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Quando me aproximei do aeroporto, aparece-me um jovem, uma criança quase, não teria mais que 12 anos, com uma Kalashnikov a mandar-me pôr-se à frente do carro, a mandar-me parar, levantar os braços. Eu ia à civil e esta criança: "Camarada, pra onde é que vai?" "Estou a ir dar uma voltinha, a volta até ao aeroporto, eu sou o comandante da polícia." "Não sei quem é o comandante da polícia. Levante os braços." Estava a ver que eu ficava ali, estava a olhar para os quatro cantos: "Não saia daqui." Eu estava já um bocado desesperado e a criança com o dedo no gatilho.

Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a Revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu quotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.

Hoje temos a primeira parte de uma conversa com o coronel Manuel Lopes. Ele era o comandante da polícia na Zambézia, em Quelimane, quando chegou o 25 de Abril. Rui, pontos altos desta conversa.

Ele comanda a polícia numa área que tinha estado poupada à guerra até praticamente 1974, que é o distrito da Zambézia, em Moçambique, com a capital em Quelimane. Depois conta-nos aquele processo de transição depois do 25 de Abril, os contactos com a FRELIMO, a coordenação com a FRELIMO pra manter a segurança e entre muitos episódios que nos conta, aquele seu encontro inesperado com um jovem guerrilheiro armado.

12 anos.

Que o confronta, lhe aponta a arma, em Quelimane, e em que o coronel Manuel Lopes tem de se lembrar rapidamente de todos os nomes dos comandantes da FRELIMO, que ele se lembra até se lembrar do nome daquele comandante que dizia algo a esse guerrilheiro pra pôr termo àquela situação que podia ter acabado mal.

Uma situação muito-

E que deu ideia ao comandante como as coisas facilmente podiam deixar de correr bem para passar a correr muito mal.

Uma conversa que inclui ainda senhas criadas depois do 25 de Abril na Rádio da Zambézia, spots sobre o 25 de Abril e muitas outras histórias fascinantes deste tempo do coronel em Moçambique. Vamos ouvir na primeira pessoa. Senhor Coronel Manuel Lopes, bem-vindo ao programa "Vida em Revolução".

Obrigado.

Em 1974, no dia 25 de abril, estava como comandante da polícia em Quelimane, na Zambézia, Moçambique. Queria que nos contasse como é que lhe chegaram as notícias da Revolução e que impactos notou à sua volta.

A notícia chegou pela rádio. Eu na altura estava como comandante da polícia na Zambézia e fui de imediato contactado pelo subgovernador, coronel Nascimento Garcia. Chamou-me logo ao gabinete. Ele estava extremamente triste. "Aconteceu isto. Os tempos vão ser difíceis." Ele apercebeu-se logo que a mudança iria ser enorme. Estabeleceu já um quadro, na perspetiva dele, muito sombria do que iria acontecer e eu manifestava uma expressão muito diferente da dele. Vi-o a pegar numa moldura do Salazar que tinha na secretária, de alguma forma nervoso, parece que estava a despedir-se da moldura. Enquanto que eu estava, de alguma forma, entusiasmado com a mudança que podia ocorrer. Ele foi um balde de água fria, não estava nas perspetivas dele, nem de outros que serviam o regime, que o 25 de Abril acontecesse.

E o governador manteve-se no cargo?

Não. No próprio dia apercebeu-se que o seu tempo de permanência com a moldura de Salazar à sua frente não duraria muito tempo. Tanto que num prazo muito curto, ele foi substituído, à medida que avançava o processo de transição.

Não teve de recorrer à força policial pra o remover, isso foi tudo pacífico?

Nada. Foi das situações mais pacíficas do mundo. Até porque a força da Revolução, as orientações que vinham de Lisboa eram extremamente significativas e marcavam definitivamente o rumo da mudança.

Não sentiu entre os mais velhos, os oficiais mais velhos, qualquer tentação de organizar resistência ao que se poderia passar?

Não, nesta situação particular, não. E não conheço em Moçambique que tenha havido qualquer contrariedade, qualquer oposição dos governos distritais de se opor à mudança.

E entre a população que vivia em Moçambique, que diferentes tipos de reações é que observou?

Digamos que o 25 de Abril foi uma surpresa, tanto mais que As pessoas também não tinham acesso às informações que eu, como comandante da Polícia, tinha. A população civil estava longe de imaginar o que iria acontecer. E no caso particular de Quelimane, imagine o que é uma sociedade que faz lembrar um pouco o ambiente brasileiro do carnaval, que é típico de Quelimane, num relacionamento muito são entre grupos, etnias, numa multiculturalidade e multirracialidade perfeitíssima. Não esqueçamos que Quelimane é a zona dos bons sinais, é aquela que, com essa designação, orientou os nossos navegadores para chegarem à Índia. E esta ideia da zona dos bons sinais, um lugar pacífico, amistoso, também eu encontrei lá. Eu cheguei a Quelimane no final de 73. Eu estou em Moçambique, primeiro numa comissão militar. E depois fui convidado para passar de uma comissão militar para uma comissão civil na polícia, o que me agradou imenso, porque iria ter o exercício de funções de uma forma mais livre, menos dependente de terceiros. E realmente, quando o comandante da polícia em Lourenço Marques, o coronel Tavares, me referiu que o destino era Quelimane, eu quase que deitei as mãos ao céu. Então por quê? Eu queria ter um filho. Queríamos ter um filho. Imaginamos logo, eu e a minha mulher, que o local ideal seria Quelimane.

Por que escolheu Quelimane, já agora?

É a zona dos bons sinais, o lugar dos bons sinais. Também em termos históricos, é um local que a história favorece. Se a história favoreceu os navegadores, também nos vai favorecer a nós.

E a Zambézia não estava muito tocada pela guerra, não é?

Ainda não. Daí que quando optamos por ir para Quelimane, foi neste sentido de também corresponder às nossas expectativas de nos realizarmos como casal. Quelimane, propriamente dito, praticamente não tinha militares. Daí que a grande força que existia em Quelimane era policial e era uma delegação da DGS. Eram uns policiais significativos.

Como é que eram as relações entre a polícia e a DGS na altura?

As relações eram cordiais.

Mas aproveitava informações da DGS?

É muito importante esse relacionamento e essa pergunta, porque a DGS funcionava, sobretudo para os militares, como um órgão de informação. Os militares não tinham forma de captar a informação, mas a DGS tinha os seus esquemas de obter essa informação. E vai dar-se depois um facto curioso. Logo após, passado pouco tempo do governador ter sido afastado das suas funções, também há uma orientação aqui de Portugal para desmobilizar a DGS. Desmobilizar a DGS em todo lado. O que em termos militares, em termos de segurança militar, foi trágico. Foi trágico porque esta desmobilização fez-se numa altura em que o cessar-fogo ainda não estava bem consolidado. O processo de pacificação ainda não ia no bom caminho. Os acordos de Lusaca ainda estavam muito longe. Por isso, qual foi a solução para a desmobilização da DGS em Quelimane? Foi recorrerem à polícia. Foi chamada Operação Zebra. A Operação Zebra consistiu na desmobilização da DGS.

Como é que se fez?

Em todo lado.

Foram presos os agentes? Como é que foi?

O que aconteceu? Limitei-me a ir à delegação, conhecíamo-nos todos, uns aos outros, e disse que estava ali, normalmente, sem armas. Iria, naturalmente, com a farda da polícia, e disse que ia cumprir a missão que me tinham incumbido de cancelar, de fechar a delegação da DGS em Quelimane e encaminhar todos os agentes para Mocuba. Tudo aquilo fechou em escassas horas.

Para Mocuba, por quê?

Mocuba era onde estavam os militares.

Onde estavam os militares.

Porque a nível militar, só o comando do batalhão. Zambézia tinha um comando do batalhão com sede em Mocuba, unidade em Milhannes e uma secçãozinha em Quelimane.

E quantos agentes eram e como é que eles reagiram a essa ordem?

Poucas dezenas. Poucas dezenas e algumas funcionárias. Tinham um edifício, não era nada de extraordinário.

Mas e continuaram a trabalhar depois do 25 de Abril?

Continuaram a trabalhar até à desmobilização, até à Operação Zebra.

Mas e passavam as informações a quem? Ou às ordens de quem? Já não havia PIDE em Portugal.

Passar alguma informação, enquanto tiveram Ao serviço, passava informações a nível militar, porque eles não tinham unidades para atuar.

Sobre esse fim da DGS, se se cruzou com a Comissão da Verdade, uma comissão do exército, que logo a seguir, nesses primeiros meses de junho, andou a fazer investigações sobre a PIDE em Moçambique. Que é uma investigação recente que saiu no público, com médicos e polícias médicos, tortura.

Em Quelimane.

Não se cruzou com nada? Delegados de saúde a fazerem interrogatórios e agressões.

A situação de guerrilha não provocou fraturas.

Não seria guerrilha. Seria, na verdade, da própria PIDE.

Sim, mas não havia essas atividades.

Não havia clivagens desse tipo.

Eles não fugiram? Não tiveram medo à luz do que tinha acontecido aqui?

Não, ali foi tudo pacífico. Eles entraram numa caminhonete, a caminho de Mocuba.

O que é que lhes aconteceu a seguir?

Cada um foi à sua vida. Cada um foi à sua vida.

Nenhum foi preso?

Foram todos mobilizados. Não tenho conhecimento de prisão.

Nem obrigados a vir pra metrópole, pra Lisboa?

Foi um período em que, há de haver diferenças de distrito pra distrito. No caso particular da Zambézia, a maior parte, até à independência de Moçambique, das pessoas mantiveram-se lá. Só muito poucos quadros é que regressaram antes da independência. Por quê? Porque as percepções que se foram consolidando foi de que a independência estava para chegar, mas não há de ser tudo tão mal como às vezes estão aí a dizer. Há muitas pessoas que estavam ligadas ao anterior regime, que ainda se mantiveram lá pra ver como é que as coisas iriam funcionar.

Portanto, ali não houve a agitação que houve em Lourenço Marques, em Quelimane.

Por isso, no caso particular da Zambézia, não se notaram movimentos de rebelião, de revolta contra o que era inexorável, que era a independência de Moçambique. À medida que nos aproximamos do dia 7 de setembro.

74.

74. Começou realmente a verificar-se algumas iniciativas de contrariar a situação.

Mesmo em Quelimane?

Mesmo em Quelimane.

E vinham de quem? Quem é que organizava?

Essas situações foram extremamente graves, por ordem de gravidade e importância, em Lourenço Marques, na província de Lourenço Marques, um pouco na Beira, e pouco mais. No caso de Quelimane, o que aconteceu? Também verifiquei que havia um grupo ligado ao PVI, Organização Política de Voluntários de Defesa Civil, que queria ir pra rua manifestar-se contra aquilo que era a perspetiva de independência. Eu quando vi aquilo, vou ter imediatamente com os responsáveis: "Vão imediatamente pra dentro de um pavilhão desportivo que existia no centro de Quelimane". E por que eu fui logo a correr com o carro ter com os responsáveis? Porque também soube que nas imediações de Quelimane, num campo de futebol, estava reunido já milhares de pessoas de Quelimane, naturalmente já mobilizadas por pessoas ligadas à FRELIMO para apoiarem o projeto da independência. Na véspera do dia 6, 7, eu andei de um lado pro outro, do pavilhão até ao campo de futebol, a manter os dois polos distanciados um do outro, porque se o grupo de brancos, um pequeno grupo, sai para a rua a manifestar-se, seria uma tragédia em Quelimane.

E eram só brancos esses que estavam contra os acordos?

Sim, mas era um grupo pequeno.

E eram colonos de há muito tempo?

Sim, eram pessoas que viviam há muito tempo em Quelimane e resolveram manifestar-se. Estiveram pra ali, berravam, cântico. A polícia cercava o local do pavilhão e estava nas imediações do campo de futebol. Mantivemos isto controlado e foi a situação mais grave por que passei nos tempos que lá estive.

Queria que contasse uma história que criou uma senha pro caso de ter que reunir o pessoal da polícia, em caso de emergência. O que era isto?

Como as nossas ligações rádio e outras não eram das melhores, mas a ligação ao emissor regional da Zambézia, em que eu era o responsável do MFA nesse emissor, e através de um bom relacionamento com os responsáveis do emissor, criamos uma senha Para que o pessoal, quando ouvisse determinada frase, regressasse de imediato ao posto de comando da polícia, porque eventualmente eu poderia ter a necessidade de transmitir alguma informação. De maneira que sempre que aparecesse lá o locutor a dizer, sem mais nem menos, no meio do programa, da música, etc.: "Mais vale perder um minuto na vida que a vida por um minuto." Era a senha para fazer reunir o pessoal no comando da polícia.

Isto depois da senha do 25 de Abril, na rádio em Lisboa, também foi usado lá. Teve que ser aplicado alguma vez? Não. Alguma vez teve de recorrer?

Não, foi só pra praticar.

Mas ficou a ser preciso.

Funcionou. Era só para saber se funcionava. Era para saber se a polícia, quando não estava em funções, ia a vida pra casa. Mas na área de Quelimane, portanto, era fácil de ouvir a rádio.

Mas não chegou a ser preciso. Em relação à polícia, os efetivos da polícia, como é que eram compostos? Os oficiais eram europeus, a maior parte dos policiais já eram africanos? Como é que era?

A polícia da Zambézia era constituída por uma parte chamada polícia móvel, de origem metropolitana. E havia a polícia moçambicana.

E como é que era o relacionamento entre todos?

Os quadros superiores da polícia eram de origem europeia. Os quadros a seguir, ainda tinham pouca influência no exercício do poder. Qual era o peso maior dentro da polícia? Eram as quase mil milícias que se encontravam distribuídas nos muitos postos policiais que cobriam o espaço da Zambézia.

Mas eram milícias, portanto, eram pessoas recrutadas localmente, com algum treino?

Eram milícias recrutadas localmente com algum treino.

Com armas?

Com um armamento muito simples, à base de G3, não, Mauser.

Mausers ainda, aquelas fingardas antigas.

Eram só Mauser. Estes postos policiais tinham um quadro da polícia mais habilitado pro exercício das funções. Depois o resto era milícias, com um grau de analfabetismo irritante. Portanto, só para manter a ordem, um relacionamento não muito difícil com a população.

Vamos agora fazer uma pausa. Voltamos depois do intervalo. Vamos ouvir a segunda parte da conversa com o coronel Manuel Lopes sobre o seu tempo como comandante da polícia no distrito de Zambézia, Moçambique. Basicamente, a força da polícia era uma força local. Enquadrada pelo metropolitano, mas local, já.

Pois, tanto assim que quando senti a necessidade, porque também senti essa necessidade, de dizer a Frelimo o que tinha acontecido no 25 de Abril, eu tive que recorrer à estrutura da polícia para levar água ao meu moinho.

E aos contactos que a polícia já tinha com a Frelimo, não é?

Como é que tudo isso aconteceu? Como eu estava em ligação com o Vítor Alves, ele disse-me: "Vê lá se garantes a pacificação da Zambézia, vais lá." E eu: "Sim, senhor, tenho que garantir a pacificação da Zambézia, mas de que forma?" Quando se dá o 25 de Abril, os militares, em Moçambique e noutros lados, interpretaram isso como o fim da guerra. E no caso particular da Zambézia, o que é que vai acontecer logo a seguir ao 25 de Abril? Passado pouco tempo, e com a entrada de um novo grupo da Frelimo, o que é que vai acontecer? Vai acontecer uma emboscada entre Milange e Mocuba, que matou cinco soldados, cinco militares. Cinco militares que iam na berlinda com as armas, em vez de irem com as armas em posição de fogo, iam com as armas-

Convincedos que a guerra já tinha acabado.

A guerra tivesse terminado. Imaginem a reação do comando de Mocuba: "Não pode ser, isso não pode acontecer. O que é que vamos fazer?" Eu tinha um relacionamento estreito com a autoridade militar de Mocuba. Senti a tragédia de uma situação destas. Em Milange podia estar a minha própria companhia, a companhia que esteve no Niassa, em vez de ter rodado para Cabo Delgado, podia ter rodado para a Zambézia, podia ter ido parar a Milange. Já estava numa zona de descanso quando teria uma emboscada deste tipo. E eu disse para mim: "Tenho que fazer qualquer coisa. As nossas perspectivas são tão grandes em relação ao futuro, será que a Frelimo tem essas mesmas perspectivas? Ou será que eles não sabem o que aconteceu em 25 de abril e que está escrito nos astros que isto vai mudar?" Eu, mal dito, mal feito. O que eu fiz? O que eu imaginei? Entrar em ação em ligação com a autoridade militar em Mucuba e em ligação com o governador do distrito, que ainda lá estava. O coronel Narcindo Garcia ainda lá estava. Vou ter que ir logo ao gabinete.

Mas ainda estava em funções?

Ainda não tinha sido apeado. Fui logo de imediato. "Senhor governador, sabe o que está a passar, pedia lhe que me deixasse utilizar o helicóptero do governo do distrito para ir contactar o comandante da Frelimo, que entrou na Zambézia." Ele ficou todo surpreendido. "Pode levar o helicóptero, mas eu não quero saber de nada. Fique descansado que isto fica só entre nós." E assim foi. Mandámos vir o helicóptero da Beira. Passado um dia ou dois, já estava em Quelimane para ir comigo, com o piloto, para uma zona entre Milange, Mucuba, Alto Benfica, o local chama-se Alto Benfica, para nos encontrarmos com este elemento da Frelimo que se encontra aqui na capa do livro "Conquistadores da Pátria". Fomos contactar com Araújo Bossane.

Já sabia o nome dele antes de o ir contactar? Sabia quem ele era?

Sabia, por quê? Sabia através do comandante da polícia de Alto Benfica. Eu sabia que o comandante da polícia de Alto Benfica era frelimista.

Portanto, era comandante da polícia, mas simpatizante da Frelimo.

Foi fácil. Eu, como comandante da polícia, tinha que saber que tipo de homens tinha. Havia uns mais frelimistas que outros.

Havia frelimistas na polícia.

Havia, nitídos. Eu sabia quem ele era, contactei-o.

Isso não condicionou a atuação dele, não?

Não.

Ele era disciplinado, digamos assim?

A estrutura policial era de tal forma eficaz que eu, do meu gabinete em Quelimane, tinha ligação rádio com todos os postos policiais. E neste caso, eu fiz a ligação com ele, que quando recebeu o meu telefonema, deve-se ter posto logo em sentido: "Meu comandante, diga o que é necessário fazer." "Sabes como é que está a situação por aí? Há de estar aí um comandante da Frelimo que acabou de entrar. Tens possibilidade de entrar em contato com ele?" "Sim, meu comandante." Passado pouco tempo: "Olha, a única condição é, eu quero ir aí ter com ele para dizer que aconteceu o 25 de abril em Portugal. A única condição que eu coloco é vamos os dois desarmados." "Está bem, meu comandante. Vou tratar disso." E numa questão de um dia, dois dias, efetuou-se este encontro. Esta fotografia em que estou ao lado de Araújo Bossane é o primeiro comício luso-moçambicano em que ouvimos dizer: "Abaixo o colonialismo, viva a solidariedade e amizade entre o povo português e o povo moçambicano."

Também discursou?

Foi o primeiro comício.

Também discursou?

Eu não discursei, limitei-me a dizer, a população começou a dizer: "Viva!" E eu, naturalmente, tinha que aplaudir a iniciativa do Araújo Bossane.

Como é que foi a sua ida para lá? Ia descansado ou ia um pouquinho apreensivo? Como é que foi? Porque ao fim ao cabo ia se encontrar com aquele que tinha sido o inimigo.

Ia, com certeza. Inicialmente, ia muito apreensivo. Tanto mais não tinha dito para onde ia a minha mulher. E à medida que voava na direção do destino, à frente tínhamos uma grande serra, a serra de Morrombala, no meio. No princípio, ainda pensei: "Será que com isto não vou ver o meu filho?" Ainda me passou tudo isso pela cabeça. Mas a melhor forma que eu senti para não pensar em coisas sombrias, foi pedir ao piloto para pilotar o helicóptero.

Ele deixou?

Já tinha estado a tentar tirar o brevê de avião, de helicóptero ainda não. Ele também devia estar um pouquinho nervoso, prestou-se também a ajudar-me e praticamente fui quase a pilotar o helicóptero de Quelimane até ao destino, até à serra da Morrombela, até chegar ao posto policial. E ia falando com ele, identificando as aldeias: "Sabe qual é aquela aldeia ali?" Eu conhecia tudo aquilo. Ia por viagem de Land Rover, mas nunca tinha feito uma viagem deste tipo. De maneira que fomos estridíssimos, completamente alheados do objetivo principal da missão. Quando aterrámos no centro do posto policial, desenvolveu-se-

Já lá estavam as pessoas da FRELIMO?

Estava lá um grupo da FRELIMO. Não estavam muitos, estavam dois ou três elementos da FRELIMO. Estava o Araújo Vossane e estavam mais dois. Um deles estava armado, estava com a Kalashnikov. Mas ele estava-

Estava armado, como tinha combinado.

Daí que, mal chego, o comandante do posto policial empertigado a fazer uma reverência. E o outro, claro, o comandante da FRELIMO ao lado dele.

Cumprimentaram-se?

Cumprimentámo-nos logo de imediato, como se já nos conhecêssemos há muito tempo. De maneira que o comandante do posto policial deve ter feito já alguma ação diplomática com o Araújo Vossane. Daí que logo a seguir sugeri para entrarmos para dentro do posto policial, para conversarmos. E então, que tipo de conversa tive com o Araújo Vossane? Pegar nos recortes de jornais, fotografias, e ir dizendo: "Ó camarada Araújo Vossane," sabia o nome também do comandante, "passa-se isto. Ocorreu isto em Portugal, aquilo que aconteceu, acha normal os militares que foram emboscados irem com as armas em cima da viatura?" "Realmente, estranhámos muito." "Pois, isto aconteceu por causa do 25 de Abril. O 25 de Abril criou condições para que o futuro de Moçambique tenha um destino diferente daquilo que tem hoje. Os nossos soldados têm uma perceção, com o 25 de Abril, de que a guerra terminou. E numa situação destas, a FRELIMO também, os elementos da FRELIMO, têm que considerar esta situação, porque estão a ocorrer negociações, vão demorar algum tempo, portanto, não vamos piorar a situação." "Não sabia." "Mas tem que transmitir isso ao seu chefe, onde é que está o seu chefe? Está perto?" "Está longe, o meu chefe está longe." "Vejam lá, camarada, quanto mais depressa, melhor, porque isto não é bom nem para os nossos militares, nem para o futuro de Moçambique. E veja, o futuro de Moçambique precisa de gente, precisa de polícia, que a polícia continue a funcionar. Sem polícia, o Estado moçambicano não se pode realizar." "O camarada diz bem, mas tenho que falar com o meu chefe." Ficou combinado que ele transmitisse este encontro, mais os recortes de jornais que eu levei para demonstrar o que tinha acontecido. E de facto, passados poucos dias, verifica-se um encontro entre os militares de Milange e os militares da FRELIMO. A seguir a esta viagem de helicóptero, começou a existir um relacionamento que permitiu que deixasse, nos meses seguintes, que houvesse qualquer problema de guerrilha e de resposta ao avanço da FRELIMO. Foi remediação.

Mas a sua perceção foi que eles estavam sem notícias, quer dizer, bastante isolados, aquele grupo da FRELIMO.

Era normal em termos de guerrilha.

Pois, entravam e ficavam isolados.

Mas mesmo entre a população também, mandou fazer uns spots para passarem lá na emissora regional da Zambézia, não é? Sobre o 25 de Abril. Isso era a maneira de fazer chegar às pessoas a novidade, não?

Sim, mas o spot, através da emissora regional da Zambézia, toda esta informação era acessível, a maior parte era muito acessível na zona de Quelimane. E depois, a maior parte da população não tinha rádio, não tinha transístor, nem pouco mais ou menos. Depois da entrada da FRELIMO na Zambézia, o que se verificou muito rapidamente? É que a FRELIMO não tinha quadros para ocupar o espaço. O espaço não só da Zambézia, como de todo o Moçambique. E então, o que aconteceu? Quando avançou o processo de transição, como sentiu necessidade de agregar jovens à sua estrutura de influência, aconteceu que encontrei numa viagem que eu fazia ao fim do dia até o aeroporto, e normalmente ia dar uma voltinha, e quando me aproximei do aeroporto, aparece-me um Um jovem, uma criança quase, não teria mais que 12 anos, à volta disso, com uma Kalashnikov a pôr-se à frente do carro, a mandar eu parar, levantar os braços. É claro que o carro não estava identificado como carro da polícia, eu ia à civil, e esta criança, ao fim e ao cabo era uma criança: "Camarada, pra onde é que vai?" "Estou indo dar uma voltinha, volta até o aeroporto, eu sou o comandante da polícia." "Não sei quem é o comandante da polícia. Levante os braços!" Estava a ver que eu ficava ali, estava a olhar para os quatro cantos: "Não saio daqui." Eu disse: "Sou o comandante da polícia, conheço o camarada governador Bonifácio Grojeta." "Não conheço, não sei quem é." Tinha que pensar no outro. "Será que conhece o camarada Maquival?" Que era o responsável político. Ia falando nos mais responsáveis da FRELIMO. "Conhece?" "Também não o conheço." Eu estava já um bocado desesperado e a criança com o dedo no gatilho, com a Kalashnikov. Parece que veio uma inspiração lá do céu, e eu disse: "Lembrei-me do Augusto Vossane. Conhece o camarada Augusto Vossane?" "Conheço o camarada Augusto Vossane, é o meu comandante! Pode passar." Já não fui pro aeroporto. Regressei de imediato a Quelimane, ter com o governador Bonifácio Grojeta.

Nessa altura, já era o governador da FRELIMO.

Governador da FRELIMO, e disse: "Camarada governador, isso não pode acontecer." "Ah, comandante." "Não pode acontecer, temos que ver isso com mais cuidado, etc."

Estava a aparecer pessoas armadas.

Estava demonstrado até à exaustão que algo que mais tarde me foi revelado pelo meu substituto, porque eu também tive um substituto depois no comando da polícia, o João Onuana, que me disse: "Que pena que o 25 de abril não tivesse começado mais tarde, não tivesse acontecido mais tarde." Então, por quê?

Porque não tinham ainda agentes.

Por aquilo que eu já tinha comentado, ainda não tinham quadros para avançar pro restante território. Portanto, o Augusto Vossane digamos que me salvou a vida, porque a criança estava nervosa. Não havia ali testemunhas, eu ficava ali, diriam que o fulano provocou o elemento da FRELIMO e pronto.

Já disse que deu apoio para a polícia continuar a funcionar, depois quando saiu, quer dizer, em junho de 75. Porque às vezes é essa a pergunta: como é que ficou, por exemplo, no caso da Zambézia, a administração, a polícia, quando começaram a sair os quadros europeus? Havia já quadros da FRELIMO suficientes para garantir essas funções de manutenção da ordem, da administração pública? Como é que deixou a situação em junho de 75?

Eu também não queria regressar a Portugal, e regressei numa altura em que eu aconselhei o camarada governador Bonifácio Grojeta: "Camarada governador, revolução por revolução, agora a prioridade é a revolução portuguesa, em especial porque tenho o meu filho à minha espera." Portanto, já tinha nascido em 17 de outubro. Por isso eu tenho que seguir o máximo perto da independência. Com a responsabilidade que eu tinha de ter criado as melhores relações no período em que lá me encontrei, tinha a responsabilidade de garantir também, de responder às expectativas da população civil. A população civil olhava pra polícia, pra forma como reagiu, como conduziu o processo de pacificação, o processo de transição, olhou de forma positiva. Não era de anime leve que eu ia regressar sem dar algumas garantias de que a situação iria manter-se o melhor possível. E no caso particular da Zambézia, foi garantido um ano de transição a seguir à independência. Tudo quanto era Polícia Móvel, nenhum elemento da Polícia Móvel saiu antes da independência. Manteve-se por contratos depois da independência. Mas mantiveram-se todos. Os principais postos policiais com graduados da Polícia Móvel mantiveram-se distribuídos pela Zambézia. As milícias também se mantiveram. Havia o problema de eventualmente haver choques com a entrada da FRELIMO e com este dispositivo policial. Como é que o problema foi resolvido? Através do tal relacionamento muito estreito entre a polícia e o governador da Zambézia. Mas tudo teria que passar pela aceitação dos dirigentes da FRELIMO em Maputo, em Lourenço Marques. Por isso, o governador sugeriu-me, para ir de avião a Lourenço Marques, falar com Armando Guebuza, na altura era o Ministro do Interior. Falar com ele e explicar da necessidade de manter o dispositivo policial e de tentar evitar que os dirigentes da FRELIMO, assim como já tinha acontecido através do meu relacionamento com Augusto Vassalo, que aquela orientação genérica que funcionou logo no princípio, continuasse a funcionar depois do período de transição, mesmo depois da independência. E o Armando Guebuza recebeu-me em Lourenço Marques. Cordialmente, concordou comigo e concordou ainda mais com a realização de uma escola de alistados da polícia em Quelimane. Escola de alistados com quadros da Polícia Móvel, com quadros de origem europeia, mas com quadros já também da FRELIMO a darem instrução aos novos alistados. Tem aí fotografia, inclusivamente, aqui no livro sobre esta original escola de alistados, e tem uma reprodução dos jornais sobre a forma como a própria imprensa via este tipo de relacionamento. É significativa a inauguração da Sala de Convívio 25 de Abril. Onde? No Comando da Polícia. Vejo que um dos meus sonhos, passados 50 anos, era reabrir esta Sala de Convívio 25 de Abril.

Em Quelimane.

Através da correspondência que desenvolvi já com o comandante da polícia em Quelimane, disse-me que fizeram obras de tal forma significativas que destruíram a placa. Eu já me ofereci, inclusivamente, para levar uma outra placa. Estou em negociações para isso.

Nessa altura, quando vem, a população europeia que estava em Quelimane ainda se manteve. Disse que ainda se tinha mantido, a maior parte.

A maior parte manteve-se. Por quê? Porque a principal razão é que nas outras zonas de Moçambique, sobretudo em Lourenço Marques, em Inebeira, os acontecimentos foram-

Houve conflitos graves.

Foram graves, mas no caso da Zambézia, Quelimane, não. Aquilo era um oásis.

Já tinha sido um oásis em 74 e continua a ser um oásis depois.

Continua. Até à independência, depois mais alguns tempos, a situação depois, eventualmente, começou a deteriorar-se.

Ainda teve um percalço grande com um subchefe, que foi detido depois de lhe oferecer um carro. Esta é uma história muito rocambolesca. O que é que fez?

Rocambolesca, mas teve um final feliz, podia não ter tido. Porque, percebe bem, em Mocuba, o subchefe Silvestre deve ter, com certeza, notabilizado pelo seu esforço de contrariar a guerrilha. De maneira que o subchefe Silvestre, a tempos, quando viu que o 25 de Abril avançava, saiu de Mocuba e pediu para ir para Lourenço Marques. E estava em Lourenço Marques quando viu que estava um carro novo, um Toyota, destinado ao comandante da polícia em Quelimane. Ele, que tinha tantos amigos na Zambézia, em Mocuba, por ali fora, era uma pessoa extremamente sociável, contacta-me, dizendo: "Ó meu comandante, estou aqui, tem aqui um carro, não se importa que eu vá levar?" "Não, quanto mais depressa, melhor, porque estou aqui com um que está a precisar de substituição." E então aparece-me, passado pouco tempo, um dia ou dois, o subchefe Silvestre com um Toyota azul no comando da polícia em Quelimane.

Um jipe.

Passadas poucas horas, SOS, ligação para mim: "Estou preso, meu comandante, venha me tirar." "Então, o que é que aconteceu?" "A FRELIMO quer ajustar contas comigo." "O quê? Não pode ser, onde é que está?" "Estou na casa do governador da Zambézia, Bonifácio." Já vou aí ter consigo. Foi lá ter com o governador: "Camarada governador, o subchefe Silvestre ou vai comigo ou amanhã vou-me embora. E acabou o tempo de coordenação, de atuação em conjunto aqui na Zambézia." "Ó camarada comandante, não, só estávamos aqui a interrogar." "Não, acabou." "Então ele que vá amanhã no primeiro avião já para Lourenço Marques." E terminou o episódio do subchefe Silvestre e do carro que eu quis entregar em primeira mão ao seu ex-comandante. Mas era a demonstração de quê? As feridas da guerra, as feridas do passado, a curto prazo viriam ao de cima. Com este episódio eu senti que o futuro não era tão auspicioso.

Saiu apreensivo em relação ao que ia lá acontecer.

Sim. Com este episódio, era perfeitamente visível que a procura dos responsáveis.

Vingança, ajustar contas.

Ajustar contas com o passado, era visível.

Mas antes de sair de Moçambique, ainda conheceu Samora Machel e garantiu-lhe a proteção e a passagem dele por Quelimane.

Nada mais.

Como é que foi esse episódio?

Estão a verificar que no contexto de Moçambique, não era fácil encontrar um distrito tão pacífico como na altura, como a Zambézia. Daí que a entrada de Samora Machel, do Rovuma, essa marcha, a entrada dele do Rovuma ao Maputo, tinha que ter como paragem obrigatória, precisamente, a Zambézia.

Em junho de 85.

Por isso, fui eu que garanti. Foi a polícia, exclusivamente a polícia moçambicana, a polícia portuguesa, a Polícia Móvel, e o comandante da polícia a recebê-lo no aeroporto. Sempre a acompanhá-lo até ao estádio, ao discurso, eu sempre atrás dele. Uma figura extremamente sociável e sempre a repetir muitos dos slogans que já tinha ouvido do Augusto Vossano.

Pois.

"Abaixo o colonialismo, viva a solidariedade entre o povo português e o povo moçambicano." Algumas vezes apontava para mim, que estava ali perto, para dizer que não tinha nada contra as autoridades portuguesas, num clima de cooperação que se perspetivava para o futuro, tudo como se já nos conhecêssemos há muito tempo.

Mas no seu caso, percebia que isso era apenas uma parte da realidade e que havia a possibilidade desses ajustes de contas. Isso vinha de onde? Vinha de baixo, vinha de cima?

Não era difícil. Quer no caso do Silvestre, do subchefe Silvestre, que eu tinha verificado, quer no caso do jovem que se me tinha atravessado à frente com uma Kalashnikov, eram demonstrações da fragilidade do poder.

Pois.

A própria não existência de estruturas policiais. Aquelas que existiam correspondiam às perspetivas de poder colonial do nosso governo, não eram as perspetivas do futuro. Mesmo em termos militares, a estrutura militar da FRELIMO não era visível, não cobriam o território.

A fragilidade do poder deles potenciava o uso da violência para compensar essa fragilidade.

Eventualmente, depois no futuro, talvez o poder fosse exercido com mais violência do que antes. Mas enquanto lá estivemos, no período de transição, havia garantias de que nada descambasse, que a situação não fosse muito diferente da anterior.

Voltamos para a semana para uma outra conversa com o coronel Manuel Lopes, desta vez sobre a revolução em Portugal.