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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Elon Musk vai mandar em Washington?

This will truly be the golden age of America. That's what we have to have. This is a magnificent victory for the American people that will allow us to make America great again.

Depois da vitória nas eleições de 5 de novembro, que não deixou margem para dúvidas, Donald Trump já começou a escolher os elementos da nova administração do governo, que vai tomar posse em janeiro. Esta quarta-feira esteve com Joe Biden na Casa Branca, por mais de duas horas, para dar início à transição de poder. Uma reunião que, curiosamente, não aconteceu quando Trump perdeu frente a Biden há quatro anos. Quem são os novos rostos da administração Trump e que poder vai ter, afinal, o multimilionário e amigo de Trump, Elon Musk, junto da Casa Branca? São perguntas para Ana Cavalieri, investigadora de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quinta-feira, 14 de novembro. Bem-vinda, Ana.

Muito obrigada, é um prazer estar cá.

A administração nos Estados Unidos é uma espécie de equivalente ao nosso governo, mas como o sistema é diferente, também a organização é diferente e até a designação dos cargos são diferentes. Vamos começar por Susie Wiles, que vai ser a chefe de gabinete. Nós podemos dizer que chefe de gabinete é uma espécie de primeiro-ministro, sendo que o presidente é que é o chefe de Estado e o chefe de governo?

É interessante essa definição. Para as pessoas terem noção do poder que esta mulher vai ter, ela vai ser, a seguir a Trump, a pessoa mais poderosa do país. Ela vai ser responsável não só por aconselhar Trump de forma pessoal e directa, ela está constantemente com ele, como vai ser a pessoa e o membro do governo capaz, ou pelo menos com a responsabilidade, de tentar coordenar todos os secretaries, ou seja, quem pertence ao gabinete, exatamente os ministros, para executarem as políticas de acordo com aquilo que o presidente tem como visão, coordenar com o Congresso, nomeadamente com o majority leader, que por acaso acabámos de saber esta quarta-feira que vai ser John Thune, que é um senador do South Dakota. Interessante, porque não era a preferência de Donald Trump, porque ele tinha a preferência de Ricky Scott, da Flórida, o que significa que desde já temos um Senado que demonstra alguma independência relativamente àquilo que são os desejos do presidente.

Apesar de ser republicano, não é?

Sim, é republicano. É alguém que exterioriza, ou pelo menos verbaliza, estar de acordo com a política delineada na plataforma do Partido Republicano, liderada por Trump, mas que tem alguma moderação na sua approach. A sua perspectiva também é mais de respeito pelas instituições. E depois, não quero alongar aqui, mas um grande objectivo de Trump é poder nomear pessoas sem ter de passar por um longo processo de confirmação no Senado.

Exato.

E isso é preciso um líder que não seja como Mitch McConnell do primeiro mandato, em que houve sucessivos atrasos relativamente a processos de confirmação.

Que não sejam picuinhas.

Exato. E nisso, Susie Wiles foi líder de campanha.

Então vamos precisamente a Susie Wiles, a quem Trump chama de Ice Maiden. Não confundir com Iron Maiden, mas com Ice Maiden. Ice Maiden por quê?

Calcule que seja porque ela é fria, pragmática, não é alguém que se emociona em ideologias. Para ela, o principal é definir estratégias. Ela sabe gerir pessoas, eventos. E quando eu digo eventos, não estou a falar de gestão de eventos, eu estou a falar de saber como comunicar, como apresentar ao público um evento que seja de forma...

Um acontecimento.

Um acontecimento que marque o momento, que marque uma campanha. Ela foi líder de campanha de Trump, foi ela que não só definiu quais eram, por exemplo, as demografias eleitorais que a campanha devia apostar. Foi ela que definiu também a estratégia mais virada de comunicação para a internet, para podcasts, a tentar chegar principalmente a homens mais novos. Ela apostou e ganhou, foi uma aposta muito bem definida e ela principalmente ganhou a confiança de Trump desde 2016, porque em 2016 Susie Wiles era responsável pela campanha dele na Flórida. E depois ela até foi trabalhar para Ron DeSantis, conseguiu elegê-lo, mas depois eles deram-se mal e, nomeadamente, eu acho que ela nunca perdoa Ron DeSantis por ter, a determinada altura, no fundo, dispensado, quando foi ela que o levou à vitória naquele estado. Sem tirar crédito, naturalmente, ao candidato. E agora foi ela que liderou a campanha e está a ser neste momento recompensada por isso, sendo certo que talvez a melhor característica dela é que ela é fria ao ponto de poder dizer a Donald Trump: "Não vá por aí, acalme-se. É melhor pensar nesta estratégia para conseguir esse objetivo". Ela consegue, no fundo, acalmar alguns instintos mais intensos de Donald Trump.

Outra escolha, aqui eu diria talvez um caso mais peculiar, não sei, a de Peter Hegseth, um comentador da Fox News. Não é um jornalista, será um comentador, um apresentador Quem é este homem e o que é que ele representa?

Eu confesso que eu desconhecia. Eu vejo Fox News por questões de trabalho, também para saber.

Vai para secretário da Defesa.

Vai para secretário de Defesa. Ele é um veterano, eu penso que ele esteve 20 anos no exército e participou no Iraque, Afeganistão. Antes disso tinha estado em Guantánamo Bay. E ele foi alguém que foi condecorado por atos de coragem em conflito. Por isso é alguém que a vida foi afetada por decisões de uma administração. Ele sabe o que é estar em guerra, sabe o que é sacrificar-se. Isso ele tem esse lado ligado às Forças Armadas. Normalmente, estes cargos vão para generais, muitas vezes condecorados. É fundamental ter a contextualização de que o Trump não tem uma boa relação com os líderes do Pentágono. Ele acha, e mais do que ser uma sensação dele, é verdade, que ele foi não só bloqueado, desrespeitado e, de alguma maneira, a autoridade dele como commander-in-chief, porque nos Estados Unidos, o esquema constitucional define que os militares respondem perante a autoridade civil que foi eleita, porque Trump está a representar o povo, ele foi eleito democraticamente e os militares não devem, como parte da burocracia que não foi eleita, fazer forças de bloqueio.

Devem total obediência ao poder político, no fundo.

É total obediência, porque o poder político, naturalmente, tem total obediência à Constituição. E, por exemplo, incitar uma guerra é o Congresso, não é o presidente. Está bem definido o framework constitucional dos Estados Unidos, de modo que o presidente não seja um tirano. Mas, mesmo em questões que estavam dentro da esfera executiva do presidente, ele sente que, por exemplo, o Mattis, que foi um dos Secretary of State dele, penso que foi Secretary of State, não foi de Defense, mas era um general, no final, houve uma ruptura dessa relação porque havia um desrespeito constante. Não é constante, talvez não seja a melhor forma de abordar, mas Mattis não aplicaria ou não aplicava de forma mais à letra aquilo que seriam as vontades do commander-in-chief, neste caso, Trump. Havia ali forças de bloqueio, tentar convencê-lo que se calhar determinada política ou determinada estratégia não daria resultado. E também McMaster foi outro alguém que pertencia também às Forças Armadas, que foi um National Security Advisor, também se tornou alguém que começou a opor-se a Trump, mesmo dentro da própria administração. Pelo que também existe aqui a noção de que, pelo menos o Trump e a linha de alguns republicanos, nomeadamente Vivek Ramaswamy, que defendem que as Forças Armadas estão dominadas por interesses financeiros de pessoas que pertencem ao chamado military industrial complex, o complexo industrial militar.

A indústria de defesa.

A indústria de defesa, empresas e determinadas pessoas que beneficiam economicamente com a instabilidade e guerras que se passam. E ele tenta desconectar-se, introduzir aqui uma pessoa que é crítica relativamente a esse complexo industrial militar, alguém que pode ser os olhos e ouvidos de Trump.

Alguém que lhe é leal.

Alguém que lhe é leal, e isso vai ser o tema comum de todas estas nomeações. O critério fundamental é a lealdade, porque ele considera que no primeiro mandato, a inexperiência dele, o fato dele não ser uma pessoa dentro do mundo da política, fez com que ele tivesse de basear as suas escolhas em pessoas ainda muito ligadas ao mainstream, quer político, quer das Forças Armadas. Isso levou com que a autoridade e a legitimidade dele fosse posta em causa no dia a dia da ação governativa. E isso ele não quer que se volte a repetir, nomeadamente, também não quer que se volte a repetir algumas forças de bloqueio que também houve no Congresso, nomeadamente na Câmara dos Representantes e no Senado, relativamente ao fato do Partido Republicano não estar unido. Ele quer que o segundo mandato corra de maneira diferente.

E depois vem Marco Rubio, que deverá ser o secretário de Estado, o equivalente ao ministro dos Negócios Estrangeiros, será o primeiro latino a ocupar este cargo.

Exatamente, ele vem da Flórida e vem de uma comunidade latina, e isso pode ser benéfico, principalmente nestas questões ligadas à América Latina, nomeadamente à imigração, e há muitos e haverá muitos acordos bilaterais e multilaterais na região para tentar resolver este problema da imigração de forma conjunta, isso vai ser benéfico.

Ainda tem de passar pelo Senado.

Sim, todas estas confirmações têm que ser confirmadas no Senado. E existe aqui também um pormenor interessante, é que nós sabemos que Marco Rubio, que faz muito trabalho ligado a relações internacionais nos comitês de que ele é nomeado no Congresso, e ele tem trabalhado muito nessa pasta. Ele é alguém que faz parte da linha dura relativamente à China e relativamente ao Irão. Relativamente à Ucrânia e à Rússia, não é dos mais perentórios a tentar cessar a ajuda à Ucrânia. É alguém mais moderado, mas relativamente ao Irão e à China, é uma pessoa com uma postura agressiva. No caso do Irão, ele acha Que deve-se fortalecer a posição de Israel o máximo possível para o Irão não se sentir empoderado ou incentivado a continuar com as suas ações bélicas através dos seus proxies. E relativamente à China, ele tem a perspectiva de que esta competição estratégica tem de ter uma resposta por parte dos Estados Unidos, que vai um pouco na linha daquilo que já foi feito no primeiro mandato de 2016, com tarifas estratégicas relativamente a determinados setores, e também uma grande aposta em fazer com que a China tenha de obedecer a determinadas leis de propriedade intelectual, que normalmente faz com que a China tenha uma concorrência não muito justa com outros países que respeitam esses quadros regulatórios. Parece que Marco Rubio será alguém que também sabe falar muito bem, ele tem o domínio da esfera toda institucional e normativa da comunidade internacional, pelo que poderá ser uma boa opção.

E uma das bandeiras de Donald Trump é o combate à imigração, com promessas do que considera ser o restaurar da lei, da ordem e do respeito, se quisermos também, em todo o país, e escolheu para a segurança interna, Kristi Noem. Quem é esta senhora?

Ela vem do South Dakota e surpreende porque-

Da Dakota do Sul. Adoro a tua pronúncia

Peço imensa desculpa

Fica muito bem, mas só para quem não sabe o que é.

Da Dakota do Sul, sim. E é, por acaso, um estado que, de forma muito interessante, parece ser relevante agora na política nacional, porque também o líder do Senado, John Thune, é da Dakota do Sul.

Então quem é esta senhora?

Ela é uma governadora do Dakota do Sul, South Dakota. E penso que é alguém que é muito na linha ideológica de Trump, é uma das aliadas, e sempre foi uma aliada naquilo que tenham sido campanhas ao nível nacional. Ela é uma mulher interessante, mas não tem em si uma experiência que à partida indique que já tenha tido sucessos executivos ao nível de política de imigração ou de segurança nacional. Eu penso que mais importante vai ser quem vai estar mesmo com a pasta da imigração, aquilo que os americanos chamam de border czar, ou seja, é o czar das fronteiras.

O czar das fronteiras.

O czar das fronteiras, que no fundo é um nome que se dá a quem tem como função única o tópico das fronteiras, nomeadamente.

E quem vai ser?

Vai ser Tom Homan. É alguém muito interessante, a quem nos está a ouvir, eu sugiro que vão ver as entrevistas que ele deu no 60 Minutes, que foi uma entrevista longa, que nós ficamos a saber o que ele pensa e a abordagem dele relativamente à imigração. E também, ele já foi líder da ICE. A ICE é a agência de segurança que é responsável por todas estas questões de imigração ilegal, tentar deportar, são eles que fazem todos esses processos na parte de implementar as políticas de imigração que o Congresso passa. E nisso, ele tem essa experiência enorme na agência e também tem uma sofisticação intelectual que vai ser importante neste tópico tão sensível, porque nós sabemos que mais de 60% dos americanos, pelo menos nas sondagens, e pelo menos mais de 50% votou para dar o mandato a Donald Trump para continuar ou pelo menos implementar estas políticas de deportação de imigrantes ilegais. Nós sabemos que essas imagens que vão ser produzidas quando isso efetivamente começar a acontecer vão ser sensíveis e é preciso alguém que seja sagaz e tático na estratégia para fazer esta deportação. Ele já referiu, e vai ser provavelmente o que vai ser feito, vão começar a deportar, por exemplo, homens, jovens, com cadastro, com um passado criminal, que estão inseridos em gangues, porque isso as pessoas não se vão chocar.

O problema é quando chegar aos pais, aos filhos, às famílias, não é?

Eu penso que há tantos milhões até chegar lá, que eles vão tentar primeiro focar-se, até por uma questão de estabilidade social. E Tom Homan é alguém que não só sabe muito sobre a lei, o que a lei diz, quais são as possibilidades que as agências têm para executar essa lei, nomeadamente relativamente a todo o processo, porque isto vai haver considerações judiciais e administrativas que vão custar muito dinheiro. E é preciso também explicar aos taxpayers, ou seja, aos contribuintes, por que vai custar tanto dinheiro e isto vai se refletir depois em questões orçamentárias.

É uma operação gigantesca.

É uma operação gigantesca e ele é o homem ideal, porque já se tem preparado há vários anos relativamente a esta temática e eu penso que foi uma boa escolha. A Kristi Noem, eu penso que é mais uma questão de lealdade e afinidade política. Ela verbaliza a posição de controle de imigração que Trump verbaliza, mas não tem uma experiência executiva relativamente ao cargo.

Já regressamos à conversa com Ana Cavalieri, que viveu muitos anos nos Estados Unidos e é investigadora de Relações Internacionais. Temos ainda de tentar perceber qual é o papel de Elon Musk no meio disto tudo, o papel de Elon Musk na presidência Trump. Estamos de regresso à conversa com Ana Cavalieri, investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Ana, Elon Musk é o homem mais rico do mundo e é também uma espécie de BFF, novo melhor amigo de Donald Trump. Que amizade é esta? Até porque o dono do X e da Tesla Tem estado na Flórida, em casa de Trump, e até aparece nas fotos de família. Que amizade é esta?

Elon Musk foi o maior aliado de Donald Trump, não só pela influência que ele tem. Ele é uma inspiração para milhões de jovens, principalmente rapazes, que sonham em perseguir tudo aquilo que ele tem feito relativamente à engenharia espacial. Não estou a dizer que raparigas, naturalmente, também ambicionam, mas Elon Musk sendo homem, há aquela afinidade identitária. Pelo que, também o facto de ele ser o dono do X, o que era interessante, porque é uma concorrente da plataforma de Donald Trump, que é o Truth Social.

Exatamente.

Elon Musk, quando tomou posse do X, uma das primeiras coisas que fez foi desbloquear a conta de Donald Trump. Ele não voltou ao X por questões óbvias de ele estar na Truth Social, que era um competidor. Mas eu penso que há aqui uma transformação. Existem duas posturas que a pessoa pode ter para avaliar esta amizade de Elon Musk com Donald Trump. Uma, cínica, que no fundo são interesses comerciais. Ele investiu todo o seu capital pessoal e financeiro.

Faz muito dinheiro.

Muito dinheiro e a sua segurança também, porque nós sabemos que há um perigo inerente a estas iniciativas públicas e apostou em Donald Trump sabendo que se Kamala Harris ganhasse, provavelmente os democratas iam tentar persegui-lo juridicamente e tentar fechar o X. Isto foi uma aposta que agora ele vai ganhar imenso dinheiro só com contratos de defesa com o SpaceX, ao nível espacial, e também tudo o que tem a ver com as empresas que ele tem na Tesla e a Boring Company. Ele tem várias empresas e um dos clientes principais muitas vezes é o governo, é o Estado americano, e com Trump lá, ele vai beneficiar financeiramente, sem dúvida. Mas eu penso também, e é a outra postura, há aqui uma postura ideológica, há uma avaliação ideológica que nós podemos fazer desde 2018 e 2019, que Elon Musk começou, que ele era democrata, a focar-se e a estar muito sensível aos excessos ideológicos do Partido Democrata, nomeadamente relativamente a políticas de identidade e contra aquela normalidade ideológica americana de favorecer a meritocracia, a igualdade formal, e estas políticas identitárias têm mais a ver com afinidades de grupos divididos ou raça, ou gênero, ou outras qualidades identitárias em que uns são privilegiados, outros são oprimidos.

E ele percebeu que o país não ia por aí?

Sim, ele é filosoficamente e ideologicamente contra, e ele diz isso muitas vezes nos posts. Esta vertente identitária considera os Estados Unidos como uma força opressora no mundo. Ou seja, um país que cresceu pela violência da escravatura e que agora através do neoliberalismo e capitalismo, continua a promover estruturas de supremacia branca, cujo objetivo é promover e perpetuar a opressão, a discriminação e a exclusão de minorias étnicas, raciais ou também contra mulheres.

Claramente, o eleitorado não se revê nessa ideia.

E Elon Musk, não. Elon Musk vê os Estados Unidos como um país de oportunidade, de liberdade, que independentemente das fragilidades que possa ter tido ou ainda tem, existe uma melhoria incremental das condições de vida, que não há país onde a liberdade de expressão e a liberdade e direitos das minorias seja tão consagrado. Ele tem uma outra perspectiva, que é mais liberal, e ele começou a ter esse repúdio ideológico contra o Partido Democrata, nomeadamente também as questões, isso é importante, do Twitter. Ele termina a altura, compra o Twitter porque vê que o Twitter estava completamente dominado pela esquerda e pelo Partido Democrata, e ele pensou que não havia a capacidade de haver verdadeira liberdade de expressão dentro dos limites legais inerentes a uma plataforma como um social media, como o Twitter ou X. E portanto, ele ao comprar, aquilo já era um ato de tentar ir contra o monopólio de grandes bilionários alinhados com o Partido Democrata. E então ele aí já começa a traçar esse caminho.

E que cargo é que ele vai ter agora?

Tanto ele como o Vivek Ramaswamy vão liderar o chamado Departamento de Eficiência, Department of Government Efficiency. No fundo, é tentar ver toda a estrutura do governo federal, saber aquilo onde há desperdício, o que pode ser cortado, aquilo que está lá mais para dar dinheiro a burocratas e não propriamente para beneficiar com políticas concretas os americanos.

O que muitas vezes em Portugal chamamos de as gorduras do Estado.

As gorduras do Estado. E é importante também referir que este organismo ou este departamento não vai ser um departamento que integra a administração, porque senão tinha de ser criado por um ato Congresso.

Exato, não passa pelo Congresso.

E não passa.

É criado ao lado.

Exato, é aquilo que aqui em Portugal nós chamamos de estrutura de missão, ou seja, um organismo temporário, que não vai ter um poder executivo que tenha impacto orçamental ou que tenha mesmo impacto na própria estrutura, no quadro estrutural do departamento, etc. Teria de haver um documento que lhe desse legitimidade, um ato Congresso, uma executive order, enfim. Isso, enquanto não tiver, e vai ser uma estrutura mais de recomendação, penso eu, eu ainda não vi a lei orgânica desta estrutura Mas parte-se do pressuposto que com a proximidade que Elon Musk e Vivek Ramaswamy têm, não só do presidente, como de Susie Wiles, que as recomendações que eles à partida darão são para ser levadas a sério e poderão ser executadas.

Mas é para cortar muito dinheiro. Estamos a falar de biliões, e aqui à europeia, à portuguesa.

Essa é a promessa e a expectativa. Não esquecer quando ele tomou conta do X, acho que ele cortou cerca de 85% do pessoal e todos os departamentos foram reduzidos ao máximo, por isso ele parece ser alguém com experiência de cortar. Sendo certo que muita gente acha que o X, pelo menos no primeiro ano, funcionou mal com vários bugs e com problemas de crescimento, principalmente porque tinha sido tantas pessoas, tantos trabalhadores cortados.

Mas o Estado não é o mesmo que o X. Aqui há uma diferença entre o que é o Estado federal e depois os estados per si, eles vão pensar no Estado federal, no país todo.

Eu penso que é mais a estrutura federal.

Só para percebermos isto um pouco melhor.

Tanto aquilo que faz parte da administração e todas as agências conectadas com a administração, tudo aquilo que é agência federal, FBI, CIA, Department of Homeland Security, ou seja, todos destes departamentos, nos departments, os ministérios, como também as agências federais que têm competências ao nível federal, eu penso que vai ser essa a órbita da competência deste organismo. Ele não vai poder, naturalmente, ir contra aquilo que é o princípio de alguma autonomia que os Estados têm. Não esquecer que os Estados Unidos é uma federação e o presidente e o Estado federal, ou seja, a autoridade federal tem limites relativamente àquilo que pode intervir relativamente a cada estado. Penso que isto é mais o âmbito federal e as agências ligadas ao governo.

E falaste aí no outro senhor, que é o Vivek Ramaswamy. Eu não consigo dizer tão depressa e tão bem como tu o nome deste homem. Quem é este homem? Também é um tipo interessante.

Também ligado à tech. No fundo, Vivek Ramaswamy, Elon Musk e Peter Thiel, que são tech bros, como se costuma dizer, ou seja, pessoas ligadas a esta Silicon Valley, a esta indústria de tecnologia.

A malta da tecnologia.

A malta da tecnologia, só que o Vivek Ramaswamy é provavelmente o melhor orador neste momento em política. Ele é a pessoa do lado republicano que mais fala, que melhor se expressa e vai fazer parte do futuro do Partido Republicano. Pelo menos ele tem uma capacidade enorme de chegar a uma audiência larga. Ele não é alguém que aliene as pessoas. Pelo contrário, ele consegue formular de maneira a congregar, a moderar e a convencer. É alguém que seduz com a sua oratória. O único equivalente do Partido Democrata que eu possa ver assim de repente é o Pete Buttigieg, do Partido Democrata, também novo. E Vivek Ramaswamy foi alguém que aos 35 anos estava hiper milionário. E ele é self-made, ou seja, não é alguém de pais imigrantes vindos da Índia. Isto é engraçado porque este departamento de eficiência vai ser liderado por um sul-africano e alguém com ascendência indiana, mas americanos, e não há aqui contradição, porque a política, segundo o que o Trump diz, não é dele, não é anti-imigração legal, mas é anti-imigração ilegal.

Mas ele defendeu coisas como, por exemplo, o fim do FBI?

Sim, ele é alguém que quer, numa altura em que o FBI é visto por uma grande parte do segmento do Partido Republicano, como estando ideologicamente capturado pela esquerda e pelo Partido Democrata. Ao ponto de, mesmo quando a presidência está no lado dos republicanos, existe toda uma hierarquia de mid level and low level, ou seja, trabalhadores de meia hierarquia ou que estão na parte até mais baixa de hierarquia, mas que no fundo são eles que fazem a instituição funcionar.

A roda funcionar.

A roda funcionar, fazem força de bloqueio relativamente àquilo que são as diretivas vindas do topo. Não esquecer, por exemplo, que todas estas agências federais estão sediadas em Washington DC e se vocês forem ver o resultado em Washington DC destas eleições, 95% do eleitorado em Washington DC votou no Partido Democrata. Isto é uma anomalia. Isto não é normal, não é uma distribuição eleitoral normal, pelo que existe uma preocupação válida por parte dos republicanos, que todas estas agências estão dominadas pelo Partido Democrata e mesmo que a liderança seja do Partido Republicano, todas estas pessoas que integram essas agências vão ou tentar bloquear ou executar de forma que não cumpra os objetivos do Partido Republicano.

Com o nosso olhar europeu, da forma como olhamos para tudo isto, olhamos para Musk, que é o homem mais rico do mundo e que não terá de abdicar do controle das suas empresas para trabalhar também para o Estado norte-americano, o que no nosso conceito é um pouco estranho, mas ele realmente vai ter não só um grande poder, ou pelo menos o poder de aconselhamento, como vai ter mesmo uma grande influência junto do presidente Trump.

Sim.

Isto não nos deve preocupar um pouco?

Eu penso que é tornar transparente aquilo que acontece sempre a investidores em todos os países onde há estruturas de poder. Acontece em Portugal. Por exemplo, o Partido Democrata e os líderes democratas, Obama, Biden, não tinham só celebridades como a Lady Gaga e a Beyoncé com acesso direto a eles. Têm também poderosos bilionários como Jeff Bezos ou Bill Gates. E o Elon Musk talvez é o mais conhecido que apoiou Trump, mas temos 100 vezes mais bilionários e pessoas ligadas a grandes fundos de Wall Street a apoiarem o Partido Democrata, que teriam acesso também. Mas aqui há algo mais evidente, mais transparente, mais assumido. Isso, ao menos, existe essa transparência. Ninguém duvida que Elon Musk tem um caminho direto para Trump, mas também sabemos que Trump é alguém que se gave com facilidade com pessoas. Pelo que um passo em falso de Elon Musk, sendo certo neste momento, eu penso que é uma relação que vai ser mutuamente benéfica, pelo que para ambos será para continuar a investir nessa relação.

Obrigado, Ana.

Muito obrigada.

Ana Cavalieri é investigadora de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.