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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O governo poderá sobreviver à turbulência na TAP?
Portanto, não faz sentido, neste ambiente, falar periodicamente de dissolução.
Em Murça, Marcelo Rebelo de Sousa falava esta segunda-feira sobre a forma como o caso TAP está a afetar o governo. O presidente da República, para já, mantém tudo como está. Pedro Nuno Santos já não é ministro, mas as contradições em que tem sido apanhado estão a causar grande impacto no governo e até no PS. E António Costa estará furioso com o seu potencial sucessor. Vou conversar com a jornalista da secção de política e grande repórter do Observador, Rita Tavares. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Rita.
Olá, Ricardo.
Sabemos que António Costa está muito irritado, até furioso com Pedro Nuno Santos, segundo disseram fontes do governo. Pode explicar-nos, Rita Tavares, qual é ou quais são os motivos de tamanha ira de António Costa?
Esses motivos são descritos de dentro do governo e que estará a ser agora o sentimento de António Costa relativamente a Pedro Nuno, e passam por essa fúria relativamente ao ex-ministro, de quem já foi bastante próximo e teve uma estima política que foi muitas vezes reforçada por ambos, publicamente. Mas neste momento António Costa acha que Pedro Nuno Santos, por aquilo que nos contaram, desapareceu deste palco de combate, a expressão usada é mesmo desaparecido em combate, deixando o governo exposto à crítica generalizada. A semana que passou foi intensa na Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP e ao caso Alexandra Reis, e António Costa acaba por ter dado sinais, que foram aqui referidos por fonte do governo ao Observador, de desconforto com a atitude de Pedro Nuno Santos ao deixar-se à margem de tudo o que ia sendo dito e até daquela que foi a sua escolha para a Secretaria de Estado das Infraestruturas, Hugo Mendes, que é uma figura que nós ouvimos falar muito recorrentemente desde que explodiu este dossiê de Alexandra Reis e que esteve no centro de muitas decisões polémicas. Foram conhecidas mais duas na última semana e o que acontece agora é estes sinais que vão sendo dados para fora do governo de tentativa de descolagem desse assunto que queima e quando a casa está verdadeiramente a arder, há aqui esta tentativa de se pôr de parte deste assunto.
Mas Rita, falaste aí de Hugo Mendes. António Costa não o escolheu, não o sancionou?
Ele era secretário de Estado de Pedro Nuno Santos. Tinha trabalhado no gabinete dele durante muito tempo, desde que ele era secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, desde que Pedro Nuno Santos entrou para o governo, e sobe a secretário de Estado quando Pedro Nuno Santos passa a ministro das Infraestruturas, vai para secretário de Estado adjunto e das Comunicações. E depois, no terceiro governo, em 2022, há um ano, Pedro Nuno Santos, perante uma redução do número de secretarias de Estado e de uma reorganização que Costa quis implementar no governo, deixaria de ter precisamente a Secretaria de Estado de Hugo Mendes. E o que Pedro Nuno Santos fez foi preservar o secretário de Estado e passou-o a secretário de Estado das Infraestruturas. E agora o que nos é dito é que António Costa tentou, nessa altura, dissuadir insistentemente Pedro Nuno Santos, o que dá a ideia de que ele não queria e que não gostava da escolha de Hugo Mendes para aquele lugar. Por aquilo que nos foi relatado, o primeiro-ministro reconhecia até a preparação ideológica, que eu diria que é um elogio venenoso a Hugo Mendes, mas que o achava, o considerava inepto para qualquer função executiva. E que até preferia que Pedro Nuno tivesse mantido o secretário de Estado que estava naquela pasta, que era Jorge Delgado, e que o primeiro-ministro consideraria uma máquina de trabalho. Portanto, de alguma forma, o que está aqui a acontecer é o empurrar desta decisão para Pedro Nuno Santos. Obviamente que a decisão era dele, a escolha de secretários de Estado é uma prerrogativa dos ministros, embora o primeiro-ministro também possa ter uma palavra a dizer. E o que nos contam é que, de facto, houve essa palavra que foi dita a Pedro Nuno Santos, mas que Pedro Nuno Santos manteve a sua decisão. Nós confrontamos o ex-ministro com esta informação, mas Pedro Nuno Santos, por enquanto, quer ficar em silêncio.
Rita, já falaste numa semana terrível, a semana passada, para o governo. Na Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP foi dita muita coisa. Houve assim algum pormenor que tenha feito transbordar o copo?
Há dois. Há um que tem sido referido, que é a tal reunião polêmica entre deputados do PS e a CEO da TAP numa espécie de preparação daquela que seria a audição parlamentar da CEO. E há outro que se tornou ainda mais acentuadamente grave, que é o episódio do e-mail que Hugo Mendes enviou à CEO da TAP por causa de uma alteração de datas de um voo da TAP, onde iria o Presidente da República. Digamos que dá sempre jeito ter ali uma escapatória, uma espécie de janela aberta, em que há um episódio que toda a gente condena e que toda a gente pode vir condenar sem ficar diretamente chamuscado com isso, porque há alguém que escreveu num e-mail.
O e-mail é esse episódio?
Toda a história. Diria que sim. Parece-me que nesta altura toda a gente se agarra a esse e-mail como uma boia de salvação, que só não salva o Hugo Mendes.
Nunca passou pela cabeça essa ideia que seria simultaneamente estúpida e egoísta. Estúpida, porque só um político muito estúpido ia sacrificar 200 pessoas por causa de partir um dia mais cedo ou um dia mais tarde.
Mas Rita, António Costa protegeu, e não sei se será esta a palavra mais adequada, Pedro Nuno Santos em diversas ocasiões. Talvez aquela que tenha provocado mais estrondo foi a relacionada com o anúncio da escolha de uma solução para o novo aeroporto de Lisboa. E há muita gente a fazer esta pergunta: por que de tanta paciência de António Costa com Pedro Nuno Santos?
António Costa é implacável nessa medição de custos-benefícios políticos das várias situações e há amigos de longa data que estiveram no governo, como Pedro Siza Vieira, que podem dizê-lo talvez com propriedade. No caso de Pedro Nuno Santos, não é muito diferente. Ele foi uma peça-chave nos tempos da Geringonça, naquele momento em que era preciso estreitar as relações com a esquerda, e o esquerdismo de Pedro Nuno Santos é reconhecido dentro do PS, fora do PS. Portanto, ele era uma peça importante, nesse momento foi muito importante. Depois, quando houve a trapalhada da localização do novo aeroporto, que falaste aqui, Costa já quis que Pedro Nuno Santos se demitisse, nós escrevemos isso na altura, e que terá sido o próprio que não quis sair. E na altura Costa aceitou, reconhecendo que aquele também não se tratava de um ministro qualquer, que ele tinha estima pessoal por aquela figura política e até consideração política pelo trabalho que ele vinha a desenvolver no Ministério das Infraestruturas. Mas há sempre essa medição do que é que lhe pode trazer mais ou menos vantagens. Nessa altura, António Costa já não consideraria que ter Pedro Nuno sentado numa fila do Parlamento era uma coisa assim tão perigosa para o seu governo, mas ainda assim aceitou mantê-lo no governo mais uma vez. O passado e o futuro político de Pedro Nuno Santos pesam e foram sempre pesando nestas avaliações que António Costa foi fazendo ao longo dos tempos e desta relação. A relevância que Pedro Nuno Santos tem nas bases e para lá das bases. Em alguns cargos dirigentes e até dentro do governo, ele tem Pedro Nunistas, conhecidos Pedro Nunistas. E depois a relação dos dois foi inevitavelmente estreitando também nos tempos da Geringonça. Nós lembramo-nos todos daqueles momentos em que eles apareciam ao fim da aprovação de cada orçamento do Estado a fazer um, a fazer dois, a fazer três, a fazer quatro. Mas a ambição e a pressa de Pedro Nuno Santos em chegar à liderança do partido e aquele chega pra lá que Costa lhe deu no congresso do PS, avisando que ainda não tinha metido os papéis pra reforma, foram sempre notados e terão chegado agora ao limite.
E Rita Tavares, já que falaste nesta figura, que é outra figura preponderante nos tempos que correm, que é o tal ex-secretário de Estado, Hugo Mendes, também é importante nesta história.
Tornou-se odioso tudo isto. Cada decisão que tomou tem trazido tanta polêmica, que ele acaba por ser também, ao mesmo tempo, uma válvula de escape, porque não tem relevância ou história política, por isso tem dado jeito para quem pode ser realmente queimado e tem esta relevância e história política, desviar o assunto apontando um secretário de Estado, um ex-governante sem juízo, é assim que Carlos César se refere a Hugo Mendes, por exemplo. Portanto, eu diria que ele tem esta utilidade neste momento e que já é aquele elemento que é fácil criticar, já está no chão e o PS não sairia muito massacrado se este fosse apenas e só o único problema de toda esta situação.
E Pedro Nuno Santos, dizias isso há pouco, mantém-se em silêncio, está a conseguir aguentar-se calado?
Por agora sim, mas tem regresso político marcado pra setembro. Ainda faltam muitos meses e muita comissão de inquérito. E nessa altura não só voltará ao Parlamento como deputado, como terá um espaço de comentário político na SIC Notícias. E é seguro dizer que será um programa que muitos socialistas não vão querer perder, tanto aqueles que esperam que se torne uma voz crítica do governo, que têm essa expectativa, como todos os outros que esperam que ele não se torne uma voz crítica do governo.
E já voltamos à conversa com a jornalista do Observador, Rita Tavares. Perante este silêncio, cresce também a expectativa sobre o que poderá Pedro Nuno Santos dizer na Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP. É uma questão que fica pra segunda parte. Esta terça-feira fica disponível o quinto episódio do podcast "O Sargento na Cela 7, uma série em podcast do Observador". Vamos mergulhar na operação secreta lançada também, e o também aqui é importante Para salvar prisioneiros de guerra portugueses na guerra em África. O quinto episódio é sobre a Operação Mar Verde. O Sargento na Cela 7 é uma série em podcast disponível no site Observador e nas habituais plataformas, e os episódios saem sempre à terça-feira. Para a semana, sai o último. Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Rita Tavares. Rita, Marques Mendes disse no domingo, na SIC, que por muito menos Jorge Sampaio deitou abaixo o governo liderado por Pedro Santana Lopes.
Se nós vivêssemos tempos normais, eu acho que esta semana, em função de toda a degradação que tem existido e em função daquilo que se soube na Comissão Parlamentar de Inquérito, se vivêssemos em tempos normais, eu acho que o governo tinha sido demitido esta semana e estaríamos a caminho de uma dissolução. Porque esta situação e estes episódios que se conheceram são tão graves ou mais graves do que aqueles, por exemplo, que em 2004 levaram Jorge Sampaio a demitir o governo de então de Santana Lopes e a promover a dissolução do Parlamento.
E afinal, o que diz o presidente Marcelo Rebelo de Sousa perante este atual momento político, Rita Tavares?
Continua a picar balões. Continua naquele equilíbrio político que, por um lado, ameaçar o governo com uma bomba atómica, dizendo que ela está lá para ser usada e que não há maioria que por si só seja suficiente para a evitar e, por outro lado, dizer que a oposição ainda não é uma alternativa política e que nesta altura o caos político que envolve este governo não tem comparação com aquilo que aconteceu com Pedro Santana Lopes, a começar pelo facto de este ter chegado a primeiro-ministro em 2004 sem ter sido eleito.
Primeiro, o presidente Sampaio estava no fim do mandato. Eu não estou no fim do mandato. Em segundo lugar, não havia guerra, nem havia a inflação que temos agora, nem a situação que conhecemos. Não havia os fundos europeus com esta dimensão e com o braço tão curto para utilizar. Portanto, logo nisso é outro mundo.
Mas até que ponto, Rita, o governo vai conseguir escapar a esta turbulência? Este é um daqueles momentos em que se acende o sinal de apertar o cinto no avião, porque a turbulência pode ser mesmo severa.
Severa ao ponto de tu bateres com a cabeça na frente do avião.
Eu queria dizer isso para não assustar quem vai a esta hora ouvirmos no avião.
É melhor pôr o cinto, é.
Exato.
E as cabeçadas têm sido muitas, sobretudo por causa da gestão política da TAP e a relação com a empresa que o PS já não esconde que considera um ativo tóxico para o governo. Aliás, o guru da comunicação do PS, que fez a campanha de António Costa, Luís Paixão Martins, disse-o aqui no Observador e até aconselhou a venda rápida antes de eleições, e as eleições estão aí a aproximar-se a passos largos. Basta lembrar que daqui a um ano já estamos em pleno período pré-eleitoral para as europeias. E no meio dessa tentativa de despachar esse tal ativo tóxico, ainda há todo este problema político imenso do inquérito parlamentar que está a desgastar muito o governo.
Explicavas há pouco que Pedro Nuno Santos vai regressar em setembro ao Parlamento e também ao comentário político na televisão, mas antes ainda irá à Comissão Parlamentar de Inquérito. Que Pedro Nuno Santos vamos ter no Parlamento? O apaziguador que vimos depois do episódio do aeroporto, em que pediu desculpa.
E queria, desde logo, lamentar toda esta situação.
Ou o Pedro Nuno tipo comboio desgovernado do Não Pagamos e os alemães até tremem?
Acho que há de ser qualquer coisa a meio-termo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A intenção dos partidos, e isso também vai ser importante para que espécie de Pedro Nuno vamos ter no Parlamento, se mais combativo, se menos combativo, é a decisão do timing da sua audição. Isso ainda está nas mãos dos partidos. Ainda não há data. Havia a intenção inicial de só o chamar mais nas audições finais. São 60 audições que estão previstas, só aconteceram quatro ainda.
E àquele ritmo de noitadas, vão ser audições longas.
Vão ser audições longas e meses longos. Mas a intenção inicial seria precisamente essa, de o ter mais no fim da comissão de inquérito. Não sei se agora, à luz destes novos acontecimentos e destes novos dados e disto estar ao rubro dentro do Partido Socialista, se alguma coisa mude, eu diria que é quase win-win para a oposição, porque das duas, uma: ou mantém a chama acesa e a pressão sobre o governo durante mais tempo e prolonga este sofrimento, digamos assim, ao governo no tempo, desgastando, e a audição de Pedro Nuno Santos, que será com certeza de peso nesta comissão de inquérito, aparecerá mais tarde, ou então aparece numa altura em que se sente aqui que há um início de um deslaçar das relações políticas e esse sinal acabou de ser dado e estando tudo mais aquém, também pode ser uma audição que acabe por trazer mais esse lado combativo de Pedro Nuno Santos.
E esta irritação de António Costa com Pedro Nuno Santos também tem consequências a nível interno no Partido Socialista, que Pedro Nuno Santos, que é candidato à sucessão de António Costa, vamos ter no futuro perante tudo o que aconteceu?
Há um sem número de opções em aberto nesta altura. É bom lembrar que Pedro Nuno Santos tem problemas muito graves, não é só o Mendes. O problema grave até é ele, que foi o ministro que se demitiu, primeiro porque não conhecia a decisão que tinha sido tomada, mas que dava o corpo às balas, porque o seu secretário de Estado tinha tomado a decisão da polêmica indenização em nome do ministro. E depois, ato seguinte, afinal Pedro Nuno sabia da indenização, sabia do valor da indenização e, portanto, há aqui várias coisas que Pedro Nuno vai ter de explicar e que são problemas graves que ele tem, contradições que ainda falta ele esclarecer pela sua própria voz. Depois, que espécie de Pedro Nuno é que nós teremos no futuro? Esta comissão de inquérito vai definir muito isso. Vai definir o espaço que ele terá no Partido Socialista e vai definir a voz que ele adotará no Partido Socialista. A ideia dele inicial, antes ainda de rebentarem estas polêmicas mais recentes, era não acrescentar à discórdia interna, portanto, não se transformar aqui numa voz crítica das opções do governo. Não sabemos se isso será tido de forma diferente, se adensar um conflito aberto com António Costa, por exemplo, se a ideia inicial de Pedro Nuno Santos muda. E depois, há uma série de "ses" que se colocam ao PS também nesta altura. É importante aferir agora nos próximos tempos e no próximo ano, diria, se estas mazelas são suficientes para encostar Pedro Nuno Santos às boxes e nem sequer descolar na pista para a liderança do PS. Ou se, por outro lado, tudo isto pode até unir mais o partido à sua volta, naquela lógica do nós contra eles. Basta ver como o presidente do partido vai fazer declarações apontando a suposta omissão que está a ser feita aos lucros apresentados pela TAP e elogiar a gestão da tutela, portanto, Pedro Nuno Santos, que era ele que exercia essa gestão política. Ou mais complexo ainda do que isto tudo, se esta situação pode dividir o PS. Esse perigo será que existe? Por exemplo, tivemos aqui um exemplo claro esta segunda-feira de Santos Silva admitir que a tal reunião polêmica entre deputados do PS e a CEO da TAP não foi uma boa ideia, não voltará a acontecer. E Carlos César, presidente do partido, à mesma hora, a escrever no Facebook que não era importante e que aquelas reuniões são normais. Portanto, será que este caso não acaba por ser o centro de uma sucessão de divisões e de acabar com algumas relações políticas importantes que se foram estabelecendo dentro do Partido Socialista? O PS vai entrar nas próximas semanas nas comemorações dos seus 50 anos e ainda por cima em plena maioria absoluta, aposto que poucos socialistas achariam que nesta fase o partido iria estar como de fato está.
Rita, fica já a proposta para um futuro episódio da História do Dia. Será que o caso TAP vai dividir o PS? É uma boa pergunta de lançamento. Obrigado, Rita.
Obrigada.
Rita Tavares é jornalista da secção de política e grande repórter do Observador. Acompanha normalmente a vida do Partido Socialista e do governo. Esta foi a História do Dia. Os sons que ouvimos de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes foram registados pela SIC e o som da memória do pedido de desculpas de Pedro Nuno Santos é da RTP. Este episódio contou ainda com a colaboração do jornalista Manuel Rocha Leite, sonoplastia do Bernardo Almeida e música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.