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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O terrorismo está de regresso à Europa?
"Tous les États européens sont vulnérables. Et il y a un retour, en effet, de ce terrorisme islamiste, et nous avons tous une vulnérabilité, c'est celle qui va avec des démocraties, des États de droit, où vous avez des individus qui, à un moment, peuvent décider de commettre le pire."
Esta segunda-feira, duas pessoas morreram num tiroteio em Bruxelas que colocou o país em alerta máximo por perigo de terrorismo. O atacante terá gritado: "Allahu Akbar", antes de começar a disparar. "Alá é grande". As mesmas palavras utilizadas por um jovem checheno numa escola em França, antes de esfaquear e matar um professor na semana passada. Estaremos a assistir, como diz Emmanuel Macron, ao ressurgimento do terrorismo islâmico? De que forma é que o conflito entre Israel e o Hamas pode afetar também a Europa? Vou conversar com a Cátia Moreira de Carvalho, especialista em terrorismo, radicalização e migrações. Eu sou a Teresa Bacacis e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia Moreira de Carvalho.
Olá, obrigada.
Os ataques em Bruxelas e no norte de França, embora com uma dimensão bastante diferente, podem estar, de alguma forma, relacionados com o ataque do Hamas a Israel?
Eu acredito que podem estar. Aqui na Europa existem muitas questões, muitos conflitos sociais que estão por resolver e que estão latentes na sociedade. Aqui em Portugal isso não é muito visível, mas em países que tiveram alguma dificuldade em promover a integração e inclusão de algumas comunidades migrantes, que podem ser grupos mais vulneráveis aos processos de radicalização, isso é mais visível. E eu acho que aquilo que está a acontecer agora, o risco nunca foi zero. O que eu quero dizer com isto é que sempre existiu a possibilidade de haver ataques terroristas. Aquilo que me parece é que aquilo que está a acontecer agora entre Israel e a Palestina, sobretudo Gaza, é que este conflito está a acordar, por assim dizer, esses tais conflitos sociais que estavam latentes, estavam adormecidos na sociedade aqui europeia e portanto está a fazer com que isto tudo volte ao de cima. Até porque a defesa da causa palestiniana é um dos denominadores comuns a vários grupos terroristas de inspiração islamista. Ou seja, eles dizem que usam a violência e justificam o uso da violência, do terrorismo, para defender os muçulmanos e incluem neste grupo também a Palestina. Por exemplo, a Al-Qaeda, uma das coisas que dizia é que queria expulsar a presença e influência ocidental, sobretudo a americana, do mundo muçulmano, do mundo árabe, porque queria voltar a dar liberdade à Palestina e a outros territórios. E, portanto, eu acredito que estes ataques que aconteceram ontem em Bruxelas e também na semana passada em França e estas ameaças de bomba que nós temos visto acontecer aqui na Europa estão relacionados com aquilo que aconteceu em Israel e que está a acontecer agora em Gaza.
Bruxelas está em alerta máximo, França também elevou o alerta. Podemos dizer então que hoje o risco de haver um ataque terrorista na Europa é mais elevado?
Eu vou fazer esta avaliação não naquilo que eu acho como Cátia investigadora, mas naquilo que acabou de dizer e que foi o que eu também vi. Tendo em conta que as autoridades elevaram o nível de ameaça e nestes países passaram para o nível máximo. Nós vimos que aqui em Espanha ao lado não foi para o nível máximo, mas foi o nível abaixo. E eu acho que é de acreditar, é de acreditar que de fato a ameaça agora é mais elevada. Não nos podemos esquecer que o facto da ameaça ser mais elevada significa que vá acontecer alguma coisa. Eu tenho a certeza que as autoridades estão a trabalhar o máximo que podem para fazer prevenção e impedir que alguma coisa aconteça. O problema destes casos, daquilo que aconteceu em França e ontem em Bruxelas, é que são atos isolados. Parecem ser atos isolados. Ainda não sei muitos pormenores porque ainda não passaram cá para fora, mas aquilo que indica é que são atos isolados. Ou seja, o que eu quero dizer com isto? O que eu quero dizer é que se forem células pertencentes a um determinado grupo terrorista, é mais fácil à partida de prevenir alguma coisa e impedir que alguma coisa aconteça. Agora, se forem pessoas que estão aparentemente inseridas na sociedade, que levam uma vida normal, mas que por algum motivo, por alguma circunstância, decidem praticar um ato terrorista e se não estiverem imbuídas nestas tais células, já é muito mais difícil de fazer esta detecção, esta prevenção. E, portanto, acredito mesmo que as autoridades estão a agir o mais que podem e eu acho que nós como sociedade também devemos estar um bocadinho mais alerta. Eu não quero criar alarme social, não é este o meu objetivo. É mesmo só também passar a mensagem de que nós como cidadãos também podemos ter um papel aqui e ajudar as autoridades.
E como é que se combate este terrorismo? O presidente francês disse esta manhã que há uma vulnerabilidade inata associada à democracia e ao Estado de direito. O que se pode fazer?
Bem, essa é a pergunta para 1 milhão. Todas as formas de extremismo e terrorismo dependem de um conjunto de fatores de risco. São a nível individual, a nível estrutural, coletivo, da sociedade. E esses fatores de risco não é apenas um fator de risco que leva alguém a radicalizar-se e a cometer um ato terrorista ou a juntar-se a um grupo terrorista, porque até uma coisa é a radicalização, outra é a radicalização violenta, que é quando se passa o ato. É um conjunto de fatores de risco em interação que levam alguém a radicalizar-se e depois, posteriormente ou não, a cometer violência. A forma de se prevenir, e isto tem vindo a ser feito aqui na Europa, promovido nomeadamente pela União Europeia, é organizarem-se e implementarem-se programas e projetos de prevenção da radicalização de vários níveis. Mas, no entanto, esta é uma área ainda, por incrível que pareça, área do campo de estudo do terrorismo e da radicalização, ainda é uma área um bocadinho incipiente e portanto, muita da prática que é feita não é baseada na evidência e isso tem trazido alguns custos. A forma de prevenir é tentar reduzir o impacto dos fatores de risco e tentar promover, alterar o jogo na balança e tentar promover os fatores de proteção da radicalização. Alguns dos fatores de risco, aqueles que são mais comuns, são a falta de integração, a inclusão na sociedade, a discriminação, a exclusão social e depois a nível interno, é uma baixa tolerância, um baixo respeito pela diferença, pouca abertura cognitiva e portanto tudo isto em interação pode levar alguém a radicalizar-se e enfim, eventualmente radicalizar-se violentamente.
O terrorismo e a radicalização são duas áreas sobre as quais tem estudado e por isso é que faço estas perguntas. E de que forma é que momentos como este, que estamos a viver agora, podem influenciar a radicalização?
As pessoas radicalizam-se por causa desses fatores de risco, que as torna mais vulneráveis, mas também porque elas na vida delas estão a passar por algumas situações. Eu não pretendo com isto justificar, naturalmente, eu estou a fazer uma análise.
Estamos a tentar perceber o que é que leva algumas pessoas a cometer estes atos extremos.
Exatamente. Eu acredito que é isso que está um bocadinho na base daquilo que aconteceu em França e em Bruxelas. Ou seja, eram pessoas que já estavam radicalizadas, mas que nunca tinham passado ao ato por um conjunto de fatores, mas que este conflito veio de alguma forma espoletar essa passagem ao ato. Eu devo dizer que a literatura científica nesta área, o que diz é que cerca de 90% das pessoas que estão radicalizadas nunca vão passar ao ato. E isto deve-se muito ao facto da existência e da preponderância dos fatores de proteção em relação aos fatores de risco. Mas por algum motivo, neste caso pode ter sido estes acontecimentos em Israel e Palestina, que podem ter levado estas pessoas a passarem ao ato. E portanto, nessa medida é possível que a radicalização seja reforçada, seja potenciada e que até se torne em violência.
Já voltamos à conversa com Cátia Moreira de Carvalho, investigadora, especialista em psicologia, extremismo e radicalização. Voltamos à conversa com Cátia Moreira de Carvalho, especialista em extremismo e radicalização. No início do mês, o Hamas levou a cabo o pior ataque em território israelita dos últimos 50 anos. Benjamin Netanyahu declarou imediatamente guerra e iniciou uma operação militar em Gaza. Em 11 dias de conflito, pelo menos 4200 pessoas morreram em Gaza e em Israel. Por todo o mundo multiplicaram-se também as manifestações de apoio, quer aos palestinianos, quer a israelitas. E entre elas há alguns sinais de intolerância, antissemitismo, racismo. Como é que olha para estas manifestações?
Eu olho com muita preocupação, porque estas manifestações, além de terem elementos que têm claramente uma ideologia antissemita, são pessoas que também propagam alguma ideologia de extrema-esquerda ou esquerda radical, e algumas também uma ideologia de inspiração islamista extremista. Portanto, isto parece-me um caldeirão altamente propício para resultar em problemas. Aliás, já aconteceram problemas nestas manifestações em que a polícia teve que intervir. Nos Estados Unidos vimos até uma criança que foi esfaqueada e eu vejo isto com muita preocupação. Eu não sei como é que estas manifestações se podem apaziguar. Acho que o desenrolar do conflito entre Israel e Gaza pode ajudar, dependendo da magnitude da incursão militar de Israel e do número de vítimas. Eu acho que isso pode ajudar de alguma forma a apaziguar e a acalmar estas manifestações, mas eu acho que num futuro próximo, o caldeirão está montado para que surjam mais conflitos. Eu não digo até extremismo, mas até podem ser conflitos sociais de outra ordem, discussões, outro tipo de violência, a disseminação nas redes sociais de muita desinformação. Muitas vezes as pessoas disseminam a desinformação conscientemente, o objetivo é provocar dano, mas também podem disseminar de forma inconsciente, que a desinformação chegou-lhes às mãos e portanto acreditam nela e passam-na. E isto é de forma inconsciente. E depois ainda pode haver a utilização de factos verídicos, mas descontextualizados para também provocar desinformação. E isto, claro, ajuda também a radicalizar algumas pessoas.
E por cá, a maior sinagoga da Península Ibérica, que fica no Porto, foi vandalizada e entretanto as autoridades também decidiram reforçar a segurança junto das comunidades judaicas, das sinagogas e das escolas.
Aquilo que aconteceu na sinagoga acaba por ser, de certa forma, um tipo de violência que aconteceu, porque o objetivo é claramente intimidar e ameaçar a comunidade judaica. E o que digo, que já agora aqui em Portugal o antissemitismo, daquilo que eu vou vendo do terreno, não é muito comum aqui em Portugal. Por exemplo, por comparação com países como a Bélgica, Alemanha, Inglaterra, França, aqui em Portugal o antissemitismo está muito pouco presente e portanto aquilo, por um lado surpreendeu-me, mas dado o contexto acabou por não surpreender. Mas eu acho que aquilo deve ter sido um caso isolado e acho que não se vai concretizar em nada. Eu espero estar correta.
Esta é também uma altura, como disse, em que há muita desinformação a circular. Imagens de outras guerras foram partilhadas, como tendo acontecido em Gaza, ou as imagens de um concerto do Bruno Mars que aconteceu antes do ataque do Hamas. Qual é o efeito que estas publicações procuram ter?
A desinformação é passada conscientemente para provocar dano e portanto, para alterar a opinião pública num determinado sentido. Essa é a mais perigosa e portanto, é preciso detectar a origem desta desinformação e tentar desconstruir.
Como é que se identificam estas publicações? O que é que podemos fazer?
Muitas vezes é procurar, por exemplo, nas redes sociais, a origem, o início da notícia falsa ou do conteúdo falso, tentar perceber de onde é que as contas vêm, a que país é que estão associados ou a que organizações é que estão associadas, que pessoas é que estão por detrás dessas contas e tentar de alguma forma perceber a origem. Muitas vezes também podemos verificar esse conteúdo na internet, noutros sites, pesquisar se de facto aquilo aconteceu ou não. Se virmos, por exemplo, conteúdo num site, convém verificar o link do site, ver o layout do site e tentar perceber se existem ali pistas que nos possam indicar se aquilo é um site fidedigno ou não. Mas eu conheço colegas que estão nesta área e que também caíram. Caíram em alguma desinformação que encontraram, porque é normal. Eu acabo por achar que é normal, porque a quantidade de desinformação hoje em dia é tão elevada e às vezes torna-se tão difícil identificar, que até as pessoas com um olhar mais experienciado acabam por momentaneamente serem vítimas dessa desinformação.
Na última semana voltámos a ouvir falar de terrorismo islâmico na Europa, sem querer causar alarme, como disse, o que é que podemos esperar dos próximos tempos e que cuidados é que devemos ter?
Eu acho que deve existir alguma atenção redobrada, mas nada que limite o nosso dia a dia, a normalidade da nossa vida. Devemos continuar a fazer a vida o mais normal possível, até porque um dos objetivos dos grupos terroristas é justamente limitar, minar e impedir a normalidade da nossa vida e é por isso que os ataques terroristas acontecem. Só ainda outra nota, é que os ataques terroristas são um tipo de violência que, por comparação com outras, causam muito menos vítimas e é muito menos frequente. Só que o facto de serem vítimas aleatórias e de serem ataques surpresa com vítimas que, à partida, entre o agressor e a vítima, não existe qualquer relação, e o facto de usar muitas vezes também meios de cometer violência na rua e de forma até um bocadinho, entre muitas aspas, de cometer violência de forma espetacular, faz com que cause muito mais alarme social e portanto, causa o terror. A sensação de terror, porque é este efeito surpresa e causa muito impacto psicológico e dá muito a sensação de que o terrorismo é um fenómeno muito presente e que pode acontecer a qualquer pessoa. Isso não é verdade. Aliás, basta olhar um bocadinho para trás e ver que nós estivemos bastante tempo aqui na Europa sem ter um ataque terrorista de inspiração islamista. Infelizmente, aconteceram estes dois na última semana, mas o normal não é isso acontecer. E outra coisa também que eu acho que é importante referir, é que este tipo de ataques tem vindo a perder sofisticação e também o grau de letalidade. Já aconteceu haver ataques terroristas, até há bem pouco tempo, em que nem sequer houve vítimas mortais. Isto significa que há uma diminuição do grau de letalidade e, por outro lado, o tipo de meios que são usados, são meios muito pouco sofisticados. Ainda por cima, como são praticados ultimamente por atores isolados, isso faz com que o número de vítimas seja ainda mais reduzido. Ou seja, o objetivo aqui mesmo é provocar algum dano e não importa muitas vezes que tipo de dano é que é provocado. E portanto, eu estou a dizer isto porque é numa tentativa de dizer às pessoas que embora acho que vamos estar com algum tipo de alerta, por outro lado, devemos lembrar que existem estas nuances, relativizar a situação e lembrarmos que o risco em Portugal é mais baixo por comparação com outros países e fazer a nossa vida normal.
Obrigada, Cátia Moreira de Carvalho.
Obrigada.
Cátia Moreira de Carvalho é investigadora da Universidade do Porto, especialista em terrorismo, radicalização e migrações. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos foram recolhidos pela Reuters. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia. A música, do genérico, do João Ribeiro. Eu sou a Teresa de Cassis. Até amanhã.