Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: Vladimir Putin quer congelar os ucranianos.
"Сейчас много шума по поводу наших ударов по энергетической инфраструктуре соседней страны. Да, мы делаем это. Но кто начал? Кто ударил по мосту по Крымскому? Кто подорвал линии электропередачи с атомной электростанции Курска? Кто не подаёт воду в Донецк?"
Num salão do Kremlin, Vladimir Putin, sorridente, segura na mão uma flute de cristal com espumante, provavelmente champagne. Está de pé, a falar de forma descontraída com um grupo de militares. Nesta declaração, 8 de dezembro, que ainda ouvimos aqui em fundo, Putin confirma que a Rússia está a bombardear infraestruturas de fornecimento de água e eletricidade ucranianas. O presidente russo pergunta: "Mas afinal, quem começou? Quem atingiu a ponte na Crimeia?" No final da curta declaração, o presidente russo brinda com os militares e deseja-lhes boa sorte. Nesta segunda-feira, a temperatura em Kiev andará entre os quatro e os sete graus negativos. O frio instalou-se em força, tanto na capital como no resto do país. Os ucranianos recorrem ao engenho para lidar com as baixas temperaturas. Não há fornecimento estável de energia elétrica e a água nem sempre corre nas torneiras. Vou conversar com a jornalista Ana Kotovic sobre a forma como Putin está a usar o frio como arma e como os ucranianos se estão a defender. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.
Olá, Ricardo.
Podemos dizer que há uma estratégia assumida pelo Kremlin de usar o frio como arma?
Claro que podemos. Podemos falar nisso quando há ataques sistemáticos em infraestruturas de água, de luz, que são tudo estruturas que são fundamentais para garantir que uma pessoa tem o básico pra sobreviver a um inverno como o de Kiev. E vamos lá ver, o inverno de Kiev não é como o português. Nós ainda não estamos sequer no inverno e já estão lá temperaturas negativas. Portanto, é óbvio que o inverno é uma arma, é óbvio que Putin vai usá-la como antes usou os cereais e como já usou a energia.
Mas Putin, naquele som que ouvimos no arranque deste episódio, dizia qualquer coisa como isto: "Foram os ucranianos que começaram". Ele fala na ponte da Crimeia, na central nuclear Kursk, diz até que os ucranianos não estão a fornecer água no Donetsk.
Uma das vantagens de seres um autocrata é que podes dizer o que queres.
Com uma flute de champagne na mão.
Exatamente. Agora, o que nós podemos dizer sobre isso? Ora bem, podemos andar pra trás até 24 de fevereiro e lembrarmo-nos o que aconteceu a 24 de fevereiro. Foram os russos que invadiram a Ucrânia sem terem sofrido qualquer tipo de provocação. Portanto, eu percebo que Putin está habituado a não ter qualquer tipo de oposição doméstica e que se calhar adorava que os ucranianos ficassem apenas na defensiva. Só que não é isso que está a acontecer. Rapidamente passaram para o contra-ataque e agora até já dizem que o solo russo não é sagrado.
E nesta altura, qual é o cenário na Ucrânia? Por exemplo, no que toca ao fornecimento de energia e água às casas, qual é o cenário?
Há duas situações diferentes e que são realmente muito distintas. Por um lado, temos os apagões controlados. E por quê? Porque com o cenário de guerra e com tudo o que vai sendo destruído, há um déficit de 30% na energia produzida no país. Isto obriga que o governo racione a eletricidade que é gasta. Mas estes apagões são apagões controlados, ou seja, tu sabes quando é que eles vão acontecer e podes te preparar pra eles.
Tem hora marcada.
Exatamente. Depois, temos os ataques dos russos inesperados, ou já não tão inesperados quanto isso, mas que tu nunca sabes exatamente onde é que a bomba, onde é que o míssil vai cair. E aí, o que pode acontecer? Pode haver uma parte fundamental dos sistemas que distribuem eletricidade que vão ao ar, os sistemas que distribuem água, e portanto, de repente, o que tu tens que fazer face a uma situação de emergência.
E isso é em todo o país, também em Kiev, ou há zonas...?
Neste momento, não há exceção. Não há nenhum ponto da Ucrânia que esteja completamente livre.
A salvo.
Exato, a salvo. O que está a acontecer nos apagões controlados, por exemplo, eles acontecem em todo o país. Agora, é óbvio que os sítios onde a batalha é mais intensa, a probabilidade de sofreres um ataque a uma infraestrutura destas também é maior. Mas, por exemplo, em Kiev, que é uma zona que até tem sido poupada, digamos assim, os apagões existem, a falta de água Acontece. Não tanto quanto noutros sítios, mas, por exemplo, o Vitali Klitschko, que é o autarca de Kiev, apostou na criação de vários postos de aquecimento para ajudar os moradores. São quase 500 que existem na cidade, mas como ele próprio diz, são muito poucos para uma cidade que tem uma população de 3,6 milhões de pessoas.
3,6 milhões de pessoas em Kiev.
É isso.
"Puncti di обогріва зараз ми підготували, які автономно працюють, майже 500, де є вода, генератори, засоби комунікації, зв'язок. Але для 3-мільйонного міста 500 пунктів — це ніщо. Тисячі, десятки тисяч."
Já voltamos à conversa com a jornalista Ana Kotovic. Vamos tentar perceber, por exemplo, como se cozinham ovos com velas.
Eu sou a Sónia Simões, sou jornalista do Observador e durante grande parte deste ano de 2022, com o jornalista João Francisco Gomes, dediquei meses a investigar casos de alegados abusos de menores por elementos da igreja. Este trabalho de investigação implica semanas de entrevistas, consulta de documentos e muitas viagens por todo o país. Isto só é possível graças aos assinantes do Observador. Assinar o Observador é fundamental para um jornalismo de qualidade.
Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Ana Kotovic. Ana, quem é-
Timofii Mylovanov
Este senhor, Timofii Mylovanov.
Ênfase só no "va".
Então vou tentar dizer o nome dele tão bem quanto tu disseste, Timofii Mylovanov.
Muito bem.
Obrigada. Foi ministro da Economia da Ucrânia. É atualmente presidente de uma faculdade da Escola de Economia de Kiev, além de ser professor associado da Universidade de Pittsburgh. Ele está atualmente em Kiev, onde regressou quatro dias antes da guerra e no Twitter tem publicado como é viver estes dias em Kiev com o frio e com os apagões. E eu falei com ele numa entrevista via Zoom.
E ele explicou-te como se lida, afinal, com o frio quando não há eletricidade. Podes dar-nos aqui alguns exemplos do engenho ucraniano?
E é mesmo engenho, Ricardo, porque de facto nós no dia a dia damos tanta coisa como certa que não pensamos no que estas pessoas estão a ter que fazer em Kiev, que não é o pior sítio.
Que é a capital.
Exato, não é o pior sítio da guerra. Então, a primeira coisa é teres uma bateria.
"We have this battery which is enough to heat the oven and maybe get some warm food and have teapot, but it's probably enough for several days."
A bateria é fundamental e é fundamental tê-la carregada quando há eletricidade para estar preparado para quando a eletricidade falha. Outro truque super importante é teres uma tenda, porque montas a tenda dentro de casa e isso faz com que ali dentro tu consigas conservar mais calor do que estar simplesmente sentado no teu sofá, como nós faríamos numa noite de inverno.
Armar uma tenda no meio da sala ou no quarto.
Exatamente. Aquilo que uma criança iria adorar fazer, com toda a certeza, eles fazem por uma questão de sobrevivência. E depois, dentro da tenda, ainda se pode montar uma pequena fogueira para garantir que o calor é maior.
Isso é muito perigoso, não é?
É muito perigoso, tem que ser controlado. Não pode ser feito de qualquer maneira e também não estamos a falar de fogueiras de lenha. Há uma série de utensílios de campismo e que é o que eles fazem, a que recorrem para se poderem aquecer. Outra coisa que fazem, neste caso, este casal comprou um cobertor elétrico.
"We bought electric blanket. This really is not, it doesn't require much energy. It's like 60 watts. It's like a light bulb, an old light bulb. And so we can, I don't know, run it forever. And you only need it for an hour or two to fall to sleep, you know, like sleep, and then you maintain it for several hours in the morning with the cold."
E o que eles fazem? Quando há eletricidade, põem o cobertor a carregar. Durante duas horas, aquilo fica espetacular, fica no máximo e depois, durante a noite, conseguem aquecer-se com o cobertor sem necessidade de voltar a ser carregado. Depois, ainda usam a bateria para a chaleira.
"And it can power up a little bit of water boiling, teapot and things like this. So it'll be okay."
E o que fazem quando há água? Acumulam água e acumulam não só água fria para questões de higiene, como água quente. Por quê? Porque isto permite-lhes fazer chá, fazer café e fazer uma série de refeições minimalistas, como papas de aveia, e poder comer algo quente.
Essa bateria é essencial porque, como explicaste, o fornecimento de eletricidade não é regular e também já percebemos que vão acumulando água. E também se cozinha com velas?
A sogra do Timofii faz exatamente isso e é muito engraçado ver no Facebook e no nosso especial no Observador também se pode ver essas imagens do forno da Valentina. Então como é que tu fazes? Tens que ter um Uma pequena lata ou uma pequena panela, realmente pequena, porque senão as velas não seriam suficientes. Portanto, tens uma pequena panela onde pões um pouquinho de água, por baixo pões três velas acesas.
Three candles apparently is enough to bake eggs or to fry eggs and to fry other things.
E aquelas velas vão aquecer a água. Isso é suficiente, tudo dentro do forno. Isso é suficiente para fritares um ovo, cozeres um ovo ou aqueceres algum tipo de comida.
E depois, Ana Kotovitz, há o problema da água e das canalizações, que é algo que não nos lembramos por aqui em terras mais quentes.
Sim, Ricardo. O que acontece é que sem aquecimento, a água gela nos canos. Portanto, aqui o problema não é propriamente a falta de água, é a falta de aquecimento.
Porque a água congela.
A água congela. E aqui tu podes imaginar o que acontece todas as vezes que tu te esqueces de uma cerveja no congelador. Tens todo o ar de fazer isso várias vezes.
Confesso, não é bonito. Já me aconteceu.
Pronto. Acho que já aconteceu a toda a gente. O que acontece? A cerveja ganha volume e parte o vidro. E acabou-se aquela cerveja. Com o cano, com a canalização, é exatamente a mesma coisa. A água gela nos canos, vai ganhar volume e vai dar cabo daqueles canos. Ora, se isto acontece em todas as casas, em todos os edifícios, tu passas a ter uma cidade que se torna inabitável, porque daqueles canos depende não só a água para tu beberes, como a água para tu fazeres tudo o que tem a ver com higiene. E para isso eles também têm um outro truque.
Qual é?
Vão às suas varandas, porque a maior parte dos prédios têm varandas abertas, onde há imensa neve. Neve e gelo. Levam essa neve ou esse gelo para dentro de casa, deixam que se transforme em água e depois usam para fazer as descargas na casa de banho e eventualmente para se lavarem, se assim for necessário.
Kiev может бути не струмлений, без водопостачання, теплопостачання, взагалі акапаліпсис може відбутись, як в страшних голлівудських фільмах, коли.
E Vitaly Klitschko, o presidente da Câmara de Kiev, fala precisamente nisso que estavas a falar, Ana, de um cenário de catástrofe, de apocalipse, como nos filmes de Hollywood, se deixar de ser possível enfrentar o frio. No fundo, o que a Ucrânia está a fazer? Já percebemos que há a distribuição de alguns aquecedores e de alguns pontos, mas o que está a ser feito por todo o país e em Kiev, por exemplo?
Um dos pontos fundamentais é exatamente a distribuição de geradores, porque os geradores, tal como as baterias, funcionam quando a eletricidade falha e, por exemplo, na central nuclear de Zaporizhzhia, são exatamente os geradores que garantem que a central não rebenta quando a eletricidade falha. Para além disso, há os tais centros de aquecimento, que já falámos, que existem em Kiev, mas existem um pouco por toda a Ucrânia e Zelenskyy, ao seu estilo, chamou-lhes postos de invencibilidade. Exatamente como quem diz, enquanto tivermos isto, somos invencíveis. Agora, isso pode não chegar, porque chegamos a um ponto em que nenhum humano consegue suportar determinadas temperaturas negativas. E aí o apelo que já foi feito, por exemplo, pelo presidente da Câmara de Kiev, é que quem puder, que saia da cidade e que vá para zonas onde consiga ter melhores garantias de que se irá conseguir aquecer. Agora, lá está, sendo isto um problema que se espalha por toda a Ucrânia, às tantas podes, de facto, não ter nenhum sítio onde consegues manter-te quente.
Mas a Ucrânia precisa de geradores, de cobertores. Podemos enviar esse tipo de ajuda?
O que o Tymofiy Mylovanov nos conta na sua entrevista é que esse tipo de donativos não são os mais eficazes, até por questões logísticas, e neste momento a logística mais importante é a da guerra.
Claro.
O que ele diz, no caso dele, da Escola de Economia de Kiev, o fundamental são as ajudas financeiras. Com €5, tu consegues garantir duas horas de aquecimento aos estudantes da faculdade.
E nesta entrevista, Ana, Tymofiy Mylovanov disse que os ucranianos não vão quebrar, mas como é que se sobrevive com temperaturas negativas e sem aquecimento, com uma tenda no meio da sala? Não dá para sobreviver muito tempo assim, não é?
You have to adjust your routine. And that's unpleasant. Adjusting routine is not pleasant, but once you've adjusted, it's okay.
Não dá para sobreviver muito tempo, mas no fundo o que o Mylovanov nos diz é que tu te adaptas. Que os ucranianos não estão a passar por nada que noutras alturas da história da humanidade outros homens não tenham passado também. E a lógica é o que um homem aguenta, outro homem pode aguentar. E aqui ele fala muito da adaptação, de mudares os teus hábitos. Fala, por exemplo, da questão da casa de banho, que era uma das coisas que lhe fazia muita confusão nos primeiros tempos. Nós estamos a falar de uma pessoa que foi ministro.
Que dá aulas nos Estados Unidos.
Exatamente. E que de repente tinha a casa de banho entupida. E isto era uma coisa que lhe fazia muita confusão. Mas tu adaptas-te e de repente estás a tirar o gelo da varanda para fazer descargas sem pensar duas vezes. E depois ele também fala de uma resiliência ucraniana e diz inclusivamente que se sente uma pessoa diferente e uma melhor pessoa desde que a guerra rebentou. E dá o exemplo de outras situações que aconteceram na história da humanidade, como por exemplo, no Vietname, que foi necessário viver em cavernas. Ele diz que se tivermos que viver em cavernas, iremos viver em cavernas, mas não vamos quebrar. Isto é apenas frio, nada mais do que frio e podemos sobreviver.
Obrigado, Ana.
Nada, Ricardo.
Ana Kotovitz é jornalista do Observador e tem acompanhado a guerra na Ucrânia desde o início. Com base nesta conversa com Tymofiy Mylovanov, escreveu um especial que vale a pena ler no Observador. É precisamente sobre a forma como os ucranianos estão a conseguir derrotar uma arma que Putin tem à sua mão e que é muito poderosa: o frio. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.