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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que está Mondlane irritado com Paulo Rangel?
O senhor não tem tido contactos comigo. Teve um contato ocasional. Se há trabalho que não fez antes, não se aproveite desse contacto ocasional para passar uma mensagem errada, enganosa, manipuladora aos portugueses.
Num direto no Facebook esta terça-feira, Venâncio Mondlane lançou duras acusações ao governo português e, em particular, ao ministro dos Negócios Estrangeiros. Ao Observador, Paulo Rangel diz que mantém tudo o que disse. Rangel está em Moçambique esta quarta-feira em representação do Estado português na tomada de posse de Daniel Chapo, o vencedor oficial das eleições presidenciais. O candidato da oposição acusa o ministro português de ter mentido quando disse numa entrevista à TSF que tem mantido contactos discretos com o Vaticano sobre a situação em Moçambique. O Observador esteve dois dias com Venâncio Mondlane, em Maputo, e acompanhou o dia a dia do autoproclamado presidente do povo. Neste episódio, vou conversar com o editor de fotografia do Observador, João Porfírio, e com o diretor-adjunto do Observador, Pedro Jorge Castro, enviados especiais a Moçambique. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quarta-feira, 15 de janeiro. Bem-vindos, Pedro e João.
Olá.
Olá, Ricardo.
João, só para começo de conversa, onde é que estão agora?
Nós estamos em Maputo, a capital de Moçambique, com vista para o Índico, e num dia de muito calor.
Tu e o Pedro Jorge Castro estiveram dois dias com Venâncio Mondlane, em Maputo, numa localização que é secreta ou pelo menos era secreta, é isso?
Sim, pelo menos o presidente eleito pelo povo, é assim que Venâncio se autointitula, prefere que se mantenha. É uma localização onde o presidente, eleito pelo povo lá está, está, onde pretende que essa localização, pela sua própria segurança e pelas pessoas que o acompanham, se mantenha secreta. O que é certo é que no dia em que nós nos encontrámos a primeira vez com Venâncio, essa localização foi tornada pública. No momento em que nós estávamos a explicar exatamente aquilo que pretendíamos fazer durante estes dias de reportagem, um dos seguranças foi ter com ele, abordou e disse que: "Presidente, a localização onde nós estamos passou a ser pública", e mostrou-lhe uma publicação de uma rede social onde de fato divulgava esse local. O que é certo é que essa publicação, pelos vistos, não teve grande tração, digamos assim, e o que é certo é que Venâncio e toda a sua equipa mantêm-se nesse local.
João, é um complexo, é uma casa, é um hotel?
É um hotel em Maputo, e é uma localização que não é óbvia, segundo o próprio, para as pessoas que o seguem e para as pessoas que eventualmente poderão querer fazer-lhe mal e com essa justificação, é que toda a sua equipa escolheu ficar num hotel que, como diz o próprio, é um sítio público e um sítio com câmaras de vigilância, e que isso também o protege de alguma forma.
E Pedro Jorge Castro, como é o dia a dia deste autoproclamado presidente do povo nestas circunstâncias especiais em que se encontra Mondlane?
Precisamente por estar num hotel, por questões de segurança, praticamente não sai de lá. Transformou um quarto numa espécie de sala de trabalho, uma espécie de gabinete. Depois, tem outras salas onde se reúne com diplomatas que o procuram. Nós assistimos, aliás, à chegada do embaixador português com a delegação, com mais três diplomatas, para ter uma reunião com Venâncio Mondlane. E fora disto, ele não vê televisão, não vê jornais. Por exemplo, ficou encantado quando viu a edição impressa do jornal Savannah, que justamente na capa chegou o Messias, e pediu logo ao secretário para ir comprar o jornal. Ele nem sequer sabia. Depois o secretário é que lhe disse que já tinha o jornal arquivado. Ele segue tudo pelo telemóvel, pelas redes sociais, é esse o universo em que ele se move. E é também um dia a dia muito marcado por cuidados de segurança. Por exemplo, a comida que ele consome é praticamente toda confecionada por uma irmã, por questões de segurança. Até as garrafas d'água, ele evita beber garrafas d'água que não sabe exatamente de onde é que vêm. Ele diz que é muito fácil com uma seringa contaminar a água.
É mesmo um grau elevado de segurança, não é?
Exatamente. Depois tem outro tipo de medidas de segurança, nomeadamente cibersegurança. Está sempre a ter as contas hackeadas. Obviamente, tem homens armados a protegê-lo e é muito marcado por isto. Sai do hotel para fazer ou ações diretas de contato com o povo, mas não tem feito muito isso. Aliás, a última vez que ia fazer, o secretário dele, que vai sempre à frente para tratar de toda a parte logística, acabou por ser vítima de um atentado. Apareceram homens armados aos tiros. Ele conseguiu sobreviver, sem ferimentos, mas avisou logo Venâncio Mondlane para não sair do hotel, porque não havia condições para fazer aquela ação, ou então para fazer as suas famosas lives. As lives, os diretos nas redes sociais, que é uma forma que Venâncio Mondlane encontrou de manter o contato com a população. Tem milhares de seguidores nas várias plataformas e nós testemunhámos uma dessas saídas para ir gravar um direto nas redes sociais.
E isso até está em um vídeo que "O Observador" publicou. Já vou falar um pouco mais à frente desse vídeo. Mondlane, Pedro, regressa a Moçambique depois de dois meses em fuga. Esteve em parte incerta, obviamente por receio de ser atacado. E agora queria pegar nessa manchete de que falavas há pouco desse jornal, que o classifica como o Messias. Como é que Mondlane reage a essa ideia de ser um Messias para Moçambique, Pedro?
Ele faz-se de modesto, diz que é um exagero.
Ele que é pastor evangélico, sabe bem o que é um Messias.
Mas, na verdade, ele cultiva muito esta imagem, o poder da religião, o poder da conversão. Ele faz muito o contraste das suas histórias, da sua vida de libertinagem. Ele diz que até se converter ao Deus vivo, como ele diz. Que fez isto, precisamente em 2012, porque tinha chegado ao excesso, ao limite daquilo que lhe permitia a vida carnal. Com álcool, droga, mulheres, noites nas discotecas, festas after hours, after parties.
Portanto, mudou radicalmente de vida.
Mudou radicalmente e utiliza esse exemplo, como forma de conversão de outras pessoas. Ele diz que algumas das mulheres com quem se envolveu na altura, diz que foram centenas de mulheres, diz que algumas dessas mulheres que o continuaram a procurar e que ele resistiu a todas as mensagens apelativas que lhe enviaram e converteu-as. Ele diz que cerca de 10 destas mulheres com quem ele teve esses relacionamentos da sua vida antiga, são hoje ovelhas do seu rebanho.
Portanto, no fundo, apesar de tudo, acha oficialmente exagerada essa comparação com o Messias de Moçambique.
Ele diz que acha exagerado, mas é um homem que voltou ao seu país com a Bíblia na mão, que se ajoelhou, que beijou o chão, como fazia o Papa João Paulo II quando chegava a cada nova terra que visitava, e faz uma oração antes de cada direto nas redes sociais, precisamente. Nós assistimos a isto, esteve ali 30 segundos a rezar. Inclui sempre Deus no seu discurso político.
Já voltamos à conversa com João Porfírio, editor de fotografia do Observador, e Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador. São os enviados especiais do Observador a Moçambique. De resto, podemos ver o João Porfírio no vídeo que gravámos quando Mondlane fez uma dessas lives de que nos falava aqui o Pedro Jorge Castro. E por que estará este candidato da oposição tão irritado com o governo português? É uma pergunta que deixamos para a segunda parte da História do Dia. Estamos de regresso à conversa com Pedro Jorge Castro e o João Porfírio, enviados especiais do Observador a Moçambique nestes tempos conturbados. João, nesta quarta-feira é a tomada de posse do presidente eleito, segundo os resultados oficiais, Daniel Chapo vai ser o novo presidente de Moçambique. O resultado destas eleições é aceito pela população, ou melhor, nos contactos que tiveram aí em Maputo, das conversas que vão surgindo. Estas conversas, naturalmente, devem convergir para a situação política. O que dizem os moçambicanos com quem se têm cruzado sobre toda esta situação, João?
Para responder à pergunta, vou contar uma história que aconteceu na noite desta segunda-feira, em que nós perguntávamos a um funcionário de um restaurante se conhecia alguém que tinha votado em Daniel Chapo, ou seja, na Frelimo, e ele respondeu rapidamente: "Uma pessoa. Conheço uma pessoa que tenha votado no Daniel Chapo" e justificou esse voto com uma pessoa, de um homem que é doido, cito as palavras deste funcionário do restaurante. Isto espelha muito bem aquilo que se passa, aquilo que vai na cabeça das pessoas aqui em Maputo, que é o sítio onde nós estamos e o sítio onde vamos permanecer e onde estivemos até agora. E as pessoas aqui acreditam piamente que houve uma fraude eleitoral, até especialistas em fraudes eleitorais, em controlar eleições, admitem mesmo isso, que não há dúvida nenhuma que existiu fraude eleitoral. Não que essa fraude eleitoral justifique preto no branco que Venâncio Mondlane tenha ganho as eleições, mas admitem, sim, essa fraude eleitoral. E isso obviamente que ecoa na cabeça de todas estas pessoas, que esperam que com estas manifestações sociais muito aguerridas e por vezes muito agressivas Tanto para a polícia como da polícia para os manifestantes, que estas manifestações surtam algum efeito. O que é facto é que as eleições de outubro ocorreram, passe a redundância, em 9 de outubro e desde então muitas manifestações, muitos dias de manifestações, troca de tiros com a polícia, gás lacrimogéneo. E o que é facto é que Daniel Chapo vai mesmo tomar posse como presidente da República de Moçambique.
João, e há aqui claramente um irritante nesta história. Já lá vamos a ele. Queria primeiro perceber, João Porfírio, qual é que tem sido a posição portuguesa em relação à incerteza política e à violência que se vai vivendo em Moçambique.
Para isso é preciso recuarmos uns dias e irmos até o dia 9 de janeiro. Que se saiba, terá sido a primeira vez que Luís Montenegro terá falado com Daniel Chapo. Num comunicado enviado às redações, diz exatamente isso, que falou com o presidente eleito de Moçambique, onde, cito: "Expressou uma grande preocupação do governo português com o clima de violência e de tensão depois destas eleições". E dá também um foco muito importante que eu destacaria, que é, e volto a citar: "Foi abordada a necessidade de assegurar um cessar-fogo imediato da violência". Ou seja, aqui Portugal a mostrar que está atento àquilo que está a acontecer em Maputo e por todo o país. E depois não podemos esquecer também a iniciativa que a Iniciativa Liberal levou ao Parlamento português de uma resolução para recomendar o governo português a não reconhecer estas eleições. Uma resolução que foi rejeitada pelo Partido Comunista Português, com abstenções do Partido Socialista, do partido que compõe o governo, aliás, da aliança que compõe o governo, PSD e CDS, e os votos favoráveis dos restantes partidos. E claro, já falámos aqui, quem irá representar Portugal nesta cerimónia será Paulo Rangel. É a primeira vez que não vem um presidente da República a uma tomada de posse de um presidente de Moçambique. E claro que isso é um facto político, naturalmente, muito importante, tendo em conta que muitos chefes de Estado e do governo recusaram a vinda a Moçambique para esta tomada de posse.
Ou seja, Pedro Jorge Castro, se calhar esta posição, eu diria, pouco assertiva no sentido de tomar um lado ou outro desta contenda, sabe a pouco do ponto de vista da oposição? É assim que é vista a posição do Estado português?
Sim, claro que Venâncio Mondlane preferia que Portugal não reconhecesse o resultado destas eleições. E aquilo que ele tem feito é que tem contestado fortemente Paulo Rangel e tem pegado, sobretudo, em dois pontos. Primeiro, ele acusou Paulo Rangel de ter dito numa entrevista que tem mantido contactos secretos com o Vaticano e, segundo Venâncio Mondlane, ele está a mentir. O que Venâncio Mondlane fez foi contactar o cardeal do Vaticano, que tem estado a tentar estabelecer uma ponte precisamente entre Venâncio Mondlane e o presidente Filipe Nyusi, e perguntou-lhe se tinha havido alguma diligência do governo português. O cardeal disse que isso era absolutamente falso. E então Venâncio Mondlane diz que Paulo Rangel mentiu aos portugueses e ao mundo. Agora, pegando noutra entrevista de Paulo Rangel, em que diz que tem mantido contactos com Venâncio Mondlane, o candidato da oposição também ficou irritadíssimo com isto e revelou que, de facto, na reunião que teve com o embaixador português, o embaixador português lhe pediu para ser estabelecido contacto telefónico com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, mas que apenas houve esse contacto. E então, pegou neste detalhe do "tem mantido" para dizer que não tem mantido contactos nenhuns, apenas houve este contacto, que foi ocasional, que foi improvisado naquele momento da reunião, e que isto não autorizaria o ministro a dizer que tem mantido contactos. Ele parte daqui para acusar o ministro de não ter feito absolutamente nada ao longo deste período para tentar resolver esta crise pós-eleitoral em Moçambique.
Pedro, então isso quer dizer que esta irritação também serve a objetivos políticos de Mondlane, ou não podemos ver as coisas assim?
Repare, é uma das poucas armas que lhe restam, esta diplomacia internacional. Uma das armas é o poder de parar as ruas. Ele vai continuar a ter esse poder e vai usar essa pressão para tentar forçar uma negociação com a Frelimo para impor uma série de medidas, uma agenda que ele está a querer promover. E a outra arma é a diplomacia internacional. Por aí, a partir do momento em que for a tomada de posse e o reconhecimento dos principais parceiros internacionais, vai diminuindo a margem de manobra de Venâncio Mondlane. Apesar das pressões ou da sensibilização que possa ser feita por alguns destes países, no sentido de haver maior atenção aos direitos humanos em Moçambique.
João, e no tal direto que Venâncio Mondlane fez no Facebook, e que ouvimos um pequeno excerto no arranque deste episódio, ele também, o candidato da oposição, o candidato oficialmente derrotado nas presidenciais, prometia, caso fosse necessário, manifestações todos os dias, 365 dias do ano. Das imagens que nos chegaram cá, da violência, da instabilidade nas ruas, a situação agora parece mais calma, mas como poderão vir a ser os próximos dias? Há algum indício de como podem vir a ser os próximos dias ou semanas, João Porfírio?
É muito difícil responder essa pergunta. O que é certo é que no dia da tomada de posse, os ânimos estarão, naturalmente, muito exaltados. Isso mesmo se vai percebendo em todas as comunicações que são feitas entre moradores de cada bairro à volta em redor de Maputo. E o que vai saindo desses milhares de grupos que existem em inúmeras redes sociais diferentes, é que a intenção é boicotar totalmente a tomada de posse que irá acontecer esta manhã.
Obrigado, Pedro e obrigado, João.
Obrigado.
Obrigado, Ricardo. O editor de fotografia do Observador, João Porfírio, e o diretor adjunto do Observador, Pedro Jorge Castro, são os enviados especiais a Moçambique e assinam um especial que nos relata o dia a dia de Mondlane nestes tempos conturbados. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.