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E a vida era um festim. Eu devia estar de folga, penso eu. Mas foi assim: "Vamos para Marrocos." Não levávamos nada, num carro velho. O Julião tinha um Toyota caído de podre. Lá fomos nós pra Marrocos, porque ele também dentro do espírito da época, ele que nunca foi de drogas, mas era: "Vamos comprar haxixe em Marrocos".
Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou o Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, pra tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.
Hoje vamos conversar com Helena Vasconcelos, que era assistente de bordo da TAP em 74, e também foi nesse ano que conheceu Julião Sarmento, grande artista plástico português e com quem viveu 14 anos e nos ajuda a dar uma ideia destes dois universos. Não é, Rui?
É, e introduz aqui a ideia de, pra além da revolução política que estava a ocorrer no país, haver também revoluções pessoais, isto é, as pessoas estarem a mudar. E temos com Helena Vasconcelos, esse testemunho de alguém que passou a fazer experiências de vida um pouco inspiradas até pela cultura radical francesa dos anos 60, isto é, tentar viver o que poderiam ter vivido num filme daqueles filmes franceses que viam da década de 1960, de Godard, Truffaut, etc.
Grandes mudanças nos costumes. Vamos então ouvir Helena Vasconcelos na primeira pessoa. Helena Vasconcelos, bem-vinda ao podcast "A Vida em Revolução". Em 1974 era hospedeira da TAP.
Assistente de bordo.
Assistente de bordo da TAP. E foi também o ano em que conheceu Julião Sarmento, com quem viveu depois durante 14 anos, creio. Ia perguntar como é que o 25 de Abril mudou a sua vida nos dias iniciais, logo a seguir, se calhar começando talvez pela profissão na TAP. Como é que se mudou na aviação logo naqueles primeiros dias?
Olá, boa tarde. Muito obrigada pelo convite. É muito estranho falar deste assunto novamente, agora que estou felizmente reformada. Felizmente, no sentido em que posso fazer outras coisas. Mas realmente, em 74 eu já estava na TAP há três anos. Entrei em 71, porque saí da faculdade de Letras, acabei o curso. Em 71, imaginem, Portugal era um sítio bastante fechado. Eu cresci em Moçambique, tinha uma ideia da vida completamente diferente. Portanto, voltando atrás, saí da faculdade e disse: "Não, não me apetece nada ser professora de crianças algures no Portugal profundo". E, por acaso, vi um anúncio da TAP, candidatei-me e entrei logo, fiz o curso, etc. Aqueles anos em que eu entrei pra TAP antes do 25 de Abril foram maravilhosos, porque a TAP era uma companhia bastante diferente. Havia outras, claro, mas a TAP tinha um grande diretor, que era o Vaz Pinto. Nós tínhamos tudo e mais alguma coisa: seguro de saúde, creche pras crianças, pra quem tinha filhos. Tínhamos viagens de graça, umas tantas.
Mas ainda apanhou aquela restrição, por exemplo, de as mulheres não poderem ter filhos?
Não, já não apanhei isso. Não, nem casar. Aliás, isso nem entrava. Mas, por acaso, também não tive filhos. Mas de qualquer das maneiras, essas restrições já não existiam e era realmente uma companhia fluorescente. Fluorescente é assim que se diz, não é?
É, sim.
E com as célebres carreiras da África.
Sim, que eram muito importantes.
Portanto, quando aconteceu a revolução, que eu adorei, porque sempre fui muito aguerrida nesses assuntos e achei que realmente as colônias não poderiam continuar como estavam. É curioso que o meu avô, que era juiz e era uma pessoa superconservadora, dizia sempre que era impossível manter as colônias da maneira como estavam. Quando acontece o 25 de Abril, há uma espécie de terremoto, de tsunami em tudo. Nós dizíamos que os aviões continuavam a voar porque havia um senhor lá num cubículozinho que fazia os horários, porque de resto não se sabia como é que as coisas iam acontecer. Mas continuamos.
Estava a trabalhar no dia 25 de abril?
25 de abril estava. Foi muito curioso, porque eu estava em Luanda e nós em Luanda fazíamos o que se chamava a naveta entre Luanda e Lourenço Marques, atual Maputo. E eu acordo de madrugada pra fazer o voo, vamos para Lourenço Marques e quando chegamos a Lourenço Marques dizem: "Já não podem voltar Ficam aqui porque houve uma revolução e o aeroporto de Lisboa e os outros aeroportos fecharam todos. Portanto, nós não tínhamos roupa para mudar nem nada, porque era uma ida e volta, e ficamos ali sem saber o que se estava a passar.
Em Lourenço Marques.
Em Lourenço Marques.
E como foram acompanhando, pela rádio?
Pela rádio, claro, era o que havia. Mas não se sabia nada. Nós ficamos tranquilamente à espera.
E lá, entre a população em Moçambique, viu alguma euforia? Não.
Nesse dia, não.
Uma grande incerteza e angústia ainda.
Não, porque as pessoas ainda não tinham conseguido digerir, nem sabiam bem o que estava a passar, nem quais as consequências. Era muito em cima do acontecimento. Como é que uma pessoa sabe o que vai acontecer? Quer dizer, é impossível.
Mas não sentiu nenhuma insegurança?
Não. Eu era muito nova e muito inconsciente, devo dizer.
É uma grande vantagem. Disse que tinha nascido em Moçambique, tinha família em Moçambique.
Não, não nasci em Moçambique, nasci em Lisboa.
Em Lisboa, mas tinha vivido.
Cresci em Moçambique.
Cresceu em Moçambique.
Cresci em Goa.
Cresceu em Goa e em Moçambique.
E em Moçambique. Meu pai também era magistrado e entrou para aquela coisa que se chama...
Portanto, não tinha família em Moçambique, já em 74.
O meu pai ainda estava lá.
Ainda lá estava.
Ainda estava. Aliás, foi ele que forneceu cuecas e meias aos comissários e aos comandantes, porque ninguém tinha roupa. De maneira que nós andamos de farda a dançar na discoteca do Hotel Plana, a fazer tempo.
A fazer tempo. E a festejar também, em certa medida, se calhar?
Sim, nós, claro, evidente, estávamos a ver, mas que coisa extraordinária, queremos ir para Lisboa.
E o regresso, como é que foi? Quando é que conseguiram voltar?
Já não me lembro bem o que aconteceu, mas só sei que estava cá no Primeiro de Maio e fui logo pra rua, claro.
Como é que foi essa manifestação?
Foi extraordinário, tenho fotografias. Foi o meu sindicato, o sindicato do pessoal da aviação civil, já havia o nosso sindicato, e fomos todos para a rua, para a manifestação, numa euforia tremenda.
Que mudanças é que notou em Lisboa, logo nesses primeiros dias?
Estava tudo maluco. Para dizer de uma forma brejeira.
Isso traduzia-se em quê?
Traduzia-se das pessoas estarem na rua e falarem todas umas com as outras, pensar que finalmente havia qualquer coisa a acontecer neste país tão mudo, rente e tão absolutamente desinteressante. E estávamos numa expectativa em relação ao que iria acontecer. Não fazíamos ideia nenhuma. Como devem calcular, e o Rui com certeza que sabe, nós tínhamos muito pouca formação política. A que eu tinha foi adquirida na faculdade, durante aquelas revoltas estudantis. Em 68 já eu estava na faculdade e acompanhávamos esses movimentos, bem como os movimentos nos Estados Unidos, dos direitos civis, etc. Era essa a nossa formação. E como eu comecei também na TAP a ir a Nova Iorque e aos Estados Unidos, que eram outros Estados Unidos, nessa altura, tinha acesso a livros, revistas, tudo isso.
Desses tempos da faculdade, ficou com, como diz, uma consciência política, mas não ficou com ligações políticas, organizações da oposição, nada disso.
Não, eu era contra o Estado, contra a forma como o país estava. Um dia tive a tentação de me inscrever no Partido Comunista Português, ainda fui à sede, que era ali ao pé do Campo Pequeno.
Rua António de Serpa.
Exatamente. Pensei: "Tenho que contribuir para esta nova..." Depois pensei: "Eu? Não." Eu nunca pertenci a nenhum partido. Não, nem pensar.
Mas conhecia muita gente que tinha abrido a uns e a outros. Como é que foi essa distribuição por partidos logo ao 25 de Abril?
Posso só contar uma coisa, que é um bocado espertata, mas eu enquanto estive na faculdade, vivia com os meus avós, porque os meus pais estavam ainda em África. E o meu avô era juiz conselheiro. E então, como a PID não entrava em casa do meu avô, porque a PID não entrava em casa dos magistrados, eu levava todo o material revolucionário para minha casa.
Guardava lá.
Guardava lá porque ali estava seguro. Não sei se isto é interessante.
Não, é muito interessante. Mas depois de 74, vê os seus amigos, seus colegas, de repente com opiniões políticas, com conversas políticas, que não tinham antes do 25 de Abril, ou tinham?
Na faculdade tínhamos. Todo aquele grupo ligado ao Lindley Cintra, ao professor Lindley Cintra. Tínhamos as associações de estudantes de Direito, eu ia a todas.
E qual era a sua impressão Da percentagem dos seus colegas que tinham essa atividade política, era muita gente? Era muita gente. Numa turma, vamos imaginar, era uma grande parte?
Uma grande parte, sim, era tudo de esquerda naquela altura, como se dizia. Agora já é difícil dizer o que é a esquerda e direita.
Naquela altura tinha a sensação que eram pessoas contra o regime, contra a guerra.
Contra a guerra colonial, evidente. Esse era um dos pontos mais importantes. E por isso, claro, todos os meus amigos. Mas discutíamos e conversávamos e não havia redes sociais, portanto, podíamos conversar frente a frente.
Entre estes seus amigos, aqueles que já faziam parte de organizações políticas, obviamente, clandestinas, antes de 64 não eram muitos. Ou já havia algum?
Se eram clandestinos, eu depois do 25 de Abril tive grandes surpresas, porque havia pessoas que eu achava que não tinham grande atividade a nível político e que de repente apareceram com lugares importantes nos partidos.
Exato. Como é que foi essa evolução?
O Jaime Gama, por exemplo, que foi meu contemporâneo e pessoas assim, que tínhamos aulas, conhecíamos, conversávamos.
Foi surpresa pra si, de repente vê-los nos partidos?
Não foi surpresa, até fiquei satisfeita. Eram pessoas que eu conhecia e por quem tinha consideração. O Vasco Graça Moura. Eram pessoas que eu sabia que eram contra o regime.
Apareceram nos partidos. Nos aviões transportava muitos estrangeiros que vinham a Portugal, falava com eles sobre a expectativa em relação a um país em revolução? Havia conversas dessas?
Não, nem por isso.
Portugueses a fugir da revolução, apanhou alguns? Não.
Isso, mas não iam nos aviões da TAP, iam nos aviões privados até Madrid. Conhecia alguns e tinha até grandes amigos de direita que foram para o Brasil e que eu depois encontrava no Rio ou em São Paulo.
Quando ia lá nos voos. Mas falava com eles durante esse período? Pessoas mais amarguradas ou preocupadas com o destino do país?
Aliás, nós ficamos no mesmo hotel que o presidente da República.
Américo Tomás.
Do Américo Tomás.
E via lá?
Claro.
Ia falar com ele?
Não, não ia falar com ele, mas ele lá estava com as filhas. Subiam e desciam no elevador conosco.
Mas cumprimentava você de dia, boa tarde.
Cumprimentamos sempre, nós como tripulantes sempre somos super bem educados, alguns. Claro, cumprimentava-se, ninguém fazia mal ao velhinho, coitadinho.
E tu lembras-te de alguma mudança significativa na aviação?
Completamente. Nunca sabíamos quando saíamos.
Tornou-se mais caótica a gestão da vossa vida também.
Completamente. E depois, por exemplo, de repente, havia passageiros que faziam motins a bordo porque queriam sair e o avião estava atrasado, e eles achavam que aquilo era como nos automóveis, ligar e andar.
Os passageiros tornaram-se mais irados.
Reivindicativos, muito reivindicativos. Mandavam em tudo: "Não gostamos disto, não queremos aquilo. Levamos isto. Isto é tudo nosso".
Sentiam que a revolução lhes permitia verbalizar essas queixas.
Sim, e tudo pertencia ao povo agora. Mas nesta altura começou a haver esta ideia de que os passageiros que entravam a bordo tinham todos os direitos e nós tínhamos que gerir isso de uma maneira mais ou menos dentro do possível.
E o tipo de pessoas que viajava, mudou ou eram os mesmos clientes de sempre?
Não, mudou completamente, tornou-se muito mais democrático, havia gente de todo o tipo. Mas principalmente isso. Logo a seguir ao 25 de Abril, o que aconteceu foi que todos os serviços estavam em polvorosa, havia reuniões dos vários sindicatos. Na TAP havia não sei quantos sindicatos, porque a TAP não é só os aviões.
Sim, os apoios.
A manutenção, que era fantástica, e é. E por isso havia sempre, como é que se chamava naquela altura?
As comissões de trabalhadores.
Comissões de trabalhadores.
Plenários.
Plenários na cantina, era todos os dias.
E os seus colegas, a maior parte aderiam, participavam, ou havia alguns que achavam que era talvez demais?
Descobri que alguns dos meus colegas eram do PCP, incluindo comandantes, incluindo pilotos, o que parecia estranho. Mas a ideia que se manteve, mesmo nesses tempos conturbados, é que tínhamos que fazer o nosso trabalho e acabou.
Se calhar já voltamos à aviação pra falar da ponte aérea, que é bastante mais tarde, mas seguindo aqui um fio cronológico, então em setembro, outubro de 74, conhece Julian Sarmento.
Conheço o Julian.
Pode nos contar como é que surgiu esse encontro e a primeira impressão que lhe causou, e também quem era Julian Sarmento na altura, que ainda não tinha, obviamente, o estatuto que veio a ter depois.
Não, mas era um rapaz fantástico, muito interessante, muito dinâmico, com uma criatividade enorme e cheio de De vontade de fazer tudo aquilo que até então não-- porque ele sempre quis ficar em Portugal, que é uma coisa estranha. Em vez de sair, ele dizia: "Eu quero trabalhar em Portugal, mas quero ser conhecido no mundo". Eu o conheço por um acaso. Ele tinha, nessa altura, um estúdio ali no Chiado. Além de ter a casa no Chiado, tinha um estúdio com o Martim Avilez, que depois foi pra Nova York. E era um grupo dali da Faculdade de Belas Artes, com quem eu comecei a dar-me e que foi muito importante pra mim, porque eram pessoas muito criativas, muito abertas, sempre com ideias de fazer coisas, de exposições, de debates, etc. E isso sempre me agradou muito.
Foi apresentada a um amigo comum.
Sim.
Um namorado, não sei.
Era um namorado meu, daqueles namorados que eu tinha na altura.
E qual foi a primeira impressão que causou? O que é que lhe chamou a atenção nele, em Julião Sarmento?
Fomos à casa dele. Chamou-me a atenção a tal energia dele, que ele era uma pessoa de uma energia extraordinária. E para além disso, a casa dele, que era ali no Chiado. E gostei muito da casa, porque era o contrário daquelas casas bafientas que existiam em Portugal.
Mobilia pesada.
Exato, aquelas coisas horríveis. Não, era um estúdio enorme com gatos, que eu adoro. E toda a gente aparecia e discutia, e víamos filmes na televisão pequenina, a preto e branco, e discutíamos o Antonioni, o Fellini, o Visconti, o Vittorio De Sica, o Nouveau Cinéma. Enfim, foi muito bom.
No seu livro, que lançou este ano, que se chama "O Que Está Por Vir", conta uma história extraordinária, que eu gostava de partilhar isso aqui com os nossos ouvintes, que conto que foi surpreendente também, que é que a primeira encontro ou a primeira saída que tem com ele, que foi pra ir a uma orgia em Cascais.
Isso.
Pode nos contar, primeiro, a naturalidade com que recebeu esse convite, digamos assim.
Não, nós achávamos que éramos muito, não é modernos, porque os modernos até são um bocado deprimentes. Não, mas que era a influência francesa, como eu conto no livro. E então o Julião acho que fez isso pra me impressionar ou pra ver qual seria a minha reação. E era esse nosso amigo comum que organizava orgias, as mais ingênuas, até.
Se calhar pode descrever o que encontrou quando chegou lá, quando chegaram à casa.
Não, leiam no livro, porque está lá no livro. Agora não vou descrever.
Não, é só para as pessoas também não pensarem.
Podem pensar o que quiserem. Leiam no livro, porque nós éramos muito ingênuos. Como eu digo, o Julião que fazia tudo com uma naturalidade enorme e que pra ele o sexo era a coisa mais normal do mundo. Quando lá chegamos, como eu conto no livro, ele sentou-se a um cantinho, todo vestido, chamou-me e disse: "Anda pra aqui pro pé de mim." Enquanto os outros todos andavam numa grande euforia.
E todos nus, não é?
Todos nus. Mas a nudez nessa altura não era considerada. Eu acho que nós somos muito mais puritanos agora. Bem, eu sou. Com a minha idade também era o que faltava aquilo a nós.
Vamos agora fazer uma pausa. Voltamos depois do intervalo. Voltamos agora para a segunda parte da nossa conversa com Helena Vasconcelos. Em relação à revolução, por exemplo, muitos daqueles que eram os clientes e aqueles que compravam quadros e compravam obras de arte, eram gente que nessa altura estava saindo do país ou estava assustada. Portanto, ele estava a perder clientes. Não havia preocupação com isso, quer dizer, do mercado da arte estar a ser afetado pela revolução de uma maneira negativa, digamos assim?
Isso é uma excelente pergunta e interessante, porque o boom das artes e das compras só acontece nos anos 80.
Pois.
Nessa altura, havia alguns colecionadores, pouquíssimos, mas que não compravam estas obras desta geração. E eu não me lembro de haver um único destes artistas, a não ser aqueles que estavam em França ou que estavam exilados, mas os que estavam em Portugal, eu não me lembro de um deles falar de preocupações de dinheiro. Eu não sei como é que nós vivíamos. Quer dizer, eu ganhava bem. Na altura ganhava, fazia o que me apetecia. Mas eu não sei como é que nós vivíamos. Nós vivíamos sem dinheiro. Quer dizer, não tínhamos essa preocupação de dinheiro, de juntar pra comprar uma casa. Naquele grupo, pelo menos.
Sim.
Eu acho que nenhum deles sentiu essa
Pressão.
Essa pressão. Ninguém estava a fazer para vender, estava a fazer para descobrir. Arte conceptual, por exemplo.
Mas viviam de quê?
Eu fazia grandes jantares lá na casa da Rua Nova do Almada.
Mas os artistas que não tinham a preocupação da venda, como é que eles se sustentavam? Até a compra de materiais para fazerem as imagens.
Sim. O Julião tinha uma tia maravilhosa, que foi uma das primeiras mulheres a formar-se na Faculdade de Ciências, que me mimava, era o único sobrinho. E depois do 25 de Abril, ele foi trabalhar para a Secretaria de Estado da Cultura. Logo a seguir, foi o Eduardo Prado Coelho que o convidou. E aquilo era uma alegria.
Como é que ele se deu nessa vida mais institucional, digamos assim, mais corredor do poder político?
Pois.
Como é que ele se adaptou a isso?
Eu acho que eles faziam o que lhes apetecia, organizavam exposições, convidavam artistas. Depois havia uma data de raparigas fantásticas, mulheres giríssimas, que o Eduardo claro que adorava mulheres bonitas, que convidava para a Secretaria de Estado, estavam sempre todos em grande alegria e a organizar exposições e a organizar encontros com artistas. A ideia era sempre trazer cá, e nessa altura havia um grande interesse por Portugal, trazer artistas do mundo inteiro para virem cá a Portugal expor as suas obras, etc. E a vida era um festim, como dizia. Haviam "tit-on festin".
No livro conta também uma história, muito breve, que podemos achar extraordinária, que o vosso relacionamento começa, de certa forma, com uma aventura inesperada para Marrocos. Uma coisa sem combinar nada, que vão no próprio dia, rumo a Marrocos.
Mas é tudo o espírito da época. Tem a ver com aquela ansionce.
Isso é tudo assim muito um filme francês dos anos 60. Era isso que estavam a viver.
Nós queríamos viver aquelas-
O filme do Godard.
Exato, também Godard.
Portanto, impulso.
Sim, impulso. Eu devia estar de folga, penso eu. Mas foi assim: "Vamos para Marrocos", não levávamos nada, num carro velho. O Julião tinha um Toyota caído de podre. Lá fomos nós para Marrocos, porque ele também dentro do espírito da época, ele que nunca foi de drogas, mas era: "Vamos comprar haxixe a Marrocos." É isso, é Abu do Sul.
Mas também da época. No fundo, era ir experimentando a liberdade nas suas vertentes várias.
Desculpe. Claro. Era nós incorporarmos o espírito do tempo e vivermos de acordo.
Mas, por exemplo, já agora que falou disso do haxixe, notava isso também nas outras pessoas com quem se relacionavam, uma maior vontade de experimentar também drogas?
Sim, claro.
Notou-se muito essa?
Sim.
E havia, por exemplo, aqui em Lisboa, era fácil comprar? Como é que era ao adquirir?
Nunca me meti.
Mas os outros, os seus amigos, arranjavam.
Claro que eles sim, e mota da TAP também. Mas eu nunca me meti numa noite escura a um canto qualquer. Não.
Mas e o tipo de drogas, já agora, o tipo de drogas daquilo que se observava nas festas ou nos vossos encontros sociais, era o haxixe, também começou a cocaína aí, não?
Cocaína acho que foi um pouco mais tarde. Eu experimentei uma vez cocaína com uns amigos meus e passei uma noite inteira a escrever a maior obra de literatura de todos os tempos e de manhã quando olhei para aquilo não era nada. E disse: "Não, não vale a pena." E eu com o haxixe ficava super enjoada.
Também havia a gentrazia de África, o yamba.
Ah, as liambas, exatamente.
Portanto, também já havia em África esses consumos.
Sim.
Que estavam a chegar à metrópole ou já cá estavam mesmo antes de 74, já havia esses hábitos?
Eu nunca estive muito por dentro dessas rotas de tráfico. Sabia, por exemplo, muito mais em relação à gente da companhia, que tinha muito mais facilidade, e nessa altura não havia o controle que havia hoje. Sabia que alguns consumiam, e não digo isto por nenhum moralismo especial, mas é porque eu não gostava, e o Julião também não, porque ficava super mal-disposto para isso. Nós éramos dois, depois quando eu conto da altura em que passávamos a vida em Madrid e em que aí então realmente os madrilenos, aquela gente consumia coca e heroína em barra.
Pois.
Nós tínhamos que nos aguentar porque não bebíamos. Bebíamos um copo. Não consumíamos. Era muito difícil.
Acompanhar, era difícil acompanhar os outros.
Exatamente.
Também há um aspeto que eu acho interessante, aliás, dois. Tem a ver, por um lado, a comparação entre o Julião na altura e aquilo que considerava que era o homem típico português. Se calhar pode elaborar um bocadinho sobre este contraste, de alguma forma?
Pois é, o Julião era muito especial. E aliás, os meus amigos e amigas dessa altura eram diferentes. Porque eu via, mesmo na minha família, os homens eram muito mais machistas. Ainda são, muitos deles. E o Julião não era nada. É difícil de descrever, porque ele gostava imenso de mulheres. Como eu digo no livro, ele tinha um interesse pelo que se passava na cabeça das mulheres, mas depois também era um ótimo companheiro com os amigos e gostava de sair e de estar com os amigos. Mas era um homem que era muito livre, no sentido em que não estava amordaçado por tradições ou por hábitos atávicos do macho português, entre aspas.
Está relacionado com isto. Conta que quando começaram o relacionamento, decidiram que iriam ter uma relação aberta. Isto também é uma novidade.
Isto também tem a ver com o ar do tempo.
Mas isto foi algo natural entre vocês, digamos assim. Depois foi conversado, foi combinado de alguma forma? Falou com amigas sobre isto? Não sei.
Não. Isso é uma coisa que hoje em dia as mulheres jovens contam tudo às amigas e estão sempre a discutir se devem. Eu vejo pelas minhas netas, mas nessa altura, não, eu é que resolvia. Falei com ele e foi assim uma coisa: "Pronto, estamos combinados, é assim."
Como é que foi essa conversa, então?
Já não me lembro, mas só sei que com a vida que eu tinha, que estava muitas vezes fora. Ele também era, como eu digo, uma pessoa extremamente livre. Mas de uma certa forma, e isto pode parecer absurdo, pelo fato de nós partirmos desse princípio, que cada um de nós era completamente livre para fazermos as nossas escolhas, isso de certa forma aproximou-nos imenso. E nós éramos muito agarrados um ao outro, em termos mentais. Isto pode parecer um bocado absurdo, mas é verdade.
E a revolução, para muita gente, trouxe separações, divórcios, afastamentos. No vosso caso, foi o encontro e depois a criação dessa união. Mas à sua volta, via as pessoas numa maior instabilidade ou a experimentar o que as pessoas estavam a fazer, os seus amigos, as pessoas que conhecia, estavam-se a separar, estavam-se a juntar, o que a revolução tinha proporcionado em termos de novos costumes?
Estou a tentar lembrar dos meus amigos, mas eu creio que o espírito que dominava as pessoas daquela geração, daquela época, daquela idade, era esse, era não haver muita ideia de nos comprometermos, de continuarmos a maneira como os nossos pais e os nossos avós tinham feito as suas vidas, de namorarem, casarem, terem filhos, terem uma casa. Nós não queríamos nada disso, mas não era de uma maneira agressiva. Pura e simplesmente, queríamos passar. Nós, como todas as pessoas numa idade muito jovem, achávamos que não era preciso pensar no futuro. E então eu sentia-me muito segura, porque eu tinha um trabalho que me agradava, que me proporcionava uma vida bastante solitária, porque é uma coisa que em geral não se diz, mas a vida de um tripulante é bastante solitária, porque não temos tempo para fazer amizades, estamos sempre a encontrar pessoas diferentes. E portanto, o Julião era a minha casa. Era aquela pessoa para onde eu voltava e que com ele e com o grupo de amigos, era essa a minha ilha de privilégio. Não sei se isto faz algum sentido.
E depois o facto de ter essa profissão acabou por ter influência também na carreira dele, porque ele passou a voar consigo.
Sim, eu podia levá-lo.
Tem uma prerrogativa.
Sim, podíamos levar os nossos companheiros. Era muito para a frente, era muito moderno.
Até mais do que isso.
Não era preciso sermos casados, podíamos levar a pessoa com quem vivíamos. Inscrevia o Julião nessa qualidade. Não sei como é que eles punham lá nos papéis, amante. Não sei. E ele passou a viajar comigo quando íamos a sítios que lhe interessavam ou se lhe apetecia apanhar sol, íamos até ao Rio, mas principalmente era Nova Iorque e Boston que interessava.
Isso também influenciou depois a obra dele.
Sim. E mais, ele também tinha direito a viagens, portanto, mesmo não indo comigo, ele podia comprar Comprar uma bilhete meia para ir a Londres, a Paris, a Munique, onde ele começou por ter um galerista fantástico. Portanto, ele que começou a fazer todos esses contactos que foram importantes.
A arte dele transformou-se nessa altura? Eu sei que a dada altura ele usava, no melhor sentido do termo, como objeto das obras de arte dele.
Usava mesmo. Eu gostava que ele me usasse.
Posava para ele, de certa forma.
Sim, mas não era só eu, eram as amigas dele e os amigos. Era a matéria que ele tinha mais perto. Não me importa nada ter sido usada por ele.
Não, mas às vezes pode ter uma conotação negativa. Eu só estava a dizer que não era todo esse-
Por isso é que eu disse isto, porque para mim não era negativo, era um elogio.
Era uma colaboração.
Uma vaidade. Sim, exatamente.
Era uma colaboração. Mas a arte dele mudou nesse tempo?
Muito. Como ele lia tudo e acompanhava os movimentos artísticos que iam acontecendo a nível mundial, desde a arte conceitual, que eu achei sempre uma grande maçada, mas que teve importância porque foram descobertas importantes. E foi uma clivagem na arte figurativa tradicional, etc. E o Julião acompanhou todas essas fases. Depois o expressionismo alemão, muito importante para ele também, a pop art americana. Enfim, ele foi experimentando, vendo como é que ele podia pôr a sua marca desses movimentos e das influências.
E em 74, 75, ele está a colaborar na Secretaria de Estado da Cultura, ele mesmo assim arranja tempo para trabalhar.
Sim, tínhamos tempo para tudo.
Havia tempo para tudo.
É estranho. Bem, houve uma altura em que ele disse: "Eu já não quero estar mais na Secretaria de Estado."
Sim? Quando é que isso-
Foi mais tarde.
Foi mais tarde.
Já estávamos no Estoril. Isso é que foi uma conversa que ele veio ter comigo e disse: "Não me apetece nada ser trabalhador da Secretaria de Estado da Cultura, ser um civil servant."
Sim, um funcionário.
Um funcionário público. "E o que tu achas? Achas que nos aguentamos com o teu ordenado?" Eu disse: "Claro que nos aguentamos com o meu ordenado."
Muito progressista também isso, não é?
Sim.
Em certo nível.
Pois. E eu disse: "Claro que nos aguentamos".
E ele estava farto da Secretaria de Estado da Cultura por causa da ideia da função pública ou por causa do ambiente que lá se vivia?
Não.
Ou da obrigatoriedade de um compromisso?
Não, e ter que ir trabalhar todos os dias. Ele queria estar livre para pintar, para desenhar. E ele disse: "Está descansada que eu vou ganhar dinheiro com a minha arte. Eu quero viver da minha arte e, portanto, não te preocupes." Eu disse: "Eu não me preocupo."
Isso só aconteceu mais tarde, não é?
Aconteceu.
Não foi logo ali em 74, 75.
Sim. Quando veio o sucesso. Sim, o sucesso eu já não estava com ele. É o que eu digo sempre, quando ele ficou realmente rico, já não estávamos juntos.
Às vezes acontece. Mas pelo menos estava no início quando ele começa. Mas portanto, tem esse grupo de amigos ligados às artes. Como é que eles vivem a política? Também estão em partidos, também se envolvem ou estão um bocado mais distantes?
São associados por partidos, até, de alguma forma? Sim, claro. Mas estou a tentar lembrar-me de alguém que tivesse militado num partido político nessa época. Mas eu acho que estava toda a gente a ver. Digo novamente, e isto é um clichê, mas era tudo gente de esquerda.
Pois.
Uma esquerda que ainda se estava a definir. No fim ao cabo, e o Rui sabe isso melhor do que ninguém. O que era ser de esquerda, quer dizer, era a tal liberdade de escolha, era a criatividade, era na escolha de parceiros, era não haver preconceitos contra uma quantidade de pessoas. Como eu digo, nós conhecíamos pessoas de todo o tipo. Isto parece uma utopia, mas é verdade. Não havia aquela ideia: "Ah, tu és queer, ou tu és isto, ou tu és aquilo." Aliás, fazíamos questão de aceitar. A única coisa que o Julião não suportava era as pessoas que não eram realmente criativas ou que não eram capazes de pensar e de fazer qualquer coisa. Eu não era grande coisa, mas ele pelo menos gostava de conversar comigo.
Mas o grupo que formavam parecia em sintonia com o tempo que se estava a viver em Portugal em 74, 75, a esse nível de aceitação de diferenças, de opções, que não eram propriamente aquelas que eram Digamos, as normas ou talvez estivesse a fazer uma revolução diferente, uma revolução mais pessoal do que propriamente a revolução política.
Tem toda a razão. Agora disse muito bem, eram revoluções pessoais. E olhando para trás, creio que vivíamos numa bolha muito específica e até, de certa maneira, elitista, não no sentido de nos acharmos superiores, de maneira nenhuma, mas um bocado afastados de todo esse lado caótico. A política não era o centro, era uma coisa que tinha a ver com, como eu disse, o ar do tempo, com as revoluções pessoais, o Rui disse muito bem, mas nunca ouvi ninguém dizer: "Vou para aquele partido político" ou "Vou militar". A única pessoa que nessa altura e que estava no nosso grupo era o meu irmão, que se tinha formado em arquitetura, portanto também estava ligado a todas estas pessoas que saíram das Belas Artes, e que foi fazer casas para o Sal com o Nuno Portas, que pessoa extraordinária. Havia gente que tomava esse tipo de iniciativas e ele andou por aqui por São Pedro do Estoril, pela Setúbal, e contava-nos o que fazia e toda aquela ideia muito interessante de construir casas.
Nesse grupo, à volta ou com o Julião Saramento, não há gente que esteja muito empenhada em participar naqueles grupos de ação cultural?
Sim, havia. O Ernesto de Sousa, por exemplo, era muito ativo. Ele tinha uma ação. Ele tinha estado em Paris e era uma pessoa com uma ação política muito importante. E havia reuniões e discussões, e havia artistas com ação, até mais velhos que nós, de certa maneira.
Os mais velhos estavam mais voltados para a revolução.
Exatamente. Pouco mais velhos, mas lembro-me toda aquela geração da Helena Almeida, do Arthur Rosa, tinham uma consciência política bem mais fortalecida do que a nossa propriamente dita. E as cooperativas de artistas tinham mais essa conotação de militância.
Dizes que é gente um pouco mais velha. Mais velha ou um pouco mais velha?
Um pouco mais velhas, que já estavam estabelecidos ou que tinham estado exilados.
O Julião dava-se com essas pessoas?
Dava-se.
Por exemplo, com a Helena Almeida.
Éramos muito amigos, e do Arthur Rosa.
Mas percebia-se que havia ali uma diferença de experiência, geracional.
Como se o Julião dissesse: "Ok, eu percebo-vos, e percebo que é preciso juntar as pessoas e fazer toda essa militância, mas desculpem que eu vou ali pintar e desenhar e depois já cá volto." Portanto, era mais aquela ideia de fazer e não tanto juntar as pessoas.
Sim, aquelas obras coletivas que vocês fizeram. Aquela coletiva de pintura, aqueles murais. O Julião não era propriamente para aí que estava.
Ele podia ir e gostava de ir, mas não era isso que o preocupava ou que lhe dava a força para criar. Ele estava disposto, pediam-lhe obras para leilões, para isto e para aquilo, ele dava sempre, mas não era essa a sua preocupação.
Como é que era uma exposição nesses anos? Lembra-se assim de alguma mudança significativa?
Alternativa Zero foi uma coisa fantástica.
E muito diferente do que teria sido antes do 25 de Abril.
Sim, claro.
Quais são as principais diferenças que saltam assim à vista? Na organização, na apresentação?
A desorganização era desorganizada felizmente, porque todos nós participávamos. E o Ernesto de Sousa era o grande guru da altura e punha toda a gente a fazer coisas. E depois havia a Bienal de Paris, etc. Começou a haver toda essa ideia das bienais, que era onde nos encontrávamos todos.
E a população começou a ficar mais desperta para a arte contemporânea nessa altura?
Não faço ideia. Acho que sim.
Notou-se alguma diferença na sociedade do público?
Gente nova, sim. Enchia as galerias, os espaços de exposição era uma festa
No grupo de artistas com quem estava mais e outros, havia alguma espécie de circuito boêmio no Bairro Alto, enfim, dos espaços que frequentavam com mais frequência.
Depois passamos a ter assento permanente no Frágil, com o Manuel Reis. Um pouco mais tarde.
Nessa altura, em 74, 75, já tinham alguns sítios onde iam ou como é que era?
A nossa casa era na Rua Nova do Almada, era em casa do José Guimarães, que vivia ali perto também. Era na Leitaria do Chiado.
Leitaria do Chiado.
Que era onde nos encontrávamos todos e onde eu conheci também escritores. O Luiz Pacheco, por exemplo, passava lá.
Sim, também.
O Luiz Pacheco.
Portanto, ainda havia aquela tradição desses cafés.
Dos cafés, da brasileira, de nos juntarmos, de irmos jantar à brasileira lá embaixo na cave.
Luiz Pacheco também já era uma figura muito fora.
Era. Eu uma vez fui com ele de autocarro para o Alentejo. As coisas que eu fazia não cabem na cabeça de ninguém.
Até ao que?
Ele tinha escrito um daqueles livros que eram edições dele.
Da Contraponto.
Sim. E resolveu convidar-me para ir com ele até Évora de autocarro, porque ele ia levar livros para Évora e então durante o caminho foi atirando os livros pela janela até chegarmos a Évora.
Distribuiu os livros.
Distribuiu, como era próprio da época. Em vez de os vender, atirava os livros pela janela por onde passávamos.
Mas sem estarem pessoas, para quem os apanhasse.
Para quem os apanhasse, claro. Este era o espírito.
Uma forma de distribuição bastante inusitada.
Não, fazia parte, era para toda a gente, era para o povo. Ele aparecia sempre, estava lá sempre na leitaria com os artistas e a ler os livros dele em voz alta. Era curioso.
E a política nessa altura era um grande tema de conversa?
Claro. Estávamos todos a pensar em como é que seriam as eleições, enfim, todas essas coisas.
E as eleições, foram todos votar, todos tiveram de fazer escolhas, mas foram todos.
Claro. E até hoje eu continuo.
Em 25 de abril de 75.
Exatamente. As primeiras eleições.
Foram assistir a comícios ou a sessões de campanha, não?
Eu não fui, mas muita gente foi. Eu não fui porque eu trabalhava imenso. Eu trabalhava muito. E depois de 75 foi a ponte aérea.
Então vamos à ponte aérea. Como é que foi convocada para participar nesse esforço?
Não éramos convocadas, marcavam-nos o voo e nós íamos.
Mas passou grande parte de 75 entre Luanda e Lisboa.
Sim. A ponte aérea durou poucos meses, mas parece uma eternidade. Porque o que nós fazíamos? Chamavam-nos para o voo, nós íamos. A princípio ficávamos em Luanda e como eu também conto no livro, já havia motins e guerra em Luanda. Nós ficávamos no Hotel Trópico e íamos ver a guerra para o último andar do Trópico.
Os disparos à noite.
É o que eu digo, nós éramos inconscientes, éramos todos muito novos.
Mas portanto sem medo nenhum. Era parte do cenário, de certa forma? Estavam ali no meio dos tiros.
Não éramos inconscientes no sentido de não percebermos o que se estava a passar. Sabíamos que aquilo ia dar muito mau resultado, que havia uma guerra civil a acontecer. E não havia nada para comer.
Estamos a falar agosto, setembro de 75. Eles no hotel, por exemplo, notavam-se essas restrições, não?
Claro. Na sala de jantar onde nós costumávamos ir comer, eles punham um letreiro na porta que dizia assim: "Não há nada para comer". E nós tínhamos que nos ir embora.
Como é que faziam?
Trazíamos do avião montes de comida, distribuíamos entre nós, enfim, arranjávamo-nos como podíamos. De repente, o hotel estava cheio de cubanos, porque houve aquela cooperação dos cubanos.
Com o MPLA.
Com o MPLA. Quando havia alguma coisa para comer, juntávamo-nos todos na sala de jantar, jantávamos todos juntos. Eles vinham com as suas Kalashnikovs ou lá o que é, penduradas. Pendurava nas costas da cadeira.
Com a arma nas costas da cadeira.
Era um bocado como a bolsa da senhora. E nós falávamos com eles e eu conto a história que havia sempre gente a ouvir as nossas conversas e a ver do que é que falávamos. E nós estávamos a contar anedotas, portanto, devia ser uma frustração. Mas depois também tivemos uma altura em que aquilo começou a piorar e nós ficávamos num outro hotel Onde houve uma noite em que houve disparos, balas, e nós tínhamos que estar sentados no chão porque podiam apanhar as janelas. E depois deixamos de ficar em Luanda, porque já não podíamos. Não havia nada. E era um problema com o combustível também. Então começamos a fazer ida e volta, Lisboa-Luanda.
Portanto, chegavam, traziam pessoas?
Havia muito pouca gente para lá. Nós estenderam o Jumbo 747, que tinha uma parte de cima, que antigamente era o bar dos senhores importantes e das senhoras importantes. Fizeram uma camarata lá com colchões no chão e nós revezávamos, dormíamos um bocadinho.
Lá em cima, na estação de cima. Na pista, portanto, aterrados na pista.
Quando havia combustível, tínhamos que esperar, aquilo era muito complicado. Depois enchíamos o avião e era tremendo aquilo. Punha toda a gente que podíamos, duas crianças num lugar, e depois trazíamos aquela gente toda.
Com que histórias é que se cruzou das pessoas que vinham? Das pessoas que encontrava.
Histórias horríveis. Histórias dramáticas, muito dramáticas. A ponte aérea, para mim, agora está muito na moda falar em traumas, mas marcou-me. Marcou-me e acho que marcou todos os tripulantes que fizeram.
As pessoas desabafavam sobre as experiências que tinham?
Desabafavam, choravam, vinham doentes. Lembro-me que trouxe um grupo enorme de pessoas que tinham vindo do Lobito num barco sem condições nenhumas para chegarem a Luanda para apanharem o avião. Vinham descalços, desidratados, as crianças. Um horror, e nós tínhamos que tentar com aquilo que tínhamos no avião. As pessoas doentes, aterrorizadas, pessoas de idade. Trouxe uma vez uma colônia de leprosos, coitados. Tinha que vir toda a gente. Não podíamos deixar ninguém para trás.
E como é que era o ambiente durante a viagem? As pessoas falavam, vocês davam-lhes algum apoio?
Dávamos todo o apoio que podíamos. Aquilo era quase um navio de loucos. Era gente do mais diverso, desde pessoas que viviam muito bem e que tinham ficado sem nada, até pessoas que viviam lá no interior e que tinham feito viagens.
Enormes para chegar a Luanda.
Para chegar a Luanda. E toda aquela gente, claro, as pessoas estavam tão esgotadas, tão exauridas. Eu acho que enlouqueciam um bocado também, com aquelas provações todas. E nós tentávamos, naquele espaço de tempo, tudo o que podíamos. E nunca é demais de se referir que não houve um único tripulante que se recusasse a fazer o que quer que seja. Isso eu acho que é a TAP ainda era uma grande companhia.
Diga-me só uma coisa, ainda sobre isso. Como é que era o embarque? Quem é que organizava as pessoas para embarcar lá?
Havia ainda o nosso pessoal de terra de Luanda, os que restavam. O aeroporto era um acampamento completo.
Ainda estavam os militares portugueses no aeroporto.
Ainda estavam os militares, claro. E como aquilo tudo foi organizado, a ponte aérea, eu acho que foi extraordinário, como é que em tão pouco tempo se conseguiu, no caos que estava o país, organizar aquela evacuação daquela gente toda.
Sim, percebo. E depois cá assistiu à chegada, precisamente, de tanta gente. Isto também mudou a cidade, mudou o país.
Completamente.
Como é que isso se notava?
Notava-se que eram pessoas que estavam habituadas a trabalhar em todas as condições. E vocês com certeza reconhecem a diferença que foi vir aquela gente toda, que abriu negócios.
Muitos a viver em hotéis.
Estiveram em hotéis, em condições muito precárias. E o aeroporto era também, não sei como é que hei de definir o aeroporto, era gente a chorar, as crianças. Enfim, tudo aquilo que nós vemos nos filmes passou-se.
Ali quando chegavam ao aeroporto de Lisboa, havia acolhimento, apoio para essas pessoas?
Havia aquelas organizações de apoio aos retornados. Havia pessoas que tinham família e que essas eram aquelas que eram logo encaminhadas. E a partir do momento em que aquelas pessoas chegavam, eu ia para casa, eu e os tripulantes íamos para casa dormir, porque daí a oito horas íamos outra vez.
Iam outra vez buscar. E esse Essa experiência é uma experiência que partilha com os seus amigos? Fala disso com os seus amigos nesses grupos que frequentava?
Não. Eu até naquela altura chegava a casa e o Julião e os meus amigos, em nossa casa vivia também uma grande amiga do Julião, a Noemi, que ainda é hoje uma grande amiga minha. Partilhava a casa. E eles, tanto um como outro, diziam: "Vai dormir, está sossegada, nós vamos." E eu depois saía outra vez e não falava disto.
Não falava.
Não conseguia falar.
Eles tiveram noção do impacto que isto estava a ter sobre si.
Claro.
Da violência emocional que transportava todos os dias.
Sim. Mas foi algo que me ensinou muito. Vejo isso como um tempo em que aprendi, e durante o meu tempo na TAP, a sentir pelas outras pessoas todas as preocupações, sem olhar a quem. Não quero estar a armar-me em alguém especial, mas é verdade que me ensinou muito, principalmente durante a ponte aérea, a ver como as pessoas sofrem e como é preciso minimizar-lhes, dentro do possível, o sofrimento, seja físico, seja psicológico, seja emocional. Era isso que eu tentava fazer. Eu e todos os outros.
E os tripulantes.
Sim, é verdade.
Então, olhando para trás para esses dois anos, a marca desse tempo é uma efervescência muito intensa também, mas também marcada por uma grande liberdade. Qual é o balanço que faz desse período tão vivo?
É isso, é viver intensamente. Isto também é um clichê, mas é viver intensamente cada momento. E talvez seja isso que ainda me aguenta aos 75 anos a estar bem com a vida, porque foi muito importante. Tive sempre várias épocas importantes na minha vida que vivi em pleno.
Helena Vaz de Sanches, muito importante este teu testemunho. Muito obrigado por nos ter dado este privilégio.
Ó, foi, Pedro, eu é que vos agradeço de estarem a ouvir estas histórias todas.
Muito interessante, fascinante mesmo.
Foi? Obrigada.
Muito obrigado.
Agradeço a todos aqui no Observador. Muito obrigada.
Chegamos assim ao fim deste episódio do programa "A Vida em Revolução". Voltamos na próxima semana.
Até para a semana.