Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Continuamos na Casa da Ribeira, em Viseu, acompanhados por Teresa Carreira, uma artista local, autodidata, que tem aqui uma exposição intitulada "Simplesmente Casinhas", que pode ser visitada até ao dia 07 de novembro. Mas, Teresa, quem cá vier pode surpreender-se de alguma forma com a sua mostra, porque não são simplesmente casinhas. Há outras coisas que a Teresa pinta e retrata, nomeadamente pessoas.

Exatamente. Os meus trabalhos não refletem o real. Eles nascem da conjugação de tinta, pregos enferrujados, não pregos novos, e de pequeninos pedaços de madeira, transformados sempre em casinhas. Esses bocadinhos de madeira, que são as tais casinhas, procuram colorir e substituir quase tudo. Imaginemos uma cara. Eu posso ter uma cara e um bocadinho do corpo. Posso ter um vestido e o início do vestido tem, por exemplo, botões. Os botões são casinhas. Como pode ser um cabelo, e o cabelo pode ter madeixas, que são casinhas.

Como é o caso, desculpe interromper, mas para dar também este cenário a quem nos ouve, que é o caso das que temos à nossa frente, são vários rostos. O que é que acontece? Aqui na exposição estão pendurados e têm uma particularidade muito interessante, que é: como são obras que a Teresa também pintou da parte de trás, a decisão para serem expostas aqui foi colocar um espelho atrás das obras, que permite à pessoa estar diante delas, mas conseguir ver o que está por trás. Conte-me um bocadinho dessa ideia.

Esta ideia não é minha, esta ideia foi do meu filho, de colocar um espelho, sabendo ele que eu tinha algumas peças, não são todas, porque para mim faz sentido, mas para as pessoas seria complicado colocar uma peça desta junto a um móvel, encostada a uma parede ou pendurada numa parede e terem que estar constantemente a ver a parte de trás. Portanto, algumas peças têm a parte frente e a parte de trás, daí a ideia do espelho para refletir o que está à frente e o que está atrás. Só queria explicar um pormenor. As caras destas bonecas, porque os trabalhos que no início contemplavam só casinhas colocadas estrategicamente e para dar uma determinada ideia que eu queria transmitir, passei também a fazer caras, porque também é uma das minhas grandes paixões. Então, as caras das bonecas procuram transmitir, através do recorte do olhar, uma doçura que cria apego e nos leva a imaginar alegria, tristeza, solidão, irritação.

Teresa, há pouco dava-me conta disso mesmo, que nem todas as caras são caras alegres. Há aqui essa diversidade de emoções.

Sim, de uma maneira geral, são caras mais tristes. Não sei se tem a ver com a minha maneira de ser ou não. Ou seja, nestas pinturas, e isto é para tudo, mas nas pinturas, eu só começo com esta ideia: eu vou pintar uma cara. Se o cabelo vai ser preto, com pregos, sem pregos, cabelo laranja, se vai ter muitas casinhas ou poucas, eu não sei. Eu vou fazendo, construindo. Quando tiver a expressão no olhar daquela boneca ou daquela cara, porque isto não retrata nada do real ou nada copiado da natureza, por exemplo, eu paro. Ou seja, para mim faz sentido e é ali que eu paro.

Eu aproveito essa sua deixa para falar de uma peça que me confessava que era uma das suas preferidas. Isto porque, para descrever, é um pedaço de madeira que ao centro tem dois centímetros que têm uma tonalidade diferente. E foi a partir dessa tonalidade diferente que a Teresa aproveitou. Agora é o nariz, começou a desenhar por ali e criou essa peça.

É, exatamente.

Aproveita, às vezes, essas particularidades para criar a partir delas.

Quase sempre. Todas as peças que estiverem partidas ou pecinhas de madeira. Me referir que esta madeira é como se fosse um, eu nem sei como é que isto se chama, é madeira de 1 ou 2 milímetros, não é tábuas de madeira. Portanto, o objetivo é criado para ilusionar. Ilusionar, aqui, não no sentido português de criar ilusão e enganar, mas no sentido espanhol, de criar uma expectativa feliz, ou seja, a pessoa entusiasmar-se a apreciar o trabalho que está ali.

Muito bem, vamos abandonar esta zona onde as obras estão penduradas, para olharmos também para outra parede, desta feita azul. Não é uma parede branca como a maioria, o que também depois faz com que as obras se sobressaiam mais. Falamos de seis quadros alinhados, mas também eles todos diferentes. Não sei se quer destacar algum para falarmos.

São seis telas, todas diferentes, porque como já foi referido, não faço uma única peça igual. Todas têm casinhas, poderão ter ou não os tais pregos enferrujados. Não vou destacar nenhum em especial, porque todos eles, como pode verificar, têm uma expressão no olhar que é cativante e é isso que os torna únicos e diferentes. Há uns que eu posso gostar mais, mas se penso que gosto mais daquilo por um pormenor, há outro que eu gosto mais por outro. Portanto, isto serão sempre peças individuais e todas elas Deram-me prazer em fazer.

E dá nome aos quadros? Intitula os quadros?

Não. Pontualmente, tenho aqui duas ou três telas que irei falar mais tarde, mas não dou. Não dou porque, como eu digo, o que me interessa é criar uma cumplicidade, uma ligação entre quem vê e a própria tela. Portanto, não tenho nenhum tema para cada um deles.

Muito bem. Sugiro, Teresa, terminarmos este episódio antes de anunciarmos também o que vamos falar no próximo, que será muito interessante. Sugiro falarmos aqui daquela peça que é uma que tem o corpo completo representado. Tem alguma particularidade?

Eu vou falar então de duas. Tenho aqui uma peça, que é a tal tábua de madeira finíssima. É um corpo inteiro, digamos, uma boneca, porque todas as caras têm um ar abonecado, em que os botões do vestido são casinhas e o cinto deste vestido serão pregos dispostos na horizontal, enferrujados. Esta tábua finíssima está assente sobre dois retângulos de madeira que formarão as pernas da boneca, em que os pés são telhados de casinhas e as pernas da boneca, relativamente mais grossas, que é para sustentar a tábua de madeira, têm janelas, ou seja, as pernas são as casinhas. No fundo, é substituir quase tudo o que eu posso por casinhas. Aproveito só para dizer que ao lado está uma peça que eu acho engraçada.

Em vez de um rosto, tem vários.

Tem vários rostos e só vão até à cintura. A parte de baixo forma uma saia com casinhas colocadas estrategicamente de modo a formar uma saia, depois dois troncos de madeira para formar as pernas e dois cubos de madeira para formar os pés.

Explicações da artista Teresa Carreira, que no próximo episódio nos vai dar a conhecer os materiais que utiliza neste seu processo de criação. Até lá.