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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a urgência do PS para despachar a comissão de inquérito à TAP e tentar relançar o governo.

O senhor não vê que estou com imensas condições para continuar? Para andar e tudo. Não tenho nada a acrescentar.

Como é que é ser um activo tóxico do governo, senhor ministro?

Eu não tenho nada a acrescentar.

João Galamba quebrava ontem o silêncio, oito dias depois de António Costa se ter recusado a aceitar a sua demissão. Mas dentro do PS, há quem alerte para o risco enorme de manter o ministro das Infraestruturas, que muitos veem como imprevisível. A Comissão Parlamentar de Inquérito à Gestão da TAP foi criada para apurar responsabilidades no caso da indenização de € 500 mil paga a Alexandra Reis, ex-administradora da companhia aérea. Mas audição após audição, as revelações sucederam-se como um dominó em queda imparável.

Braço de ferro entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. O Presidente da República discorda da decisão do Primeiro-Ministro, que segurou João Galamba.

Até provocarem danos que podem ser irreparáveis na relação entre Belém e São Bento. Há cada vez mais vozes socialistas a defender que se acabe com a comissão logo que possível e que se aproveite o fecho desse capítulo para fazer uma remodelação governamental que possa ainda reparar danos. Mas terá António Costa essa capacidade de refrescar o Executivo? Vou conversar com Rita Tavares, grande repórter da secção de Política do Observador. Eu sou a Catarina Santos e esta é a história do dia. Olá, Rita.

Olá, Catarina.

Vamos dar então início à tomada de posse da Comissão Parlamentar de Inquérito à tutela política.

Quando a Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão da TAP arrancou, no Largo do Rato, muitos já antecipavam uma grande turbulência, mas o PS estava confiante num plano para virar o jogo a seu favor. Que estratégia era essa?

A ideia era que pudessem aproveitar esse momento em que claramente o PS ia estar sob fogo, e já sabia que ia estar debaixo de fogo intenso da oposição, para também trazer o PSD à liça e colá-lo, de alguma forma, à má gestão da TAP e a uma privatização que tinha sido feita ao cair do pano da legislatura em 2015. E o PS achou que poderia aproveitar esse momento para fazer esse acerto de contas e falar dessa privatização, que na altura já tinha atacado e que anos depois, já em 2020, acabou por reverter, nacionalizando a companhia, com o argumento da crise na aviação desencadeada pelos confinamentos. E depois, quando aqui há uns meses foi noticiado que a privatização da TAP ganha por David Neeleman, na altura teria sido feita com dinheiro da própria companhia, o PS agarrou-se a isso para uma onda de ataques ao PSD, que esperava poder continuar nesta comissão de inquérito, que, de resto, já sabia que seria sempre uma comissão de inquérito hostil a esta ideia que a TAP é um ativo tóxico para os governos e que é uma companhia tão difícil e com a gestão tão intrincada e tão intensa nas suas reações, que os governos, e nomeadamente no governo do Partido Socialista, há este entendimento de que quanto mais depressa se despachar e privatizar, melhor.

Havia já, de facto, esse entendimento de que seria hostil, mas o que ninguém esperava era esta caixa de Pandora, que na verdade é o que tem sido.

O que não esperavam era que, de repente, cada audição na comissão de inquérito pudesse trazer novos elementos, fora até do que desencadeou a comissão, que tinha sido o episódio da indenização de € 500 mil a Alexandra Reis, e que de repente se começasse a perceber que havia ali toda uma série de questões, como por exemplo, aquela reunião discreta que existiu para preparar uma audição parlamentar, ainda não na comissão de inquérito, mas uma audição parlamentar da antiga CEO da TAP sobre a indenização de Alexandra Reis. E isso começou a levantar ali suspeitas, que a oposição foi explorando, sobre a ingerência da tutela da TAP na companhia e se isso não estaria a passar-se no relacionamento das várias tutelas com as empresas públicas.

Tu explicas num artigo que publicaste no Observador que o sentimento no partido é de necessidade urgente de controle de danos, até porque desse caso que explicavas, enfim, desembocamos na semana passada e em tudo o que aconteceu em volta do gabinete do ministro das Infraestruturas, da eventual demissão de João Galamba e, de repente, de uma alteração completa até da relação com o Presidente da República. Havia, de facto, este sentimento dentro do Partido Socialista de que era urgente matar a comissão de inquérito o mais rapidamente possível para travar esta sucessão de casos.

Essa urgência foi crescendo. O desenrolar dos acontecimentos desde que começaram as audições, no fim de março. A partir daí, a tal caixa de Pandora começou a evidenciar-se de tal maneira que começou a deixar o PS bastante ansioso e nervoso com o rolar dos acontecimentos. E depois isto acabou por extrapolar para episódios como o que aconteceu no Ministério das Infraestruturas e que fez com que o Presidente da República tivesse até vindo fazer uma mensagem ao país e a vincar aqui uma nova fase de relacionamento com o governo. E tudo isto, às tantas, quando olhamos para trás, já quase nem sabemos o que é que esteve na origem. Mas na origem esteve sempre a TAP, o tal ativo que os políticos chamam de tóxico pelos problemas que traz e que tem trazido. Está isso na origem, mas depois disso estão vários episódios que não têm nada a ver diretamente com a TAP. A TAP só esteve lá mesmo A desencadear o processo, mas depois tudo aquilo que neste momento já está a incendiar a governação não tem propriamente a ver com a TAP, mas tem a ver com a forma como o governo e como elementos decisivos no governo gerem e fazem a gestão das suas equipas e a questionar também a sua capacidade política para estarem à frente dos ministérios.

E daí essa urgência que lias em muitos socialistas de se tentar acabar com esta comissão, ou que ela acabasse o mais rapidamente possível.

Já havia esse sentimento inicial de rapidamente pôr uma pedra sobre este assunto e avançar. Isso, com este desenrolar de acontecimentos, veio acelerar ainda mais e há agora, neste momento, e depois daquilo que se passou, desse episódio que levou até a uma mensagem do Presidente da República, essa urgência tornou-se ainda maior e o PS já só quer que a comissão acabe. A verdade é que ela tinha um prazo para terminar, que é 23 de maio. Já estou a falar no passado, ainda não há uma decisão sobre o prolongamento, mas ele pode acontecer e é expectável que aconteça. Mas daquilo que nós conseguimos apurar entre os socialistas e a direção do partido, não há uma intenção, não há propriamente uma vontade em manter este assunto aceso durante muito mais tempo e há conversas já em poder prolongar-se, sim, porque há muitas audições por fazer, nomeadamente de João Galamba e de Pedro Nuno Santos, cuja audição é muito esperada. São muito esperadas ambas as audições, pode haver então esse prolongamento, mas se calhar não pelos 90 dias que estão previstos na lei, que seriam mais três meses, isso poderia arrastar esta comissão para a próxima sessão legislativa, ou seja, passar ainda as férias de verão e depois delas, em setembro, continuar a estar presente no Parlamento e na atualidade política, uma comissão de inquérito que tem tido este peso todo em cima dos ombros do governo.

A forma como fui questionado, de uma forma até deselegante. O meu papel no cumprimento do mandato da Comissão leva-me a questionar se continuo a ter as melhores condições para o fazer.

E até que ponto é que esta reviravolta que aconteceu ontem, com Jorge Seguro Sanches a bater com a porta e a abandonar a condução dos trabalhos, poderá complicar essa estratégia?

A questão é que já há uma alta sensibilidade no que toca a esta comissão de inquérito e qualquer coisa que aconteça, mesmo que seja uma normal picardia numa reunião de coordenadores em que há um desacerto de posições e a oposição queixa-se por ter pouco tempo para conseguir respostas das pessoas que houve na comissão e o presidente da comissão ou o partido maioritário considera que aquele tempo é suficiente. Esses desacertos são exacerbados nesta altura, porque o clima está absolutamente tenso e a oposição já percebeu que o PS está num baixo. O PS também sabe que está num baixo e está suscetível a estes ataques. E isto imagino que para o Partido Socialista fosse tudo o que não queria que acontecesse, mais um episódio relacionado com esta comissão de inquérito, que a reação do PS mostra, queixando-se que o presidente Seguro Sanches teve um ataque de caráter, também mostra como o PS quer conter os danos e vitimizar-se para não ser o responsável por mais um episódio e mais um capítulo complicado num tema que de si já tem este peso todo.

E há várias vozes dentro do partido a defender que se façam alterações no governo logo depois de se conseguir, de facto, pôr um termo a esta comissão, num sentido de tentar relançar a legislatura, digamos assim. E não estamos a falar apenas de substituir João Galamba, certo?

Não. A expectativa de alguns socialistas é que isso possa ir, que um refrescamento do governo, como diz o presidente do partido, aliás, Carlos César, possa ir além disso e António Costa aproveite, depois de passada esta tempestade, se ela passar, para mudar alguns elementos da sua equipa e até eventualmente João Galamba, que não substituiu agora, mas que ficou massacrado depois desta mensagem do Presidente da República. E há elementos que o dizem publicamente. Por exemplo, o presidente do partido, Carlos César, referiu, antes de António Costa ter decidido não demitir João Galamba, e Carlos César até defendia que João Galamba não devia ser demitido e tinha-o dito antes dessa decisão. E depois de António Costa ter mantido João Galamba no governo, Carlos César veio dizer novamente que era preciso estar atento para ver se era necessário mudar de políticas e até de políticos. Portanto, manteve essa ideia em cima da mesa que alguns socialistas continuam a insistir que possa acontecer.

E o fato é que há um historial de António Costa que parece indicar que ele prefere remodelações programadas, portanto, se calhar ela poderá mesmo estar a ser planeada de alguma forma.

Sim, António Costa tem-nos habituado a isso. Ele resiste sempre a remodelações e há ministros que ficam no governo, como por exemplo Eduardo Cabrita, até já ser quase impossível para os próprios justificarem a sua manutenção no governo. Mas António Costa tem esta dificuldade em afastar logo à primeira situação e até quando faz mexidas no governo, normalmente aproveita para alguns pedidos e alguns problemas que já tem em carteira, digamos assim, serem resolvidos todos de uma só vez e substitui um ou outro secretário de Estado que já tinha pedido para sair ou que já tinha um problema político associado e que era melhor que saísse. Faz essas tais remodelações mais programadas e não age tanto a quente. Veremos se é isso que acontecerá desta vez também.

Já voltamos à conversa com Rita Tavares. Vamos tentar perceber que perigos podem levantar-se com uma eventual remodelação no governo. Depois do sucesso do Sargento na Cela 7, vem aí uma nova série d'O Observador. Eu sou a Margarida Vila Nova e não lhe posso dizer muito, mas é uma história real que junta o sequestro de um avião da TAP, um primeiro-ministro em negociações durante a madrugada, um cerco por unidades das Forças Especiais e um protagonista surpreendente. Estreia brevemente e acredite em mim, não vai querer perder. Estamos de volta à conversa com a jornalista Rita Tavares. Rita, explicas no teu artigo que há também receios no seio do PS em relação aos riscos de uma remodelação, se acontecer no timing errado.

Sim, há quem aponte que este momento pode não ser o melhor, porque há alguns projetos em marcha, nomeadamente o PRR, e estar a alterar ministros agora significaria recomeçar, ou pelo menos que essa pessoa ainda se tivesse que inteirar dos projetos e da pasta, e que isso pudesse atrasar esses mesmos projetos. E há também algum receio de que António Costa já não tenha essa leveza que é necessária, essa autoridade para chamar ao governo os melhores nomes, sejam eles figuras fortes do partido, sejam eles pessoas fortes da sociedade civil. Que nesta altura, e com um governo que até há um socialista que fala conosco, que descreve como declinante, um governo que está numa situação declinante, que isso já é um cenário muito difícil para atrair personalidades que têm peso, que já têm história e que já têm um currículo firmado, integrarem um governo nesta fase.

E como em tudo na vida, resta ainda a esperança de que os ventos fiquem de feição. Neste caso, a fé de que o desgaste provocado pelos casos dos últimos meses seja compensado se as condições de vida dos portugueses melhorarem nos próximos tempos. Há motivos para toda esta fé de que te deram sinal?

Isso é uma fé socialista, em que aquilo que pesa no fim de todas as contas, isto é muito referido nestes tempos pelos elementos do PS com quem vamos falando, é o que está no bolso dos portugueses. E se os portugueses começarem a sentir desafogo e medidas que lhes cheguem à sua vida, que isso alivia um pouco a carga sobre o governo. E é nessas medidas que vão chegar entre maio e julho, que é o aumento intercalar dos pensionistas, o aumento intercalar dos funcionários públicos, apoios a rendas, apoios ao crédito de habitação, são medidas que já foram tomadas e anunciadas e que vão chegar agora e há no PS esse desejo de que isso possa aliviar a carga.

Porque até agora eu julgava que sobre essa matéria existia, com mais ou menos distância temporal, acordo no essencial. Viu-se que não, que há uma diferença de fundo. Assim, para prevenir o aparecimento e o avolumar de fatores imparáveis e indesejáveis de conflito, terei de estar ainda mais atento e mais interveniente no dia a dia.

Falávamos de uma hostilidade com o Presidente da República, que é nova. Para alguns socialistas com quem falaste, a questão deixou de ser se vai haver dissolução da Assembleia da República, mas quando é que ela acontecerá.

Sim, ficou aqui a ideia e nas conversas que fui tendo, apercebi-me de que há até quem diga que a dissolução até aqui foi muito referida e numa altura em que ninguém acreditava que ela acontecesse e que neste momento, a partir daqui, se calhar, vai ser menos referida, mas toda a gente acredita que ela pode acontecer mais do que quando o presidente falava mais nela. Portanto, há essa questão adicional, digamos assim, sobre o governo, que já tem toda esta complexidade, todas estas situações pesadas em cima.

Retomando o início desta nossa conversa e sumarizando o que aqui nos explicaste, se pudéssemos submeter o Largo do Rato, digamos assim, a uma daquelas máquinas de medir a tensão arterial, como dirias que está o nível de apreensão?

Diria que está elevado, até porque há aqui um elemento adicional, que é: depois da crise e durante a crise, António Costa decidiu manter João Galamba, e decidiu manter João Galamba contra a vontade do Presidente da República, abrindo esta guerra. E João Galamba é uma figura, de que já falámos aqui, que é considerada imprevisível por quem o conhece. E os socialistas sabem como é que ele é e consideram que António Costa arriscou muito ao colocar tudo, no fundo, nas mãos de um ministro que está no centro da comissão de inquérito neste momento, que tem dossiês de peso, que tem avisos quanto à sua credibilidade e à sua autoridade por parte do Presidente da República, e que qualquer coisa que lhe possa correr mal ou que possa fazer de errado, vai ligá-lo diretamente ao primeiro-ministro. E isso está a preocupar, é um dos elementos que está a criar essa ansiedade e essa subida de pressão dentro do partido.

Obrigada, Rita.

Obrigada.

Rita Tavares é grande repórter da secção de política d'O Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.