a acontecer?

Se se provar que este é um caso de fraude, conforme se começa a desenhar, teria a noção. E por isso é que é uma fraude.

Claro.

A forma de atuação do grupo, aliás, não deixava antecipar nada de bom. Como se referiu, a FTX era a plataforma de negociação de criptos, que, por sua vez, enviava dinheiro para a outra empresa do grupo, a Alameda, que era a corretora mais ligada ao mundo financeiro tradicional e que fazia investimentos de risco. Estima-se, aliás, que cerca de 10 mil milhões de dólares o montante que a FTX terá enviado para a Alameda, sendo muito desse dinheiro depósitos dos clientes da FTX. Portanto, esta ligação e este movimento de dinheiro não deixava antecipar nada de bom. E além de que, como também já se referiu, o balanço da Alameda estava muito alavancado na moeda nativa da FTX. Ou seja, tudo estava intimamente ligado e um cordel puxado de um lado faria mexer todo o grupo.

E naquela apresentação no Congresso dos Estados Unidos, ouvimos um excerto há pouco, e também em algumas entrevistas, Sam Bankman-Fried diz que faz grandes doações de dinheiro, que é adepto de uma teoria de distribuição do dinheiro, que é diferente da de Robin dos Bosques, por exemplo.

Sim, é até contrária. Sam era o milionário e com o dinheiro que ganhava pretendia distribuí-lo. A fortuna antes do crash da FTX estava avaliada em cerca de 26 mil milhões de dólares. O que era simpático.

É um valor simpático, sim, dá para 26 Pontes Vasco da Gama, por exemplo.

Sim, e dá para muitos financiamentos aos democratas e à política. Segundo o Wall Street Journal, Sam terá mesmo dado cinco milhões de dólares nas presidenciais de 2020 à candidatura de Biden. E foi a segunda maior contribuição de empresários, só superada por Michael Bloomberg, com 56 milhões. E também nas eleições intercalares, que aconteceram agora a 8 de novembro, foi um dos maiores financiadores, só depois de George Soros. Não deixa de ser curioso que foi precisamente no dia dessas intercalares, a 8 de novembro, que o problema de liquidez da FTX piorou. E Sam chegou a declarar que tinha cerca de mil milhões de dólares como fasquia para os gastos da campanha presidencial de 2024 para apoiar, claro, os democratas. Sam era uma pessoa que se juntava ao poder. Não era só um financiador, mas circulava bem nos meandros do poder.

E por que essa aproximação a Washington?

Porque lhe dava jeito e até falava na necessidade de regulação na indústria de criptoativos. Aliás, muito dessa ligação ao poder era para conseguir, de alguma forma, influenciar os representantes para que a regulamentação que está a ser preparada fosse mais ao seu jeito. Ao falar muito da necessidade de regulação nesta indústria, era só música para os ouvidos dos legisladores.

Claro. E quando a empresa afundava, ainda foi ao Twitter dizer que estava tudo bem, depois acabou por virar-se para o principal concorrente, um senhor chinês, Alessandra.

Ele tem origem chinesa.

É outra personagem.

Changpeng Zhao, mais conhecido nas redes sociais e no mundo das criptos como CZ. Aliás, o Sam também é mais conhecido pelas iniciais do seu nome, SBF, e este mundo é todo de iniciais. Mas primeiro, Sam tentou uma fuga para frente, disse inicialmente que estava tudo bem, mas depois o segundo momento já não é de negação, mas é de pedido de desculpa, admitindo que poderia ter errado. Até deu uma tentativa de justificação a dizer que a FTX tinha sido alvo de um ataque de hackers. Nada disso ainda está provado, obviamente. Tentou, assim que teve falta de fundos, então chegar ao tal acordo com o senhor CZ para que a Binance, que é a maior plataforma de negociação de criptoativos e foi a que foi fundada por CZ, comprasse a FTX. Acontece que depois de algumas diligências, a Binance detectou alguns problemas e não se quis meter na FTX. Depois, Sam Acabou por optar por um pedido de falência, depois de não ter conseguido angariar os tais US$ 8 bilhões que precisava para salvar a plataforma.

Ou seja, com a Binance, ele tentou ser comprado tal como ele fez a outros, mas falhou nesses objetivos.

Falhou redondamente, até porque a Binance não se quis meter num caso que se começou logo a perceber que poderia ter alguma fraude e algumas questões policiais.

Alexandra, Sam Bankman-Fried, e se olharmos para a palavra Fried, escreve-se como fried, frito. Se traduzirmos este nome para português, é qualquer coisa como Samuel Banqueiro Frito, se a leitura for fried e não Fried. Estes gurus não cheiram sempre um pouco a esturro, Alexandra?

Um problema destes gurus é terem empresas que dependem só e unicamente deles. E quando uma empresa depende só e unicamente de um fundador, isso sim, algo cheira a esturro. Neste caso em concreto, há que distinguir também que a FTX, com o grupo Alameda, tinha toda uma operação que não configura nada de bom, e que não configurava já nada de bom, e que isso não se estende a toda a indústria das criptomoedas. E aliás, quem é um defensor desta indústria, diz mesmo que estes casos só provam que a descentralização é que vai ganhar este mercado e as empresas que não sejam demasiado concentradas e centralizadas é que vão ganhar.

Obrigado, Alexandra.

Obrigada, Ricardo.

Alexandra Machado é editora de economia do Observador. Esta foi a história do dia. Deixe-me só aproveitar para deixar um recado, porque nada bate a recomendação dos amigos. Se gostou deste episódio, por que não partilhá-lo com um amigo ou um familiar? Para nós, é muito importante. Obrigado por nos ouvir. A sonoplastia é do Dioca Zinha e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.