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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Marta Temido vai conseguir unir a esquerda contra Carlos Moedas?
Que orgulho! Ganhámos contra tudo e contra todos.
Carlos Moedas abria desta forma o discurso da vitória na noite das eleições autárquicas. Já era madrugada de 26 para 27 de setembro de 2021. Contra as expectativas, o candidato do centro-direita derrotou o socialista e presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, por apenas 2294 votos. Agora, a cerca de dois anos das próximas eleições autárquicas, Marta Temido, líder da concelhia do PS de Lisboa, lança o desafio: uma grande coligação de esquerda para derrotar Moedas. Será possível? Vou conversar com a jornalista da seção de política do Observador, Mariana Lima Cunha. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Mariana.
Olá, Ricardo.
Mariana, estamos a falar de PS e de esquerda em Lisboa, mas neste momento estás com o PSD, é isso?
É isso. Estou aqui em Castelo de Vide, onde está a decorrer mais uma edição da Universidade de Verão do PSD. É um evento tradicional da rentrée do PSD e onde vêm mais nomes associados ao PSD, obviamente, mas por curiosidade, este ano também temos cá Álvaro Beleza, que é socialista. É o mais perto que eu estou do PS neste momento.
Mariana, já vamos olhar mais em pormenor para aquela ideia de Marta Temido, mas uma grande coligação de esquerda em Lisboa contra o centro-direita não é propriamente uma novidade. Isto já foi experimentado.
Sim, não é uma originalidade absoluta, tanto que quando se pensou e acabaram por se fazer os acordos para a geringonça, este era precisamente referido como o exemplo que era um pouco precursor desses acordos. E precisamente porque metia PS e PCP, que eram então ainda mais, nesta altura, aliados muito improváveis. Estávamos então em 1989, quando Jorge Sampaio começa a alimentar a ideia de que vai avançar para a Câmara de Lisboa. E era um nome que não era esperado até dentro do PS. A conclusão que ele tira olhando para os números é que o PS não estava em grande forma em Lisboa. O PS, na altura, é difícil pensar nisto agora, mas tinha menos votos do que o PCP. Estava ali no patamar dos 17% e o PCP nos 25%. E, portanto, Jorge Sampaio concluiu que precisava de ajuda. E foi recorrendo a grandes negociações de topo com responsáveis comunistas, incluindo Carlos Brito e Álvaro Cunhal, que acabou por organizar uma frente de esquerda, que depois também acabaria por meter as forças que deram origem, por exemplo, ao Bloco de Esquerda. Foi essa a primeira experiência, que depois, aliás, continuou com João Soares na Câmara de Lisboa.
Nessa altura, ainda de Sampaio, com PSR e UDP nessa primeira coligação. E depois o PS esteve muitos anos e muito tempo à frente da Câmara Municipal de Lisboa, não foi?
Sim, porque esse domínio ali da Câmara de Lisboa começa com Jorge Sampaio em 1990, quando ele toma posse, mas depois estende-se por toda essa década e só termina em 2002, quando João Soares passa a pasta numa derrota surpreendente a Pedro Santana Lopes. E há ali um interregno em que, de facto, é o PSD com Santana Lopes e com Carmona Rodrigues que ganha a Câmara, mas ela volta a ser conquistada por António Costa em 2007 e aí começa mais um ciclo grande do PS, que só acaba com a derrota de Fernando Medina aqui há dois anos.
Precisamente, Medina era o incumbente, era o candidato a presidente há dois anos, mas a 26 de setembro de 2021, Carlos Moedas surpreendeu muita gente.
É verdade, Carlos Moedas surpreendeu dentro do partido dele e dentro do PS.
Do próprio partido.
Exatamente, sim. Não havia muita gente que estivesse a contar com aquela vitória. E aliás, temos de lembrar também que as sondagens não indicavam isso. Havia, aliás, sondagens que davam a maioria absoluta a Fernando Medina. E, portanto, essa campanha foi passada a discutir se Fernando Medina conseguia a maioria absoluta ou só simples e com quem é que ia fazer acordos caso precisasse. Ou seja, um mundo completamente diferente daquele que acabou por se revelar com a ida às urnas e com essa noite eleitoral. E, portanto, foi uma derrota muito taco a taco, um resultado muito taco a taco, porque Carlos Moedas acaba por ganhar com, eu penso que é menos de 1 ponto percentual de diferença, menos de 3 mil votos de diferença. Portanto, é uma derrota de Medina que surpreende um pouco toda a gente. E aliás, nessa noite profetizou-se muito a morte política de Fernando Medina. O próprio veio dizer que o resultado era só pessoal.
A derrota de hoje é uma derrota que é pessoal e intransmissível.
Para tentar não contagiar muito o PS, que ficava assim sem as duas principais Câmaras do país, e tentar estancar um pouco os danos, porque foi de facto uma surpresa muito desagradável com que o PS não contava.
E nesta altura, Mariana, Marta Temido é o quê na estrutura do Partido Socialista?
Marta Temido é desde julho líder da concelhia do PS Lisboa. Já era há uns meses, mas só de forma interina, e foi legitimada. Era a única concorrente e teve, eu penso, 99% dos votos em julho. E portanto, o que se tornou na prática foi a líder do PS Lisboa, mas mais importante do que isso, é simbolicamente um nome visto como uma potencial concorrente à Câmara de Lisboa em 2026. Marta Temido foi ganhando aqui algum terreno. Ela não tinha muita vida partidária antes disso. Aliás, ela só se tornou militante do PS já era ministra, no último congresso, em que António Costa foi dar-lhe o cartão de militante pela própria mão no palco do congresso. Ela foi muito aplaudida nessa altura. E portanto, ela começa aqui um pouquinho por cima a fazer a sua vida partidária já no topo da estrutura do PS de Lisboa.
Mariana, e afinal, qual é a ideia de Marta Temido para as próximas autárquicas?
É importante nós lembrarmos que ela mesmo enquanto ministra, fazia questão de frizar que estava ali no lado mais à esquerda dentro do PS, na ala mais à esquerda. E a ideia de Marta Temido é que, de facto, ela tem alguma simpatia por soluções à esquerda e por soluções que imitam o tal modelo que já falamos de alianças à esquerda, não necessariamente geringonças, mas modelos que envolvam outros partidos. E portanto, o que a antiga ministra da Saúde nos disse foi que vê com muito bons olhos a hipótese de se vir a formar uma espécie de megacoligação contra Carlos Moedas. Isto acontece porque Carlos Moedas é um concorrente que o PS começou por desvalorizar e que vê agora que é muito popular em Lisboa e a noção que existe, e que claramente existe na cabeça de Marta Temido, é que pode mesmo ser necessário juntar forças para o conseguir tentar derrotar. E já sabemos que um incumbente é sempre, por regra, Medina quebrou essa regra, mas normalmente mais difícil de derrotar. E portanto a ideia de Marta Temido neste momento, não está fechada, até porque falta muito tempo para as autárquicas, mas é que seria bom, nas palavras dela, fazer um caminho partilhado com a esquerda para que se pudesse chegar a essa solução em que houvesse quase de novo uma frente de esquerda. Que juntasse vários partidos contra Carlos Moedas, que fez precisamente uma megacoligação de direita em 2021.
Já voltamos à conversa com a Mariana Lima Cunha, jornalista da seção de política do Observador. Vamos tentar perceber se esta ideia da ex-ministra da Saúde tem apoios dentro e fora do PS. Regressamos à conversa com a jornalista Mariana Lima Cunha, da seção de política do Observador. Mariana, Marta Temido já assumiu que é candidata à Câmara de Lisboa ou ainda não?
Não assumiu e neste momento não é propriamente uma decisão fechada, mas no PS já há praticamente quem assuma por ela, ou pelo menos há muita gente que assume a vontade de que seja ela a candidata por Lisboa.
Tudo tem o seu tempo e a seu tempo o PS fará essa escolha.
Ali nos corredores do PS de Lisboa há muita ideia de que pode ser a candidata com mais trunfos para enfrentar Carlos Moedas, seja pela notoriedade que tem em todo o país. Depois do papel como ministra da Saúde na pandemia, isso naturalmente acontece. Também há muita atenção às sondagens que já nessa altura a davam como a ministra mais popular do governo. E há aspetos muito específicos que estão a ser analisados pelo PS. Por exemplo, a popularidade de Marta Temido junto da população mais idosa, que é um segmento eleitoral em que o PS está interessado e em que sabe que Carlos Moedas funciona muito bem. E por isso, os socialistas o que têm feito é um pouco testar Marta Temido nas ruas. Ela tem andado pela rua, a visitar comércio local, a falar com pessoas em Lisboa. E o que temos tido de feedback dessas fontes é que ela é uma espécie de fenômeno na rua, pelo menos aos olhos do PS, que acha que a ex-ministra funciona muito bem nesse contacto com as pessoas.
E Duarte Cordeiro, que hoje é ministro e foi número dois de Medina na Câmara de Lisboa, nesse dia da apresentação da candidatura de Marta Temido à liderança do PS Lisboa, falava já como se a ex-ministra da Saúde fosse mesmo a candidata.
A tua candidatura representa claramente uma expectativa, uma esperança, uma confiança para o Partido Socialista em Lisboa. E a Marta vai nos liderar no processo da reconquista da Câmara Municipal de Lisboa.
Mariana, para o PS, isto parece mesmo um assunto arrumado, não é? Que Marta Temido é candidata.
Parece um assunto arrumado e nesse dia particularmente pareceu, porque os discursos tanto de Marta Temido como Duarte Cordeiro pareciam já de um projeto para Lisboa liderado por Marta Temido. Eles estavam a falar da concelhia de Lisboa, mas era impossível não retirar algumas leituras do fato de estarem a apresentar Marta Temido como a pessoa que ia levar o PS de novo à vitória na cidade, e por aí fora. Ainda não é um assunto completamente arrumado por algumas razões. Por um lado, porque Duarte Cordeiro, como tu dizias Já foi o número dois no caso de Fernando Medina na Câmara de Lisboa. É um ministro que tem muita ligação à maior câmara do país. Aliás, ele é também presidente da Federação do PS em Lisboa, portanto é um pouco responsável por essa área em termos partidários e é, sobretudo, um nome muito acarnado. A teoria que corre no PS é que se Duarte Cordeiro quisesse avançar, seria muito difícil que o PS não o apoiasse, porque é de facto um dos nomes mais consensuais no partido. A dúvida é se quer. E a informação que já fomos tendo é que ele, pelo menos da federação, vai sair no final do mandato, portanto não vai fazer este ciclo autárquico. Isto não o exclui imediatamente como candidato a Lisboa, mas pode deixar o palco de forma mais evidente para Marta Temido. Isso é provavelmente uma decisão que se vai tomar ali. Neste momento, parece que entre estes dois nomes, não sabemos, poderá surgir alguma surpresa porque faltam ainda alguns anos, mas neste momento são os dois nomes que o PS claramente mais discute e mais defende para a câmara.
Vamos então regressar à ideia de Marta Temido, que é a ideia central deste episódio da História do Dia, de reunir uma coligação de esquerda em Lisboa contra Moedas. Esta ideia tem apoio interno no Partido Socialista?
Tem algum apoio interno e também é alvo de algumas dúvidas internas. Há bastante gente no PS Lisboa que concorda com Marta Temido, nem que seja por uma questão de necessidade. Ou seja, se há uma coisa que o PS dá por certo é que esta eleição vai ser evidentemente uma eleição difícil e que o PS precisa muito de voltar a recuperar as grandes autarquias, não tem o Porto nem Lisboa neste momento, e portanto que tem de apostar forte nessa corrida. Há quem acredite que uma frente unida, pelos motivos óbvios, seria uma maneira mais fácil de conseguir convencer mais eleitores. Também por uma questão mais estratégica, que é há quem acredite no PS que Carlos Moedas já fala muito ao centro, já fala muito a um certo tipo de eleitorado mais centrista que poderá não ver grande incentivo em mudar cruz no boletim de voto se a decisão for apenas entre dois candidatos mais ao centro. E portanto, o que esse setor do PS acredita é que é preciso polarizar mais à esquerda e aí faria sentido haver aqui uma frente de esquerda que bipolarizasse um pouco a corrida nesse sentido. Depois há também quem tenha dúvidas, também por motivos compreensíveis. Por um lado, porque primeiro será difícil convencer outros partidos num contexto de maioria absoluta, em que é natural que a esquerda não queira ser vista de mão dada com o PS tão perto das eleições legislativas, que vão ser no ano a seguir às autárquicas, e por hesitações normais que esses partidos poderão ter, aliás, todos os partidos envolvidos, na distribuição de lugares de poder depois da eleição. Claro que qualquer um deles preferiria ter autonomia para decidir o que quisesse. Pode é, por uma questão de necessidade, não conseguir fazê-lo e ser obrigado a fazer alianças.
Isso leva-me à pergunta seguinte: e os outros? O que é que dizem os outros? Por exemplo, o Bloco de Esquerda, a PCP?
As reações neste momento ainda são um pouco cautelosas, porque como eu já fui frisando ao longo deste episódio, faltando um pouco de tempo, é natural que assim seja, mas também sabemos que o tempo da política é de muita antecipação e as coisas começam a ser feitas muito antes de saber cá fora que estão a ser preparadas e portanto, já há conversas de corredor, pelo menos entre PS e Bloco de Esquerda, ou seja, mesmo que não esteja a um nível formal e votado, não há decisões propriamente sufragadas, mas há conversas entre elementos dos dois partidos exploratórias, penso que um pouco a sondar o que é que uma solução destas podia dar. No Bloco de Esquerda, a ideia não é completamente posta de parte, precisamente porque o partido também tem noção de que pode ter essa necessidade. O Bloco de Esquerda nas últimas autárquicas viu-se com dificuldades para segurar a vereadora que tinha, portanto nem sequer tentou muito o objetivo de crescer, foi mesmo de segurar o que já tinha e não perder, e portanto não está numa posição super favorável. E além disso, já na última eleição, o Bloco de Esquerda o que queria era precisamente aliar-se ao PS e assumir isso, queria fazer parte da governação da cidade, como chegou a fazer com Fernando Medina. E portanto, não é o partido mais hesitante, embora também reconheça que obviamente há dificuldades nesse caminho. O PCP para já é muito lacónico. O partido respondeu-nos por via de um fonte oficial dizendo simplesmente que estamos muito longe para estar a comentar assuntos especulativos e portanto recusou sequer alimentar a ideia, pelo menos a esta distância, não sabemos se mais perto poderá alimentá-la, como já alimentou no passado. Como sabemos, mais recentemente o PCP não tem estado tão disponível para alianças com o PS, mas é uma questão que só o tempo responderá, porque por agora o PCP não responde.
E olhando para a forma como há pouco explicaste como o PS encara Carlos Moedas e precisamente a dois anos das eleições autárquicas, mais ou menos, este toque a reunir também pode ser lido desta forma, Mariana: o PS parece estar mais preocupado com Carlos Moedas do que com Luís Montenegro?
Há muitos no PS quem faça precisamente esse raciocínio, ou seja, quando são questionados sobre Carlos Moedas, há muitos dirigentes socialistas e fontes socialistas que assumem que Carlos Moedas parece um perigo maior do que Luís Montenegro, porque o consideram até potencial líder do PSD, passando ali a fronteira de Lisboa mais credível ou mais popular e mais eficaz, sobretudo, do que Luís Montenegro. Isto foi uma surpresa para o PS, diga-se, porque há dois anos o PS desvalorizava bastante o adversário Moedas e neste momento fala dele como uma pessoa incontestavelmente popular nas ruas, nas redes sociais, desses segmentos de população que já falámos também. E, portanto, há um reconhecimento que mesmo que o PS não reconheça propriamente o trabalho que merece essa popularidade, reconhece que tem esse efeito junto dos eleitores. E o que o PS tem feito é precisamente gerir essa preocupação que existe com a popularidade de Carlos Moedas, empurrando também um pouco a preocupação para Luís Montenegro. Ou seja, o que nós já ouvimos de vários dirigentes do PS foi quase sacudir a pressão e insistir que quem tem de estar preocupado é Luís Montenegro, porque Carlos Moedas ainda pode roubar-lhe o lugar e tentar chegar à liderança do próprio partido. Nós sabemos que isso seria complicado, pelo menos em termos de calendário, para Carlos Moedas, porque é natural que tente uma reeleição ainda em Lisboa para confirmar este primeiro mandato em que foi eleito por pouco e tem ainda obra para fazer. Mas o PS agita muito esse fantasma de que Carlos Moedas é um perigo ainda maior do que para o PS, sobretudo para Luís Montenegro.
Obrigado, Mariana.
Obrigada, Ricardo.
Mariana Lima Cunha é jornalista da secção de política do Observador e esta foi a História do Dia. E se gosta da História do Dia, aqui fica aquele pedido e até fim de semana pode ajudar um amigo ou um familiar. Por que não partilhar este episódio ou um dos quase 400 episódios da História do Dia? Para nós é uma grande ajuda. Neste episódio ouvimos sons recolhidos pela Rádio Observador na noite das eleições autárquicas e os sons de Marta Temido e Duarte Cordeiro foram registados pela SIC. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.