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Esta é a história do dia. Há um teatro em Lviv onde o palco e a plateia têm agora colchões. Já não há ficção, só realidade.

Estamos aqui no Teatro Les Kurbas, acabamos de chegar. Este é um teatro que está acolhendo refugiados que chegam de outros pontos da Ucrânia antes de partirem para a Polônia ou para outros países europeus.

Estão mesas com comida, bolachas, leite, água, sucos, tem também um frigorífico.

E podemos ver que na zona da plateia estão várias camas montadas com mantas, várias pessoas sentadas nelas.

Neste momento há crianças assistindo a desenhos animados numa televisão que foi instalada. Estão distraídas, contentes, riem-se.

E malas, muitas mochilas que as pessoas levam todos os seus pertences sem saber ainda bem para onde vão.

O teatro no centro da cidade serve agora de porto de abrigo para quem tenta sair da Ucrânia. Os enviados especiais do Observador, Cátia Bruno e João Porfírio estiveram na sala de espetáculos agora transformada em camarata e centro para refugiados. Vou conversar com a Cátia Bruno sobre as histórias que encontrou no Teatro Les Kurbas, em Lviv. Bem-vinda, Cátia Bruno.

Olá, Ricardo.

Cátia, que piano é este que estamos a ouvir?

Este é um piano que está no Teatro Les Kurbas em Lviv e que estava, neste momento em que captámos este vídeo, a ser tocado por um rapaz de nove anos, o Maxim, que fugiu com a família de Donetsk e que estava a fazer o seu treino habitual de piano, que ele começou a aprender a tocar em setembro porque ia ter um recital em março e tem se habituado a tocar sempre que pode. Quando viu ali um piano, não quis desperdiçar a oportunidade e foi tocar.

Maxim é apenas uma entre várias crianças que estão nesse teatro em Lviv. Afinal de contas, que teatro é esse, Cátia?

É um teatro que está num edifício muito antigo, que tem sido renovado pela companhia que está lá neste momento. A companhia é uma companhia de teatro experimental, fazem muitas peças fora da caixa. Até nos disseram que as cadeiras que costumam estar na plateia nem sempre estão lá, porque às vezes as pessoas assistem de pé, às vezes são levadas pro palco, às vezes os atores interagem com a audiência. É um teatro muito peculiar que faz parte daqui da vida cultural da cidade e que é bastante famoso.

E agora está a servir de abrigo para mães e crianças essencialmente?

Sim, uma das atrizes responsável pelo teatro, a Natalia Rudka-Parkhomenko quando começaram as primeiras notícias de que a Ucrânia estava a ser invadida, começou logo a tentar fazer contatos junto às autoridades da cidade pra poder pôr o teatro à disposição da forma que fizesse mais sentido. Com a ação da mulher presidente da Câmara de Lviv, foi possível fazer com que o Les Kurbas recebesse os refugiados que vinham das zonas mais a leste do país e que estavam a fugir de bombardeamentos. Toda a companhia tem estado a trabalhar para ajudar estes refugiados. Os atores andam de um lado para outro a trazer comida, cobertores, montar camas. As camas foram montadas com adereços da companhia, nem sequer são camas ditas normais. Neste momento estão ali sempre em média 20 pessoas todos os dias a dormir, pessoas essas que vão e vêm, à medida que chegam novos comboios para a Polônia para poderem sair, as pessoas que estão lá partem e estão sempre outras a chegar e portanto a lotação está sempre cheia.

Pra amanhã estava prevista uma peça de um irlandês, Martin McDonagh, "A Rainha da Beleza". Essa peça não vai estrear, nem vai estar em cena. Os atores, os encenadores, os técnicos transformaram a sua arte em ajuda humanitária.

Sim, essa é uma sensação muito visível em toda a cidade. A maior parte das pessoas parou de trabalhar, a maior parte das empresas disse aos seus funcionários: “estão à vontade, vão tratar da nossa vida”. E a reação da maior parte dos ucranianos aqui de Lviv é de que ficar parado em casa a ver notícias não chega e que é preciso fazer alguma coisa. Essa sensação de urgência foi muito evidente aqui no teatro quando falamos com a Natalya. Eu perguntava qual tinha sido a última peça que tinham levado à cena e que papel ela interpretava. E ela respondeu: "Eu nem me lembro, isso não interessa nada agora, não quero saber do meu trabalho enquanto atriz neste momento, eu só quero falar destas pessoas que estão aqui, precisam de ajuda e como nós podemos ajudar a aliviar o sofrimento delas." Portanto, é como se tudo o resto tivesse ficado em suspenso. Há uma consciência muita aguda de que o país está em guerra e, portanto, a arte neste momento para estes atores e para estes técnicos é secundária

Bastante agradável cá dentro, não está frio, as pessoas estão sem casacos, portanto é um ambiente acolhedor.

E que outras histórias, Cátia Bruno, encontraste aí nesse teatro no centro de Lviv?

Encontrei, por exemplo, a história da Sasha e do Pasha. A Sasha é uma ucraniana de Kharkiv, uma das cidades que tem sido mais assolada por ataques do exército russo. E a Sasha há uns dias, na noite de domingo, como ela própria diz, entrou em pânico com as explosões que continuavam a acontecer, com a chuva de artilharia que não parava. E ao contrário do resto da família, que estava decidida a ficar ali, ela pegou no filho, Pasha. Pegou em tudo o que tinha, muito rapidamente, quase sem tempo para pensar. Ela diz, por exemplo, que deixou dinheiro para trás, que nem tratou dessas coisas práticas, e correram pra estação de comboios para tentar vir pra outra zona da Ucrânia. E a situação que eles encontraram na estação de comboios era caótica, com pessoas a atropelarem-se, a agredirem-se, toda gente desesperada para subir a bordo. Sasha e o Pasha enfrentaram uma longa viagem de comboio até Lviv, numa viagem em condições muito difíceis, dormiram no chão do comboio. O Pasha fazia 11 anos nesse dia e obviamente não houve celebração, não se cantaram os parabéns, porque naquele momento mãe e filhos estavam a lutar pela vida, estavam desesperados a tentar sair de Kharkiv e chegar a local seguro, o que aconteceu quando desembarcaram aqui em Lviv e foram levados para este teatro. A Sasha e o Pasha falam russo, eles vêm de Kharkiv, que é uma cidade que fica muito perto da fronteira com a Rússia, é a segunda maior cidade da Ucrânia, mas é o local onde a maior parte das pessoas fala russo, onde a influência da Rússia é muito visível e Portanto, há aqui algumas diferenças relativamente às pessoas que vivem em Lviv, que é uma cidade muito ocidentalizada, onde ainda não tínhamos ouvido uma palavra de russo praticamente.

Falam russo, a Sasha e o Pasha são também símbolo dessas duas Ucrania que coexistem, uma mais pró-ocidental e uma mais pró-Rússia, no leste do país?

Sim, a Sasha e o Pasha representam, de facto, estas duas Ucrania que são uma, por um lado, muito ocidentalizada, como aqui em Lviv, onde ninguém fala russo, ainda não tínhamos ouvido uma palavra de russo desde que aquí chegámos, na quinta-feira à noite. E outra Ucrânia mais a leste, que tem laços com a Rússia e isso é inegável. Agora aquilo que a Sasha nos dizia é que independentemente de só falar russo, independentemente de ter afinidade com alguns aspectos da Rússia, que se sentia completamente ucraniana. E ela dizia: "Eu sinto-me ucraniana em qualquer canto deste país", não há dúvida nenhuma sobre isso. É claro que a situação não é assim tão simples. Já ouvimos relatos de pessoas que durante muito tempo, não viram com dificuldade a ideia da Rússia poder ter alguma forma de influência mais direta na Ucrânia, mas aquilo também que nos dizem é que esta agressão militar está a fazer com que muitas dessas pessoas mudem de ideias e, portanto, há também uma certa sensação, mesmo entre aqueles que eram mais pró-Rússia, de que houve aqui uma espécie de traição, porque también ellos están a ser bombardeados, também eles estão a perder as suas casas e portanto estas duas Ucrânias na verdade parecem um pouco mais unidas nos últimos días.

O Maxim, que ouvimos no arranque da nossa conversa, tinha um recital agendado pra este mês em Donetsk, mas nesta altura ninguém arrisca previsões sobre quando vamos poder voltar a ouvir o som dos pianos a serem tocados aí na Ucrânia.

Não, de fato, o Maksim e a familia dele não sabem sequer para onde é que vão. O Maksim não sabe se vai voltar a ver o pai, que ficou em Donetsk como parte das brigadas civis. Поэтому neste momento, embora ele continue a gostar de tocar piano, essa é uma preocupação secundária, porque é a sua vida que está em jogo. A única coisa que conversános relativamente às capacidades dele nesta área, que são muito boas, porque ele começou a tocar apenas em setembro e já consegue tocar peças inteiras, é de que eu disse que esperava que um día pudesse vir a ouvir um concerto dele, de piano. E ele disse que também esperava e que tinha a certeza que isso ainda viria a acontecer. Não sei é se será na Ucrânia.

Obrigado, Cátia.

Obrigada, Ricardo.

Continuamos focados na situação que se vive na Ucrânia e nas histórias que nos contam os enviados especiais d'O Observador, Cátia Bruno e João Profírio. No jornal e na rádio continuamos a acompanhar ao minuto a guerra na Ucrânia. Esta foi a História do Dia. A música do genérico é do João Ribeiro, a sonoplastia da Beatriz Martelo Garcia. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã!