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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os Estados Unidos e a estratégia de alto risco em Ormuz.
"And we've had a number of substantive discussions with the Iranians. That's the good news."
A história de hoje começa no sábado à noite, quando J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, anuncia que as negociações com o Irão não deram em nada.
"The bad news is that we have not reached an agreement."
Logo depois, Donald Trump anuncia a estratégia americana. Se a guerra não acaba e se o Irão não reabre o estreito de Ormuz, os Estados Unidos também vão bloquear o estreito e garantir que agora não vai passar mesmo nada, incluindo navios iranianos.
"As you know, at 10 o'clock tomorrow, we have a blockade going into effect. That'll be 10 o'clock tomorrow."
O mesmo Donald Trump, que exigiu várias vezes a abertura do estreito, anunciava agora que os Estados Unidos também iam fechá-lo. E assim aconteceu. Problema: mais uma vez, os mercados foram pouco sensíveis aos méritos da estratégia americana e os preços do petróleo voltaram a subir. De fato, não é fácil compreender os desenvolvimentos das últimas horas e muito menos perceber de que forma é que reforçar o fecho de Ormuz pode ajudar a reabri-lo. Por isso, eu convidei hoje o comandante Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais da Universidade Lusíada. Vamos perceber o que está a acontecer na região, quais são os objetivos desta estratégia e, sobretudo, quais são os riscos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 15 de abril. Comandante Gonçalves Alexandre, obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigado pelo convite. É um gosto estar aqui.
Deixe-me começar por uma questão muito básica, que é: do ponto de vista militar, exatamente o que os Estados Unidos estão a fazer ali? Estão a bloquear ou estão a tentar abrir o estreito de Ormuz?
Há um segundo bloqueio do estreito. O que os Estados Unidos estão a tentar garantir é que não há saídas de navios do Golfo Pérsico para o Golfo de Omã e, portanto, para o mar Arábico e para o oceano.
Portanto, depois do bloqueio imposto pelo Irão, os Estados Unidos responderam com um bloqueio imposto por eles próprios.
Exatamente. Trata-se de um segundo bloqueio e a perspectiva é que não passe pelo estreito de Ormuz qualquer navio que tenha origem em portos do Irão. E isto tem uma mensagem clara, que é tentar asfixiar a economia do Irão, naturalmente.
Isso faz sentido? Ou seja, a maior parte das pessoas quando ouviu Donald Trump durante dias, e é verdade, Donald Trump diz coisas diferentes consoante o dia, mas se tivéssemos que olhar para as últimas semanas, víamos apelos, às vezes quase desesperados, num caso até em redes sociais com uma linguagem bastante crua, chamemos-lhe assim, a exigir a abertura do estreito de Ormuz. E agora anuncia de surpresa, depois do fim das negociações que não deram em nada daquela primeira ronda, que os Estados Unidos também iam eles próprios bloquear. Isto faz sentido?
Na minha perspectiva, não faz sentido. Ainda que eu perceba a intenção, que foi, como disse, tentar prejudicar ao máximo a economia do Irão, portanto, levar o Irão a que tenha menos receitas em função da venda de petróleo, sobretudo. Ainda que perceba, isso não faz sentido, porque no fundo o que esta decisão de Donald Trump está a ter influência em vários Estados, eu diria até de forma global, que compram energia naquela região e não apenas está a provocar danos ao Irão. Repare, o mercado energético é global e mesmo os Estados Unidos sofrem com o aumento do preço dos combustíveis nos mercados. Os mercados ditam as leis. Isto não se consegue ultrapassar, portanto, afeta o Irão e vai afetar muitos outros Estados.
Portanto, mesmo que funcionasse esta estratégia, esta tentativa de asfixiar a economia iraniana, o tempo era muito escasso para conseguir e, sobretudo, tentar evitar que houvesse um contágio.
Sim, é isso mesmo. Ou seja, a eficácia desta medida, se for limitada no tempo, pode ter alguma eficácia, porque evita esse contágio generalizado. Mas também se for por pouco tempo, o Irão consegue sobreviver com isso. E, portanto, não faz sentido, na minha perspectiva, este novo bloqueio imposto pelo senhor Trump.
Até porque assim que ele fez aquele anúncio do bloqueio total e a hora, etc., em que o bloqueio iria entrar em vigor, a reação dos mercados foi aquilo que já se esperava, que é a subida do-
Subida do preço dos combustíveis.
E isso também tocou aos Estados Unidos.
Claro. E é isso que penso que o senhor ainda não sei se já percebeu ou não, mas quando ele diz que tem muito petróleo, e tem, de fato, e tem muito gás natural, e tem, de fato, para as suas necessidades e para vender. Até sugeriu que alguns dos navios que estão naquela região se desloquem, julgo que o Pedro se lembra disso, se desloquem para os Estados Unidos para abastecer lá, mas vão abastecer a preços mais caros, porque a energia sobe e isso são os mercados a ditar leis e o senhor Trump não consegue controlar isso.
O que é que, do ponto de vista militar, é preciso pôr naquela zona, naquela região, para tentar concretizar esta operação que, já de si, olhamos para isto agora, não parece a coisa mais brilhante do mundo.
Eu diria que para garantir o bloqueio naval, os meios que os Estados Unidos têm na região são suficientes. Não são necessários certamente mais meios, e sabemos todos que há mais meios em deslocação para a área de operações e, portanto, não será necessário mais do que aqueles que já lá têm. Se for apenas para garantir este duplo bloqueio, o bloqueio do lado do Golfo de Omã, neste momento temos um bloqueio no estreito e um bloqueio da parte do Golfo de Omã, portanto, a parte fora do estreito. Se for para fazer qualquer outro tipo de operação, aí acredito que sejam necessários mais meios.
Pelo menos esse discurso tem sido atenuado agora nas últimas semanas.
Sim, eu penso que essa opção, uma opção militar pura e dura, não está-
Pôr botas no terreno, como se costuma dizer.
Sim, não vai ser usada no imediato, diria.
E já voltamos a conversar. Estamos de regresso. Um dos riscos que isto tem, para além dos mercados reagirem não vendo também eles próprios grande sucesso nesta operação, é que o próprio Irão pode retaliar mais uma vez atacando outros países fornecedores de energia naquela região, como já tem feito ao longo desta guerra.
É verdade, isso pode acontecer, mas hoje houve uma notícia importante, que é a entrada da China de um modo mais formal nesta questão. A China esteve por trás do convencimento do Irão de participar nestas primeiras negociações. E hoje, com as visitas que houve do príncipe herdeiro de Abu Dhabi e até com o primeiro-ministro de Espanha a Pequim, e com as mensagens que resultaram dessas visitas, há claramente uma intenção de a China poder assumir uma preponderância que não tem tido neste processo até ao momento. Eu diria que até é uma espécie, e que está a ser bem vista por alguns Estados, porque poderá ser até aquela figura tradicional do único adulto numa sala onde não existem outros e que ninguém se entende. Isso é um dado novo e é um dado que vem apelar claramente à negociação, porque a China, obviamente, pretende resolver todo o tipo de conflito, e este também, pela via negocial. E isso é um dado importante.
É um dos países que diretamente é afetado por este... Mas quando fala dessa expressão que é curiosa, que parece ser o único adulto da sala, que sinais viu ao longo destes dias para dizer isso?
A atuação dos Estados Unidos, e sobretudo o discurso político, tem sido completamente errôneo. O discurso vai num sentido, dá ideia que no fim da semana há algum apaziguamento, para ver se os mercados interpretam isso de uma determinada forma e para que os preços da energia não subam, e depois no início da semana seguinte, é exatamente o oposto. Isso tem sido a prática ao longo de semanas. Se fizemos essa analogia, é o comportamento de um adulto, é o comportamento de alguém com menos idade. Daí eu pensar que a China tem interesse, porque tem interesses próprios. A China importava, antes do conflito, cerca de 35% das suas necessidades energéticas para o Estado, para as empresas e para a sua população, daquela região do globo. Trinta e cinco por cento é muito significativo. É evidente que há outras potências asiáticas que importam, em termos percentuais, maiores quantidades de energia, mas a China importa e interessa-lhe que as coisas fiquem mais estáveis. Mas também lhe interessa, obviamente, continuar a gerir estas coisas de acordo com o multilateralismo, com a Carta das Nações Unidas, optar pela resolução pacífica de conflitos. E isto, penso, é tudo o que as potências daquela região, e outras, querem ouvir.
E seguramente isso trará ganhos também do ponto de vista diplomático à China, até porque deu exemplos de aliados tradicionais dos Estados Unidos que têm feito ali uma série de visitas. Já que estamos a falar da China, e aqui nesta lógica concreta do bloqueio que os Estados Unidos garantem estar a funcionar, as últimas horas, e agora para quem nos está a ouvir, nós estamos a gravar esta conversa, são 20h15 da noite de terça-feira. As últimas informações que temos é que terá havido um navio com pavilhão chinês, precisamente, que até agora tem conseguido atravessar o estreito, e há a dúvida se conseguiu ou não furar esse bloqueio. O que acha que aconteceu ou que vai acontecer?
Sim, é bom essa ressalva da hora que estamos a gravar, porque amanhã as coisas podem ser diferentes.
Sim, exatamente.
O que aconteceu, de facto, é que aparentemente esse navio de pavilhão chinês, oriundo de um porto do Irão, conseguiu passar o estreito de Ormuz em direção ao Golfo de Omã, depois ao mar Arábico, e até agora não foi interceptado.
Não foi interceptado ou condicionado.
Também não sei se chegou já à área onde se encontram as forças americanas. Em todo caso, precisamos de esperar e aguardar para perceber o que é que se processa a seguir. Será que as forças americanas vão reagir? E se o fizerem, de que forma vão reagir? Utilizando força ou não? Vão deixar passar o navio por ser um navio de pavilhão chinês porque não querem abrir mais brechas quando já estão envolvidos com o Irão? Tudo são questões que nós temos que ter em atenção e vamos conhecer a resposta a essas questões nas próximas horas.
Sendo que se deixarem passar o navio, digamos que...
Então o bloqueio não serve.
O bloqueio não serve nada. Se, por outro lado, atacarem ou se interceptarem o navio, pode haver também uma reação da própria China.
Isso equivale a um escalar do conflito, na minha perspectiva, porque vai passar a envolver um meio que pertence à China. E a China tem sido crítica, de uma forma geral, desde o início da operação, mas tem se mantido à margem, para além da crítica que vai fazendo, à margem do desenvolvimento das operações, na área de operações em terra, no Irão e nos espaços marítimos envolventes. Se isso acontecer com o navio de pavilhão chinês, é expectável que haja uma reação da parte da China. Não está em causa, penso eu, depende do tipo de intervenção que as forças americanas tiverem em relação ao navio.
Não tiramos nada de cima da mesa.
Nada. É isso, eu não tiro nada. A princípio, a China obviamente que vai reagir, vai criticar de forma mais veemente, vai eventualmente até tentar levar o assunto pra discussão no Conselho de Segurança. Há uma série de iniciativas que a China pode tomar. Não creio que isso seja suficiente para outro tipo de envolvimento contra os Estados Unidos, mas é um sinal muito complicado que os Estados Unidos dão à China. Até porque os Estados Unidos não têm mandato nenhum no Conselho de Segurança pra estarem a fazer o que estão.
Exatamente.
O que estão a fazer é completamente ilegalO que estão a fazer é completamente ilegal à luz da Carta das Nações Unidas, que é muito seguida pela China. De facto, aquilo não pode acontecer. Qual é a base legal para interromperem a navegação de um navio mercante, que se sabe de onde é que saiu, para onde vai e o que carrega, qual é o tipo de carga que leva a bordo, para interromper, para ir a bordo, para eventualmente o tentar enviar de novo para o Golfo Pérsico, que é uma opção, qual é a base legal para fazerem isso? Não há.
Mesmo até do ponto de vista doméstico, há muitas dúvidas sobre se a própria guerra contra o Irão tem base legal para ser levada a cabo. Vamos esperar que a China continue a ser o adulto na sala. Vamos ver o que acontece nas próximas horas. Comandante Gonçalves Alexandre, muito obrigado.
Foi um gosto, muito obrigado.
Eu conversei hoje com Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais, capitão de mar e guerra na reserva, que esteve em várias operações militares, sobretudo da NATO, e que entre 2014 e 2015 comandou a Força Naval Portuguesa. Ouvi-lo não nos deixa propriamente otimistas em relação ao sucesso desta estratégia americana de também bloquear o Estreito de Ormuz, mas as últimas horas trouxeram notícias de uma segunda ronda de negociações entre Washington e Teerão e pode ser que saia daqui alguma coisa que ajude a resolver esta guerra. Vamos ver. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.