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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o número político de Pedro Sánchez serve afinal a quem?
He decidido seguir. Seguir con más fuerza si cabe al frente de la presidencia del Gobierno de España.
Numa declaração sem direito a perguntas, o presidente do governo espanhol só ao quinto minuto revelou que ficava. Uma decisão amadurecida durante cinco dias de quase reclusão no Palácio da Moncloa, em Madrid. Ninguém sabia se Pedro Sánchez ficava ou se se demitia por suspeitas que envolvem a mulher. Um número político que levou milhares às ruas em apoio a Sánchez e mereceu do outro lado, da oposição, críticas severas de aproveitamento político. Mas, e afinal, qual foi o objetivo de tudo isto? Vou conversar com José Carlos Duarte, jornalista do Internacional do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 30 de abril. Bem-vindo, José Carlos.
Olá, Ricardo.
Vamos começar por tentar perceber como chegamos aqui, mas para isso temos de olhar para o caso de Begoña Gómez, a mulher de Pedro Sánchez. Afinal, o que é que se passa?
O caso judicial da mulher de Pedro Sánchez ganhou preponderância na semana passada, quando um juiz de instrução criminal de Madrid decidiu dar provimento a uma queixa de uma associação, que também é um sindicato, chamado Manos Limpias, que alguns socialistas dizem que tem conotações com a extrema-direita. Ora, esta associação/sindicato diz que Begoña Gómez serviu como uma espécie de intermediária entre o governo e o poder político e certas empresas privadas, como a Air Europa, para a formulação de contratos que viriam a beneficiar essas empresas durante a época da pandemia. E é nesta base que o juiz de instrução criminal abriu o inquérito e suspeita que Begoña Gómez esteja envolvida num processo de tráfico de influências e corrupção.
Mas, José Carlos, ou seja, existe aqui uma denúncia, uma abertura de investigação, a abertura de um inquérito. Não existe nada mais nesta fase, isso é uma suspeita.
Sim, neste momento foi apenas aberto o inquérito, também já foram chamadas algumas testemunhas, mas não foi feita mais nenhuma diligência. Ainda assim, convém referir que o Ministério Público espanhol disse que não havia indícios que apontem para os alegados crimes de tráfico de influências e corrupção que o juiz de instrução criminal decidiu investigar. Ou seja, o MP posiciona-se contra a decisão do juiz, mas neste momento cabe ao juiz decidir se continua a investigar ou não.
Se o caso avança ou não, mas para já é apenas isso, não é? Uma denúncia, uma investigação. Mas perante isso, o presidente do governo espanhol, Sánchez, trancou-se quase que no Palácio da Moncloa em Madrid, escreveu uma carta dramática. O que dizia essa carta, José Carlos?
Sim, Sánchez trancou-se mesmo. Ele nem sequer os seus conselheiros políticos deixou entrar, foi só ele e a família. E a carta publicada na passada quarta-feira era realmente bastante dramática. Pedro Sánchez revoltava-se contra o processo judicial da mulher, desmentia categoricamente as acusações e dizia e sugeria que se tratava de uma cabala política montada pelo Partido Popular e pelo Vox, os dois partidos de direita em Espanha. Ele denuncia igualmente na carta um clima de judicialização da vida política, ou seja, acusa o PP e o Vox de não aceitarem os resultados das últimas eleições a 23 de julho e estarem a tentar-
Através da Justiça atacá-lo.
Sim, através da secretaria, a tentar derrubar o governo. Nessa carta, depois destas acusações e depois de criticar o processo judicial, Pedro Sánchez faz uma pergunta: será que vale a pena? Vale a pena continuar como chefe do governo espanhol tendo em conta toda esta campanha, esta cabala? Vale a pena continuar como chefe do governo? E anunciou que teria cinco dias para refletir sobre qual seria a sua decisão e foi a partir daí que se trancou no palácio para decidir, sendo que terá sido, segundo diz a imprensa espanhola, uma decisão muito solitária, apenas com a família.
E a internet aproveitou esses cinco dias e é nesta altura, e não podíamos privar os ouvintes da história do dia destas pérolas. A internet aproveitou estes cinco dias e agarrou na carta que Pedro Sánchez escreveu, pôs numa espécie de centrifugadora de canções de inteligência artificial e saíram várias canciones, como esta, um bolero. Também há uma versão flamenca. E claro, um tango. E entretanto, José Carlos, saíram à rua milhares de pessoas a fazer um pedido quase dramático, que Sánchez ficasse.
Sim, é verdade. Desde a passada quarta-feira, em que a carta foi divulgada ao público, milhares de pessoas saíram às ruas manifestando-se à frente, por exemplo, do Congresso dos Deputados ou à frente da sede do PSOE em Madrid, a pedir que Pedro Sánchez ficasse à frente do governo. É de realçar aqui uma coisa que é: não foram só apenas socialistas que estiveram nas manifestações. Como Pedro Sánchez tem uma megacoligação com partidos nacionalistas, independentistas e até partidos de esquerda, como Sumar, houve vários dirigentes de outras forças partidárias que estiveram ali a pedir que ele não se demitisse. Portanto, realmente houve uma grande onda de apoio para que Pedro Sánchez ficasse e ele, no discurso desta segunda-feira, tenta dizer que esta onda, que este apoio todo influiu na sua decisão de permanecer enquanto líder do governo.
Já regressamos à conversa com José Carlos Duarte, jornalista do internacional do Observador, mas afinal, para que serviu tudo isto? Estamos de regresso à conversa com José Carlos Duarte, jornalista internacional do Observador. José Carlos, e caso se demitisse, também não seria possível ter eleições agora em Espanha, não é?
Não, não seria. A Constituição espanhola estipula que as Cortes espanholas, ou seja, o Parlamento Espanhol, o Congresso dos Deputados mais o Senado, apenas podem ser dissolvidos um ano depois de terem sido dissolvidos da última vez. A última vez que o Congresso e que o Senado foi dissolvido foi a 29 de maio de 2023. Na altura, até foi porque Sánchez se antecipou e decidiu marcar umas eleições antecipadas depois de umas eleições regionais que correram muito mal. E neste contexto, Pedro Sánchez não poderia mesmo convocar eleições para já. Portanto, até 29 de maio, o governo tinha de se manter com a mesma composição. Poderia sair o chefe de governo, mas a composição teria que ser a mesma, e só daqui a um mês é que se poderia convocar as novas eleições e ainda demoraria cerca de dois meses por abertura de campanha, por todo esse processo intermediário que tem que haver entre a convocação de eleições e a realização de eleições. Antecipava-se que se ele tivesse realmente marcado novas eleições, que as novas eleições seriam a 28 de julho. Portanto, que calha a um domingo, que também é uma tradição em Espanha, mas haver novas eleições não poderiam ser marcadas já, teria de haver aqui uma espécie de intervalo.
Mas no meio de toda esta trama, há eleições na Catalunha. O que as eleições na Catalunha têm a ver com esta reclusão e este dramalhão montado por Pedro Sánchez?
Os seus adversários dizem que tem tudo a ver. As eleições catalãs já são a 12 de maio, ou seja, faltam cerca de duas semanas e são muito importantes para Pedro Sánchez. E ainda que as sondagens deem vitória aos socialistas, com uma margem ainda considerável face aos dois partidos independentistas, ao Junts per Catalunya, de Carles Puigdemont, e à Esquerda Republicana Catalã, ainda que haja esta diferença considerável, não é líquido que os socialistas consigam formar governo após as eleições. Ou seja, vencem sem maioria absoluta e estão dependentes ou de um partido da Esquerda Republicana Catalã e de maneira alguma contam com o Junts. Carles Puigdemont há cerca de um mês veio ao público dizer que se a Esquerda Republicana e os socialistas se unirem na Catalunha, o que vai acontecer é que Carles Puigdemont deixa cair o governo em Madrid. Ou seja, a megacoligação que Sánchez montou fica em risco, fica em causa e deixa de existir porque os sete votos do Junts são essenciais para o governo. Ora, com uma vitória expressiva nas eleições catalãs, Pedro Sánchez consegue aqui duas coisas. A primeira é tentar moderar, tentar não dar espaço a Carles Puigdemont de exigir mais do que exige agora, ou seja, não lhe abrir um leque de possibilidades se realmente os Junts obtiveram um grande resultado. E o que é certo é que a campanha que começou esta semana centrou à volta não de Carles Puigdemont, mas de Pedro Sánchez. Será que fica? Será que não fica? Ou seja, Carles Puigdemont parece que ficou para um segundo plano. E isso é muito importante para Pedro Sánchez em termos eleitorais, porque se vence as eleições catalãs com uma grande vantagem, isso tem dois efeitos. O primeiro é que mostra que a lei da anistia foi aprovada nas urnas, ou seja, aquela lei que prevê o perdão a todos os organizadores do referendo.
O referendo.
Exato, o referendo da Catalunha de 2017 seriam perdoados e a vencer as eleições seria uma espécie de aval político a esse referendo. E depois limitaria a ação de Carles Puigdemont e obrigá-lo-ia a não fazer exigências que se ele obtiver uma grande vitória nas eleições catalãs, provavelmente fará.
Ou seja, Sánchez faz-se de vítima para ganhar mais poder, mais preponderância. E como é que se posicionam os parceiros de coligação de Sánchez, os outros?
Os outros estão completamente ao lado de Pedro Sánchez. Por exemplo, a vice-primeira-ministra e líder do Sumar, Yolanda Díaz, veio insistir que Pedro Sánchez fique, veio insistir e disse que tinha de ficar, que o projeto não podia ficar a meio. E é curioso que outros partidos também independentistas, por exemplo, a Esquerda Republicana Catalã, veio também pedir a Sánchez que fique e também no País Basco, o Eh Bildu disse que queria que Sánchez ficasse. Ou seja, praticamente todos os parceiros estavam ao lado de Pedro Sánchez. O único que demonstrou alguma resistência.
Relutância.
Relutância, exato. Até disse que era uma espécie de tática política, foi precisamente Carles Puigdemont. Ou seja, apesar de em Madrid estarem coligados, definitivamente que na Catalunha o maior adversário de Carles Puigdemont é o Partido Socialista É preciso, principalmente em tempo de campanha, derrotar aquela que parece ser a maior ameaça para o partido de Puigdemont.
E do outro lado, do lado do centro-direita, PP, Vox, o que dizem?
A oposição criticou logo. É curioso que na oposição, na esquerda, houve vários apelos para não sair e houve até um certo pessimismo. A imprensa espanhola dizia que havia muitos socialistas que estavam a olhar com alguma preocupação para a situação. No entanto, a direita sempre teve a percepção de que seria um teatro e uma telenovela. E estas expressões foram mesmo as que, por exemplo, Alberto Núñez Feijóo, o líder da oposição, usou para descrever esta manobra, entre aspas, de Pedro Sánchez. A argumentação usada pela direita é que esta manobra de Sánchez foi para pressionar o poder judicial, ou seja, para que a Justiça tome decisões que o favoreçam e que arquivem certos processos, por exemplo, como o de Begoña Gómez. E há muito este argumento de que realmente foi para pressionar, foi para Sánchez marcar uma posição perante o poder judicial. E, por outro lado, também existe o argumento de Sánchez querer cerrar fileiras, de querer ter o partido ao seu lado, de querer ter os parceiros governamentais ao seu lado, e que era importante ele dar esta espécie de murro da mesa para garantir que existe esse apoio. Além disso, houve várias críticas e aquilo que nota, por exemplo, o PP, Alberto Núñez Feijóo disse que se tratava de uma birra de um adolescente e acusa Sánchez de irresponsabilidade, ou seja, coloca-se acima do país. Trata-se de um problema estritamente pessoal ou então de permanência do cargo que Pedro Sánchez, de certa maneira, extravasa para toda a Espanha.
E então, José Carlos, este número acaba por servir para quê?
Na minha opinião, tendo em conta toda esta mudança de opinião, e foi muito drástica, eu realço isso, porque na quarta-feira Pedro Sánchez, pelo menos do que era possível ler na carta da cidadania, estava realmente desanimado. Esta segunda-feira mudou completamente o discurso e já se viu um político com garra, um político que dizia que ia ficar, que ia ficar com mais força ainda. Portanto, eu tendo a inclinar que talvez tenha sido realmente aqui uma estratégia política para cerrar fileiras e para realmente obter aqui uma vantagem importante nas eleições catalãs e vencê-las com uma margem considerável para limitar a ação de Carles Puigdemont. Ainda esta quarta-feira foi divulgada uma sondagem que mostra realmente um grande crescimento dos socialistas, sendo que a sondagem, o estudo de opinião foi feito sexta-feira, ou seja, já depois da carta, e realmente há aqui uma grande diferença, cerca de nove pontos percentuais entre o PP, que é o partido da oposição, e o PSOE. Ou seja, a estratégia poderá mesmo ter funcionado e poderá ter dado aqui um certo fulgor e um certo vigor ao governo de Pedro Sánchez.
Obrigado, José Carlos.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista de internacional d'O Observador. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram retirados do X. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.