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Olá, seja bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Jorge Adolfo Marques em Viseu. Eu, João Paulo Escudura, estou aqui em Lisboa só para ouvi-lo e para saber essas histórias que ele vai sempre trazendo e essas visitas que ele vai sempre propondo. Hoje arrancamos com esta semana, com uma ida a Santa Comba Dão. Olá, Jorge Adolfo Marques, bem-vindo. Trazemos então a um núcleo muito especial que há ali em Santa Comba.
Muito bem. Olá, João, e a todos que nos ouvem. Hoje, de facto, tenho aqui uma proposta para nós conversarmos também um bocadinho, que é o Núcleo Museológico de Artes e Ofícios que existe em Santa Comba Dão, na cidade de Santa Com Dão, bem ali no centrinho da cidade. Uma cidade jovem, uma jovem cidade, mas com muita história. E nesse núcleo museológico de artes e ofícios, foi inaugurado em 2023, no dia do município e que também é Dia Internacional dos Museus, 18 de maio. Foi uma escolha, seguramente.
Sim.
Como ele está instalado ali no centrinho, num antigo solar, a Casa dos Arcos, logo ali no Largo Alves Mateus, que era um antigo café. Chegou a ser um antigo café, o Café Arcada. As pessoas mais antigas que faziam ali a Estrada Nacional número dois. Agora também está muito em voga, porque há esse percurso que atravessa Portugal de norte a sul.
Exatamente.
Ou se preferirem, de sul a norte, a Estrada Nacional número dois, e passa mesmo ali a portinha desse solar, dessa Casa dos Arcos. É uma casa que se distingue muito bem. E o que é que ela reúne ali? Reúne um conjunto muito significativo de objetos, de imagens, de artes e ofícios que existiam. Alguns ainda continuam a existir no território do Conselho de Santa Comba Dão e também na região limítrofe. É um museu novo, como eu já tinha dito, que está muito ligado às ruralidades. Temos que ter em consideração que aquele território, primeiro que estamos ali na alma da região demarcada do Dão. Região demarcada vitívinícola do Dão, que foi criada em 1908, e que é a segunda região demarcada mais antiga de Portugal. Depois do Douro, é a região do Dão. Foi criada em 1908 e portanto, ali no sítio onde conflui o rio Dão e o Mondego, é ali a zona onde a foz do rio Dão entra no Mondego. Portanto, é um território marcadamente rural. Rural, mas também interessa dizer que muito marcado na sua história mais recente, no último século e meio, dois séculos, pela Linha da Beira Alta. Era a grande linha de ligação à Europa, diria eu.
Sim.
E portanto, é um território que também é atravessado pela Linha da Beira Alta e que tem este aspecto já de grande modernidade. Mas este museu designado de Núcleo Museológico de Artes e Ofícios, está muito vocacionado para as ruralidades. E ele está dividido numa série de áreas, uma dedicada aos cereais, com objetos como a tradicional charrua. Nós só vamos encontrar aqui objetos tradicionais, alguns, que o comum dos cidadãos nem sequer sabe, se eu designar apenas, nomear, não sabe para que aquilo serve.
Exatamente.
Se eu disser chapéu de palha, toda gente sabe o que é um chapéu de palha.
Mas se tu disseres roçadora, já eu não sei o que é.
Exatamente. Se eu disser uma foice-roçadora.
Ou um areadeiro.
Exatamente, ou um mangual.
Um cesto, também não sei.
Se eu disser um mangual, as pessoas não sabem o que é.
Não sabe, exato.
O mais próximo, se calhar, é a povoação Mangualde. Mas o mangual era utilizado para bater nos cereais que estão espalhados na eira, para eles saltarem da parte da planta em si.
Tirarem a casca.
Tirarem a casca.
Não sabia. Pois, e é de madeira?
E separar. Portanto, é batido com esse objeto.
Já sei o que é, como é o objeto. Engraçado.
É muito bonito, aliás, diga-se de passagem, e não é qualquer pessoa que era capaz de o manobrar. São, sobretudo, os homens que usavam este, porque exigia uma certa força.
O crivo para cereais, por exemplo, o crivo é uma espécie de peneira, não é?
É uma peneira, exatamente. Embora também estejam lá as peneiras para farinha. No fundo, porque há sempre impurezas e até, às vezes, pequenos grãos de areia que se misturam. E que portanto era preciso separar o trigo do joio.
Exato, cá está.
Um outro espaço bastante importante, e já o falámos logo no início, é a cultura da vinha. E então temos ali objetos como os pulverizadores, as enxofradeiras, uma bomba manual para transfega de vinho. Depois temos a tesoura de poda, isso já todos sabemos. Cabaças. As cabaças eram, no fundo, os trabalhadores agrícolas que utilizavam-na, precisamente quando levavam o alimento, o almoço ou a bucha para comer a determinadas horas, sobretudo a meio da manhã ou a meio da tarde, que transportava água ou vinho. Os cestos, as canastras para a vindima. Estes objetos que ali estão foram todos doados e emprestados, importa dizer, por pessoas que foram juntando. Curiosos, colecionadores Pessoas dali da região e particularmente do conselho, que perceberam que estas tradições estavam a perder, estavam a morrer. Ou que os objetos utilizados nestas práticas agrícolas, com o processo até de maquinização e de aplicação de outras técnicas mais modernas, muitos destes objetos tornavam-se obsoletos.
Exatamente.
E portanto, iam guardando estes objetos e hoje estão, sobretudo, em museus etnográficos.
Exatamente.
O espaço dedicado à adega tem cântaros para transporte de vinho, pipos, funis, garrafões. Nós hoje ainda falamos nos garrafões, mas são todos de plástico, não de vidro.
Este é de vidro.
E que eram depois empalhados. Hoje mesmo essa prática já se perdeu. Depois temos um outro espaço muito curioso, que é o da carpintaria. Nós hoje compramos nas grandes superfícies. Hoje muitas vezes transformam-nos a nós em "carpinteiros", entre aspas, porque levam as peças todas e depois leva aqui o manual para montar o armário.
Exatamente.
Na carpintaria temos uma série de objetos muito curiosos, desde os maços, as plainas, os raspadores, o goivete, tudo para trabalhar a madeira. A raspilha, que era para raspar o interior das aduelas dos pipos. As enxós. Um objeto muito interessante que é o varolete, que era para apertar a madeira na bancada.
Ok.
As plainas, os esquadros, os níveis, todos estes objetos da carpintaria. Depois temos um espaço também muito interessante que é o da cozinha. A cozinha tradicional, a cozinha beira. Aquela cozinha beira que nós só encontramos em escassas fotografias antigas, muito antigas. Uma cozinha em que o centro da cozinha é o fogo. Com os assadores, com as cachoeiras. É o lume. À volta do qual se contavam as histórias, as tradições. No fundo, era um ponto de reunião da família ali à volta da fogueira e onde estava também a trempe, onde se colocava, onde assentava todas as panelas em ferro, onde estava o lume.
Era aquele suporte de ferro.
O suporte com a panela onde se cozinhava a sopa, onde faziam esses pratos deliciosos que hoje muitos deles já não se cozinham, ou se cozinharam e já não estão neste contexto tão tradicional, tão antigo.
Sim.
Também potes, bilhas. Potes para várias coisas, nomeadamente para enchidos, que eram colocados em azeite, também para azeitonas, para mel. Portanto, todos estes alimentos que numa cozinha eram conservados ou no fumeiro, ou no azeite, ou no sal. E todas estas formas de conservar era porque não havia uma coisa muito simples, que era o frigorífico. Não havia o frigorífico, não havia a eletricidade em boa parte dessas casas e, portanto, essa casa tradicional recorria a estes processos. Processos que vêm desde da antiguidade e que se mantiveram na nossa cozinha tradicional da aldeia, das aldeias, da aldeia beirã, até um tempo muito recente. O ateliê do alfaiate. Bem, quem é que hoje vai a um alfaiate?
Exatamente, é muito raro. Está em extinção.
É uma profissão, eu diria, quase em vias de extinção. Em todo o caso, nós temos lá objetos doados pela alfaiataria Bisão, de um senhor que é Sérgio Bisão, que continua a exercer a sua profissão em Santa Comba Dão.
Então já há algumas décadas.
Exato. É um negócio de família que já tem mais de 100 anos.
Incrível.
Portanto, este senhor Sérgio Bisão, que é o proprietário da alfaiataria Bisão, já herdou esta profissão.
Do pai dele.
Exatamente. Do pai dele.
Se calhar do avô.
Exatamente.
Muito curioso.
E portanto, encontramos lá desde o manequim, ao espelho, ao banco, aos ferros de engomar.
O giz.
Em brasas. Ao giz. Depois temos máquinas de costura antigas.
Aquelas tesouras grandes, muito giras, dos alfaiates.
Está lá tudo. É muito bonito, é um espaço muito bonito. E também, para concluir esta nossa viagem aqui por este núcleo museológico, o ateliê do fotógrafo. O ateliê do fotógrafo, do senhor Carlos Ribeiro, que exerceu entre 1954 e 2016 a profissão e tem fotografias de toda a gente.
Sim.
De toda a gente da região onde ele exerceu essa profissão. A Foto Ribeiro, lá em Santa Comba Dão. E então encontramos lá máquinas fotográficas mais antigas, mais recentes, bandejas de revelação. Nós hoje com as nossas máquinas digitais e com os telemóveis, muitos dos jovens já não sabem o que é isto. E, portanto, vê ali como é que se processava o registo da imagem em papel. Nós hoje temos tudo em digital.
Pois é.
E portanto, é um espaço a visitar, um espaço aberto, gratuito, que se pode visitar todos os dias.
Algumas tradições que não morrem. Fica ali a memória. Estava a pensar nesta coisa muito gira, neste caso do Sérgio Bisão, o alfaiate, ou do Carlos Ribeiro como fotógrafo. É engraçado estas pessoas que depois doam, ou quem doou partes de cozinhas e instrumentos antigos.
Exatamente.
É muito engraçado doar isso a um núcleo ou a um museu.
É uma forma.
Um centro de memória como estes são, que há vários espalhados. É giro preservar isto, é muito curioso.
E é uma forma também das pessoas, porque estes senhores são vivos e outros que doaram outras peças são pessoas vivas, que sentem também que o seu trabalho de recolha está a ser valorizado. Isto é muito importante. Ou seja, é uma forma também de estimar esse trabalho que essas pessoas tiveram.
É uma belíssima ideia. Fica aqui então esta sugestão. Jorge Adolfo Marques, quero agradecer a tua presença, tua prestação aqui e esta tua crônica sobre o Núcleo Museológico de Artes e Ofícios de Santa Comba Dão. Fica aqui este convite, quando forem à cidade de Santa Comba Dão, para o visitarem sem falta. E nós marcamos encontro amanhã. Jorge, bem-hajas. Até amanhã. Um abraço.
Até amanhã.