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E o interesse pela droga e prostituição. Já tinha contactos com esse ambiente de alguma forma?
Eu quando fui para os Estados Unidos, eu disse ao meu médico, que foi sempre o doutor Rosa de Matos, professor Rosa de Matos. Ele disse: "Não, João, tu vais para a América, experimenta a droga, não tem problema nenhum, experimenta, mas atenção, marijuana não engoles, só fumas". Havia festas incríveis e eu realmente via as meninas mais lindas do mundo completamente dopadas e chegava-se uma hora e meia depois de nos conhecermos, estavam todas a dormir. É porque elas engolem fumo.
Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a Revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.
Hoje temos como convidado o jornalista João Alves da Costa, que trabalhava no Diário Popular em 1974, filho de Aurélio Marques, fundador do jornal A Bola. Rui, pontos altos aqui desta conversa.
O João Alves da Costa causou sensação em 1975 com uma série de reportagens sobre droga e prostituição em Lisboa, publicadas no Diário Popular, e depois em 1976 num livro, que também foi um grande sucesso. E com ele acho que vamos poder ter acesso a uma outra face da Revolução, que é a revolução dos costumes, o conflito entre gerações, muitas mudanças que estavam a acontecer ao mesmo tempo que as mudanças políticas.
Vamos então ouvir João Alves da Costa na primeira pessoa. João Alves da Costa, bem-vindo ao programa "A Vida em Revolução".
Eu é que agradeço.
Ia começar por lhe pedir para nos contar o dia 25 de abril, em que foi acordado de madrugada pela sua mãe.
Foi a minha mãe, acordou-me a mim, na Guerra Vinha Sofia, no Areeiro, a mim e acordou meu pai. Fomos requisitados, a minha mãe disse: "A tua revolução está a chegar. Vão já para o jornal". E fomos com uma alegria imensa.
João Alves da Costa trabalhava no Diário Popular.
No Diário Popular.
E o seu pai, Aurélio Marques, na Bola.
Meu pai também, e no Diário Popular também. Era do desporto. Meu pai coordenava o desporto no Diário Popular. E era o homem também fundador da Bola.
Como é que foi o percurso na cidade? Quer dizer, vieram como? Foram de carro?
Cada um veio no seu carro.
Por que não foram juntos? Se iam os dois para o mesmo sítio.
Não. Tenho impressão que nós nunca viajámos, viajámos juntos nas férias, mas para o trabalho, não.
Então chegaram lá e o que é que lhe disseram no Diário Popular?
No Diário Popular disseram: "João, vais para o Rallyes e vais para a Cavalaria 7, vais ver como é que a coisa está", porque eu andava na Cavalaria 7 nos cavalos.
Na equitação?
Na equitação.
Então nesse dia chegou lá e o que viu?
O que eu vi. No Rallyes, tinha sido tomado pelo tipo da Chaimite. Depois fui para a Cavalaria 7, que eu conhecia bem, da Ajuda, onde eu montava, estava fechada, portas fechadas. "Então vamos para a margem sul". Chegamos à outra margem e no alto da págs no momento, do Cristo Rei, estavam as Forças Aliadas, de modo que eu consegui ver as Forças Aliadas nos Olivais. Depois fui à Cavalaria 7, que eram os homens do Marcelo. Estava fechado. E depois fui para a margem sul.
Estavam as forças do MFA lá na-
Lá em cima
No Cristo Rei.
No Cristo Rei.
E entrou em contacto com eles?
Não.
Ou não, viu só?
Vi.
Mas pôde circular à vontade, ninguém lhe impediu.
Não, porque nós tínhamos crachás.
Identificado com a imprensa.
Exatamente. No Diário Popular, tive a sorte de conseguir num fim de semana fazer a droga e prostituição, fiz as verustas e fiz a fuga de Alcoentre.
Dos presos.
Dos presos de Alcoentre. Fui por um subterrâneo.
Em 75, não é?
E depois eu tinha os contactos que eles telefonavam para o jornal.
Os presos.
Os presos. Telefonavam. Quando tocava o telefone no Diário Popular, o chefe dizia: "Vê lá ou são gajas ou são presos".
Muito bem. Mas voltando ao dia 25 de abril, esteve no Cristo Rei, depois voltou para-
Voltei para a redação.
Para a redação.
No Diário Popular, o que é que mudou? Que mudanças é que notou?
Já não enviaram à censura, não é? Já não houve provas para a censura nesse dia.
Não havia, portanto as pessoas nem sabiam como é que haviam de escrever. Eu disse: "Epá, mas eu nunca escrevi com censura", porque escrevia em inglês Escrevia para mim alguns dos meus livros. Aquelas coisas de droga e prostituição da "American Carnage" já era escrito em inglês, ou em português, ou em francês, mas adaptado. Portanto, eu nunca tive problema de censura. Quando apareceu "Isto escreveu-se sem censura", para mim era uma coisa normal.
Certo. Mas então nesse dia, por exemplo, no Diário Popular, tiveram uma edição à tarde, era um vespertino, não era?
Era um vespertino.
Tiveram essa edição à tarde.
Nós tínhamos duas edições. Tínhamos uma para a província, que era às 12h30. E depois para a cidade, para Lisboa e arredores, que era às 14h30.
14h30.
De modo que...
E essa edição das 14h30, escreveu nessa edição das 14h30?
Escrevi.
E foi, portanto, a primeira sem censura circulada em Lisboa.
Sim.
E que trabalhos lhe deram depois do dia 25, em termos do jornal? O que teve que fazer? Reportagens?
Não, fiz as bruxas, fiz a droga, fiz os menores. "Vamos estar ao que vamos nós em Portugal", fui eu que fiz.
A droga e a prostituição, portanto, começa como reportagens para o Diário Popular. Quem é que teve a ideia do tema?
Fui eu.
E no jornal receberam bem?
Eu tinha uma equipa de chefes muito boa. Eu já tratava da parte do "Doutor recepção", que era o magazine dos jovens, aos sábados. Quando o doutor Manuel Pop estava de férias, eu fazia também a parte literária. O suplemento de quinta-feira, artes e letras, era eu que fazia. De modo que com os subchefes, o Abel Pereira e o doutor Jacinto Batista, era muito simples, porque eles gostavam muito da minha escrita. Viam que eu tinha uma maneira muito diferente de escrever. E, portanto, foi assim. Eu sei que na primeira reportagem da droga e prostituição em Lisboa, a confusão em Lisboa foi tanta na marcha, que eles cercaram o elevador da Glória, que era o antigo Cine.
Cercaram quando?
E colaram a minha reportagem nos andaimes.
Do efeito que teve quando saiu.
O Miranda Castelo, que é o chefe ocio, o fotógrafo do "Zero", me acompanhou sempre, faz os hospitais, faz a droga, a prostituição em Lisboa e depois nas bruxas, a segunda mulher portuguesa do Miranda Castelo convenceu a não trabalhar comigo, porque era perigoso, muito perigoso.
Qual era o perigo, exatamente? Era o perigo durante a reportagem ou das consequências depois de fazer essa reportagem?
Não, era antes, durante e depois. E quando saía, o perigo era esse.
Como é que lhe surgiu a ideia de aprofundar esse universo da droga e da prostituição? Como é que surgiu isso?
Porque eu tinha vindo, eu sabia na América que era simples. Portanto, o que eu faço com a droga-
Tinha estado na América em 71 e 72, não é? Veio com essa consciência.
Não, e como viajei bastante nos Estados Unidos, passei o Natal em Kansas City, passei o Carnaval em Minnesota, ou a tona, e depois passei a Páscoa no Novo México, numa quinta com cavalos e piscina, uma coisa fabulosa.
Mas então, na América confrontou-se com essa realidade, de alguma forma, da droga e da prostituição?
E comecei a ver os índios completamente desprezados. Eu fui a única pessoa que fui a uma escola, porque os índios não iam para a universidade, só iam índios para a universidade, só assim, já de teor olímpico. Até lá, não. Eu fui para uma escola, índios, e tirei uma fotografia com uma índia, pé na bola. Que na altura era: "Como é que é possível? Uma índia na bola". A sorrir e agarrada a mim. Quer dizer, isso foi uma coisa muito engraçada. Naqueles anos, 71, 72, era o tempo dos hippies, portanto aquilo era um tempo de grande mudança na América e grandes manifestações e de comunas. Hippies. A minha fraternidade que me dava as refeições, três refeições por dia, eu tinha direito a tudo. Havia a maior comuna hippie, eu estava em frente, era só atravessar a rua Que era ótimo.
Contou essas aventuras no "América em Carne Viva", não é?
Pois, contei sempre.
Saiu em Portugal no dia 24 de abril de 74.
24 de abril.
Portanto, mesmo em cima da Revolução. Teve lançamento? Não.
Ainda não tinha sido lançado o livro em Portugal. Eu vi na Bertrand da Cidade Universitária, onde eu estava na Faculdade de Letras, em Germânicas. De modo que vi o meu livro, com o meu nome, minha capa do "América em Carne Viva" lá. Eu disse: "Epa!" Por isso é que parte tinha sido escrita em inglês, já com os swings e as trocas de casais e tudo. E a dona Maria Joana, que era a Maria Juana, mas eu falava como Maria Joana. O "América em Carne Viva" esgotou-se logo 4 mil livros em 15 dias.
Naqueles primeiros 15 dias depois da Revolução.
Logo. A escrita é completamente nova. Aquilo, na altura, era brincar com as palavras.
Mas, portanto, a Revolução não lhe tirou leitores ao livro. O "América em Carne Viva", descrevendo aquela sua experiência nos Estados Unidos em 71 e 72.
Foi uma novidade literária e estilística, porque nunca ninguém tinha escrito uma coisa assim. E com temas aqueles: hippies, índios. Isso era impossível.
Drogas.
Drogas, meninas, namorar. E depois namorar com uma republicana num tempo do Vietnã. Isso era uma grande confusão. E a minha noiva loira do Nixon. Isso não pode ser. Do Nixon não pode ser eu. Era democrata, ela era conservadora. Quando eu cheguei a Lisboa de barco, que eu fui Fulbright, trouxe 100 quilos de peso e tive de vir de barco, porque no avião era muito caro. 100 quilos de livros, de bagagem. Então arranjaram um pacote, estreei num navio e cheguei a Lisboa e a minha mãe tinha duas cartas da Georgia. Combinamos como é que era o casamento e eu disse: "Espera aí". Entre o Nixon e depois acabei por casar com uma fanática de Salazar. Também não deu. Era muito rica. Claro que a primeira pessoa que eu vi foi a Georgia e disse: "Não pode ser, teremos de pensar. Lamento. Sexo é bom, mas não exageremos".
Não exageremos na mistura de ideologias. Vamos agora para intervalo e voltamos dentro de momentos. Voltamos agora para a segunda parte da conversa com João Alves da Costa. E o interesse pela droga e prostituição, já tinha contactos com esse ambiente de alguma forma?
Eu quando fui para os Estados Unidos, eu disse ao meu médico, o homem que me preparou para ir para os Estados Unidos e durante muitos anos foi sempre o professor Rosa Damásio. Ele disse: "Não, João, tu vais para a América e experimenta a droga, não tem problema nenhum, experimenta, mas atenção, marijuana não engoles, só fumas, não tem problemas". E eu via, realmente via. Ia para as festas, sexta-feira à noite havia festas, aquelas "spartus". Havia festas incríveis e eu realmente via as meninas mais lindas do mundo completamente dopadas e chegava-se uma hora e meia depois de nos conhecermos, estava tudo a dormir. Eu disse: "Isto não pode ser. O que é isto? O que é estas meninas tão lindas, as loiras, as mulatas, isso é uma confusão dos demônios. Está tudo a dormir. É porque elas engolem o fumo". Eu lembrei-me: "O Rosa Damásio está certo. Não engolir o fumo". Eu depois quando venho do câncer, venho também de barco com a mesma e estou duas semanas em Boston, em casa de um amigo, do Henry McCarthy, que depois veio ter comigo. Ao jantar, toda a gente na família fumava, passava passes de marijuana e passava toda a volta. Sim.
Quando chega a Lisboa, como era a situação das drogas em Lisboa?
Era uma coisa que não se devia falar. Eu disse assim: "Só tenho uma hipótese. Se vou fazer uma coisa de droga e prostituição, vou fazer com meninas mais novas, porque as meninas já metidas nas estupefacientes, isso também não me interessa". Portanto, fui para as escolas, às meninas de 15, 16, 17 anos. E foi uma coisa desde Lisboa, passando por colégios no Estoril e em Cascais, aquilo era o fim do mundo. Uma fotografia comigo e nós fazíamos reportagens que depois davam páginas no jornal. E lá no jornal: "Mas como é que é? Este gajo, o João, vem dar aulas sobre estupefacientes e sobre livros". Era uma coisa inacreditável. Em Cascais, com os miúdos todos e os professores também a receberem-nos. E o Miranda Castle até tirava as fotografias e dizia: "Este João".
E o que se consumia cá? Comprimidos, ervas?
Era erva. Era marijuana.
E vinha de onde? De onde é que eles obtinham isso?
Vinha de África.
Vinha de África?
E de Marrocos.
E de Marrocos.
De Marrocos. E eu sabia que muitos retornados vinham para Portugal com droga. Era ao salvo-conduto deles. Depois vendiam e tudo, era uma fonte de rendimento.
Mas também vinha de Marrocos.
Marrocos, sim.
Isso era o quê? Contrabando.
Contrabando.
Já havia traficantes.
Já havia. Aliás, eu passo a minha primeira lua de mel com uma portuguesa em Tânger. E aí eu passei a minha lua de mel numa praia com um tipo agarrado à droga. Eles iam buscar ao Atlas.
Às montanhas.
Às montanhas.
E aqui no seu livro diz que as drogas não começaram em 74, já vinha de 73, 72.
Já vinha.
Mas associa isso ainda aos liceus.
Às escolas.
Às escolas e a uma classe média. E aos militares.
E aos militares. E aos jovens. Os meninos e as meninas das escolas que terminavam as aulas e iam e drogavam-se.
E começaram-se a drogar. E aquilo era uma minoria ou era bastante gente?
Não, era bastante gente.
Também refere à altura que havia muito consumo de medicamentos obtidos nas farmácias, o Mandrax e o Polydex, não é?
Sim. Precisavam de receita.
Exatamente. Isto também estava espalhado genericamente pelos miúdos?
Pelos miúdos. Mas a erva, os miúdos começavam pela erva.
Começavam pela erva.
A erva, sim.
Até tinha reportagens em escolas onde escrevia o cheiro a marijuana dentro da sala.
E nos concertos de rock em Cascais, era uma coisa.
E fala daquele concerto do Genesis em março de 74.
Fui o primeiro a jantar com o Peter Gabriel. Fui eu buscá-lo ao aeroporto. Tenho a fotografia, ele com a filha, uma menina pequenina, uma bebê. E o Phil Collins, que era o baterista, nem lhe deram e depois jantámos em Cascais, no Hotel do Guincho, uma coisa medonha.
Medonha por quê? Por que foi medonho?
Porque era muito bom.
Então não é medonho.
Não, foi uma coisa ótima, superlativa. Um jantar em 74 no Hotel do Guincho era uma coisa com o Peter Gabriel. É porque nós éramos todos tocato lá e com os outros, com os outros eram os outros. Eu só falei com o Peter Gabriel. Não liguei aos outros.
Mas então se já havia droga antes do 25 de Abril, que efeito é que teve o 25 de Abril no consumo de droga em Lisboa?
Passou a ser permitido. Portanto, aquilo que era omisso antes, agora foi explícito.
Portanto, espalhou-se com maior velocidade.
Espalhou-se com maior velocidade.
Mas há também, depois, um esforço para conter o consumo.
Mas o governo não percebia, não sabia como. Mesmo os novos governantes não sabiam o que tinha acontecido. A primeira entrevista do Ministro da Educação, o Vítor Alves, a primeira entrevista que ele deu foi a mim.
Mas manifestavam preocupação com esta questão das drogas e da prostituição?
Não sabiam como é que estava de tal maneira enraizado, porque eram as meninas Telefonavam lá para a redação e havia chefes que diziam: "João, desliga o telefone da redação. Vê lá se hoje podemos..." E elas telefonavam e diziam assim: "Qual é o sítio em Lisboa onde nós podemos atacar sem o João Alves da Costa?" Quando eu ia, nós muitas vezes, no carro do "Diário Popular" e nos carros meu e do Vinagre Castelo, as meninas que fugiam à polícia entravam para o nosso carro.
Essas prostitutas?
As prostitutas. Nós andávamos por Lisboa e safámo-nos muito durante anos, meses e reportagens. "Olha, o Joãozinha". Aquilo era uma coisa.
Safaram muitas prostitutas de ser apanhadas pela polícia.
Ser apanhadas pela polícia. Eram meninas normais.
Esse é o outro lado do livro. O livro chama-se "Drogas e Prostituição em Lisboa", então é da prostituição, que é o outro lado do livro. E qual foi o impacto do 25 de Abril na prostituição em Lisboa? Ficou mais à vontade?
Assim como os jovens se puseram de paz, também se puseram a prostituir. Era uma alegria. Eu quando ia para as escolas, eram os pais a ligar-me: "O que é que eu hei de fazer à minha filha? Vou tentar levar a minha filha ao médico. Como é que é isto?" Os pais não conseguiam em casa aguentar aquelas ânsias de novidades. Não conseguiam em casa falar à mesa.
Fala no seu livro num conflito de gerações.
"Generation gap". Pois, conflito de gerações. E eles e elas telefonavam para mim, sejam presos, fugidos ou não, telefonavam para mim.
Mas multiplicou-se muito o número de mulheres a prostituirem-se na rua depois do 25 de Abril?
Sim, muito. As meninas.
Eram estudantes, muitas?
Eram estudantes. Eram quase todas estudantes. Eram jovens.
Para saciar o vício da droga, qual era a principal motivação?
Era uma maneira fácil de ganhar dinheiro. Havia meninas ali ao pé do Técnico com carros, na altura, dois lugares, carros abertos. Carros fabulosos. Essas meninas acabaram depois por se estragar na droga, porque aquelas meninas, a Sandra, a Tucha, eu tenho muitos nomes de meninas que, na altura, aquilo era uma coisa.
Mas ganhavam muito dinheiro, é isso?
Muito dinheiro. Havia meninas que ganhavam dois, três contos por dia.
Isso era o salário mensal de um trabalhador.
Não, nem chegava aí. Então, o "Diário Popular", enquanto o estagista, o senhor no "Diário Popular" era estagiário. Portanto, ganhava 1500$
Portanto, mais do que ganhava. Elas ganhavam por dia o que o senhor ganhava no "Diário Popular" mensalmente.
Elas ganhavam por dia o que eu ganhava por mês.
Tinha mulheres que ganhavam 60 contos por mês. Devia dar mais ou menos isso. Como é que foi fazer a reportagem jornalisticamente? No livro tem umas fotografias incríveis do João Alves da Costa sentado num sítio a entrevistar uma senhora.
Com elas, pois.
Uma senhora nua.
Nua.
Mas como é que fazia isto jornalisticamente? Para se aproximar delas, para ganhar a confiança delas?
Não, elas sabiam que comigo não havia problema. Não havia problema nisso. Comigo não há hipótese. Aquele quarto era uma pensão que as meninas conheciam e as donas das pensões também me conheciam. Bati-lhes umas portas e disse: "Postas abertas, toda a gente pode assistir, não tem problema nenhum". E o Vinagre Castelo tirava as fotografias e eu tomava notas.
E não ficavam inibidas?
Não, nós entre nós, não. Até porque havia depois cafés onde elas iam e nós muitas vezes, ainda recentemente, houve uma menina que me telefonou para cá a perguntar-me se eu me queria casar com ela. Eu disse: "Mas eu já sou casado".
Mas desse tempo?
Desse tempo, pois.
Portanto, algumas delas apaixonaram-se por si de alguma forma.
Mas era uma coisa que não podia ser, nem ter afetos, nem intimidades com ninguém, nem droga, nem prostituição, nada. Eu sempre estive à margem de tudo.
E em termos dos leitores do "Diário Popular", houve uma grande adesão a essas reportagens, um grande interesse?
Foi uma coisa louca.
Também era algo diferente, numa época em que se falava só de política, de ideologia, de repente haver uma abordagem diferente à realidade.
Como os chefes diziam: "João, mete drogas e putas. Por amor de Deus, vamos embora". Qual é o problema? Temos os governos cá e não há problemas, temos o João.
Ainda na prostituição. Chegou a falar com clientes? Não. Houve alguma mudança no tipo de clientes depois da Revolução?
Não, passou a ser um negócio, que antigamente era furtivo e agora passou a ser às claras com as meninas.
Mas alargou-se a outro público, de alguma forma? Não houve pessoas que foram experimentar depois da revolução e que antes não lhes ocorreria tal coisa?
Não. Abriu a margem dos jovens. Sempre com os jovens.
E os proxenetas, os chulos?
Os chulos.
Tinha contacto com eles?
Não.
Eles não estavam por perto quando o João Zacarias estava a fazer as reportagens na Frequência Modulada?
Nunca. Aliás, elas sabiam. Era uma confiança que eu tinha: "Não quero ninguém. Aqui sou eu e o fotógrafo. Não há problema". É que tinha o meu mistério daquilo tudo. As meninas e os evadidos telefonavam era para mim.
E havia esse episódio dos evadidos, porque teve também esses contactos com os antigos agentes da DGS que fugiram de Alcoentre. Contou essa história.
E foi muito giro, porque uma vez eles quiseram encontrar-se comigo, os evadidos de Alcoentre. O Batista Vasques quis ir comigo e foi comigo para ouvir e disse: "Eu não acredito que os evadidos de Alcoentre não são apanhados pela polícia, vêm lanchar e jantar com o João e estão numa mesa no restaurante". Estamos todos juntos.
O que eles lhe queriam dizer?
Eles sabiam que eu não os denunciava. Nunca denunciei ninguém. De modo que sempre mantive uma feição muito aberta com eles e muito liberal. "Vocês fugiram? Ok, quando fugiram? Como é que fugiram? Quando é que começaram a fugir?" E eles, quando eu ia lá, mostravam-me tudo, explicavam-me tudo. Era assim. Aliás, a primeira vez, na véspera da fuga, eu vou com o Jaime Furtado, que é o pai da Catarina Furtado.
O Joaquim Furtado.
O Joaquim Furtado, desculpa. O Joaquim Furtado, somos nós os dois que estamos em Alcoentre antes da fuga.
Já sabiam, portanto, tinham tido—
Não, não sabíamos.
Foi por acaso.
Foi por acaso. Foi mera coincidência, eu e o Joaquim. Isto foi sempre uma coisa que nós: "Ok, tu fazes para a RTP, eu faço para o Popular, não há problema nenhum".
Certo.
Não tinha problema nenhum.
Como é que eles ficaram com o seu contacto, os evadidos?
Nós trocávamos contactos. Havia contactos: "Telefona-me para aqui", para lá, para a bola. Eles sabiam.
Conhecia muita gente neste universo da pequena criminalidade.
Da pequena criminalidade.
Isso também teve mudanças neste período? Reinventaram-se, não sei, os carteiristas encontraram novos métodos que vinham de fora, houve maiores experiências deste género?
Não, porque havia uma parte, a chamada prática ilegal, em que eles faziam: "Vocês têm os vossos golpes, agora não me metam em mim nada disso e eu não me meto com vocês. Vocês comigo estão à vontade, já sabem como é que é, mas não me metam o pé em sei lá onde".
Mas e no Diário Popular? Não era, se calhar, um jornal mais permeável a esta questão da turbulência política? Foram meses muito intensos, à medida que havia cada golpe. No 11 de Março, enfim.
O Diário Popular, o problema é que virou demasiado à esquerda.
Como é que percebeu isso?
Eu percebi porque entre os meus colegas, eu sabia, porque havia elementos que, por exemplo, iam a São Tomé e Príncipe. E eu dizia: "João, agora a próxima vez vais tu a São Tomé e Príncipe, porque temos lá gajas, temos lá droga, temos tudo o que tu gostas, não tem problema nenhum". Nunca fui a São Tomé.
Deixe-me perguntar-lhe uma coisa. Ainda em 75, fala no seu livro de um centro de estudos da juventude, que imagino organizado no governo para seguir os problemas da droga. Teve contacto com isso? Falaram consigo?
Não. As pessoas em Portugal não sabiam o que estava a acontecer. Não percebiam como é que a coisa tinha mudado, porque não foi só a censura e a liberdade. Não, é que eles não controlavam os filhos em casa. Ao jantar, nas refeições, eles não controlavam. Isso foi uma das coisas, por exemplo, que eu tive com o Vítor Alves, foi: "João, tu és a única pessoa que aguentas os dois lados, não há hipótese de ninguém. Elas não falam conosco, recusam, gozam conosco, chamam-nos de fascistas".
Mesmo os revolucionários tinham grande problema em ir à gente mais nova, não é?
Não, porque era só a nível de partidos. E ao nível de partidos, portanto, a nível de PCP, a nível com os Abrantes e Moura, eu disse: "Não me metam cá com as meninas dos hueques, as meninas das fraturas comunistas, eu não tenho nada a ver com isso". Toco com elas, toco para elas, toco tudo, damos amor à valsa de burguesia e o "Olha a Bola, Manel", foi das coisas mais giras. Nós depois fizemos digressões em Coimbra, no Porto, foi fantástico. Fui pra casa de camaradas do PCP e tocamos, fizemos muitas festas. Houve muitas festas no Porto, só pra jovens, só pra crianças.
Só crianças. Aí eram crianças.
Crianças. E o coiso era "Olha a Bola Manel". Era isso que nós tocávamos.
A vida cotidiana mudou muito, claro, os hábitos mudaram muito depois da revolução.
Muito.
E com esse seu olhar especial pras relações amorosas, pra vida em casal, como é que isso mudou?
O meu olhar mudou muito. Porque os meus pais, quando me procuraram, deram-me uma vivenda na aldeia de Jesus, quando eu vim da América.
Pra ficar em Portugal, de alguma forma, era isso, ou não?
Claro, pra eu ficar em Portugal, pra assentar. E eu disse: "É, mas eu não tenho nada com isso".
Mas em termos de costumes.
Sim, mudou bastante.
Começou a ver muitos divórcios à sua volta.
Sim.
Amigos a experimentar vidas mais libertinas, de alguma forma.
Começaram. Eu sei que, de repente, eu vi dois divórcios com portuguesas. Eu disse: "Alto, agora só vem uma pessoa que me aguente".
Mas os seus divórcios foram nessa altura, em 74, 75?
Em 75 foi o primeiro.
Queria perceber, ainda dentro desta mudança da vida cotidiana, era um grande frequentador da noite, como é que eram os ambientes da noite frequentados durante a revolução?
Eu tinha acesso a reportagens e entrevistas que os outros não tinham, mas que se dava. Eu disse: "Tenho aqui um manancial de jovens, está tudo na mão. De modo que droga, prostituição, menores, sadomasoquismo, é tudo nosso".
Mas eu estava a perguntar mais os locais onde as pessoas se divertiam à noite. Notou mudanças nisso? Quais eram os seus principais espaços onde as suas ligações, os seus amigos saíam à noite, se divertiam em Lisboa. Na Lisboa boêmia.
Na Lisboa boêmia. Eu tinha um grupo que era algo de denominados "No Dia de Flac", que era feito pela Cristina Batista, filha de Jacinto Batista, os dois harmonias, o Nuno Vasco. Nós éramos um grupo fortíssimo, que era o meu grupo, que ia também pro rock em Cascais, e que era algo de denominados que não havia hipótese. Por exemplo, do Reabreu, conseguia através dos contactos que eu tinha na droga e na prostituição. Nós íamos para restaurantes ali na Feira da Ladra, eu ia aos jantares e passava as noites a escolher: "O que se pode amanhã publicar fotografias, autópsias?" Eu punha: "João, tens esta, esta, esta". Eram muitas, eu passava os jantares assim: "Mas eu não posso publicar nenhuma coisa dessas". A tocar com o Braga Moura, com os livros e com tudo, tinha tudo na mão. Tinha a fina flor do venturo, estava toda comigo e tinha os jovens todos comigo, os que se drogavam, os que se prostituíam, os abusados, os positivos da corrente. Eu tinha-os todos na mão.
Nesses anos, 74, 75, sentiu que estava no centro de muita coisa.
Assim como eu tinha estado na América, no Watergate, a mesma coisa. Eu venho trazer o Watergate pra Portugal, em termos de escrita.
Portanto, esse impacto de uma nova cultura, uma cultura anglo-saxônica ou anglo-americana.
E anglo-americana com o subestado francês.
E diga-me uma coisa, em 74, 75, como é que o meio literário, o meio intelectual o via a si e às coisas que fazia?
Eles não sabiam. Eles, pra começar, não autorizavam a parte da escrita. Os escritores não me consideravam escritor. Então, jornalista literário. Era chamado de jornalismo de não ficção. Era o que eu fazia. Por exemplo, agora, um dos meus temas é o policasal, o casal que tem um homem que tem várias mulheres ou vice-versa. Atenção, eu como em Portugal não conseguia, isso era uma coisa que com a Adriana eu não tinha, porque isso no Brasil é normal. Aliás, no Brasil há uma coisa que eles têm, que eu aliás faço parte com muita honra e muito orgulho, que é a Equipa dos Cornudos. Atenção, são quase um milhão de pessoas em todo o mundo, que são só os cacoles. E os Cornudos, eu faço parte dessa equipa. Mas acaba aí. Eles mandam material, eu recebo por minuto, recebo 120 e-mails de todo o mundo. Nunca recebo de Portugal, não me interessa. Eu só recebo material Japão, Brasil, Estados Unidos. Eu tenho acesso a tudo, mesmo as casas de passe. Eu sei e com as reportagens que eu fiz, por exemplo, aos sorteios da UEFA, por exemplo, na Suíça, em Zurique, em Genebra e em Basileia, porque os portugueses não queriam saber com quem é que o Benfica ia jogar. A Adriana é do Benfica, é sócia do Benfica, eu não sou sócio. O que os leitores da Bola queriam quando eu ia a Zurique ou a Genebra, eles queriam saber como é que eram as infraestruturas, como é que era o varrão, os vestidores. Geralmente o que eu fazia era: quando todos os jornalistas estavam a dormir, eu saía para a rua e saía de táxis. A doutora Margarida Caveira dos Reis dizia-me: "João, cuidado com os táxis". Eu já sabia, porque aquilo não havia parques nenhumos. Havia as dominadoras de Zurique, que depois iam para Genebra. Na Suíça é tudo por condados. Mireille Rue, que tinha um salão em Zurique: "Atenção, depois vai para Genebra". Zurique, quando vão para Basileia, eu sabia quais eram. Eu tinha os contactos todos, o SASI, os contactos todos com anúncios e com as notificações todas, eu tinha o esquema todo. Uma vez eu cheguei lá: "Quer o Benfica e o Porto". Eu disse: "Não é uma lixa, a gente vai aos sorteios". Eles queriam saber a mesma coisa. Quando eu fui com o José Mota ao Campeonato da Europa, que ela ganha a maratona em Estugarda, aquilo estava de tal forma nos meus companheiros, quando eu cheguei, as meninas que trabalhavam no salão de imprensa que estavam lá, elas disseram: "João, atenção, nós saímos daqui e temos o nosso BMW lá fora e nós temos tudo o que tu quiseres". Eu disse: "Eu não quero nada, não me metam nisso". Claro que fazia depois o jogo eu e fazia o sorteio de Foz do Iguaçu ou Lisboa-Foz do Iguaçu. Isso era bom. Ou Salzburgo-Foz do Iguaçu. Isso é o fim. E depois como falo alemão, com o italiano não tenho problemas. Em Milão, estive lá com a Rita Borralho e com o Marques Chagas. O Marques Chagas dizia-me: "Mas está ali uma miúda, quer estar contigo". Eu disse: "A menina faz show strip ali. Eu venho aqui para tratar de ti e da Rita Borralha, da maratona e do ciclismo. Em Milão, é só bicicletas". "Mas a miúda está ali toda". Eu disse: "Não pode ser. Lamento, mas não pode ser". Tem sido uma vida muito especial, muito intrincada, muito problemática, mas que realmente é só minha.
Muito preenchida. João Alves da Costa, muito obrigado por nos ter dado este momento.
Eu é que agradeço.
Chegamos assim ao fim deste episódio do programa "A Vida em Revolução". Voltamos na próxima semana.
Até para a semana.