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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que estão a aumentar os casos de violência de filhos contra os pais?
O filho de 14 anos é suspeito da morte da vereadora da Câmara de Vagos, que ontem foi encontrada em casa sem vida. Em comunicado, a Polícia Judiciária esclarece que identificou o menor por fortes indícios da prática do crime de homicídio qualificado.
A morte desta vereadora da Câmara de Vagos, mas também o ataque da filha do antigo presidente do OSCOTE, José Manuel Lannes, trouxeram à discussão a violência dos filhos contra os pais. Casos que aconteceram com poucos dias de distância, mas que dão corpo aos dados da APAV, que mostram o aumento de 27% de casos de filhos que agridem os pais entre 2022 e 2024. São 2,6 casos por dia. Vou conversar com Neusa Patoleia. É psicóloga, investigadora em violência filioparental e membro da direção da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de quinta-feira, 23 de outubro. Bem-vinda, Neusa.
Olá, Luís.
Neusa, não vamos aqui falar de casos concretos, até porque não conhecemos muitos detalhes daquilo que tem vindo a público nestes últimos casos, mas se calhar começava por lhe perguntar o que é e como é que se caracteriza a violência filioparental.
A violência filioparental é quando um filho ou uma filha exerce comportamentos violentos, sejam físicos, psicológicos ou econômicos, de forma repetida, no sentido de controlar, intimidar ou mesmo causar dano a uma figura parental. Não estamos a falar de uma zanga pontual, quando falamos de violência filioparental. Estamos a falar de um padrão que se instala e vai fragilizando o vínculo familiar, as relações familiares. É importante referir que se excluem, deste conceito de violência filioparental, os estados de consciência diminuída, fruto de intoxicações, delírios e as perturbações mentais graves, nomeadamente deficiência profunda. E também o parricídio, sem antecedentes prévios de violência.
Ou seja, é preciso haver um padrão para que possamos falar especificamente num caso de violência filioparental e não um ato isolado.
Exatamente. A violência filioparental caracteriza-se por um padrão de violência, uma escalada ao longo do tempo, no âmbito das relações familiares, que acabam por se instalar e tomar conta das dinâmicas familiares.
E nesse tipo de violência, Neusa, estamos a falar de filhos mais jovens, adolescentes, ou de filhos mais adultos contra pais mais idosos? Há alguma caracterização que possamos fazer aqui neste aspecto?
Sim. Relativamente à idade, a literatura indica que o termo, portanto a designação de violência filioparental, enquadra-se quando falamos de dinâmicas onde o filho, portanto, neste caso, o agressor, tem aqui um papel de dependente para com a sua vítima. Ou seja, a vítima, pai ou mãe, ou figura parental que subsiste lei, são vítimas, mas ao mesmo tempo responsáveis por aquele filho. Portanto, responsáveis ao nível da orientação, do seu desenvolvimento. Ainda que não exista um marco para o limite de idade, a partir do qual estamos a falar de violência filioparental ou não, ou que estejamos a falar de violência de filhos em relação a pais idosos, a verdade é que é importante este critério relacional, porque o padrão de relação que se desenvolve nas famílias, quando falamos de violência filioparental, é diferente da violência de filhos em relação a pais idosos, que se aproveitam muitas vezes de uma situação de vulnerabilidade. E neste caso, são os próprios pais idosos que são dependentes dos filhos.
Assim sendo, posso depreender daquilo que está a explicar que existe uma diferença entre violência doméstica e violência filioparental.
A violência filioparental pode ser enquadrada no âmbito da violência doméstica. É uma violência que acontece no espaço da família, onde existe uma inversão da hierarquia familiar e onde existe alguém que domina o outro. Existe aqui uma inversão da hierarquia familiar. Também existe uma relação de poder e de domínio sobre o outro. Acaba por ser mais complexo no sentido de não é uma relação que se entende que deva ser simétrica. É uma relação que deveria ser efetivamente hierárquica e onde a hierarquia está invertida.
Neusa, já há alguns anos que vemos notícias de que a violência dos filhos contra os pais tem vindo a crescer. Vimos agora estes dois casos mais mediáticos muito recentemente. Isto pode dar ideia de que esse crescimento do número de casos é só de agora, mas não será bem assim. O que nos pode dizer em relação a isso? Que experiência que tem?
Na verdade, como em todas as situações de violência intrafamiliar, existe uma tendência para que haja uma proteção da família, em torno do comportamento violento. E existe aqui uma tendência para se encobrir estas situações. No caso da violência filioparental A necessidade de proteger aquele filho ou filha acaba por acentuar mais ainda esta questão da proteção do que se passa na família. E depois também há uma tendência crescente a normalizar o comportamento agressivo dos jovens e, portanto, ter uma expectativa que seja uma fase, que passe com a idade e isso acaba por dificultar o reconhecimento deste padrão de violência, o que acaba por tardar o pedido de ajuda. Primeiro que tudo, o reconhecimento de que estamos a falar aqui de uma situação de violência e depois o pedido de ajuda, porque os pais também têm muito receio.
E vergonha.
E vergonha, sim. Há aqui muita vergonha associada, porque como eu referi inicialmente, neste tipo de violência, são os pais que são os responsáveis pelos seus filhos, os responsáveis pela educação dos seus filhos. Há aqui uma inversão na hierarquia, há muita dificuldade, primeiramente, de reconhecer que efetivamente têm um problema. E depois, quando efetivamente reconhecem que existe um problema na família, de pedir ajuda, porque, para além da vergonha, temem as consequências para os filhos e para a família.
Isso pode também justificar o facto de haver mais pessoas a assumir essas situações, que seja também uma justificação para o aumento do número de casos, ou seja, não há exatamente mais casos, mas há mais pessoas a assumir e a pedir ajuda?
Cada vez mais temos vindo a falar sobre este tipo de violência. E portanto, quando vamos falando, sensibilizando para este tipo de violência, mais facilmente as pessoas se identificam, reconhecem os sinais e muitas vezes tomam consciência que efetivamente estão num padrão de violência filioparental quando ouvem falar destas questões. Eu acho que haverá aqui dois fatores. Um é que tendemos para uma educação mais permissiva a vários níveis e para a normalização do comportamento violento em muitos contextos, para o esbatimento dos limites e das hierarquias familiares. Haverá também uma maior tendência para que estas situações acabem por acontecer mais nas famílias. Por outro lado, também há um maior reconhecimento quanto maior sensibilização houver. Quanto mais falarmos sobre o assunto, também estamos a dar a oportunidade às famílias e à comunidade geral para reconhecer os sinais.
Estamos a falar, Neusa, ou podemos falar, se é que é possível, se é que existem dados que possam explicar. Estamos a falar de situações cada vez mais graves, ou seja, estamos a falar de casos cada vez mais violentos ou não conseguimos fazer essa avaliação?
Não temos dados para fazer essa avaliação, porque estamos a falar de um tipo de violência ainda muito encoberto. As situações que temos conhecimento acabam por ser a pontinha do iceberg e não temos dados para nos dizerem que a violência filioparental está a se tornar mais grave. O que temos dados é que existem cada vez mais situações de violência filioparental, fruto também deste esbatimento da hierarquia familiar, destes estilos educativos mais permissivos, desta dificuldade em exercer a autoridade parental, de estilos muito superprotetores, movimentos muito de superproteção relativamente aos filhos, que acaba por comprometer a sua autonomia e a sua responsabilização pelos seus comportamentos. Sabemos que a sociedade tem evoluído, abandonámos um estilo educativo muito autoritário, e temos alguma dificuldade, do ponto de vista geral, de encontrar um meio caminho. E há uma tendência para se confundir, muitas vezes, esta questão do afeto, do carinho e da proteção, com a ausência de limites. Sabemos que as sociedades atuais, ocidentais, têm vindo a caminhar neste sentido. E isso obviamente facilita que este tipo de condutas acabam por acontecer nas famílias, este tipo de padrões de relação familiares.
Já vamos continuar a conversa com Neusa Patolea. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Neusa Patolea. Neusa, como é que podemos prevenir ou se podem prevenir estes casos? A sensibilização é importante?
Sim, é muito importante sensibilizar e falarmos sobre estas situações. As pessoas quando percebem que outras famílias vivem situações semelhantes, acabam por reconhecer mais facilmente, identificar os sinais daquilo que se passa na sua família E atrevem-se mais. Acabam por ter coragem para pedir ajuda. O caminho da prevenção faz-se muito na sensibilização sobre estas questões. E depois estar, obviamente, atento aos sinais. Fazer uma distinção entre o que são comportamentos efetivamente normativos da adolescência, de desafio, e o que é um padrão reiterado de tentativa de impor a vontade, de controlar o ambiente, de controlar os pais, e até que ponto os pais acabam por ficar inibidos de exercer a sua parentalidade de uma forma assertiva e consistente, com medo do que será a reação dos filhos. Este é um sinal de alerta. Já é um sinal vermelho. Quando os pais acabam por recear de colocar um limite, que consideram que seria mais ajustado, com medo de qual será a reação dos filhos. Muitas vezes não é tanto o medo relativamente ao que os filhos podem fazer contra os pais. Muitas vezes é o medo relativamente aos próprios filhos, ou seja, o que o meu filho ou a minha filha pode fazer se eu não lhe der dinheiro. O que ele pode fazer contra si próprio. O que ele pode fazer se eu não o deixar sair, o que ele pode fazer se eu o contrario nisto ou naquilo. Ou seja, ele desorganiza-se e o que ele pode fazer contra si próprio. Muitas vezes o medo destes pais não é o que os filhos podem fazer contra eles diretamente, mas nesta tentativa de os proteger relativamente a si próprios, pois há aqui muita chantagem emocional nestas dinâmicas. Isto depois é utilizado: se não me deixares sair, se não me deres dinheiro, se não me deixares fazer isto ou aquilo, ou se não me deres isto ou aquilo, eu faço-me à mesma, eu roubo, eu tiro, eu desapareço e não sabes de mim. Há este tipo de chantagem nestas dinâmicas relacionais. É importante perceber e estar atento de quando efetivamente eu coloco um limite, ou seja, quando eu entendo que devo colocar um limite, eu, mãe, pai, consigo colocar esse limite e consigo exercer a minha parentalidade e orientar o comportamento do meu filho, ou não, ou eu temo pela reação dele e acabo por não o colocar. Esse é um sinal vermelho.
De alerta. Neusa, que acompanhamento deve ter um jovem que esteja, supostamente envolvido num caso destes. Temos este caso de um jovem suspeito de homicídio também, mas sem falar deste caso em particular, como é que um jovem deve ser acompanhado que esteja inserido num caso destes?
Eu acho que é importante esclarecer que se estamos a falar de um fenómeno, de um tipo de violência relacional, não é só o jovem que precisa de apoio. Eu acho que isto é muito importante. A resposta à violência filioparental não é individual. É importante acompanhar este jovem, claro que sim. É importante acompanhar estes pais. É importante intervir com este jovem e com estes pais, desenvolver competências emocionais e sociais. E é importante trabalhar na relação. Ter aqui uma visão relacional do problema e intervir numa perspetiva sistémica. Se estamos a falar de um problema relacional, não podemos dirigir a intervenção para uma das partes. É importante trabalhar, sim, com o jovem, com estes pais e na relação.
Obrigado, Neusa.
Obrigada, Luís.
Neusa Patoleia é psicóloga, investigadora em violência filioparental e membro da direção da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas a ter em conta esta quinta-feira. Assinala-se o segundo dia de luto nacional pela morte de Francisco Pinto Balsemão. Os plenários parlamentares foram adiados e muitos candidatos presidenciais cancelaram ações de campanha, neste dia em que se realizam as cerimônias fúnebres. Chega às livrarias portuguesas, "Astérix na Lusitânia". A nova aventura de Astérix e Obélix traz as duas personagens ao território que é hoje Portugal. É o álbum 41 da conhecida banda desenhada. E nem de propósito, arranca na Amadora a edição 36 da Amadora BD. Entre os homenageados da edição deste ano, está o Zé Povinho, faz 150 anos. Vai ser possível visitar a Amadora BD até 3 de novembro. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira. O som que escutámos no início do programa foi retirado da emissão da Rádio Observador. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Até amanhã.