Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Então depois mudou para uma direção comunista?
É.
Como é que isso se notou no dia a dia da agência?
Já na relação entre as pessoas. Rezangas, pancadaria, houve tudo. Houve uma vez que eu fui mandado a Braga a uma manifestação da CAP. Lá fui, o PC cortou-me tudo. Um brasileiro, Renato Soares, que eu ouvi falar, que ainda por cima é poeta.
Cortou todo o seu trabalho.
Todo, todo lá de Braga.
Era uma censura ainda pior do que a anterior.
Completamente. Não tem explicação. Era completamente idiota.
Mas não chegou a envolver-se em cenas de violência?
Cala-te boca.
Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.
Hoje temos como convidado Luís Pinheiro de Almeida, que era ao mesmo tempo jornalista e assessor de imprensa do Hotel Sarava de Carvalho no COPCON. Então, pontes altas dessa conversa, Rui.
O ambiente no COPCON, onde Luís Pinheiro de Almeida trabalhou em 1975, o Estado-Maior do COPCON, do Alto do Duque, onde estava o centro dos acontecimentos em Portugal nesse ano. E depois um dia de aniversário do pai de Luís Pinheiro de Almeida, que por acaso foi o dia 25 de novembro de 1975, em que a família o viu aparecer para desejar o feliz aniversário ao pai, preparado pra guerra.
Com pistolas.
Com pistolas, com cacheiras.
Vamos então ouvir Luís Pinheiro de Almeida na primeira pessoa. Luís Pinheiro de Almeida, bem-vindo ao programa "A Vida em Revolução". Muito obrigado e obrigado pelo convite.
Luís Pinheiro de Almeida foi jornalista.
Sou.
É, mas na altura, em 74, 75, já trabalhava como jornalista e como militar ao mesmo tempo.
Era, só naquele período.
Tem, aliás, um livro que deve estar para sair agora até o fim deste ano a recordar esta experiência. E temos o privilégio de nos contar em primeira mão alguns dos episódios mais significativos. E começamos mesmo dias antes do 25 de abril, porque creio que foi a 22 de abril que se juntou, que entrou na tropa em Mafra. Portanto, viu o início do 25 de abril, a coluna de tanques a sair para Lisboa.
Só não vi a conspiração. Isso eu não assisti. Eu fui à inspeção em 1967 e depois, como estudava, fui obtendo sucessivos adiamentos, até que já não podia ser mais, e fui à inspeção em 67 nos Chapadões. Acho que já nem existe. E perguntavam o que eu tinha, o que eu não tinha. Eu queria livrar-me deles, eu contei tudo e mais alguma coisa dos meus males. Um deles era a asma, que eu sofria da asma. E eles só me diziam: "Venha para cá que a gente trata disso". Entrei em Mafra no dia 22 de abril. Ainda tenho o coiso da tropa dos Correios, porque ofereceram a viagem de comboio pra entrar na tropa. Por acaso, foi o meu irmão que me levou de carro e eu guardei, que eu guardo tudo. Guardei o vale da CP para entrar no comboio.
Para ir de comboio então para Mafra.
Para ir de comboio, mas não foi preciso. E guardei a coisa. Entrei no dia 22 de abril e assisti à movimentação, não à conspiração. Isso não, nunca. Não assisti a nenhuma reunião, não conspirei, nada disso. Apesar de ter o passado da Faculdade de Direito, fui dirigente da Associação Académica de Direito. Portanto, tinha background, mas não participei em nada. Uma curiosidade que eu nunca mais me esqueci, ainda hoje me lembro: as viaturas militares tinham um quadrado vermelho escrito as fitas DIMO, que se usava na altura. Escrito, não, era só mesmo a fita que é para identificar.
Os que estavam do lado da revolução. Estamos a falar na noite de 24 de abril de 74.
Estamos a falar na noite de 24 de abril. Estávamos todos, eu não, mas estávamos todos na chamada semana de campo, na Tapada de Mafra, em exercícios, fomos todos chamados. Foram maçaricos, foram cadetes é que saíram de Mafra para ir tomar conta do país. E eu ainda pedi para vir com eles. Eu tinha três dias de tropa. Ainda pedi, eles disseram: "Tu és um maçarico, ainda vais estragar a revolução. Fica mas é aí, está descansado e goza". Todos nós julgávamos que aquilo era uma praxe.
Não pensaram que fosse a sério.
Não, nunca ninguém imaginou que aquilo fosse a revolução. O 25 de abril foi uma quinta-feira. Olha lá, estão eles a lixarem-nos, peço desculpa pela expressão, a lixarem-nos o fim de semana, vão-nos cá fechar aqui. Mas não, era mesmo a revolução que estava em marcha Um dos meus heróis do 25 de Abril era, na altura, o capitão Rui Rodrigues, que foi quem chefiou as tropas de Mafra e foi tomar o aeroporto. Depois perderam-se pelo caminho. São histórias
Já agora, diga-me, assistiu alguém a recusar participar, por exemplo?
Não.
Toda a gente foi. Menos os mais jovens, como era o seu caso.
Eu assisti e depois, no dia seguinte, às 7h, já toda a gente sabia que havia revolução. O comandante de pelotão, que era o aspirante Vinagre, reuniu-nos na parada: "Tenho a honra de vos comunicar que a Escola Prática de Infantaria, Mafra, foi para Lisboa, está em Lisboa para tomar conta do poder." E a gente riu-se porque já se sabia. Já havia notícias de rádio.
Já agora, passou essa noite acordado a ouvir alguma coisa?
A chorar, agarrado à G3.
A chorar? Então.
É porque não queria estar na tropa. E quando estava a dormir não fazia ideia nenhuma que estava a haver uma revolução. Eu estava era obrigado a estar ali.
As primeiras notícias que soube do que tinha acontecido chegaram-lhe como?
Via rádio.
E acordaram-se uns aos outros?
Sim, claro. Aquilo era pânico na camarata. Disseram: "Revolução não é nada, estão nos a lixar. Aquilos querem é que a gente fique aqui fechados no fim de semana." Mas felizmente nada disso aconteceu. Era mesmo a sério. E assim foi.
E não ficaram fechados no fim de semana.
Não, enviamos todos embora para não estragar a revolução . Mandaram-nos embora. O que foi bom e foi mau. Foi bom porque permitiu estar do lado de fora, na rua, e assistir àquelas coisas todas. Foi mau porque não estávamos lá dentro.
E veio para o 1º de Maio em Lisboa mais tarde?
Não.
Ficou em Mafra.
Para mim é 25 de Abril e ponto final. O 1º de Maio, ok, foi uma grande festa, aquelas coisas, mas nunca, nem mesmo durante a ditadura, o 1º de Maio nunca me disse grande coisa. Lembro-me da história do porco no Rossio com a farda do Tomás. Isso eu lembro, que nós assinalávamos. E lembro-me de uma carga policial no Rossio, em que eu fugi para a Suíça. Ainda existia a Suíça.
A pastelaria.
Sim, a pastelaria. Do Rossio, entrei para a pastelaria adentro e cheguei ao balcão e disse: "Olhe, queria um café, se achou." "Aqui não se servem cafés, foge para ali." E indicaram-nos aquilo que tinha uma entrada para o lado da Praça da Figueira.
Sim, exato.
E foi por aí que a gente fugiu com a polícia a carregar atrás de nós.
Já tinha essas experiências antes, na política, na universidade, não é?
Sim, eu fiz parte da direção em 68. Muito interessante. Deve ter sido a primeira experiência PS/PCP. O presidente da direção era o Manuel Roque, que chegou a ser depois presidente da RTP e foi também secretário-geral da Presidência do Conselho de Ministros. E o vice-presidente era o Duarte Teives, que viria a ser o DP. Depois era João Soares, que era do PS, era o Gonçalves Pereira, que era de esquerda não partidarizada, o João Arsénio Nunes, PC, ainda hoje é, e é uma figura notável do PCP. O Arsénio Nunes, o Carlos Fino, que também era PC. O Carlos Fino esteve fugido em minha casa antes do 25 de Abril. Andava a ser perseguido pela PIDE e um dia disse: "Epá, não tenho onde dormir." Ele era de Vila Franca de Xira ou estava em Vila Franca de Xira. "Posso ficar cá em casa?" "Podes, fica à vontade." Ele entrou na minha casa e nos tantos livros estava um livro que era a mãe do Máximo Gorki. Ele disse: "Epá, estou satisfeito. Vou dormir tranquilo." É uma curiosidade. Portanto, eu tinha esse background todo da faculdade.
Fazia parte de alguma organização política?
Eu não, mas estive próximo. Aliás, o João Soares gosta de gozar comigo. Era da EDE, Esquerda Democrática Estudantil, que foi os primórdios do MRPP. O MRPP foi para mim, na altura, um guarda-chuva da luta anti-PC.
Ah, certo.
Tanto assim é que eu costumo dizer que fui um maoísta moderado. O João Soares goza comigo porque é um contrassenso. Um maoísta nunca é moderado, mas eu intitulo-me maoísta moderado. E o MRPP serviu-me como anti-PC. Era guarda-chuva. Ganhámos as eleições, depois ganhei outras eleições a seguir. A mim o que me entristece agora é que quase toda a gente que conheço já morreu.
Mas voltando a seguir ao 25 de Abril, continuou em Mafra depois?
Estive seis meses em Mafra porque tinha o curso de comandantes de companhia.
Depois falou, presumo eu, com os seus camaradas que foram fazer a revolução e que foram fazer o 25 de Abril. Foram onde tomaram o aeroporto.
Não.
Eles não contaram histórias? Não recordaram esse dia?
Não. A gente depois soube mais tarde, até porque escrevi livros sobre isso As viaturas e as tropas que saíram de Mafra enganaram-se no caminho a caminho do aeroporto, em Camarate, e tiveram de voltar para trás. Eram 14 viaturas numa rua pequenina a fazerem inversão de marcha. Tanto assim é que o aeroporto foi das últimas unidades a serem tomadas, exatamente porque se perderam pelo caminho. Esse engano da EPI de Mafra deu origem a um mito urbano, que é o de ter sido o na altura capitão Costa Martins a tomar sozinho o aeroporto. Não é verdade. A EPI de Mafra é que chegou tarde e quando chegou lá estava o Costa Martins sentado à espera deles, mas não tomou. Quem tomou foi mesmo a EPI. Depois a EPI, já dentro do aeroporto, fez a torre de controle e tomou conta. Aí sim, o Costa Martins, como era da Força Aérea e era até aviador, acho eu, tinha aquelas normas internacionais da aviação e fechou o espaço aéreo. Isso é verdade, mas não tomou.
Sozinho não tomou. Foi com a Escola Prática de Infantaria de Mafra.
Infantaria.
Quais foram as primeiras mudanças que sentiu na vida do quartel e na sua vida?
Fizemos a primeira greve das Forças Armadas, eu e o João Soares e outros. Fizemos a primeira greve das Forças Armadas, porque éramos cadetes, fazíamos instruções noturnas. A instrução foi exatamente a mesma, como se houvesse guerra. Não houve alteração nenhuma. Aliás, eu, como sou um militar, entre aspas, eu gostava daquilo até, rastejar na lama com bala real por cima de nós. Eu adorava aquelas coisas. A primeira greve foi um dia que nós fomos para uma instrução noturna. Aquilo acabou três da manhã, quatro da manhã. Obrigaram-nos a formar na parada logo às 7h da manhã e nós recusámo-nos, ninguém foi formar.
Houve alguma consequência?
Houve. Não houve, houve brincadeira. Brincadeira, entre aspas. O Trindade, que era o comandante da Escola Prática, disse: "Eu corro-vos todos à granada na Camarata. Mas já houve o 25 de Abril, fazemos assim: eu vou vos deixar ir embora. Não vai acontecer nada. Fujam, vão-se embora. Mas eu vou atrás de vocês. E se vos apanhar, estão feitos." E assim foi. Viemos todos embora, nunca nos apanhou e não aconteceu nada. Foi a primeira grande consequência do 25 de Abril na tropa. Não na instrução, na tropa foi a primeira greve das Forças Armadas.
À parte isso, no respeito pelos superiores, por exemplo.
Isso não houve alteração.
Portanto, a vida no quartel continuou.
Dura e séria. Séria porque estamos a falar em junho, julho, agosto, setembro.
74.
74, ainda a gente não sabia bem para onde é que aquilo caía, se era esquerda, se era direita, se era o quê, quanto é que durava, o que é que ia acontecer. Toda a gente estava ainda com medo, porque não sabia exatamente o que ia acontecer. Portanto, calma aí. Vamos ver para onde é que caem os bois.
E os seus amigos, família, como é que eles estavam a ver a revolução e como é que isso o afetava?
A minha mãe ficou aflitíssima, mas apoiou-me sempre. E o meu pai também, obviamente. Com o meu pai há uma história engraçada, mas não tem a ver com o 25 de Abril. Tem a ver com o 25 de novembro. No dia 25 de novembro, o meu pai fazia anos. E o 25 de novembro foi o 25 de novembro. Eu estava no COPCON e estava armado, parecia um guerrilheiro mexicano, com as munições ao peito, G3, granadas, Walter. O COPCON é no Forte do Alto duque, os meus pais viviam na João Quinta, em António de Aguiar. Peguei num Rómeo, como a gente chamava, que é um jipe, pedi a um fuzileiro e fui-me levar à casa. Naquela altura, os meus pais viviam num quinto andar sem elevador. Eu pesado, carregado, armado, subi aquilo tudo a correr. O meu pai faz anos, estava a família toda.
E apareceu ali todo armado.
"Ó pai, parabéns, não posso. Estou em guerra, não posso ficar." Ficou toda a gente.
Coitado.
Exatamente.
Grande medo.
Exatamente. A minha mãe ia morrendo, coitada.
Então, já chegamos a essa altura.
Sei.
Ao mesmo tempo, já tinha experiência como jornalista também, não é?
Sim.
E continuou de alguma maneira?
Eu comecei na AMI, Agência de Notícias e Informações. Comecei na AMI em 73. 1 de novembro de 1973.
Mas suspendeu depois durante a tropa, ou não?
Qual quê?
Continuou a fazer.
A grande mais-valia que eu tinha era ser jornalista e estar na tropa. Tinha acesso à informação toda internamente. Quando estava no COPCOA, a primeira coisa que eu fazia quando chegava era ir ler a fita do tempo. O que é a fita do tempo? É o registo que o oficial de dia fazia diariamente das ocorrências em todo o país. Tudo, mas rigorosamente tudo. A velhinha era atropelada em Guidares de Baixo, telefonavam pro COPCON: "Foi uma velhinha, foi atropelada", e seguia. O oficial de dia era obrigado a tomar nota. E eu pegava na fita do tempo e telefonava pra A NOP, o Andrade Santos, coitado, que foi um dos meus chefes na Caldas das Geras, A NOP. Fantástico. E lia a fita.
Ia tomar a notícia, a fonte de informação.
Exatamente. A NOP era o órgão mais bem-informado que existia.
Vinha do COPCOA.
Vinha de tudo.
Mas então, nesse período, seis meses, está a fazer a formação básica dos aspirantes, não é?
Não, nunca fui aspirante. Eu acabei o curso, que é chamado CCC, Curso de Comandantes de Companhia, e saí logo alferes.
Saiu alferes.
Saí logo alferes, estranhíssimo, mas era assim. Saí alferes e eu e mais dois amigos meus, também alferes, fomos para Viseu, Regimento de Infantaria 14, onde participamos em diversas atividades, incluindo a Operação Nortada.
Sim, a dinamização cultural.
Exatamente.
Como é que foi isso?
É melhor falar do Alentejo. Lá em cima tenho pouca recordação de Viseu. No Alentejo é que foi muito interessante. Eu e dois alferes tomamos conta da unidade em Viseu e fizemos um jornal, que é os Viriatus, que hoje em dia aquilo era extrema-esquerda. Na altura, não. Foi muito interessante. Fizemos o jornal, tomamos conta da unidade, fizemos o juramento de bandeira, não igual à do realismo, mas um juramento de bandeira já pró 25 de Abril, com um discurso que fui eu que escrevi, por acaso, do juramento da bandeira democrata.
E os comandantes?
Eles tinham sido corridos.
Portanto, isso estava por vossa conta.
Exatamente, nós fomos os comandantes.
Os alferes é que mandavam.
Éramos três alferes, eu e mais dois amigos meus.
E estavam em coordenação com outro?
Não.
Não, era por vossa conta. Estavam literalmente por vossa conta.
Tínhamos uma ligação ténue com Coimbra, com a Região Militar de Coimbra. Isso sim, havia.
Havia contactos.
Havia.
Mas não estavam a receber instruções pra fazer isto ou aquilo.
Não, não havia TPC, não havia essas coisas. Não havia nada disso. Éramos só nós. Ao fim dos três meses, estive três meses em Viseu, fui mobilizado pra Guiné, acho isto extraordinário. Já tinha havido o 25 de Abril, já a Guiné estava unilateralmente independente, mas eu fui mobilizado pra Guiné.
No verão de 74.
Sim. E fui pra Évora, pro RAL3, que é o Regimento de Artilharia Ligeira três, formar batalhão pra ir pra Guiné. O que é que eu disse?
Não estava em Évora, mas ia pra Guiné.
Como se nada tivesse acontecido. E lá estive, era segundo comandante do batalhão. Eu chegaria à Guiné e era promovido a capitão. Em Évora, isso sim, andámos empenhadamente na dinamização cultural.
Então, como foi isso?
Fomos corridos à pedrada. A sério. O Alentejo é o Alentejo. E havia muita coisa pra fazer. E nós pegámos em equipes de engenharia e fomos reconstruir muros, fomos arranjar ruas, estradas menos, mas ruas. Andámos ali a ajudar. E a população local acusava-nos, com alguma razão, de tirar o emprego às pessoas de lá. Fomos muito mal corridos, tudo à pedrada. É sério.
Mas e atacaram?
O MFA, tudo à pedrada. Está bem.
Tirarem o emprego aos locais.
Aos locais, exatamente. E isso era verdade. E nós tínhamos grandes contactos Com o MFA. Era o capitão Porto no comando da Região Militar de Évora que nos dava apoio.
Portanto, aí já estavam enquadrados do MFA.
Sim, na dinamização cultural. Além de termos feito coisas, é verdade, fizemos coisas bem feitas também. Tenho pena de as coisas se terem perdido não se sabe por onde. Eu fiz o levantamento das filarmônicas regionais do Alentejo. Foi um trabalho fantástico. Entregámos aquilo tudo na dinamização cultural, que era a quinta divisão, que tinha uma delegação em Évora ao pé do Geraldo. Perdeu-se isso, tenho muita pena disso. E depois veio a desmobilização, é óbvio, que eu não podia ir pra Guiné.
Sim, com a Guiné a tornar-se independente.
E depois explicaram que é a máquina pesada do exército. Eu fui mobilizado, aquela papelada e a burocracia toda pra preencher. E depois pra desmobilizarem, teve que ser a papelada e a burocracia toda no inverso. Também demorou tempo, mas pronto, ok. As coisas resolveram-se e eu saí em março, abril por aí.
De 75 já, pois.
74 ainda. Não, 75.
75, exactamente. E foi pra onde? Foi colocado onde?
Como era LD, licenciado em Direito, meteram-me na repartição de justiça e disciplina do Estado-Maior do Exército, que era numa das torres.
No Terreiro do Paço.
No Terreiro do Paço, onde eu estive com civis e militares. Civis estava o Jorge Lacão, que foi depois ministro do PS, estava o Azevedo Soares, que foi secretário de Estado do CDS, estava o Rodolfo Lavrador.
Advogado, não é?
Exatamente. E foi jurista do Guterres ou de um deles, um dos primeiros ministros. O Mário Mendes, que era militar, que foi director da Polícia Judiciária.
E aí, o que tinha de fazer?
Tinha de tratar dos processos dos militares ou feridos ou falecidos na guerra.
Na guerra, sim.
Por quê? Conforme a nossa apreciação, assim as famílias dos militares acidentados, ou morte ou ferimento, tinham direito ou não à pensão. E uma das coisas que eu aprendi é que grande parte, 80%, sem exagero, dos acidentes na guerra colonial não é de combate. Não é de combate, é de acidentes. Viaturas, acidentes com armas de fogo, militares embriagados, há milhares e milhares. Que tem justificação, as pessoas estão em guerra, obrigadas ainda por cima. Era duro. E nós, quando podíamos, facilitávamos ao máximo.
Para ser atribuída a pensão.
Exatamente.
E portanto, nessa altura, há uma revolução, mas tudo parece estar a funcionar normalmente no exército.
É, exatamente. Eu só senti a revolução quando passei pro COPCON. Aí é que tudo se transforma.
Então mas, por exemplo, o 11 de Março não lhe diz nada?
São peanuts.
Não tem nenhum episódio particular relacionado com essas datas?
Não.
As primeiras eleições livres?
Também não, isso é tudo peanuts.
Nem cobriu como jornalista?
Não, como jornalista estive lá, sim. E coordenei as eleições na zona. Mas isso é normal. Não foi nada de especial.
Vamos agora fazer uma pausa, voltamos depois do intervalo. Voltamos para a segunda parte da conversa com Luís Pinheiro de Almeida. Como é que combinava, portanto, em termos de tempo diário, o trabalho no exército e o trabalho como jornalista?
Trabalhávamos 24 horas por dia e mais duas à noite. Quando se quer e tem vontade, e se gosta, e se está empenhado, tempo não falta.
Mas passava umas horas lá no Terreiro do Paço e depois deslocava-se para aí.
Ou então fazíamos as coisas. Por exemplo, falou-me agora no 11 de Março. Eu assisti, por acaso no 11 de Março eu estava de folga. Assisti à passagem dos aviões, isso é verdade. Estava a comprar um disco no Castilho, na Valentim de Carvalho.
E viu os aviões que iam para-
Mas só tive intervenção como jornalista. Militarmente não tive.
Mas já agora, então.
Diga.
Há duas questões aí importantes, podemos falar delas antes de ir ao COPCON. Uma: na redação, notou mudanças na dinâmica da redação?
Claro.
O quê, por exemplo?
Claro, foi quando o PCP abocanhou A ANI e a NOVA tomaram conta daquilo.
Como é que isso se notou? Puseram à frente pessoas que eram militantes?
Censura. Nunca mais o mesmo. PCP.
Mas comparável com o que havia antes?
Então, não foi. Não, nunca vi antes. Uma coisa muito engraçada, eu costumo sempre dizer isso. Eu trabalhei com o Dutra Faria e com o António Maria Zorrinho, ambos jornalistas e ambos bons jornalistas. O António Maria Zorrinho foi o único quadro do Estado Novo que foi expulso pela revolução. Ele era da universidade portuguesa e saneado. O Dutra Faria era uma pessoa diferente. Era conceituado, era inteligente e era democrata. Aqui é democrata, corte-se. Ele tinha o telefone branco direto à censura. E muitas vezes nós ouvimos o Dutra aos berros com a censura porque não concordava com os cortes. Isto é uma conversa. Porque a agência noticiosa, que é a minha origem, digamos, tinha uma censura diferente. Nós tínhamos uma censura a posteriori. Não era antes. Nós escrevíamos tudo o que quiséssemos. E ao mesmo tempo que os jornais recebiam, a censura também recebia aquilo que nós produzíamos. E depois a censura nos mandava uma mensagem a dizer: "Atenção, programa X, cortar o primeiro parágrafo, segundo parágrafo, cortar a palavra". E nós com base nisso tínhamos que informar os jornais.
Era um processo complicado.
Era complicado, o que dava origem também a baldes, entre aspas, isto é, ou nós não avisávamos os jornais, ou os jornais faziam de conta que não tinham recebido. Portanto, havia coisas que passavam. Como, por exemplo, quando apareceram os mísseis Stella na Guiné.
Em 63, em 1963.
A censura cortou, mas nós não avisamos.
Então passou e foi publicado. Depois mudou para uma direção comunista. Como é que isso se notou no dia a dia da agência?
Já na relação entre as pessoas. Rezangas, pancadaria, houve tudo.
Dentro da redação?
Dentro da redação. Violência física.
O que levava a essa violência?
Por que mudavam?
O que levava a essa violência?
As diferenças de opinião. Olhem um deles, Fernando Casiais. Sabem quem é? Era o chefe do PC de Piorio. Houve uma vez que eu fui mandado a Braga, a uma manifestação da CAP em Braga. Nós antes viajávamos com o teletipista. Era jornalista, era o teletipista, que é quem perfurava as fitas do telex.
Para o envio da informação.
Para envio da informação. Lá fui eu com o Varges, coitado, também já morreu. É tudo gente morta. Lá fui eu. O PC cortou tudo. Um brasileiro, Renato Soares, nunca ouviram falar, não é? Que é poeta, ainda por cima é poeta.
Cortou todo o seu trabalho.
Tudo, tudo lá de Braga.
Era uma censura ainda pior do que a anterior.
Completamente. Não tem explicação. Era completamente pior. Em plenários havia pancadaria, as discussões. Era o que se passava na vida civil.
Qual era a principal tensão? Qual era a principal discussão?
A ideologia. O PCP queria umas coisas, achava que devia ser assim.
Mas em termos de escrita e das notícias?
De escolha da informação, da maneira como a escrever.
Mas tem algum exemplo que tenha degenerado em pancadaria?
Essa da CAP não deu pancadaria, esteve lá quase.
Mas não chegou a envolver-se em cenas de violência.
Cala-te boca.
Mas pode contar à vontade.
Não, houve uma cena, mas também já morreu. Não vale a pena.
Mas havia uma articulação entre a cúpula da agência e a cúpula do Partido Comunista, não?
Isso não sei.
Mas, por exemplo, na redação, a maioria dos jornalistas.
Aquilo era uma célula do PC. Está tudo dito.
Era uma minoria, essa célula.
Ativa.
Mas muito ativa.
Muito.
Sobre os outros.
E os outros tinham medo.
Intimidava.
Exatamente.
Havia gente que resistia, mas a maior parte das pessoas se conformava.
Eu e um amigo meu fizemos uma coisa que chamava FIC, Frente de Intervenção Crítica, que era anti PC. E como é que a gente fazia? Com comunicados, jornais de parede.
Lá dentro da ANI.
Da ANI e já da NOVA.
E não havia outras fações políticas?
Não.
Do MRPP, não tinha uma presença?
A FIC era MRPP.
A FIC era MRPP. E tinham o apoio de quem?
Cá fora, não.
Cá fora, nada. Estavam por vossa conta.
É tudo só por nossa conta. Nunca tivemos Nem apoio, nem desapoio.
Não estavam enquadrados partidariamente?
Não. Éramos livres.
Ou estavam a tentar ser naquela altura. Outra dimensão importante, é hoje um dos maiores especialistas em Beatles. Eu presumo que já gostasse muito de Beatles na altura.
Já, desde 63.
Este lado da ligação.
Desde o princípio.
Como é que viveu a abertura do país à música que podia vir de fora livremente?
Não, foi ao contrário. Foi a música que abriu o país. Foi ao contrário, é sério. E ao contrário do que muita gente diz por aí, nunca houve censura aos Beatles. Os Beatles sempre tiveram à vontade. Até porque isso é outra curiosidade. A censura só existiu pra livros, pra discos nunca existiu. As coisas eram postas à venda. E depois mais tarde, era só sobre a relação portuguesa, o Adriano Correia de Oliveira, o José Afonso, é que caía a censura em cima, mandando retirar os discos do mercado. Mas antes, não, isso não havia.
Portanto, essa música passava.
Passava completamente livre. E foi aí que os Beatles, pronto.
Mas em 74, 75, a música que passava nas rádios.
Já começava a ser revolucionária.
Era revolucionária. Não sei se era o seu gosto.
Não, era antes sim, mas a música popular anglo-saxônica não passava.
Já tinha deixado de passar. Era ao contrário.
Pelos fascistas.
Terá sido até ao contrário. Passava mais antes de 74 do que depois, essa música.
Exatamente. Porque com 74, 75, abriu-se a perspectiva da música portuguesa e a chamada música de intervenção, que antes não passava, e passou a passar.
Mas nunca chegou a sentir que gostar dos Beatles fosse considerado fascista?
Não. Isso não. Pelo contrário.
Não chegou a tanto. E notou uma interferência ou uma entrada de músicos de leste?
Não, nem por isso. A gente detestava a música de leste. Isso nunca houve, influências da música. Até porque não havia.
Sim, havia uns coros do Exército Vermelho.
Exatamente.
Mas não havia propriamente isso.
Não havia.
Mas nessa altura estava ligado à música como alguém que gostava?
Não, escrevia.
Já escrevia sobre música.
Crítico não, porque isso é para os críticos. Mas escrevia.
Escrevia já sobre música.
Eu fui fundador do Blitz, por exemplo.
Sim, certo.
Escrevia muito.
E conhecia músicos portugueses? Dava-se com eles?
Não.
Não se dava.
Isso é um ponto de honra pra mim. Nunca me dei, com exceções, obviamente, nunca me dei bem com músicos portugueses, por uma razão muito simples: não me queria sentir condicionado.
A escrever.
A escrever. Ou então alguém dizia: "Este gajo é amigo dele". Tive um grande amigo e toda gente sabia, era público e notório, que se eu escrevesse sobre o Zé Jorge Letria.
Era o amigo a escrever.
Era o amigo. Porque o Zé Jorge Letria, que eu conheço já há muitos anos, ninguém gosta dele. Dizem que ele canta mal. Eu sempre gostei dele. Fui colega dele em Direito, sempre me dei muito bem, sempre me ajudou, sempre me escreveu textos, prefácios, pra livros. E o Zé Jorge Letria deve muito do seu êxito graças a mim e aos meus amigos. Por quê? Estamos a falar antes do 25 de abril. O Zé Jorge Letria fez um disco magnífico que se chama "Até ao Pescoço". E como é que nós conseguimos que o disco vendesse? Telefonávamos pras discotecas. Discotecas, lojas de discos. "Então já têm o Zé Jorge Letria, o 'Até ao Pescoço'?" "Não". "Então veja lá". "Está bem, a gente vai mandar vir". Porque os discos também não iam à censura. Vendiam-se conforme a procura nas discotecas. E as discotecas só compravam nas editoras os discos se houvesse procura.
Sim, se houvesse pessoas a pedirem. Então vocês criaram essa procura.
Exatamente, nós próprios é que criamos essa procura. E ele conseguiu vender os discos.
Antes de entrarmos no COPCON, já a seguir, queria só perceber também a mudança de costumes a que assistiu, como é que as coisas mudaram à sua volta, nas relações entre pessoas, nos casamentos.
Foi tudo muito simples, é sério. Aliás, nem sequer tenho coisas pra contar. Quer dizer, aconteceu. É a vida, normal.
Mas mudou muito, na conceção, na forma como as pessoas se comportavam.
É vida, mas também nós ajudamos a mudar. Com as nossas ideias, com as nossas opiniões, com os nossos comentários. Também ajudamos. Não éramos nós contra. Foi nascendo naturalmente, foi tudo aparecendo.
Muito bem. E como é que olhava para Vasco Gonçalves e para os governos provisórios?
Em relação a Vasco Gonçalves, a minha opinião sobre Vasco Gonçalves mudou muito desde que eu comecei a escrever este livro. Vasco Gonçalves era PC e eu sou um feroz anti-PC, ponto final. Nunca estive com ele por acaso. Nunca falei com o Vasco Gonçalves. É um excelente engenheiro. Uma casa que é conhecida, que é famosa na Praça das Águas Livres, Aqueduto das Águas Livres. Há ali uma praça onde aliás vivem uns primos meus. A engenharia é do Vasco Gonçalves. É muito famoso o prédio. Nunca falei com ele. Mas os PC são os PC, não há nada a fazer.
Estava a tentar perceber como é que se situava face às várias tensões da Revolução.
Por exemplo, nessa altura tinha a impressão ou tinha informação de que ele era do PC para além das simpatias que pode ter.
Informação, não. Informação pura e dura nunca houve.
Mas tinha aquela impressão de que ele estava muito sintonizado, era mais esse o ambiente.
Ele fazia também por isso. Eu li o livro há relativamente pouco tempo, por causa deste livro, do Vasco Gonçalves, que acho que é da Manuela Curzel.
Há uma entrevista.
Fiquei com uma ideia completamente diferente. Ele era um homem bom. Era um PC.
Era PC. Então vamos à sua entrada no COPCON. Como é que isso acontece?
Eu já tinha chegado de Évora, estava na repartição de justiça e disciplina e li na LD uma entrevista do Otelo que eu não conhecia, que acho que era no Jornal Novo, a dizer que tinha falta de gente no gabinete de imprensa. Eu disse: "Sou eu".
Levantou o dedo.
Levantei o dedo, escrevi uma carta ao Otelo e disse: "Meu general, sou fulano tal, sou oficial-meritante, estou na tropa, sou jornalista, eu ofereço-me para..." e ele: "Venha cá".
Ele respondeu-lhe por carta ou ligou-lhe? Como é que fez isso?
Telelex.
Mandou um telex a dizer: "Venha cá ao Forte do Alto Duque", onde estava o comando do COPCON.
O Estado-Maior.
O Estado-Maior do COPCON.
Sim. E fui entrevistado, ainda hoje é vivo, pelo Major Barão da Cunha. Há dois Barões da Cunha. Há o Francisco, que era meu chefe, e há o Manuel. O Francisco é de esquerda e o Manuel é de direita. São irmãos.
Como é que foi a entrevista?
A única coisa que eu queria saber era se eu era do PC ou não. Porque se fosse do PC não entrava.
Também não entrava lá.
Perguntou-lhe diretamente?
Sim, claro. Fiz entender, andou a rodear.
Mas percebia onde é que ele queria chegar.
Exatamente. E ele também percebeu o que eu queria dizer. E lá entrei no dia 11 de agosto de 1975.
E disse na altura que tinha ligações ao MRPP ou não?
Acho que não, mas ele deve ter percebido.
E então foi contratado para fazer o quê?
Para o gabinete de imprensa. Era ser porta-voz do Otelo. Como ele estava sempre a ser assoberbado de perguntas de jornalistas e sítios, eu teoricamente devia responder por ele e ia fazer a revista de imprensa. No fundo, basicamente, o que se chama agora fazer a revista de imprensa.
Então conheceu o Otelo aí só.
Só conheci o Otelo aí.
E qual foi a primeira impressão?
Epá, as pessoas têm uma ideia, digo eu, mas eu também sou apaixonado pelo Otelo. Têm uma ideia completamente diferente. É uma boa pessoa, tem um coração magnífico, é amigo das pessoas. Ingénuo até à última outrance. Eu via entrar delegações do MRPP: "Sr. General, isto e aquilo". Às vezes a gente assistia. "Pois, vocês têm toda a razão. É mesmo. Vou ver o que se passa. Vou tentar, não sei o quê." O MRPP saía do COPCON, entrava o CDS: "Ó Sr. General, e aí, vocês têm toda a razão." A sério.
Mas isso também não era uma maneira de ele sair das situações.
Não era.
Acha que ele era mesmo.
A única coisa que ele ligava era às organizações de base. Aliás, íamos a falar e acho que já lhe disse. O documento do COPCON, que foi a primeira coisa que eu fiz no dia 11. Como tinha a experiência toda associativa de direito, sabia mexer na Gestetner. A Gestetner é o copiógrafo. Alguém pediu, nem sei se foi o Barão da Cunha ou se foi o próprio Otelo, não deve ter sido Depois foi o Bruno da Cunha: "Passa lá isso ao copiógrafo".
Portanto, já estava escrito. Não participou na escrita do documento do COPCON?
Não, era o stêncil, que se põe na máquina e eu meti.
O seu primeiro trabalho foi fotocopiar o documento do COPCON.
E toca o telefone. O José Saramando: "Cara, chamo eu também". Foi o director da Capital. "Ó senhor Alferes, tenho aqui uma coisa que se chama Documento de Trabalho de Autocrítica Revolucionária do COPCON." Eu disse: "Como é que é possível? Eu estou aqui a passá-lo ao copiógrafo e vocês já o têm aí. Transpire isso só um bocadinho." E fui ao gabinete do Otelo e disse: "Ó major Naldo, desculpe lá, estamos a brincar? Eu estou a passar ao copiógrafo o documento e telefonam-me a Capital a dizer que já têm o documento." E o Otelo: "Ai, sacanas do Carlos Antunes e da Isabel do Carmo. Foram eles que deram o documento. O que eu faço?" E o Otelo disse: "O documento existe. Não vale a pena negá-lo, porque ele existe. Mas peça lá aos seus amigos que risquem a autocrítica revolucionária e documento do COPCON. Fica só proposta de trabalho e documento do COPCON. Eles que risquem autocrítica revolucionária. E veja lá se eles conseguem não dar." Porque ainda por cima o documento do COPCON surgiu um ou dois dias depois do documento dos Nove.
Sim, exactamente. Isto era uma espécie de guerra dos documentos.
Eram três. Havia essa mediapese.
Que era do Vasconcelos, e depois havia o documento dos Nove do Belandres e havia este documento do COPCON do Otelo.
Isto a propósito que foi a primeira coisa que eu faço no COPCON. E o Otelo pediu se eles podiam amenizar aquilo e passar muito coisa. E assim foi.
Eles amenizaram?
E amenizaram. Puseram só a primeira página.
Corrigiram a primeira página. E o ambiente no COPCON como é que era? Muita gente a entrar, muita gente a sair, muitas visitas?
Estava sempre coisa. Até o Álvaro Cunhal lá ia. E há uma cena com o Álvaro Cunhal que eu acho que é muito interessante. Ele ia a entrar. Nunca foram ao COPCON, não conhecem. COPCON é um bunker.
Sim, lá no Alto do Pina, em Caxias.
Mas no fundo, parecia um bunker nazi aquilo. A parada era cá em cima e a sentinela ficava de fora. E o Cunhal entrou e a sentinela mandou parar e mandou identificar. E o Cunhal é outro mundo.
Então?
É institucional e obediente. Ele podia ter dito: "Porra, sou o Álvaro Cunhal, não posso entrar?" Não, o Cunhal identificou-se.
Mostrou o documento
Mostrou os documentos à sentinela do COPCON. Acho isso delicioso.
Mas acha que o sentinela fez isso porque não o reconheceu ou por formalismo ou para chatear?
Eu disse formalismo, excesso de zelo. Eu acho, mas também não posso falar por sentinela. Excesso de zelo. Mas havia muita movimentação para cima e para baixo. Entravam uns, saíam outros. Mesmo lá dentro a agitação era sempre muita. Conversas, porque o COPCON eram as Forças todas Armadas, que tinha Aviação, tinha Marinha, tinha Exército, sobretudo Exército, mas tinha as coisas todas, eram marinheiros a entrar, a Força Aérea.
A primeira parte da conversa com o Luís Cunhal de Almeida fica por aqui. Voltamos para a semana para falar sobre Otelo e o 25 de Novembro. Até para a semana.