Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que é tão importante esta semana para a União Europeia?

"So, first of all, we very much welcome the fact that President Zelensky is here, and we are very glad that we can continue to work on the enlargement path, also in the new parliament, as accession negotiations have started with Ukraine."

Roberta Metsola, à entrada para o Conselho Europeu de 27 e 28 de junho, deixava o caderno de encargos para o futuro próximo da União Europeia: alargamento à Ucrânia e Moldova, segurança, defesa, competitividade, transição verde e digital. Roberta Metsola tenta esta semana a reeleição como presidente do Parlamento Europeu, que esta terça-feira arranca para nova legislatura. Esta é uma daquelas semanas importantes para o futuro europeu e dos 27. E é precisamente sobre isso que vou conversar com Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 16 de julho. Bem-vindo, Rui Pedro.

Olá, Ricardo.

O que se passa esta semana em Estrasburgo?

Tanta coisa. Em Estrasburgo, precisamente, apesar de normalmente nós referirmos à Europa e às instituições comunitárias como Bruxelas.

Exato.

Mais ou menos uma vez por mês, 12 vezes por ano, o plenário reúne em Estrasburgo e quando são grandes momentos, plenários de muita importância, em que há votações importantes para os órgãos, é em Estrasburgo que reúne o plenário.

Ou seja, a máquina muda-se toda de Bruxelas para Estrasburgo, não é?

Precisamente, é muito pesado.

O que é uma despesa brutal.

Brutal. Tem a ver com os equilíbrios na União Europeia, porque está ali numa zona de fronteira entre a França e a Alemanha. E para não ficar tudo concentrado na Bélgica, no caso em Estrasburgo, também há instituições no Luxemburgo, mas são mais residuais, há esta mudança, que tem custos muito elevados. Já muita gente tentou acabar com isto, mas não tem sido possível por causa desse equilíbrio geográfico.

Vamos então à agenda desta semana, que é uma semana mesmo muito importante e ao longo desta conversa vamos perceber porquê. O que é que se passa esta semana?

Logo na terça-feira, os deputados, muitos que as pessoas elegeram, como por exemplo, Sebastião Bugalho, Marta Temido, João Cotrim Figueiredo, Tânia Correia, João Oliveira, Catarina Martins, só para citar alguns cabeças de lista, vão começar a sua nova vida como deputados. É o primeiro dia, é logo o dia de estreia dos eurodeputados. E logo no primeiro dia têm uma decisão importante, que é escolher o presidente entre pares, ou seja, o presidente do Parlamento Europeu ou, neste caso, a presidente. Logo na terça-feira. E não é uma novidade, porque a principal candidata é Roberta Metsola, já podemos falar mais à frente disso. Depois, na quarta-feira, há um separar do trigo do joio importante, porque vão forçar logo uma votação sobre a Ucrânia, para que o Parlamento possa renovar o apoio com a nova composição, uma vez que há partidos que são desconfiados de ser pró-Rússia. E depois, na quinta-feira, podemos chamar a cereja no topo do bolo da política, que é a eleição da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que já foi definida num acordo entre as três maiores forças políticas, mas isto na política nunca fiando.

Exato. Vamos então olhar para a eleição da presidente do Parlamento Europeu. Como é que tudo isto vai funcionar? E esta pergunta tem também uma componente política escondida.

Sim, desde logo, só começando pela parte prática e não política, já lá vamos à política, cada grupo pode propor um candidato a presidente do Parlamento, ou então um vigésimo dos deputados, que seriam o correspondente a 38. E para alguém ser eleito, é preciso ter uma maioria absoluta dos votos, ou seja, 50% mais um, sendo que não contam os brancos e os nulos. Portanto, é dos votos expressos, 50% mais um. E é aqui que as coisas parecem bem encaminhadas para aquela que ainda é a presidente em exercício, que é a Roberta Metsola.

A maltesa.

Exatamente. Teve um mandato muito forte, foi a primeira a ir a Kiev quando ainda havia russos por perto. E tudo isso contribuiu para uma imagem forte de Roberta Metsola e não criou muitos anticorpos e é a candidata do PPE, que é o maior partido e aquele que na negociação dos cargos ficou com este. E há um grande acordo, e passamos aqui para a parte política, entre a direita europeia, que é o PPE, do qual faz parte o PSD e o CDS, os S&D, que são os socialistas europeus, do qual faz parte o PS, e os liberais, do qual faz parte a iniciativa liberal. Estes partidos todos juntos têm os tais 50% mais um. Só estes representam 401 votos. Isto vai-se repetir estas contas para a presidente da Comissão, mas por isso está tudo bem encaminhado. É um mandato de dois anos e meio.

Exatamente, não é um mandato de cinco anos.

Não é. Na verdade, eu até acho pouco provável que Roberta Metsola faça mais cinco anos, porque já vem até de uma metade de um mandato anterior, que foi dividido entre os socialistas e o PPE. Ela fez o mandato anterior, mas como o PPE gostou de a ter no cargo, agora há uma nova renovação do mandato. A segunda metade pode ter aqui uma influência em António Costa, não na eleição, isso já vamos falar, Ricardo, mas no tal segundo mandato de António Costa na presidência do Conselho. Por quê? Se houver rotatividade para os socialistas no Parlamento Europeu, ou seja, se a seguir a Roberta Metsola vier um socialista, significava que os socialistas em quatro top jobs passariam a ter dois, o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu. O que o PPE vai jogar e ainda não quis falar muito sobre isso, é continuar a ser do PPE para permitir que António Costa continue no Conselho. Dentro dos próprios socialistas vai haver aqui uma jogada que é: será que nos dá mais jeito manter Costa no Conselho, a partir dessa menor do que ter mais força do que o presidente do Parlamento. Em alguma medida, acaba por ser um cargo melhor, por isso é que é o segundo a ser escolhido, ou se decidem não e pedir a segunda parte do mandato no Parlamento Europeu ao PPE e ceder a presidência do Conselho ao PPE. Parece-me que não vai ser essa opção. Vamos ver como é que António Costa se comporta e como é que se mexem estas peças. Só para explicar que no fim do mandato de Metsola, pode aqui existir uma correlação com um segundo mandato de António Costa.

Seguindo essa linha de equilíbrio de forças entre esquerda e direita, temos então outra protagonista, e vai ser outra protagonista desta semana, que é a presidente da Comissão Europeia.

Verdade. Ursula von der Leyen, que de acordo com aquilo que foi definido pelas três maiores forças políticas, foi a escolhida para este cargo, o que é normal. O PPE foi o partido mais votado nas eleições, manteve-se com muita força e destacadamente relativamente ao segundo, e apresentou de novo o nome de Ursula von der Leyen. Qual é que são as dúvidas? É que o voto é secreto, ou seja, se fosse uma coisa de automaticamente cada partido votar-

De blocos partidários.

De blocos partidários, nós temos essa votação aqui no nosso Parlamento e lá também pode ser assim às vezes, em que levanta-se um e conta tudo. Era fácil, mas o voto é secreto e no voto secreto ninguém tem controle sobre o voto individual. Qual é o medo de Ursula von der Leyen? É que vários grupos políticos roam a corda, por exemplo, ou dentro desses grupos haver uma parte, uma facção que roa a corda. Se nos socialistas europeus que estão dentro do acordo, houver muita gente a votar contra a Ursula von der Leyen, ela não consegue ser eleita. O mesmo acontece nos liberais e, portanto, a presidente da Comissão e candidata a mais um mandato na Comissão, anda no fundo agora a reunir com os vários grupos para tentar perceber o que é que pode fazer para os convencer, apesar de aparentemente o acordo já estar fechado. Por exemplo, João Cotrim Figueiredo dizia no Expresso há uns dias que, à partida, o voto seria contra, por causa da negociação de Ursula von der Leyen com o ECR, com os conservadores, que é o grupo de Giorgia Meloni. Mas na verdade, o que Ursula von der Leyen está a fazer é, se alguém dos liberais ou dos socialistas lhe falhar, ela ter um bocadinho rede.

Ter um plano B.

Ter um plano B e eventualmente ter alguns dos conservadores a votar nele, porque até no PPE há pessoas que têm dúvidas se votam ou não nela.

E já falámos nele, à margem de tudo isto, ou não, como já percebemos, está António Costa para já a presidência do Conselho Europeu, essa questão está arrumada, Rui Pedro.

Parece arrumada. Não significa que esteja definitivamente fechada. Por quê? Porque se falhar o acordo de Ursula von der Leyen, o próprio PPE pode retirar o apoio a António Costa e daria uma grande confusão. Não necessariamente retira, mas se forem os socialistas a falhar e os socialistas portugueses, os oito eleitos ainda não disseram se votam ou não em Ursula von der Leyen, pode haver aqui um grande problema. E Paulo Rangel e Luís Montenegro já disseram os dois: "Atenção que é bom que haja reciprocidade, é bom que os socialistas votem em von der Leyen, senão vamos ter um problema". E qual é o problema? É que aí começa a ficar em causa, no fundo, a presidência do Conselho por parte de António Costa.

Já voltamos à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. No plano político, com uma guerra de consequências imprevisíveis na Europa, o que podemos esperar, afinal, dos próximos cinco anos? Estamos de regresso à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. E Rui Pedro, há também novas famílias europeias neste novo parlamento que agora arranca e há também novos partidos no Parlamento Europeu, nomeadamente partidos portugueses.

Verdade, há dois partidos que se estreiam no Parlamento Europeu, nomeadamente a Iniciativa Liberal e o Chega. A Iniciativa Liberal vai para o grupo normal, o grupo que seria normal dos liberais, que é o grupo que foi muito dinamizado e continua a ser quem manda lá é Emmanuel Macron e os franceses liberais. E há um novo grupo que foi criado e impulsionado por Viktor Orbán, mas cujo presidente é Jordan Bardella, que é o discípulo de Marine Le Pen Da União Nacional, que se tornou o terceiro maior grupo ao juntar uma série de outros grupos, passando até o grupo dos liberais. Ou seja, o Chega passa a integrar um grupo que passa a ser o terceiro maior, que antes era o grupo onde estava a Iniciativa Liberal e eram os liberais. Houve um pouco esta mudança. Agora, isso não mexeu naquele eixo europeísta. O grupo é maior, tem mais força, até do ponto de vista processual e regimental, tem outra força, mas não muda na grande maioria europeísta e no tal acordatrez, que é suficiente para definir essas coisas se ninguém roer a corda, mais uma vez.

E em relação aos eurodeputados portugueses, é de esperar alguma posição de maior visibilidade para os portugueses? Há uma série de comissões, subcomissões, enfim, uma série de cargos para distribuir.

Sim, desde logo nos próprios grupos. António Tanger Correia é o vice-presidente do Patriotas pela Europa, um dos vice-presidentes, são várias as vice-presidências e, portanto, é vice-presidente de Bardella. E João Cotrim Figueiredo tentou ser presidente do grupo dos liberais. Na verdade, ficou uma francesa da ala de Macron a provar que eles ainda mandam. Aliás, à Rádio Observador, durante a convenção da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo disse que foi muito verdinho, foi a expressão que ele utilizou.

Foi naïf.

Foi naïf, mas mesmo assim conseguiu uma vice-presidência, portanto, também ele será vice-presidente do grupo. Diria que numa perspectiva estritamente nacional, não nos podemos queixar. Ainda é possível que no próprio Left venha Catarina Martins ou alguém venha a conseguir, ou mesmo João Oliveira, venham a conseguir algum cargo, mesmo que não seja uma vice-presidência. No caso, não estive atento a essa votação, creio que ainda não ocorreu, mas é possível. E claro, nas comissões, depois é muito importante se são ou não relatórios. Por exemplo, na última legislatura, José Manuel Fernando, hoje ministro da Agricultura, e Margarida Marques, eurodeputada, um do PSD e outro do PS, tiveram todo o pacote e toda a discussão orçamental nas mãos deles. E, portanto, é muito importante, às vezes, esses cargos, até do que eventualmente poderem presidir a uma comissão. Tudo isso pode acontecer daqui para frente e os portugueses estão sempre bem posicionados. Deixa-me só dizer uma coisa aqui, Ricardo. Pedro Nuno Santos foi muito avisado que não devia ter trocado todos os eurodeputados. Naturalmente que é mais difícil. Pedro Silva Pereira, por exemplo, era vice-presidente do Parlamento, tinha alguma experiência e era reconhecido. Todos estes são novatos. Portanto, não é de esperar que de hoje para amanhã, Marta Temido tenha uma presidência do Parlamento Europeu. Pode acontecer, é mais difícil e portanto, aí há uma barreira que não existia antes.

Na prática, o centro-esquerda, apesar dos avisos e dos receios com os quais lidamos durante a campanha para as europeias, o centro-esquerda e o centro-direita continuam a dominar os destinos europeus, este centrão, vamos chamar assim.

Verdade, é isso mesmo, Ricardo. Das contas todas que fizemos, o PPE, que é a direita europeia, os socialistas europeus e os liberais têm uma maioria que ainda é reforçada com outro grupo europeísta, que agora é um pouco mais pequeno do que os liberais, que são os Verdes e portanto ainda há uma boa margem de europeísmo e continuam a dominar. Acontece é que dentro da direita europeia, do PPE, muitas vezes há uma linha dura. Viktor Orbán há dez anos, nem é preciso tanto, há cinco, seis anos, estava aí. E quando estávamos a contar com os moderados europeístas, centristas, estava lá Viktor Orbán. É claro que há partidos que não estão tão confortáveis. Há um grupo que estava nos Liberais e que agora foi para os Patriotas da Europa, por exemplo. Um grupo que era colega de João Cotrim Figueiredo. Aliás, quando João Cotrim Figueiredo aponta o dedo a Giorgia Meloni, ou melhor, a Ursula von der Leyen, por conversar com Giorgia Meloni, o que o PPE diz logo é que o Partido Popular pela Liberdade e a Democracia, do antigo primeiro-ministro neerlandês Mark Rutte, está numa coligação com Geert Wilders na Holanda e continua dentro do grupo dos Liberais. Há sempre grandes diferenças e dentro dos vários grupos vai existindo uma grande diversidade.

E Rui Pedro, há uma questão aqui essencial, esta questão dos equilíbrios políticos ainda mais relevante quando temos na Europa uma guerra na Ucrânia de consequências imprevisíveis. Vamos continuar a assistir a este apoio praticamente incondicional da União Europeia aos ucranianos contra a Rússia?

Sim, eu creio que sim. A Comissão, não tenho dúvidas nenhumas que apoiará, mas o Parlamento Europeu, já que a Comissão só vai ser formada mais tarde, é por isso que o alto representante não é agora decidido.

A Comissão é uma espécie de governo da Europa, não é? Em que os comissários são os ministros.

Aí vai continuar a existir um apoio do tal governo, podemos chamar assim, de Ursula von der Leyen. Vamos ver também quem será o comissário português. Mas no Parlamento Europeu também vai ser forçada já uma votação na quarta-feira, forçada, enfim, está prevista, precisamente para o Parlamento voltar a tomar posição sobre a Ucrânia, para não existirem dúvidas que se o anterior era pró-Ucrânia e pró-Kiev, que este também será. E logo aqui vamos ter algumas curiosidades, porque mais uma vez, claro, se no GUE, que é a esquerda europeia, por exemplo, João Oliveira ou Catarina Martins. Catarina Martins de certeza que não votará, porque o Bloco de Esquerda já resolveu essa questão há muito tempo e às vezes é mais pró-Ucrânia que alguns partidos que se esperava que fosse. Mas João Oliveira pode não votar a favor. Há sempre essa expectativa do que farão os portugueses. E a expectativa também de ver o que farão os novos camaradas de partido do Chega, porque também normalmente essas votações estavam bastante acompanhadas de partidos que hoje estão nos Patriotas pela Europa. A começar, por exemplo, pelo partido austríaco da Liberdade que está lá e também pela Lega de Matteo Salvini, que muitas vezes votavam a favor da Rússia. Vamos ver como é que se posicionam. É que agora já não são só, como diria o Tiago Moreira de Sá, os amigos do Pedro Nuno, os amigos do André Ventura também às vezes votam ao lado do Vladimir Putin.

E a defesa será o grande tema desta nova legislatura do Parlamento Europeu?

Creio que a Europa, neste estado, não tenho dúvidas que o tema Ucrânia e o evoluir da guerra vai ditar muito o que são os próximos cinco anos da União Europeia. Se contaminado pelas eleições dos Estados Unidos e se de alguma forma a Ucrânia acabar por cair em virtude de falta de apoio da NATO, impulsionada por uma mudança de liderança em Washington, nos Estados Unidos, parece-me que pode ser muito mau para a Europa e não podemos dizer que se Kiev cair, que a União Europeia, no fim deste mandato, daqui a cinco anos, estará igual, nem sequer se existe, porque será muito fácil desmoronar-se a partir do momento que haja um fim do controle geopolítico, porque não nos esqueçamos que o principal deste projeto que é a União Europeia, eu tinha um professor na faculdade que costumava dizer que era um OPNI, um objeto político não identificado, é a paz. Se ela não estiver garantida, a própria função da União Europeia está em causa.

Obrigado, Rui Pedro.

Obrigado, Ricardo.

Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.