Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: o equilibrismo difícil de Pedro Nuno Santos.
O país precisa de um governo estável. O Partido Socialista não tem uma maioria para apresentar. O país precisa de um governo forte e estável, mas precisa também de uma oposição estável, forte e sólida.
Depois de uma maioria socialista sem estabilidade, Pedro Nuno Santos prometeu a Marcelo Rebelo de Sousa uma oposição sólida por parte do Partido Socialista. Como é que se faz esta oposição? O líder do PS não quer ser o responsável por mais uma crise política, mas também não quer facilitar a vida a Luís Montenegro. Não vão os portugueses ficar demasiado confortáveis com a escolha de 10 de março. Vou falar com Rita Tavares, grande repórter e jornalista da seção de política do Observador, sobre os desafios que se colocam a Pedro Nuno Santos. Eu sou a Teresa de Cassis e esta é a história do dia de sexta-feira, 22 de março. Bem-vinda, Rita.
Olá, Teresa.
Rita, o Partido Socialista esteve oito anos no governo, teve uma maioria absoluta no último executivo e nestas últimas eleições passou para a oposição. Já passaram quase duas semanas. Já teve tempo para se ajustar a esta nova realidade?
Ainda é cedo. Mas o Pedro Nuno Santos tem sido rápido no posicionamento como líder da oposição. É um lugar que se nota que quer ocupar no atual quadro político. Notou-se logo na noite eleitoral, quando ainda mesmo antes de fechada a contagem dos votos, que ficou pela margem mínima, como se viu entretanto com o fecho da contagem nos círculos da imigração. Mas Pedro Nuno Santos reclamou logo essa frente da oposição. No entanto, eu acho que essa ficha vai levar o seu tempo a cair e o ajustamento feito tem um pequeno sinal até agora, que é o do retificativo, mas esse é apenas um começo.
Logo na noite eleitoral, como disseste, Pedro Nuno Santos anunciou o fim da tática política, prometeu renovar o partido, reconquistar os que estão zangados com o PS. O Partido Socialista quer fazer uma ruptura com o passado?
Por isso é que eu dizia que é um primeiro sinal, aquilo que falávamos do retificativo. É apenas um começo, porque afinal a promessa de Pedro Nuno Santos é de renovação total, para tentar estancar a fuga de desiludidos, não só com o Partido Socialista, mas com os partidos tradicionais, e o PS é um deles, e um dos que nos últimos 40 anos governou grande parte do tempo. Foi a resposta que Pedro Nuno Santos encontrou logo ali na noite eleitoral ao crescimento do CHEGA, que se tinha verificado e que com os votos da imigração chegou aos 50 deputados, uma marca que não deixa de chocar a esquerda, de forma particular, sobretudo pelo momento simbólico em que acontece, a poucos dias dos 50 anos do 25 de abril.
Mais recentemente, quando foi a Belém falar com Marcelo Rebelo de Sousa, numa das reuniões que o presidente teve com todos os partidos com representação parlamentar, Pedro Nuno Santos anunciou que estava disposto a viabilizar o tal orçamento retificativo de que falaste, da direita, e que não era sequer um tema antes de o líder do PS ter falado. Isto deixa antever a estratégia de Pedro Nuno Santos?
Sim, levanta um pouco o véu sobre aquilo que vai ser a sua liderança na oposição. E essa foi uma jogada tática particularmente interessante. E foi para o líder do PS que renega a tática, é bom dizê-lo. Já recordaste aqui a frase do "acabou a tática no PS", mas parece aqui uma manobra antecipada de antecipação em relação ao PSD. E quando todos falávamos no risco de o PSD avançar com o retificativo, isso também é curioso, porque todos nós fizemos essa análise, de alguma maneira, como havia um risco grande de avançar-se agora com o orçamento retificativo para mudar o orçamento que está atualmente em vigor e como o PSD teria esse receio, tendo em conta a elevada probabilidade de cair às mãos da oposição e como isso até podia ser tomada como uma atitude de provocação perante o atual quadro parlamentar. E eis que quem aparece com a proposta do retificativo é precisamente o líder da oposição. E não é uma carta jogada de forma inocente, traz uma intenção muito clara de Pedro Nuno Santos.
Há aqui um equilíbrio difícil que o Partido Socialista está a tentar procurar. Por um lado, quer manter uma distância segura em relação ao PSD, por outro, também se quer juntar à fotografia caso surja uma solução em algumas pastas que assombraram o último governo socialista. Falo, por exemplo, dos professores, dos oficiais de justiça e das forças de segurança.
São aquelas áreas em que Pedro Nuno Santos quer abrir negociação com o PSD para este orçamento retificativo. E o que está a tentar fazer com isso é, em primeiro lugar, tomar a dianteira da iniciativa política neste contexto, salta para a frente do PSD nessas matérias, que são de alguma forma nódoas na saída do atual governo Que saiu com polícias na rua a manifestarem-se, com os professores que nunca deixaram de se manifestar e onde houve muita tensão com os governos de António Costa e onde Pedro Nuno Santos quis sempre demarcar precisamente de António Costa. Aliás, mal começou a sua curtíssima carreira de comentador político na SIC Notícias, ele falou nisso. Falou em como concordaria com uma proposta que repusesse o tempo integral de serviço aos professores, que foi uma coisa nunca admitida pelo Partido Socialista. E ele fez parte dos últimos governos que não quiseram que essa medida avançasse. Isso foi tentado no Parlamento e foi esticada a corda. António Costa chegou a ameaçar demitir-se a dada altura, se isso fosse aprovado numa chamada coligação negativa, porque a esquerda chegou a estar junta com o PSD na altura para poder aprovar esta medida contra aquilo que era a intenção do governo. E Pedro Nuno Santos estava nesse governo. Portanto, ele quis marcar essa diferença por aí relativamente a António Costa, dizendo que com ele havia essa proposta e foi colocada no programa eleitoral do PS da reposição em quatro anos do tempo de serviço dos professores e agora, evidentemente, não quis ficar de fora desse quadro. O próximo governo herdará um excedente, e o PS sabe disso melhor do que ninguém, e sabe também que nos primeiros tempos haverá um estado de graça, seja curto, seja longo, não se sabe quanto tempo terá, mas terá, com toda a certeza, medidas populares que podem deixar o PS para trás. E isso é nesta corrida que não sabemos quanto tempo é que levará até novas eleições. Perder terreno é perigoso. Por outro lado, com esta iniciativa, Pedro Nuno Santos também tenta marcar já outra posição. Estes são os temas em que ele está disponível para negociar. Estão limitados, condicionados a estes temas, à atualização das carreiras destes grupos profissionais, dos professores, das forças de segurança, dos oficiais de justiça. E se é para acordar isto, então que seja até o verão. Ele deu este limite e há um propósito. No verão começa o processo orçamental do próximo ano e o que parece é que o PS, nesta altura, não quer misturas, ou seja, um retificativo que acerte contas com o passado mais recente, tudo bem. Agora, um orçamento inteiro, isso é praticamente impossível, citando o próprio Pedro Nuno Santos.
Há ainda um outro tema que é muito caro a Pedro Nuno Santos, o novo aeroporto de Lisboa. Ele também quer participar na resolução deste dossiê.
Sim, foi o outro tema, para além das atualizações das carreiras, em que abriu a porta a acordos com a AD. E há aqui uma ironia neste tema concreto do aeroporto, que não é difícil de chegar lá. O famoso episódio do novo aeroporto em que Pedro Nuno Santos esteve no epicentro ao decidir a localização sem o aval do primeiro-ministro.
Que logo a seguir-
Que depois o fez recuar. Isso aconteceu porque António Costa queria que essa decisão fosse fruto primeiro de um acordo alargado com o PSD. E depois até obrigou Pedro Nuno Santos a sentar-se numa sala com Luís Montenegro para definirem uma metodologia para a escolha da localização do novo aeroporto e fez uma declaração em São Bento com Pedro Nuno ao lado. Enfim, foi toda uma situação desconfortável para o então ministro das Infraestruturas, que estava muito fragilizado face àquilo que tinha acabado de acontecer, da revogação do seu próprio decreto. Dois anos depois, os papéis mudaram radicalmente e Pedro Nuno Santos quer que o PS seja agora tido e achado nessa decisão do novo aeroporto, da localização do novo aeroporto de Lisboa, e que ela não avance sem esse consenso e está, pelo menos, disponível para o encontrar e para continuar a fazer parte dele. É este o quarto ponto em que ele está disponível para negociar.
Já regressamos à conversa com Rita Tavares, grande repórter e jornalista da seção de política d'O Observador. Na segunda parte, olhamos para António Costa, eleições europeias e o que poderá influenciar o tabuleiro político nos próximos meses. Estamos de regresso à conversa com a jornalista Rita Tavares. Estas eleições marcam também o fim de uma era, a de António Costa. Ainda esta quinta-feira vimos uma imagem que até agora parecia um pouco impossível. António Costa e Luís Montenegro juntos a beber café em Bruxelas. Está a ver?
Não foi combinado, mas convergiu.
Temos um café? Rita, fala-se de uma candidatura de António Costa à presidência do Conselho Europeu. Ele nos últimos tempos tem falado mais da Europa ou só da Europa?
Ele tem falado muito. Não tem sido propriamente um tema que ele não use e não recorra recorrentemente. Mas é óbvio que nestes tempos mais próximos, se aquilo não é uma campanha, quase parece. António Costa é o preferido para uma candidatura ao cargo de presidente do Conselho Europeu, entre os socialistas europeus, tem esse conforto, esse apoio, mas tem o mesmo problema que o fez cair do cargo de primeiro-ministro, um processo-crime que corre até ver no Supremo Tribunal de Justiça, e nesta altura nada se sabe sobre isso e qual o futuro, e foi ele mesmo que fez depender desse processo o seu futuro político.
Precisamente, ainda há uma nuvem negra a pairar sobre António Costa. Ainda não sabemos como vai evoluir a Operação Influencer.
É isso, e era o que eu estava a dizer, António Costa fez depender dele, desse processo, o seu futuro político. Ora, os top jobs da União Europeia decidem-se algures em junho, depois das eleições europeias. Um deles será esse, o de presidente do Conselho Europeu, e não sabemos se até lá haverá alguma resposta da situação judicial de António Costa, mas sabemos e temos a certeza de que isso será decisivo para esse futuro político.
Ainda voltando à imagem do café de Luís Montenegro com António Costa, será que Luís Montenegro pode tirar algumas lições dos governos de António Costa?
Se há coisa que ficou deste último governo de António Costa é que há uma figura que se calhar não convém descurar, mas nenhum governo descurará, e que pode determinar de forma muito importante o futuro político de um primeiro-ministro e as condições de governação, que é o Presidente da República. O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa na tomada de posse vai ser um momento muito importante para perceber os limites da ação política nos próximos tempos. O que é que são os limites para Marcelo, o que é que é desejável, até onde se pode aguentar um governo com apoio minoritário. Há sempre pistas que o Presidente da República deixa e, no caso de António Costa, não foi uma pista, foi quase uma luz vermelha a piscar naquela tomada de posse em 2022, a seguir ao PS ter conquistado a maioria absoluta, em que houve uma chaveta que foi colocada ali na versão original do discurso de Marcelo na tomada de posse, que condicionou António Costa, que foi quando Marcelo vinculou Costa à maioria absoluta e disse, por outras palavras, que se ele saísse a meio caminho, e falava-se muito nisso, precisamente por causa do percurso europeu que António Costa sempre ambicionou, então essas eleições seriam antecipadas. Se há algum aviso a que Montenegro terá de estar atento, será já aqueles que vão constar, com toda a certeza, no discurso de Marcelo Rebelo de Sousa na sua tomada de posse.
Já no dia 2 de abril. Vamos ter eleições europeias em junho. Estas eleições podem ajudar a definir também o futuro político do PS?
Diria que vão ser importantes para todos os partidos e para o atual quadro e para quem está no governo. Vai haver muita coisa para estar atento. Uma delas é observar o fenómeno do Chega, por exemplo. Continuará este crescimento? E o que isso pode significar? Vai colocar, com toda a certeza, uma pressão adicional sobre as estratégias políticas nos próximos meses. Claro que nós sabemos que, à partida, um crescimento do Chega, e ninguém dá por garantido que já tenha atingido um teto, e se isso estiver em equação, pode levar André Ventura a uma vertigem de fazer cair o governo, sabendo todos nós que o objetivo assumido por André Ventura é tomar o lugar do maior partido à direita, portanto, tomar o lugar hoje ocupado pelo PSD. E se André Ventura perceber que esse crescimento pode continuar, e tendo em conta que ele tem 50 deputados na Assembleia da República e é decisivo neste jogo parlamentar e no apoio às maiorias que possam suportar medidas do governo, então isso pode fazer com que ele possa precipitar eleições se considerar que o cenário pode ser desejável.
Se tiver um bom resultado agora em junho, nas europeias.
Pode ser importante, como um mau resultado para o Partido Socialista também pode levar Pedro Nuno Santos a reequacionar toda a sua estratégia até ao nível das votações dos próximos orçamentos do Estado.
Esta semana ficámos a saber os resultados da contagem da imigração, também como referiste, e que Augusto Santos Silva, histórico do Partido Socialista, atual presidente da Assembleia da República, não foi eleito para mais um mandato. Este é mais um sinal da mudança dos tempos e da mudança dentro do próprio PS?
Esta era quase uma obrigação. Foi obrigado a mudar pelo resultado eleitoral. Augusto Santos Silva não é propriamente uma figura próxima de Pedro Nuno Santos. No Partido Socialista sempre estiveram em lados opostos. Tiveram até alguns confrontos públicos a nível de opiniões que foram expostas em determinadas alturas. Esta derrota do PS no círculo fora da Europa e de Augusto Santos Silva, em particular, teve um peso especial sobre o Partido Socialista, porque se trata de uma derrota do presidente da Assembleia da República e também porque o Chega cresceu muito nesse círculo fora da Europa, foi o partido mais votado e foi onde Augusto Santos Silva perdeu. E Augusto Santos Silva foi, por sua vez, uma figura que protagonizou, ao longo destes últimos dois anos, muitos confrontos com o Chega na Assembleia da República e é como se fosse aqui um fecho desse ciclo em que o PS fica com uma fotografia de má memória.
Diz-se que um dos momentos críticos do governo de Montenegro e também da oposição de Pedro Nuno Santos vai ser a votação do próximo orçamento do Estado, que deverá acontecer em outubro. Ainda muita coisa pode acontecer até lá, algumas delas já falámos. Que mais é que destacarias nos próximos meses?
Quando olho para a frente e falamos nos orçamentos e o que é que a oposição, e nomeadamente o PS, vai fazer nos orçamentos, acho que o que vai determinar é mesmo tudo o que vai acontecer até lá. Já falámos aqui das europeias, que são um momento muito importante, mas há outros. A conjuntura económica, a conjuntura internacional, o desempenho do governo. Às vezes até gosto de olhar para nós próprios e rirmos com as projeções que fazíamos há seis meses, por exemplo, e recuar. Onde é que nós estávamos há seis meses? Estávamos em setembro de 2023. É todo um país político muito diferente daquele que nós assistimos hoje em dia. Havia uma maioria absoluta a sair de um ano difícil, é um facto, que estava a tentar fazer esquecer esse mesmo ano difícil, os casos, casinhos, casões, João Galamba, a TAP, e quem sabe, até a contar com uma remodelação governamental que pudesse ir refrescar o governo de António Costa, que por sua vez era das poucas garantias que o governo tinha, e o PSD, nessa altura, a fazer contas às hipóteses de Luís Montenegro depois das europeias.
Não antecipámos o 7 de novembro.
Não antecipámos o 7 de novembro, que apareceu ali para mudar tudo ao contrário, já para não falar de outros imponderáveis dos últimos anos que não podemos esquecer, como por exemplo, a pandemia ou as guerras, e que tiveram uma influência gigante no plano nacional e não deixará de ser se voltar a acontecer. Portanto, eu diria que até ao primeiro orçamento do Estado, há muita tinta que vai correr com toda a certeza e que vai determinar os posicionamentos de cada um dos partidos nesse momento, que é um momento importante, mas não vai ser seguramente o único.
Obrigada, Rita.
Obrigada, Teresa.
Rita Tavares é grande repórter e jornalista da secção de política do Observador. Esta foi a história do dia. Neste episódio ouvimos sons gravados pela Rádio Observador e pela Sic Notícias. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacacis. Bom fim de semana.