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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Poderá a Moldávia escapar à invasão de Vladimir Putin?

"Planul pentru perioada următoare presupune acțiuni cu implicarea unor diverzioniști cu pregătire militară, camuflați în civil, care să întreprindă acțiuni violente, atac asupra unor edificii ale statului și luare de ostatici."

Maia Sandu é a presidente da Moldova, um pequeno país que estará na mira de Vladimir Putin há muito tempo. A presidente descreve um alegado plano russo que prevê a ação de sabotadores com treino militar, vestidos à civil e que têm como missão levar a cabo ações violentas, atacar edifícios governamentais e fazer reféns. Maia Sandu diz que o plano de Moscovo para tomar a Moldova passa por instigar e organizar protestos para provocar uma mudança de poder. Será mesmo assim? E que interesse tem Moscovo na Moldova? Vou conversar com a jornalista do Observador, Ana Kotovitz, que tem acompanhado a evolução da guerra desde o início. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.

Olá, Ricardo.

Moldávia ou Moldova, qual é a forma mais correta?

A forma mais correta é a que dá menos jeito de dizer, ou seja, Moldova.

Moldova.

Moldova. E vais me perguntar: por quê, Ana?

Por quê, Ana Kotovitz?

Eu vou te explicar porque. Moldova é o país tal como o conhecemos. Moldávia é uma zona geográfica muito maior, que inclui a própria da Moldova, inclui alguns territórios da Romênia e até da Ucrânia, e por isso é que o ideal é dizer Moldova, para não haver confusões.

E fica esclarecido de uma vez por todas. E então, onde é que fica este país?

Este país fica no Leste Europeu, fica ali encaixado entre a Ucrânia de um lado e a Romênia do outro. A capital, por exemplo, para saberes, que não é um nome fácil de dizer, é Chisinau.

E depois ainda temos a Transnístria. Onde é e o que é a Transnístria, Ana?

A Transnístria é Moldova, embora não assuma que seja. Vamos tentar explicar isto. Em 1991, tivemos a queda da União Soviética. A Moldova, tal como muitas outras repúblicas, declararam a sua independência.

"A sosit timpul să facem dreptate și poporului nostru. Vă îndemn să adoptați anume acea hotărâre care să coincide cu năzuința poporului. Trăiască Moldova independentă!"

Há uma zona da Moldova, uma fatia, uma língua de território muito fininha encostada à Ucrânia, que não quis essa independência, não estava minimamente interessada em virar-se para o Ocidente. Então, no ano seguinte, em 1992, proclamou a sua própria independência. Quem vive ali são independentistas pró-russos e, portanto, que se reveem mais nos valores de Moscovo do que nos valores ocidentais.

Mas a independência da Transnístria nunca foi reconhecida, ou foi?

Nunca foi reconhecida. A Transnístria, hoje em dia, é vista como um conflito congelado. Ou seja, para todos os efeitos, a comunidade internacional diz que a Transnístria é parte da República da Moldova, mas, na verdade, eles têm uma vida à parte, mas também não há guerra, não há conflito armado entre eles.

E sendo a Moldova, já explicaste, uma das 15 repúblicas socialistas, era um dos 15 elementos que compunham a URSS, qual é o sentimento da população em relação ao Ocidente e em relação a Moscovo?

Há sentimentos mistos. Tu não podes dizer que a população é totalmente pró-Ocidente ou pró-Russa. Até porque, por exemplo, em termos políticos, os governos têm oscilado entre governos pró-russos e governos pró-Ocidente. A presidente que nós agora temos no poder, nas eleições anteriores a estas, perdeu contra um candidato que era pró-russo. Ele foi eleito democraticamente. Portanto, tu, de facto, tens ali duas facções, duas formas de encarar o Ocidente e a Rússia na Moldova. Depois, claro, tens a Transnístria, que essa é claramente pró-Rússia e, mais do que isso, quer ser independente.

E que é no leste da Moldova, não é?

Exatamente. Encostadinha à Ucrânia.

Parece que estás a descrever a Ucrânia.

É quase a mesma coisa. Há aqui uma série de paralelismos que tu podes fazer, por exemplo, entre a Transnístria e o Donbass, porque são países que eram repúblicas soviéticas e, como tal, há pessoas que continuam fiéis a essa herança e há outras que olham pro Ocidente e querem ter uma forma de vida mais próxima do Ocidente. Portanto, é tal e qual, com a diferença que a Moldova é muito mais pequena do que a Ucrânia, não tem comparação. Lá está, mas Transnístria e Donbass é exatamente a mesma situação: independentistas pró-russos que se querem separar do país original.

"Și trebuie să investim în capacitatea noastră de a assegurar ordinea publică. Or, liniștea și pacea sunt fundamentale pentru dezvoltarea economică și pentru dezvoltarea nossa socială."

E ainda na semana passada, o Parlamento da Moldova aprovou um novo governo pró-ocidental, que é liderado por um homem pró-ocidente, Dorin Recean. Já voltamos à conversa com a jornalista do Observador, Ana Kotovic. Que planos terá, afinal, Putin para a Moldova?

Ouviu rádio hoje? Ouvi a pipoca mais doce, a Ana Garcia Martins. Ouvi a Catarina Miranda. Ouvi o Manuel Serrão.

Ouvi o meu amigo Júlio Magalhães. Sim, ouvi o Paulo Ferreira. Já ouvi a Maria João Simões.

Ouvi a voz incrível da Carla Jorge Carvalho. Ouvi o José Manuel Fernandes.

Ouvi a Helena Matos.

Ouvi, claro, Rui Ramos.

Ouvi o João Miguel Tavares. Ouvi o Luís Aguiar Conrague. Ouvi a Susana Peralta.

Já ouvi o Jorge Fernandes.

Ouvi o João Marques de Almeida. Ouvi o Bruno Cardoso Reis.

Ouvi o Carlos Filhais.

Eu ouvi o Martim Sousa Tavares. Ouvi o Bruno Vieira Amaral. Ouvi o Eduardo Sá.

Ouvi o Alberto Gonçalves.

Ouvi o Gabriel Alves. Acabei de ouvir o Pedro Henriques.

Se também já os ouviu, ouviu a Rádio Observador.

Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Ana Kotovic. Ana, já percebemos que a Moldova é um país pequeno, pobre, que não tem acesso ao mar direto, pelo menos, terá de passar ali por um canal que é controlado pela Ucrânia. Que capacidade de defesa tem a Moldova?

A Moldova é, de facto, um país pequeno e pobre, tem cerca de três milhões de habitantes e neste momento é o país mais pobre da Europa. Em termos de capacidade de defesa, também é uma capacidade muito pequena, que a NATO estima em cerca de 6000, 6500 militares.

E é por isso que a presidente Maia Sandu, também ela pró-ocidental, admite numa entrevista ao Político uma eventual adesão à NATO?

É exatamente por isso, porque neste momento, e com a guerra na Ucrânia, a Moldova está mais frágil e sente-se mais ameaçada pela Rússia. Não que ela não se sentisse antes, mas sabe que se a guerra na Ucrânia correr de feição para a Rússia, ficam numa situação perigosa. E também sabe olhar para dentro e ver que não é com 6500 militares que faz frente ao exército russo. Aí, de facto, o chapéu protetor da NATO, com quem já coopera, apesar de não ser um Estado-membro, é fundamental para qualquer ameaça que esteja a caminho.

Porque a Roménia é membro da NATO.

A Roménia, que é país vizinho, está mesmo ali ao lado, é membro da NATO, e não é só isso que eles têm em comum. Em ambos os países, a língua oficial é o romeno e chega-se a falar, de vez em quando, em ambos os países, na hipótese de os dois se unificarem. Agora, isto não é uma ideia consensual na sociedade e dificilmente andará para a frente.

E num dos primeiros episódios aqui da História do Dia, há cerca de um ano, assinalámos agora recentemente o primeiro aniversário da História do Dia, conversava com o Major-General Arnaud Moreira e perguntava-lhe se a Moldova seria a próxima. Isso já era uma possibilidade forte naqueles primeiros dias de guerra. O que mudou, entretanto, para reavivar esta possibilidade tão forte de invasão russa?

Olha, Ricardo, eu estive, nem de propósito, a conversar novamente com o Major-General e falávamos exatamente sobre isto. E curiosamente, nos primeiros dias de guerra, a ameaça militar sobre a Moldova era maior. Por quê? Porque não sabíamos como é que a guerra ia correr. E supostamente, a Rússia seria capaz de ter ali uma série de ganhos. Era normal que conseguisse varrer o sul da Ucrânia, entrar pela Transnístria adentro e facilmente fazer cair a Moldova. Isso não aconteceu. E neste momento, a Ucrânia é uma espécie de barreira que protege a Moldova de uma entrada dos russos. O que está a acontecer, essencialmente, é a possibilidade de a Rússia tentar destabilizar a sociedade moldava, ao ponto de haver convulsões que levem a uma mudança do poder político. E aí, como já falámos há bocado, o poder político na Moldova oscila entre pró-Ocidente e pró-russo.

Mas Ana, o diretor dos Serviços de Informações Moldavos disse, e corrija-me se não for assim, que uma eventual invasão russa da Moldova não se tratava de se poderia acontecer, mas sim quando iria acontecer.

Foi exatamente isso que disse Alexandru Musteata. E foi tão assim que depois o SIS, que são as secretas da Moldova-

Não confundir com outras.

Não. Que as secretas da Moldova sentiram necessidade de vir afinar as declarações dele. Ou seja, ele diz de facto isto, a questão não é se vão invadir, é quando é que vão invadir. Inclusivamente, coloca uma data no calendário, fala em janeiro, fevereiro, até agora não aconteceu nada, ou depois em março e abril. E o que os serviços secretos acrescentam? Que isto está tudo dependente do que acontecer na Ucrânia. E, portanto, é a tal questão que falávamos há pouco da Ucrânia estar ali a servir de barreira. Se a barreira da Ucrânia cai, a Moldova cai também.

Assim como eu mencionei mais cedo, o escopo destas ações é a derrubada da ordem constitucional Schimbarea puterii legitime de la Chișinău pe una ilegitimă, care să pună țara noastră la dispoziția Rusiei.

No meio disto tudo, o que diz Moscovo?

Moscovo diz mais ou menos o mesmo que dizia quando não ia invadir a Ucrânia. O Sergey Lavrov, que é o chefe da diplomacia russa, depois da Maia Sandu ter falado em todas estas hipóteses, veio dizer que nem pensar nisso, que a Rússia não tem quaisquer planos de invadir a Moldova e até diz o contrário.

На эту роль приглядывают Молдову, прежде всего потому, что поставили, смогли поставить достаточно

O Ocidente é que está a tentar instigar, mais uma vez, numa antiga república soviética, um sentimento russofóbico, anti-Moscovo, etc. Portanto, é o Ocidente que quer que a Moldova se torne na próxima Ucrânia.

Já que tocaste neste ponto, queria ver isto mais em pormenor contigo, Ana. É realista pensar numa invasão militar quando a Rússia está em dificuldades na Ucrânia e para chegar à Moldova teria de conquistar Odessa e toda aquela região sul, onde falhou redondamente?

Realista é, é uma coisa que pode acontecer, não é impossível. Dificilmente acontecerá agora, neste momento. E por isso é que na Moldova estão todos muito atentos ao que se passa e a pensar muito na defesa do país, na NATO e em tudo isso. Porque nós não sabemos como é que a guerra vai continuar daqui para a frente e se é verdade que a Ucrânia tem conseguido segurar o sul, isso amanhã pode mudar. E a partir do momento em que isso mudar, a Moldova está em risco também.

Assim sendo, o tal eventual plano de Vladimir Putin para tomar a Moldova poderá passar por desestabilizar politicamente e colocar um governo pró-russo em Chișinău?

No início da guerra, os especialistas com quem falei agora eram unânimes em acreditar que tomar a Moldova fazia parte dos planos de Vladimir Putin. Era a ideia imperialista de reconquistar tudo o que está ali à volta. Só que as coisas, como nós todos sabemos, não têm corrido como ele esperava. E não tendo corrido como ele esperava, ele volta a planos que já usou no passado. Por exemplo, em novembro, dezembro, até ainda durante o outono, houve uma série de instigações russas na Moldova que criaram uma série de problemas. Por exemplo, a Rússia chegou a cortar o fornecimento de energia no país. Isto fez com que os preços que eles paguem lá pela energia sejam uma loucura. Isto fez com que a inflação pudesse chegar quase aos 30%. Que consequências é que isto tem? Uma população desgastada, revoltada e na altura houve, de facto, várias manifestações contra o governo e que se sabe, é um facto, que foram financiadas pelo Kremlin. Portanto, o que todos os especialistas com quem falámos nos dizem é que neste momento, enquanto a Ucrânia estiver a resistir, o plano de Putin para a Moldova será conseguir criar a maior instabilidade política e social que conseguir, para que o governo caia naturalmente e chegue um governo pró-russo ao poder. Até porque aí ganha um aliado que está encostado à Ucrânia e que pode ajudar na guerra.

Tal como a Bielorrússia, não é?

Exatamente. Situações muito semelhantes, só que a Bielorrússia já está ganha e a Moldova não.

Obrigado, Ana.

Obrigada eu, Ricardo.

Ana Cotovits é jornalista do Observador e acompanha a evolução da guerra desde o início. Esta foi a história do dia. Se gosta deste podcast, por que não partilhá-lo com um amigo ou um familiar? Para nós, essa partilha é mesmo muito importante. Estamos disponíveis no site do Observador e também nas aplicações que habitualmente usa para ouvir podcasts. No arranque da conversa, ouvimos um som de Mircea Snegur a declarar a independência. É o primeiro presidente da Moldova e este som foi registado pela televisão da Moldova. Ouvimos ainda uma versão do hino da Transnístria, retirada do YouTube, e os restantes sons foram disponibilizados pela agência Reuters. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.