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Fui a única testemunha que assistiu ao encontro final e ao abraço final entre o Ramalho Eanes e o Otelo. E o Eanes entrou no gabinete do Otelo, dá-lhe um abraço e diz: "Otelo, tem coragem." E o Otelo respondeu: "Terei." Depois o Eanes ainda lhe disse: "Vou te deixar aqui sozinho, faz o que entenderes e daqui a um bocado apresento-me lá em cima na parada." E assim foi. O que o Otelo fez, ninguém sabe, só eu é que sei. Não sei se rasgou mandados em branco, ninguém sabe o que fez. Eu sei que roubei alguns documentos.

Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência. Hoje temos a segunda parte da conversa com Luís Pinho de Almeida, que foi ao mesmo tempo jornalista e assessor de imprensa de Otelo Saraiva de Carvalho, no COPCON. O COPCON era também o local onde acabavam muitas queixas, protestos civis, isto é, de problemas que chegavam ao COPCON, não era?

Se visse a fita do tempo, eram coisas que dava quase para fazer um livro. Eu andei à procura da fita do tempo, pelo menos do dia 25 de novembro. Ninguém tem.

Ninguém tem.

E há um grande sigilo. Não sei se é sigilo, mas há muita coisa do 25 de novembro que não se sabe. Ninguém diz nada. Ninguém quer falar, ninguém gosta de falar, está tudo na retranca.

Ainda 50 anos depois.

Ainda hoje, 50 anos depois.

Mas os seus dias no COPCON, fazia a revista de imprensa, ajudava o Otelo a escrever alguma coisa ou a responder?

A escrever, não. Ele escrevia.

Mas ele pedia, dava-lhe instruções específicas? "Fala lá com o jornal tal a dizer que isto é mentira."

Nunca me influenciou.

Então além da revista de imprensa, o que fazia mais no COPCON?

Conspirava.

Conspirava. E de que consistiam as conspirações?

Por exemplo, dizia-me assim: "Alferes, a gente vai fazer X. Tu tem calma, não digas nada. Diz só que o COPCON está em cima." Eu disse: "Está bem, meu major." E assim foi. O PRP ocupou aquilo que mais tarde veio a ser a Universidade do Povo, que era na 5 de Outubro, e o Lourenço Marques disse-me logo: "Alferes, olha, a gente vai ocupar o coiso. Eles vão te falar pra cá certeza absoluta. Diz que a gente está em cima do assunto." E assim foi.

O PRP, do Carlos Antunes e da Isabel do Carmo, eram presença das Brigadas Revolucionárias. Eles estavam muito presentes no COPCON? Estavam lá muito com o Otelo?

Não sei, pode ser que tenham lá ido muitas vezes, mas não consegui. Mas é muito simples, porque o COPCON era um labirinto. As pessoas podiam sair ou entrar, nem toda a gente-

Nem toda a gente via quem entrava e saía

Exatamente. A única pessoa que via entrar e sair era o sentinela. Eu estava lá no meu gabinete, sei lá quem é que entrava e quem é que saía.

Mas no COPCON, os militares que lá estavam não eram propriamente todos da mesma opinião. Havia uma gente variada.

Eu vi até gente expulsa do COPCON. O Vargas Cardoso foi expulso, o Quiñones também foi expulso, porque estavam mais à direita e foram corridos de lá.

Mas a preocupação, segundo percebi no momento também da sua entrada, era não ter lá gente alinhada com a PC.

Exatamente.

Mas depois do resto, vinha muita gente com variadas preferências.

Exatamente, é verdade. Sobretudo de extrema-esquerda. De organismos populares de base. Isso o Otelo era sagrado. Tanto assim é que eu ia falar deste documento.

Do documento do COPCON.

Só agora que eu soube, 50 anos depois, em conversa com a Isabel do Carmo, que eu perguntei a ela: "Afinal, mas quem escreveu o documento?" Afinal, ela confessou que é uma das signatárias. Confessou também que o Carlos Antunes é um dos signatários, o Cabral Silva, que era do MESH, é um dos subscritores e era chefe de gabinete do Vasco Gonçalves como primeiro-ministro. Tanto assim é, contou-me a Isabel do Carmo, e para mim é fonte idônea, o preâmbulo do programa do quinto governo.

Do governo provisório.

Do governo provisório, é baseado no documento do COPCON. O que deixou furioso o PCP. Isto para dizer o quê? Aí então a Isabel do Carmo confessou-me que o Otelo não terá sido o substitutor Mas foi meio subscritor, porque tudo que era organismos populares de base do documento é tudo Otelo. Foi Otelo que escreveu e emendou. Isso aí ele não passou a palavra a ninguém.

Mas a maior parte do documento até é obra do Casimiro Antunes.

Do Casimiro Antunes.

Da Isabel do Carmo e das pessoas.

Isabel do Carmo e do Més.

E do Més.

E do Més, exatamente. Porque o Més naquela altura já era-- eu fui do Més muito mais tarde. Muito mais tarde disto. Eu fui do Més até o Jorge Sampaio. O Jorge Sampaio saiu no célebre congresso da Ala Magna e é nessa altura quando se tornou leninista.

Sim.

Pronto, bye bye. E portanto, o Més foi um dos subscritores do documento.

Só para voltar ao cotidiano do COPCON, do Forte do Alto Duque, o Otelo ia lá todos os dias?

Todos os dias.

Chegava logo cedo?

Sim.

Estava lá desde cedo?

Era militar. Era militar, estava lá.

Portanto, cumpria os seus horários lá.

Sim, à militar. E era muito querido ele. Era sim.

E também recebia muita gente a queixar-se de ações armadas.

Então delegava.

Mas havia muita gente a ir ao COPCON queixar-se, pedir a libertação de presos, por exemplo.

Então o COPCON era o ai Jesus da população, dos desgraçados, dos coitadinhos.

Era quase a polícia.

Exatamente. Ouça, muitas vezes nós servimos de polícia. Eu tenho cenas. Já vou aos Stones. No Monsanto, o COPCON é ao pé do Monsanto. Telefonavam pra lá, falavam indignados com a prostituição, aquelas coisas todas. E nós, por acaso, muitas vezes fui eu, mandávamos os Romy, as coisas.

Os jipes, não é?

Os jipes.

Para o Monsanto.

Ficavam lá.

Já não voltavam.

Havia coisa engraçada. No Stones, só pra acabar esta parte da ação militar, que era na Rua do Olival, ao pé da Janelas Verdes, recebemos queixas, mais uma, que havia sarabulho, que havia desordens nos Stones.

Um local que frequentava ou não?

Eu frequentava os Stones, inda por cima. Quem não frequentava os Stones? Mesmo naqueles tempos áureos da revolução. E lá mandei um Rómio para os Stones. Porque eles entraram e acho que encontraram, sabe-se lá se é verdade, acho que encontraram pessoas armadas de armas brancas. Punhais, facas. E o AE: "Feche esse".

Pois.

E fecharam. E fechamos. Fechei o COPCON até há poucos dias.

Os Stones?

Durante uns meses.

Ainda foi durante uns meses.

É, foi.

E não houve lá gente a queixar-se desses requerimentos?

Não, por quê? Porque os moradores também não gostavam muito daquilo por causa do barulho e das pessoas cá fora. Parece que para quem se queixava foi também uma benesse ter sido fechado, acabou aquilo tudo.

Mas quem estava ali no COPCON sentia um poder extraordinário.

É verdade.

Não é?

É verdade.

Tinham a cidade à mercê, faziam o que queriam.

Não, a gente tínhamos o poder todo.

Tinham o poder, não era?

Tínhamos o poder, não só o poder do cura, como o poder das armas.

Também, pois.

Que era o mais importante, aliás.

Pois. E portanto, não tinham aqueles limites legais.

Não, os únicos limites legais que às vezes eram uma chatice, era antes de uma ordem ser levada à execução, reunia o plenário da unidade isso é que era uma chatice. A unidade tinha que reunir em plenário para ver se cumpria a ordem.

Se concordavam. Pois.

Isso é que era uma chatice.

Portanto, era uma espécie de legalidade revolucionária que era o limite.

Exato, é isso mesmo.

Mas hoje, olhando para trás, sente que houve excessos também do COPCON?

Sim, claro que houve.

Fala-se muito dos mandatos de extensão em branco, por exemplo. Mandato de extensão em branco. Assistiu alguma vez a isso?

Nunca vi nenhum.

Não?

Nunca vi nenhum.

Mas teve, se calhar, pessoas a queixarem-se de terem sido presas com base em mandatos desses, não é?

Nunca houve mandatos em branco.

Diz que o Otelo tinha lá os mandatos.

Não, os mandatos em branco foi uma faculdade que a lei permitiu ao COPCON e a outras unidades militares, não foi só ao COPCON, de agilizar prisões. Não era bem prisão, detenções, melhor falando. E os mandatos eram assinados depois das detenções, registados e guardados. Está tudo guardado. Os arquivos do Ministério da Defesa devem ter essas coisas todas. Mas eu estava me esquecendo de uma coisa. No dia 25 de novembro, eu atendi, eu acho que é a primeira vez que te digo isto, eu atendi telefonemas. Ele já morreu também, portanto também não me pode contrariar, coitado. Atendi telefonemas do Jayme Serra

Do PCP.

Do PCP, que era o chefe. Ele e o Raimundo Narciso.

O contacto com os militares do PCP.

A dar informações sobre movimentação de tropas no 25 de novembro. Ou o Rio que está a caminho de não sei o quê, o Raliz saiu não sei o quê, e eu é que recebia aquela porcaria toda. E depois eu transmitia ao oficial do dia e ele que fizesse. Eu era oficial de dia adjunto. No dia 25 de novembro, quem era oficial do dia era o capitão Lourenço Marques. Foi o único que resistiu. No dia 27 de novembro, foi o único que resistiu ao assalto dos comandos ao COPCON.

Ao Estado-Maior.

Ao Estado-Maior. Foi o único que resistiu, o gajo já morreu, coitado. Mas é bom tipo. Eu, como era miliciano, era oficial de dia adjunto. E no dia 25 de novembro, estava o major Serra, que também já morreu, coitado. Só me dizia assim: "Ó Almeida, isto vai dar um granel." Porque no 25 de novembro havia muitas chamadas da Força Aérea para tomar conta das unidades das bases aéreas. "É preciso um capitão para ir para Tancos, é preciso um capitão para ir a Cortegaça."

Iam-lhe chamando oficiais, porque eles não tinham oficiais. Eram os paraquedistas que tinham depois.

E o Serra dizia: "Isto vai dar um granel, mas isto está uma guerra."

As suas funções travassavam muito as de um assessor de imprensa, digamos assim, porque tinha poder para fechar o torno.

Era jornalista.

Mas também tinha o poder do COPCON para tomar as decisões todas.

Sim. Quer dizer, não podia exagerar.

Mas uma palavra sua podia fazer a diferença entre prender ou não prender alguém, fechar ou não fechar um espaço.

Fechar, sim. Prender, não.

Não.

Prender, não. Fechar ou não fechar, sim.

Por exemplo, tinha poder de mandar tropas para ali ou para acolá ou incorrer numa decisão.

Sim, isso podia. Mandei tropas para defender o Expresso.

Em que circunstâncias? O que estava a acontecer?

Foi naquelas todas mais próximas do 25 de novembro. Foram eles é que nos ligaram.

Quem é que ligou? Lembra-se? Foi o Balsamão, o Marcelo ou nada?

Não, já sei, foi o Galamba, de quem eu era amigo.

Sim, o administrador.

Era comercial.

Era comercial, sim.

É João Galamba? Já não sei. Ou é pai de João Galamba.

Do Partido Socialista.

Exatamente, que foi secretário de Estado e que ligou-me e disse: "Ó Luís". Éramos amigos da faculdade. "Isto está tudo pantanas, o país está tudo pantanas e a gente vem aqui dar cabo disto."

Sim, assaltar.

Pois, essas coisas. Arranja aí uma defesa. Está bem.

Então mandou para lá uma.

E mandei para lá uns gerônimos.

Ficaram ali a proteger.

A tomar conta do Expresso. E a Luta.

E a Luta, que era o diário do Partido Socialista.

Do Partido Socialista, também mandei para lá.

Isso é curioso. Jornais contrários ao PCP e que recorriam ao COPCON para os proteger.

Exatamente. Mas não era por ser contrários ao PCP, o COPCON era o poder.

Era o poder, era de onde podia vir uma proteção militar.

Exatamente, foi mais nessa base.

Mas havia lá quem correspondesse.

Adorei aqueles tempos.

Mas chegavam a estar lá o dia inteiro, como é que era?

Sim, eu entrava às 7h. Eu sempre gostei de trabalhar cedo. Depende do que estava a acontecer, mas eu chegava a estar das 6h, 7h e saía às 2h, 3h. E depois, ainda por cima, eu vivia sozinho em Carcavelos, não tinha carro, mas tinha a PSP por minha conta. Ainda por cima, eu vivia ao pé da PSP. E foi no dia 27 de novembro, tocaram à porta e era a PSP. "O senhor Alferes, desculpe lá, recebi uma chamada do COPCON, tem que ir levar já para o COPCON." Está bem. Foi no dia em que eles assaltaram.

O COPCON.

O COPCON. Eu já falei com o coronel, que era quem manda. Era e é, que ele ainda é vivo, felizmente, que assaltou.

Ocupou o COPCON.

E ainda hoje ele diz, o que é verdade: "Eu não prendi o hotel". Que, aliás, eram amigos. E depois, ainda por cima, são todos amigos.

Eram todos amigos, camaradas.

Andaram juntos na academia militar, andaram juntos não sei o quê. "Eu não prendi o hotel, calma aí. Eu fui ao COPCON em missão de paz." Pronto, está bem, OK. Se o coronel diz isso é porque é verdade.

Vamos agora fazer uma pausa, voltamos depois do intervalo. Voltamos para a segunda parte da conversa com Luís Pinheiro de Almeida. Não contou o dia 25. Se calhar o dia 25, em que esteve como oficial de dia no COPCON, era muito importante percebermos o que aconteceu. Estávamos num clima de grande tensão, que vinha crescendo.

Eu estava no 25 de novembro, mas não sabia o que era o 25 de novembro.

Claro, não sabia que aquele dia ia ter aquele significado. Ainda não sabia.

A gente estava lá. Sim, senhor, participamos, estávamos lá, éramos cúmplices, o que quer que seja.

Os paraquedistas tinham ocupado as bases militares.

A gente não sabia.

Não sabiam?

Não sabíamos. Não sabíamos que os paraquedistas tinham ocupado Tancos e o Gadassi, em Monsanto. Não se sabia.

Então qual foi o primeiro momento de tensão no COPCON, no dia 25 de novembro? Antes do Otelo ser chamado pelo Costa Gomes pra ir pra Presidência da República.

O momento maior de tensão é que houve um Conselho da Revolução de 24 pra 25. E o Otelo chegou ao COPCON no dia 25, de manhã. Dia 24 à noite, três da manhã, quatro da manhã, estou mesmo a vê-lo. Eu andava sempre fardado. Nunca o vi nem de civil, nem de camuflado. Tirou o juízo. O Vasco Lourenço é o comandante da Região Militar, não do COPCON, comandante da Região Militar: "Vão prender muita gente. Eu não estou de acordo, não aceito. E como não aceito, demito-me." E deixou lá o juízo em cima da secretária.

E como é que reagiram, quem estava à volta?

Todos, sobretudo o Verona Cunha e os outros: "Não faça isso, não desobedeça a eles. Aguenta, aguenta, aguenta." E o Otelo disse: "Não, desculpa lá. Eu sou leal com os meus homens, não aceito." E foi pra casa. É verdade.

E saiu.

E saiu e foi pra casa dormir.

Era madrugada e ainda estava tanta gente no COPCON à espera disto.

Estávamos todos.

Na expectativa.

Claro, havia o que havia. Havia um Conselho da Revolução, estava tudo à espera do que é que saía do Conselho da Revolução. Nós estávamos lá, claro que estávamos, o COPCON estava cheio. Estava cheio e estava com gente que não pertencia.

Ao COPCON.

Costa Martins, por exemplo, apareceu lá. Pra fazer o quê? É um dos mistérios. Há quem diga que foi o chefe de estado-maior da Força Aérea, que era o Morais e Silva.

Morais e Silva, sim.

Que mandou o Costa Martins pro COPCON pra o afastar e pra o estar ali manietado. Mas os otelistas perguntam o que ele estava lá a fazer. Mas havia mais.

O Varela Gomes também estava, não?

Eu não o vi. Há quem diga que sim. Eu não o vi, mas vi o Dinis de Almeida.

O Dinis de Almeida também lá apareceu.

Lá apareceu. O Dinis de Almeida é outra personagem. Fittipaldi. Um dia apareceu lá no COPCON de praça partido. Eu acho que ele já era major, não sei. Agora sou proletário, ando de moto, caí. Mas, por exemplo, no dia 25 de novembro, isso eu lembro-me bem, ele estava lá e telefonaram do Raliz pra ele, Dinis de Almeida.

Voltar ao Raliz.

Voltar ao Raliz, porque eles queriam sair no 25 de novembro, mas estavam à espera da chegada do Dinis de Almeida pra ser o Dinis de Almeida a comandar. Exatamente isso. E toda a gente achou que era o Dinis de Almeida. "Vai lá, eles estão todos à tua espera."

E houve o que é que-

"Onde é que está a minha caneta? Não sei se a minha arma está carregada ou não está."

Não, também não.

Não saiu. E veio um da Marinha, que era o Ribeiro Pacheco, acho eu, foi quem susteve os fusos. Os fusos esses é que estiveram pra sair. E foi acho que é Ribeiro Pacheco, a pedido do Otelo.

A pedido do Otelo.

A pedido do Otelo.

E depois souberam que o Costa Gomes o chamou à Presidência da República?

Não, o Costa Gomes tinha mandado um telex a mandar todas as unidades da Região Militar de Lisboa obedecerem só e única e exclusivamente a ele, Costa Gomes. O telex chegou ao COPCON, mas o famoso cabo Chico, que era o homem das transmissões, rasgou e não deu a ninguém. No COPCON.

No COPCON.

Não deu a ordem.

Mas o Otelo sabia.

Otelo sabia, claro.

Mas o Otelo foi cúmplice desse eliminar do telex?

Não. Única e exclusivamente do meu camarada e amigo, cabo Chico.

Como é que ele se chamava, além de cabo Chico?

Francisco Martins.

Francisco. Mas tomou a iniciativa por ele.

Por ele.

Esse era também um bocadinho o ambiente do COPCON, não era? Cada um fazia mais ou menos o que achava que devia fazer. Mas ele também fez isso porque achava que era a melhor maneira de proteger o Otelo e de manter o poder do Otelo.

E manter o poder do COPCON, disse que era do Otelo. Disse que era do COPCON. A revolução, as organizações populares de base. Porque o Otelo não era a PRP, não era essas coisas, era organizações populares de base. Eu acho que a coisa mais próxima do Otelo ainda foi a UT, Organização Unitária de Trabalhadores, alguma coisa assim do género. Partidariamente, acho que ainda foi a coisa mais-

Conheço as ideias basistas que eu tinha na altura. Das bases, da população, uma espécie de populismo.

Mas eu tenho umas saudades dele, a sério. Fez anos agora que ele morreu, fez quatro anos. Era mesmo bom ele.

Então imagine, nesse dia 25 de novembro, em que ainda conseguiu ir todo armado dar os parabéns ao seu pai, que fazia anos.

Exatamente.

Pregar um susto à sua mãe por ter aparecido como pistoleiro mexicano em casa. Além disso, em que decisões é que participou ou o que é que viu no COPCON?

É como disse, a única ação militar que eu fiz no COPCON foi fechar os estores.

Mas ia comunicando e estava envolvido em comunicações sobre o que é que se ia fazer neste dia?

Não, não havia conspiração nenhuma. Aquilo era o dia a dia.

Mas era um dia diferente, estava tudo a acontecer.

É agora.

Mas tinha uma informação sobre o que estava a fazer o Jaime Neves, por exemplo, com os comandos.

Não, zero.

O General Ramalho Eanes.

Olha, o Jaime Neves eu fui lá libertá-lo.

Então.

O Jaime Neves foi afastado do Regimento de Comandos. E o Otelo ficou furioso. O Otelo era amigo do seu amigo. E o Otelo tinha chegado de Cuba, ainda por cima. E foi aos Comandos. Eu, por acaso, também fui. Foi uma das raras vezes em que eu fui com ele. E ele repô-lo no comando. O Jaime Neves era fascista, de extrema-direita, isto e aquilo e aqueloutro. E o Otelo foi repô-lo nos Comandos.

Portanto, foi pra Amadora com o Otelo.

Fui.

E o Otelo, o que é que ele-

Era sempre na galhofa.

Sempre na galhofa.

É, ele era assim.

Nunca estava-

Nunca era conspirador e que ia tomar o poder. Não. Ele só fazia essas coisas quando vinha de visitas oficiais. É quando ele dizia que podia ser o Fidel Castro da Europa, que a social-democracia não era pra Portugal, isso era as coisas que ele dizia pra jornalistas.

Mas lá dentro era uma figura cordial.

Completamente.

Isso fazia parte também da influência que ele próprio tinha. Era uma pessoa que se dava com muita gente, muito variada.

Muito bem, é isso. Ele dava-se bem com toda a gente, toda a gente se dava bem com ele. Tenho mesmo saudades dele. Faz-me falta.

Sim. E depois, no dia, ao que estava a começar a voltar.

No dia 27.

No dia 27, a PS foi levá-lo lá outra vez ao Forte do Alto do Duque.

Para buscar a guia de marcha. Sou a única testemunha, isto eu garanto, já tenho o Nilo apostado no próprio Ramalho Eanes, sou a única testemunha que assistiu ao encontro final e ao abraço final entre o Ramalho Eanes e o Otelo. Porque os Comandos entram no COPCON e entra o Eanes também. O Eanes ia de camuflado, com as estrelas já de general, com uma pistolinha pequenina, uma Walther, mas era uma Walther mais pequena que o normal, no coldre, óculos escuros, não olhou pra ninguém. Puxou de um papel e começou a dizer nomes: Major Barão da Cunha, Coronel não sei o quê, Artur Batista. "Têm 10 minutos pra se apresentar na parada. A parada era cá em cima." E eu até me virei pro, que eu não conhecia, virei pro meu chefe, que era o Barão da Cunha, e disse: "Major, quem é este gajo?" E o Barão da Cunha disse: "Parece que já é o General Ramalho Eanes, que já é..." eu estou falando dia 27, "já é chefe de Estado-Maior do Exército." Eu disse: "Pronto, está bem. Ok." Portanto, quem ele citou. A mim não, não me disse o meu nome. Eu só tinha a guia de marcha. Quero ir embora.

Para se ir embora.

E ele disse: "Você quer ir mais?" "Pisa, pisa, vai-te embora." E o Eanes entrou no gabinete do Otelo. Dá-lhe um abraço.

E o Otelo está lá.

O Otelo está lá. Sim, essas coisas. Militares e amigos. O Eanes dá-lhe um abraço e diz: "Otelo, tem coragem." E o Otelo respondeu: "Terei." Depois o Eanes ainda lhe disse: "Vou te deixar aqui sozinho, faz o que entender e daqui a um bocado apresente-se lá em cima na parada." E assim foi. O que o Otelo fez, ninguém sabe, só eu é que sei. Não sei se rasgou mandados em branco, ninguém sabe o que fez. Eu sei que roubei alguns documentos. Tenho um assinado por ele, que é uma delícia. Diz outras histórias.

Como lembrança. Houve algumas coisas.

E passado um bocado o Otelo apareceu. Não foi preso. Ele só foi preso mais tarde. A prisão dele não teve a ver com o 25 de Novembro. Ele depois apresentou-se em Belém. E o Costa Gomes, por quem eu tenho uma grande admiração, foi o salvador da pátria. Fez questão de ser fotografado com o Otelo em Belém pra demonstrar que ele não estava preso. "O Otelo está aqui ao meu lado." Ele não disse isso, "O Otelo está aqui ao meu lado."

Mas apareceu.

Mas apareceu com ele.

E no dia 27 foi pra casa?

No dia 27, essa cena, eu fui pra casa. Chamei um táxi.

Só indo um bocadinho antes do dia 27, quando é que percebeu que aquilo tinha acabado? Logo no dia 25, que aquela era da revolução. No dia 25 percebeu.

Percebi.

E tirou as cartucheiras.

Exatamente. E por causa disso, fui julgado, fui condenado. Em 80, fui julgado, condenado a dois meses de prisão militar efetiva e depois perdoado.

Mas pelo que fez no dia 25.

Por causa de uma Walther que eu tinha requisitado, como aquilo estava tudo em guerra. Eu no dia 24 de novembro, requisitei uma Walther.

Uma pistola.

Uma pistola, e foi com essa pistola que eu também fui preso.

E era pra quê? O que ia fazer com ela?

Estamos em guerra.

Mas toda essa armadura de pistoleiro mexicano ia fazer o quê? No fundo, estava disposto a disparar contra quem?

Sabe se lá o que eu ia fazer. Você está a falar e bem. Hoje, estamos 50 anos depois. Eu estou lá na altura. Sei lá o que ia acontecer. Sei lá se me aparecia ali um gajo qualquer.

Era preventivo e defensivo.

Exatamente.

Contra outros militares.

E então ficou com essa pistola ou devolveu, o que aconteceu?

No meio da confusão do dia 27, é a minha justificação, deixei lá ficar no meu gabinete.

Deixou a pistola.

Deixei lá ficar.

E não a devolvi. Há lá o registro da minha requisição, não há o registro da entrega. E na sentença, o próprio juiz diz que a permissão que existia na altura das Forças Armadas levou que o réu não tivesse o dolo.

Não houve. Falta só uma coisa, duas semanas antes do 25 de Novembro, foi à Angola fazer a cobertura da independência.

E fui expulso da Angola.

Mas com uma dupla qualidade também.

Exatamente. Eu e o Tereco do hotel pro Agostinho Neto.

O que é que dizia?

"Camarada, saudações", aquelas coisas.

E também vou da ANOP. Também vou da ANOP.

Claro.

Porque foi como jornalista.

Fui como jornalista.

E como enviado do COPCON, de certa forma.

Enviado do COPCON.

Isto nunca teve um dilema nessa dupla qualidade, não? Nunca houve assim algo que pensasse: "Isto é melhor não saber."

Tinha e tenho duas ordens, a militar e a profissional. Eu tanto obedecia ao profissional. Sempre fui jornalista, toda a vida, hei de morrer jornalista.

Mas e nenhum conflito de interesses? Nada que tenha pensado: "Se isto se sabe, põe em causa esta operação militar."

Que se lixe a operação militar.

Então mandava o jornalista, apesar de tudo.

Era.

E conseguiu estar como testemunha privilegiada de tudo que ia acontecendo.

É, mas jornalista.

O Otelo não o constrangeu por ter saído uma notícia qualquer.

Não, por acaso não. E o Otelo é dos poucos militares que sabia o meu nome completo.

Continua a dar-se com ele? Acompanhou depois a amargura com que ele viveu, de certa forma, a parte do julgamento e tudo, das FP 25.

Não.

Aí não o acompanhou.

Aí não.

Mas ele olhou ainda pra trás com alguma amargura sobre a revolução, ou não? Na forma como a coisa tinha evoluído.

Sim. Se tem pena, que podia ter sido outra coisa. Não foi.

E só agora, dia 27 de novembro de 1975, vai pra casa, como é que é isso?

O que é que eu hei de fazer? Tive me apresentar em RIOC, que era a minha unidade de origem. Regimento de Infantaria Operacional de Queluz. Fui mandado pra lá. E no RIOC praticamente nem lá estive uma hora. Cheguei à secretaria da unidade, entreguei a minha guia de marcha e mandaram-me de regresso pra Repartição de Justiça e Disciplina no Terreiro do Paço e mandaram-me embora. Eu ainda meti o chico, porque eu gostei da tropa, sério. Gostei muito da tropa. Aprendi imenso, conheci milhares de pessoas, vivi milhares de coisas. E disse: "Tenho de cá ficar." Ainda por cima eu era jornalista, queria a informação.

Pois.

Mas não me autorizaram.

Portanto, saiu dessa altura.

Saí dessa altura.

Portanto continuou como jornalista.

Sim, pronto, foi. Aprisionei muito. Estive no Jornal, no Semanário, estive no Globo, estive na Luta, menos.

E como é que foi aquele tempo depois de 27 de novembro? Manteve contactos com os outros militares com quem tinha estado no COPCON? Como é que era? Reuniam-se, almoçavam, nada?

Nada disso. Claro que se falávamos. Por exemplo, o Barão da Cunha, deve ter sido dos tipos mais sacrificados que o 25 de Novembro deixaram na carreira militar. Nunca foi promovido, não sei, mais tarde. E ele inundava, como era jornalista, inundava-me de documentos da defesa dele, dos interrogatórios. E fomos sempre mantendo o contacto. E este livro sempre esteve na minha cabeça há milhares de anos.

Mas continua a ser uma história cheia de detalhes fascinantes, mistérios.

Eu fiz isso também por quê? Pra já pra fixar a minha própria memória.

Pois.

E depois porque há coisas que só eu é que sei. Não é vaidade, nem é narcisismo. Cala-te, boca. Não é por narcisismo, nem negócio.

Estava lá e viu.

Pois, é exatamente isso.

Luis Pinheiro de Almeida, muito obrigado por ter partilhado connosco esta-

Estava aqui mais duas horas ou três.

Foi muito importante. Muito obrigado.

Obrigado eu.

Obrigadíssimo. Chegamos assim ao fim deste episódio do programa "A Vida em Revolução". Voltamos na próxima semana. Até pra semana.