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Olá, seja bem-vindo à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e estou aqui com muita vontade de ouvir o Jorge Adolfo Marques. Ele é historiador, professor e mestre em Arqueologia, que nos vai falar da Batalha do Buçaco. Há um centro de interpretação ali em Mortágua, que fala desta altura das invasões francesas e tudo o que por lá se passou. Estamos a falar em 1810, nesta batalha. Olá, Jorge. Hoje vamos recuar 200 e tal anos, vamos falar 216 anos. Vamos então ouvir um pouquinho sobre essa história deste tempo. Bem-vindo.

Olá, João. De facto, hoje vamos aqui fazer uma incursão por um período de guerra que o território português e a península ibérica e toda a Europa viveu, o período napoleónico. Que nós e todos os que nos ouvem estudaram isso nas aulas de História e de Geografia, e lembram-se perfeitamente de ouvirmos dizer nas invasões francesas, nas três invasões francesas. Bom, ali em Mortágua, foi inaugurado em 2017, um centro de interpretação da Batalha do Buçaco, mas numa fase em que as tropas francesas passam ali pelo território de Mortágua. Portanto, é um centro de interpretação que está vocacionado para contar a história dessa importante batalha, mas que procura valorizar quando as tropas francesas atravessaram aquilo que é hoje o território do Conselho de Mortágua. Importa dizer que esse episódio ocorreu em 1810. Mas, em todo o caso, talvez para nós contextualizarmos esse acontecimento, e que é um acontecimento muito marcante na nossa história, na história contemporânea de Portugal, embora contemporânea, mas um pouco mais antigo, porque até ainda é numa fase anterior à Revolução Liberal de 1820. Estamos ali quase a entrar no período de grande modernidade do país, com a revolução de 1820. Mas importa dizer que tudo isto começa uns anos antes, em 1789, quando há a chamada Revolução Francesa, a tomada da Bastilha. Que todos os anos os franceses comemoram com grande pompa e circunstância, com um grande desfile militar ali pelas ruas de Paris. Portanto, tudo começa aí, em 1789. Depois, há um aspeto também que nós conhecemos, que é em 1793, o rei ainda tinha sido poupado, mas em 1793, o rei francês é guilhotinado, executado. Num período que ficou conhecido pelo Terror. Quando Luís XVI- Exatamente, com Robespierre, Marat, Saint-Just. Curiosamente, este período do Terror vai-se voltar também contra esses senhores, porque eles, embora sendo muito revolucionários, muito radicais, mas depois também vão ser trucidados pela própria revolução. A própria Maria Antonieta também foi executada nesse mesmo ano. Portanto, é um período bastante terrível da história de França, o período revolucionário, que continua em 1799, mas com um episódio que aqui se começa a ligar a Portugal, que é o facto de Napoleão se tornar num processo de revolucionário, conhecido pelo 18 do Brumário. 18 do Brumário, porque os revolucionários criaram um calendário com o nome de meses diferente e portanto, ocorreu ali no dia 9 de novembro de 1799, esse golpe de Estado, que levou ao ponto mais importante do comando de França, o tal Napoleão. Napoleão que tinha uma vontade muito grande de domínio da Europa, do continente europeu. E quem era o grande adversário? Eram os ingleses. E uma das desgraças que aconteceu poucos anos depois, foi a derrota em Trafalgar, perto de Cádiz, a chamada Batalha de Trafalgar. E os franceses queriam fazer o bloqueio do continente europeu aos negócios que a Inglaterra fazia. E com quem é que eles faziam muito bem? Era com Portugal. Portugal era um aliado. Então, depois deste enquadramento, em 1807, dá-se a primeira invasão. As tropas francesas Entram pela Beira Baixa, em 1807, invadem o território português, e é conhecida pela primeira invasão. E o que vai suceder é que o nosso rei, Dom João VI.

Ainda regente, na altura?

Ainda regente, exactamente. Teve que ir pro Brasil. Teve que fugir pro Brasil e deixou cá um conselho de regência. Mas Junot chegou a Lisboa, os barcos iam a sair, digamos assim.

Ficaram a ver navios.

Ficaram a ver navios, essa expressão, não sei se é exatamente daí, mas pelo menos é uma boa imagem cinematográfica, o Junot, ali do castelo a ver os barcos a partirem com o nosso futuro rei, que irá ser coroado poucos anos depois. Em 1809, temos a segunda invasão, protagonizada por Soult, que entra por Chaves. Entrou por norte, todos nós sabemos. Mas aquela que nos interessa mais é precisamente essa terceira, que se relaciona aqui com este centro de interpretação, que é quando Massena, em 1810, invade Portugal. E ele invade ali, a entrada das tropas é pela zona do Côa. Ocorre ali logo uma batalha, a Batalha do Côa, a 24 de julho de 1810. Depois há aquele episódio dramático da explosão do paiol da fortaleza de Almeida. E que explode e capitula. Os franceses tomam Almeida. Passa por Viseu, as tropas passam em Viseu em 18 de setembro, e em 27, portanto, aqui entre 18 e 27 de setembro, ocorre a tal Batalha do Buçaco, aqui perto de Mortágua, e depois as tropas que subsistem, francesas, continuam para sul, rumo a Coimbra, onde chegam em outubro, mas embatem contra o quê? Contra uma coisa que também toda a gente conhece, são as Linhas de Torres.

Linhas de Torres, exatamente.

As Linhas de Torres, que era uma fortaleza praticamente inexpugnável, diria eu, que foi sendo construída, e que marca, de alguma maneira, o fim desta tentativa de chegar à capital. Porque a grande questão era sempre a defesa da capital. Portanto, a 27 de setembro, ocorre esse conflito com as tropas francesas, na tal chamada Batalha do Buçaco, um exército constituído, um exército anglo-português, anglo-lusitano, digamos, vai segurar ali, vai obrigar a infligir uma pesada derrota militar nas encostas da Serra do Buçaco. Diga-se de passagem, uma serra maravilhosa e que todos devem visitar.

Exatamente. Linda.

Porque, de facto, é muito bonita, mas é ali naquele espaço, naquele território, que depois dessa tal invasão, o Marechal Massena vai saborear o que é a derrota. As tropas queriam ocupar o país, queriam ocupar a Península Ibérica, mas de facto, o general Wellesley, futuro Duque de Wellington, segurou ali as tropas, conseguiu dar-lhes ali uma luta sangrenta. E nós encontramos neste centro de interpretação da batalha, um filme, um vídeo que reconstitui, aliás, com imagens muito interessantes de teatralizações, que têm ocorrido em várias fortalezas da época, que viveram o assédio, o ataque das tropas francesas e que todos os anos recriam esses combates. Por exemplo, em Almeida.

Almeida fazem, sim.

Em Valença, enfim, noutros pontos e no próprio Buçaco, vestidos à época.

Exatamente. É sempre muito animado.

É sempre muito animado, dão uns tiros com os canhões, combatem, enfim, corpo a corpo, algumas vezes.

Fazem evocação, essas evocações históricas. É engraçado, os miúdos adoram.

Exatamente.

E aprendem.

Exatamente. Tem havido muito agora as recriações medievais.

Sim.

As feiras medievais.

As aldeias medievais.

Exatamente, estas recriações das invasões francesas, têm sido levadas muito a sério, com muito rigor, e nós encontramos, nesse centro de interpretação, precisamente, fardas, armas, objetos que estes homens utilizaram na Batalha do Buçaco nesse dia, e que marca um ponto importante da resistência das tropas anglo-portuguesas contra os invasores franceses, sendo que eles progrediram para sul, mas muito debilitados e com muitos mortos e muitos feridos.

Exatamente.

E, portanto, nós conseguimos encontrar ali toda esta história muito interessante, que remete para um período que vai marcar a viragem na história de Portugal. Evidentemente que depois, em 1812, ainda houve uma Dita quarta invasão, mas que não tem já nada a ver com aquelas três invasões anteriores e que marcam, de facto, um período muito importante da história de Portugal, com muitos pontos que se podem visitar, nomeadamente o Moinho de Sula, onde esteve o comando anglo-português. O Moinho de Sula está mesmo à beira da estrada nacional e ali mesmo quase a chegar ao Luso. E se os nossos ouvintes quiserem depois aprofundar um bocadinho mais toda esta história, vão ao Museu Militar do Bussaco.

Engraçado.

Que curiosamente foi criado em 1910. Criado não, foi inaugurado pelo nosso último rei, Dom Manuel II, no dia 27 de setembro.

Fazia um século sobre essa batalha.

No dia 27 de setembro de 1910, poucos dias antes da Revolução Republicana. Ele inaugurou este Museu Militar do Bussaco, que conta também com muitos objetos, muito interessante também para nós visitarmos.

Fica então mais esta sugestão muito importante, o Museu Militar do Bussaco e estas reconstituições que são feitas sempre em setembro, aqui nesta região. Vale muito a pena relembrar isto, é uma parte muito importante da nossa história, que nos marcou, que nos definiu também como nação. Uma altura muito controversa, e depois iriam começar as guerras civis e tudo. Foi o arranque de uma segunda fase muito importante do oitocentos da nossa história. Muito bem, Jorge Adolfo Marques, um grande abraço para ti. Marcamos encontro amanhã. E se não me engano, amanhã parece que vens de bicicleta, mas depois isso é outra conversa.

É verdade.

Um grande abraço. Até amanhã.

Um grande abraço.

Vá.

Obrigado.