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Isso foi quando chegamos depois do voo, porque soubemos que o comandante da Base Aérea cinco estava ainda detido. Havia uma hipótese de comunicar que era o rádio de ondas curtas, todas as operações tinham esses rádios.

E o que é que disse?

"Diz aí a esses palermas que já sabem que a Força Aérea não está no chão, nós estamos aqui, já passamos por aí, vocês viram e ouviram, e desde que tenham juízo, senão a gente vai e desta vez, se calhar, não vamos tão pacificamente".

Achou que estava a ser ouvido?

Sim, porque eles estavam lá.

Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou o Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.

Hoje temos a segunda parte da conversa com o general Vaz Afonso, que depois de ter estado em Moçambique, estava colocado na Base Aérea do Montijo e faz um relato muito vívido do que foi o dia 25 de novembro.

E um relato muito inovador em relação à história que nos tem sido contada sobre o 25 de novembro. O general Vaz Afonso chama a atenção para o papel da Força Aérea e do grupo que na Força Aérea, e especialmente na Base Aérea número seis, no Montijo, se opunha à tomada do poder pelo PCP. Vale mesmo a pena ouvir alguém contar a história de uma maneira diferente.

Vamos então ouvir o general Vaz Afonso contar esta história. Falou no terror dos saneamentos, na forma como o PCP e essa comissão incutiam o terror dos saneamentos. Tiveram sinais evidentes disso na parte de sargentos que queriam ter convosco, sem saber como lidar perante essa situação?

Por exemplo, o ambiente em que se seguia quando a juventude pede: "Onde é que estão os planos?" "Quais planos? Quem é que deu as ordens?" As ordens foram dadas verbalmente. E no nosso caso, a gente tinha um código, que o comandante disse assim: "Se acontecer alguma coisa que impeça a operação dos meios aéreos na base, vocês vão todos para Ovar". E o nome de código, até fui eu que inventei o nome de código para ir para Ovar, era: vamos aos míscaros, que era um cogumelo que existia muito lá naquelas florestas de Cortegaça.

Mas não havia nada que o comando pudesse fazer para, de certa forma, contrariar os elementos mais radicais?

O que havia é tentando mantê-los a trabalhar nas suas funções e exigindo que eles continuassem a trabalhar nas suas funções.

Portanto, nessa altura, numa unidade militar como a Base Aérea número seis, há uma espécie de duplo poder, digamos assim. Há o comando e depois há essa comissão do Estado-Maior a interferir.

Mas no Estado-Maior era tudo também coberto.

Coberto, mas a interferir.

Mas de vez em quando iam às unidades, eles tinham autorização para ir às unidades.

Para ir às unidades.

Faziam lá o que faziam.

Havia um duplo poder. Quer dizer, isto para quem era de facto sargento ou praça, devia ser confuso.

Não, eles tinham um grande problema, porque na mentalidade deles, tinham a sensação da cadeia de comando, que era sagrada.

Certo.

Mas estavam coagidos ao ponto de não aparecer.

Percebeu-se de elementos dessa comissão vigiarem, de alguma forma, as reuniões mais restritas do grupo de confiança?

As reuniões mais restritas, não sei, porque eles não sabiam onde é que eram, nem como é que se faziam.

Onde é que eram e como é que se faziam?

Eram num dos quartos dos oficiais, no bar dos oficiais, que a gente variava num sítio para outro, conforme ele nos dizia.

Num quarto?

Quarto. Fechado, não havia mais ninguém, só havia nós.

E tinham contactos com quem, fora da unidade, tinham outros contactos?

Isso é uma coisa interessante, porque o meu comandante, a partir de certa altura, percebeu que não era possível a gente estar informado do ambiente do resto do país nas várias áreas, sem ter a colaboração ou pelo menos o entendimento de civis das várias áreas de saber. E nasceu uma coisa magnífica, que ainda hoje existe, que já vos vou falar, que foi originado na Força Aérea. Quem começou isso foi o capitão Tomás Rosa e o tenente Parente. E o doutor Hélder Oliveira. O doutor Hélder Oliveira era um jovem economista e, ou ele casou com algum familiar destes dois oficiais, que tinha muita ligação com o tenente-coronel Vasquez, na altura. E é através desse contacto com Hélder Oliveira, que se formou um grupo que se reunia no Farol de Cascais, num restaurante ou uma pousada que se chamava Farol, que agora é capital russo. Ainda está lá a placa do 25. E reuniam-se aí com alguma frequência. Eu nunca fui a essas reuniões, porque o meu comandante e o meu segundo comandante é que iam. Mas ele trazia de lá os documentos que essa malta fazia, economista, direito e tal, fazia sobre o que estava a passar no resto do país. E ele depois passava isso lá nessas reuniões que tinha conosco e serviu-nos, foram muito úteis. Ainda continuamos a encontrar-nos no dia 25 de novembro.

Mas e contactos com políticos, com outros partidos, havia?

Não, contactos com partidos, não. Não havia. Era este nível. Muitos deles, a maior parte desses civis, sei eu Depois conheci a seguir. A maioria deles era do PS, um ou outro do PSD, mas era a maioria do PS, que naquele momento era realmente o partido que estava no espaço político com mais vigor.

E o grupo dos nove, por exemplo?

O grupo dos nove, sim.

Havia contactos com eles?

Havia contactos, sim.

Especificamente com qual?

Mas era o meu comandante, ele é que tratava disso.

Portanto, mas ele reunia-se com eles, falava?

Havia contactos, havia pessoal da Força Aérea lá, o Costa Neves e o Cânticastro eram da Força Aérea, portanto havia contactos.

Mas já não era um grupo que estivesse isolado na Base Aérea seis. Tinham relações, sentiam-se parte de um conjunto de resistência.

Na Base Aérea seis a gente se sentia parte de uma espécie de uma célula de resistência, de ambiente clandestino, porque a tal comissão que existia no Estado Maior, uma das coisas que eles fizeram, quando se resolveu fazer o destacamento de Ovar e as operações em Ovar, eles vieram imediatamente, aliás há um comunicado dessa coisa que foi para a imprensa, a dizer que: "Os reacionários da Força Aérea estão a querer não sei o quê, fazer em Corthiças", alguma coisa dessas que eu por acaso não tenho.

Isto ainda antes do 25 de novembro?

Sim, no Verão quente.

Já era uma manobra preparatória para uma eventualidade.

Exatamente.

O tal ir aos míscados.

Exatamente.

Acabou por ser útil.

A malta não faz ideia. Tão perto estivemos de não ter sucesso. Porque o meu comandante viu que estava a ser pressionado de todos os lados e as coisas que iam acontecendo, e a gente tinha colocado lá em cima dois aviões.

Em Corthiças ou até Ovar?

A pretexto de fazer operações lá em cima e de ser uma aparelho que fazia a defesa aérea do norte.

Mas e para isso tiveram autorização do Estado-Maior?

Primeiro foi, não. Depois é que acho que o meu comandante começou a pensar: "Se quer pôr lá mais aviões, tem que ter". E depois houve realmente ali uma cumplicidade, suponho que ao nível do, na altura, subcenfa para as operações, que era hoje o general Corval, que foi depois chefe de Estado-Maior, deve ter vindo para ali, mas não há documentos. Isso foi tudo tratado assim, não eram movimentos abertos. A Base Aérea seis estava equipada com o P2V5, que era um avião que tinha um bombay, tinha uma coisa para levar bombas do próprio avião. E o comandante da esquadra, que era um marinheiro, recebia instruções do comandante: "Vocês fazem os voos, sim, senhor, mas carregam primeiro o avião com este armamento". Então cada vez o que faziam, passavam e faziam uma aterragem em Ovar e deixavam as bombas nos paióis que lá havia, aquilo era uma infraestrutura NATO.

Já agora, estavam acumulando o armamento em Corthiças.

É sim. E mesmo assim a gente sabia que havia vigilância ali ao nível da resistência. E só realmente a resistência daquela malta ao nível dos especialistas, sargentos e cabos da esquadra do P2V5, quando estavam a carregar sabiam que não eram bombas para o P2V5, sabiam que eram bombas para o Fiat.

Estavam a carregar armamento para os outros aviões. A escolha de Corthiças e Ovar tem a ver também com a divisão ideológica no país, entre o norte e o sul, com maior apoio da população?

No início, não. No início era porque tínhamos lá aquelas instalações que não estavam a ser usadas, a não ser em exercícios, e portanto era uma boa precaução não estar próximo de Lisboa, mas também por isso, havia um bocadinho essa ideia.

Portanto, começaram a aperceber-se de que iria haver um confronto, sobretudo quando o Hotel é, salvo erro, no dia 22 de novembro, há uma reunião do Conselho da Revolução em que o Hotel vai ser substituído.

Foi substituído por Vasco Lourenço.

Exato. No comando da região militar de Lisboa, o governador militar de Lisboa, era assim, comandante do COPCON. Portanto, aí começaram a aperceber-se que iria haver um confronto.

Exatamente.

E começaram a preparar-se.

Não, já estávamos preparados.

Já estavam preparados.

O louvo foi o meu comandante a tomar a iniciativa de, que só lá tínhamos dois aviões, como eu disse. Reparem bem, no dia 22, mandou descolar mais três aviões para o norte, para Corthiças, ficaram lá. E no dia seguinte, domingo. 22 é sábado, 23 é domingo.

É domingo, exato.

No domingo, mais dois aviões para cima. Veja tão perto que a gente esteve de não ter lá os sete aviões. Porque depois já não seria possível.

Pois.

Porque o 24 é segunda-feira e o 25 é terça.

É terça. Pois.

Portanto, o PCP esteve muito próximo de sair vitorioso. Quando eu cheguei a Ovar, cheguei lá por volta das 10h30. Fui para cima no primeiro avião DC6 que descolou do AB1, dali de bordo da Portela. E quando eu cheguei, tínhamos lá naquela altura sete aviões fiéis.

Isso em que dia? No dia 25 de novembro.

E eu fui para lá porque quando cheguei à doca da Marinha para tomar a lancha, vi que ela não estava. Era pontualíssima aquela lancha, às 7h45 já estava na doca para a gente embarcar e saía às 8h pontualmente. Eu cheguei 10 para as 10h, são 15 min antes e não estava lá a lancha. Para mim aquilo foi uma coisa anormal.

Isto era uma lancha militar que levava todos os dias?

Havia um destacamento da Marinha que fazia este transporte todos os dias do pessoal daqui para lá.

Portanto, de Lisboa para a Base Aérea seis.

Para o Montijo. Portanto, eu reparei, não estava a lancha e eram já 8h05 e não estava a lancha. Resolvi telefonar para a base e consegui falar com um dos pilotos de alerta que estava lá. Tínhamos sempre dois aviões de alerta com dois pilotos no Montijo e dois aviões de alerta com dois pilotos em Ovar E falei com ele e ele disse-me: "Olhe, a base foi tomada e nós estamos tolhidos". Ele não disse presos, disse tolhidos, mas eu percebi bem o que ele disse. O tenente Tito, que depois saiu em coronel da Força Aérea. Disse: "Está bem, vocês não fazem nada, não se precipitem, não ponham em perigo a vossa vida, nós vamos aos miseros".

Era o tal código.

O tal código. Os pilotos que estavam comigo eram um capitão de letras, que agora é general na reforma também, mais um ou outro, e fomos para o AT1.

E puderam voar?

Quando eu passei pela Portela para deixar o meu carro à minha mulher e despedi-me dela, eu disse: "Eu vou para o norte, não sei quando é que volto. Tu, se tiver conversações sociais, vais ter a Bragança", que era a minha terra.

Sim.

E depois quando passámos por cima da A1, havia soldados armados e dois canhões sem recuo apontados para a autoestrada. Eu disse: "Temos que ir embora rapidamente, daqui a um bocadinho estamos travados".

Aliás, chegou a ver a lancha depois.

Depois cheguei a ver a lancha com os paraquedistas armados.

Vinham buscar-vos.

Exatamente.

E vocês fugiram?

Claro, metemo-nos no carro e fomos embora.

Portanto, aí já era para vos prender, provavelmente.

Com certeza.

Agora, em relação ao dia 25 de novembro, começa a haver aquele problema com os paraquedistas. Como é que entenderam esse problema? Quer dizer, como é que entenderam essa revolta dos paraquedistas?

A revolta dos paraquedistas tem a sua história, que é o caos que aconteceu em termos disciplinares na base de Tancos, na base de paraquedistas de Tancos. E que levou os oficiais a ter que sair de lá, porque não conseguiam comandar aquela gente. Influência do PCP.

Influência do PCP.

Exatamente. Eles saíram, isso já estava muito próximo do 25, e o General Morais da Silva nessa altura já estava do bom lado e resolveu extingui-los pela caneta. Dissolveu-os e mandou-os para o exército. E esse é o argumento depois mantido pelo PCP: "Pois, coitadinhos, eles revoltaram-se".

Sim, era um problema quase pessoal.

Exatamente. Mas, na verdade, era a ponta de lança da revolta armada do PCP.

Dos paraquedistas.

A neutralização do poder aéreo. O objetivo da transformação dos paraquedistas em ponta de lança do PCP, eles não deixariam sair os aviões no dia 25.

No dia 25 de novembro, vocês já estavam cientes de que havia esse plano, quer dizer, sentiram que havia esse plano.

Absolutamente.

Sabiam que vão tentar ocupar as bases e neutralizar a Força Aérea. Já agora, o plano não passava também, ou não temeram que passasse pela utilização de aviões?

Passava. Os revoltosos.

Mas foi frustrado.

Alguns pilotos, que se contam pelos dedos das duas mãos, tanto na Base Aérea cinco, como na Base Aérea seis. Na Base Aérea seis era um instruendo que estava lá meio quase qualificado, que também andou para ali a navegar. Mas eram da Base Aérea cinco e outros que estavam no COPCON, que tinham ficado afetos ao PCP. A gente conhecia-os, sabia muito bem quem eram. E um deles apresentou-se na Base Aérea seis, que era o novo comandante. Eu já lá não estava nessa altura.

Foi como novo comandante da Base Aérea seis.

E na Base Aérea cinco a mesma coisa.

E novo comandante nomeado por quem? Quer dizer, com que autoridade?

Para mim, era do COPCON, com o Hotel.

Era o COPCON que tinha. Mas não foi obedecido.

Não foi obedecido porque houve resistência, porque senão teria sido obedecido.

Mas não conseguiram chegar a sair com avião nenhum.

Não conseguiram. No Montijo não conseguiram, porque um dos pilotos, que era um furriel, estava em preparação ainda, e ele ainda tentou dizer ao outro para irem, mas o outro disse: "Não, pai, não sei mexer nisso ainda". Não sei se foi assim. Hoje é general. Eu conheço muito bem o rapaz, até admito que realmente ele tenha tido uma última coisa e não quis.

Recorreu a esse argumento de que ainda é inexperiente e não quis.

Mas o outro desapareceu depois.

Vamos agora fazer uma pausa. Voltamos depois do intervalo. Voltamos agora para a segunda parte da conversa com o General Vaz Afonso. Então, no dia 25 chegam a Cortegaça, o que encontram?

No dia 25, quando eu cheguei a Cortegaça, por volta das 10h30, tinha lá sete aviões.

Os voos decorreram até lá?

Decorreram bem, não houve problema nenhum. Os aviões todos de transporte foram uns para o Ovar e outros para o Porto, não houve problema.

Mas foi tenso de alguma forma, porque não sabiam o que poderiam ter de enfrentar.

Tenso da nossa parte, a gente ia com alguma preocupação, o que isto vai dar.

Mas temeu, por exemplo, que aparecesse um avião inimigo?

Não, ainda não. Ainda não, porque estávamos nas 10h30, 11h, nem pensamos nisso. Os aviões do transporte foram para o norte, mas podia ter havido essa hipótese, porque Monte Real tiveram uma parelha de alerta a partir de certa altura, que está também descrito no relatório do 25 de novembro, em que era para voarem dois pilotos que estavam dentro do golpe. Felizmente, a resistência mais uma vez. Quando a gente fala, não pode falar só nos pilotos que voaram nesse dia Tenho que falar dos mecânicos que tiveram uma ação de resistência, que arriscaram e sabotaram os carros de arranque e os Aviação F-86 não podiam voar. O ambiente de resistência foi necessário, foi construtivo e foi importante. Quando eu cheguei, era por volta das 10h30 que chegamos a Ovar.

E estava tudo controlado?

Estava tudo controlado. O comandante da base era, na altura, capitão do quadro de pilotos e cuidou da nossa segurança. E quando eu lá cheguei, falei com a minha malta, portanto nessa altura estavam já lá cinco Fiat G.91 da Base 06, não havia mais outros aviões. Dois helicópteros, um deles armado com o canhão de 20 mm e mais nenhum. Eram dois helicópteros e sete aviões. Mas ainda não tinha, naquela altura, os sete pilotos, porque quando eu cheguei ao AT1, estava à espera que chegassem mais pilotos que tivessem visto. Naquela altura não havia telemóveis.

Pois, exacto.

Não podia contactar uns com os outros. De maneira que quando eu parti no DC-6 pro norte, sabia que havia dois pilotos lá e havia da minha parte, comigo, quatro pilotos. De maneira que faltava-nos um, nas minhas contas, quando embarquei no DC-6. Então havia um piloto que estava no Boeing, era o General Nico, que ainda está vivo, que tinha voado Fiat, havia já três anos que estava no Boeing, já não voava, e disse assim: "Epá, tu vens, vais-nos dar o checklist do avião durante a viagem, porque quando chegares lá podes ser o sétimo piloto". Ele ficou todo contente. Mas quando chegamos lá, felizmente, tinha chegado no outro Boeing, que chegou logo a seguir, mais um piloto, portanto tínhamos sete pilotos, não foi preciso qualificá-lo de emergência. E eu era o mais antigo da Base 06, daquele destacamento eu era o mais antigo, e achei que tinha que me apresentar à autoridade no norte, que era o Pires Veloso. De maneira que fui de helicóptero pro Porto. Aí apresentei-me ao Brigadeiro Pires Veloso, que ele me conhecia muito bem.

Avisou antes? Ele estava à sua espera?

Não, não avisei nada.

Então, de repente aterra o helicóptero no quartel, lá no Porto.

Sim. Ele estava seguro, sabia.

Como é que ele estava?

Estava bem, todo ótimo.

Mas a seguir também as movimentações, ele estava a par de tudo.

Sim, a seguir eu expliquei o que é que tínhamos em Ovar. Ele já sabia que havia ali qualquer coisa. O que tínhamos em Ovar, a força que tínhamos e ele falou: "Epá, vocês da segurança não tenham problemas, as populações aqui já está tudo a movimentar-se para auxiliarem na defesa exterior da unidade e eu vou mandar também para lá uma unidade de cavalaria para estar à volta". E despedi-me dele dessa forma. E o Já Lemos Ferreira encontrei ou à entrada ou à saída, tinha ido também para cima num dos aviões, como era o oficial mais antigo da Força Aérea lá em cima, ficou ele a comandar depois as operações.

E o que estavam à espera de ter de fazer?

O caso foi rápido, porque mal eu aterrei depois de vir de lá, por volta das 11h30, talvez, recebi um telefonema do meu comandante, General Vasques, que estava ainda detido em Monsanto.

Também foi ocupada por pardais. Mas estava detido, mas conseguia fazer um telefonema.

Exatamente, mas isso foi a santa incompetência dos revoltosos, que eu costumo dizer, porque eu consegui telefonar pra minha base e consegui falar com ele. Eu expliquei: "Olhe, tenho aqui já, vamos para cima, estamos a sair, vamos aos mistos". E ele: "Epá, muito bem, eu vou lá ter quando puder". Porque ele estava preso também. E portanto, quando aterrei vindo do Pires Veloso, do Porto, recebo outro telefonema dele, graças à santa incompetência, ainda estava detido e só depois de meio-dia, quando passaram os aviões, é que os revoltosos foram cortar as comunicações.

Portanto, ele estava detido, mas deixavam-no telefonar.

Conseguiu telefonar lá para cima, ele lembrou-se fez o telefonema e disse assim: "Descola imediatamente, com o máximo de aviões que puderes. Sobrevoa as bases todas nossas, Lisboa e Setúbal", porque a Base de Tancos era nossa. E nós descolamos por volta do meio-dia, com sete aviões, fizemos o que ele nos mandou.

Outra viagem tensa, não é? Porque aí também não sabia o que é que podia encontrar.

Mas enquanto vínhamos para baixo, a gente veio arrasar as árvores. Para passar também junto das coisas, fazer barulho, porque a gente não ia largar armamento, mas o poder aéreo tem estas coisas.

Portanto, era intimidar.

Era intimidar. Mesmo sem usar armamento, tem efeitos psicológicos relevantes.

Mas podia ter havido tiros contra os aviões, que passaram tão perto.

Tão baixinho, não havia problemas. Agora, o combustível do G.91 é sempre escasso. O avião, o máximo de horas que pode fazer é 1h10. Portanto, aquilo não é um avião pra andar ali nas bermas das operações. Mas como a gente deu mais uma volta, depois tivemos que subir a partir de Tancos para 12 mil pés. E aí é que a gente estava a ver do lado é que está o radar de defesa aérea e de que lado é que estão os F-86. Mas felizmente, ainda recebemos um alarme: há um alvo radar às nossas 09h e tal, não sabemos quem é.

O que isso podia ser?

Podia ser um inimigo. Felizmente, depois a gente verificou. O meu comandante tinha dado instruções a Sintra para descolar com dois aviões em instrução T-37.

Portanto, estava do vosso lado.

Sim, para levar mais equipamentos de voo pra Ovar.

Portanto, fizeram essa volta por cima de Lisboa.

Devemos ter passado em Lisboa por volta de 12h30.

12h30. E o que é que viu?

Eu não vi nada.

Claro, aquilo era um-

Não, a gente passou ao máximo, passei para aí a 400 nós e pronto.

A fazer barulho, só a causar impacto

Mas hoje sabemos o que aquilo provocou. Esse voo, pela correlação dos dados que hoje temos, é um bocadinho antes, talvez não chega a uma hora ou duas, antes do recuo estratégico do Álvaro Cunhal, tal como descrito pela doutora Zita Seabra. Que foi chamada ao Comitê Central a dizer: "Não temos espingardas suficientes, está uma situação militar muito grave". Ela descreve isso muito bem. Portanto, nesse dia 25, quais foram as operações militares? Foi a ocupação das unidades da Força Aérea por paraquedistas, com ordens para não deixar descolar os aviões, portanto, para neutralizar o poder aéreo. E, a seguir, qual é a primeira operação? É este voo nosso. Saiu de Ovar e aterrou em Ovar e passou por Lisboa volta do meio-dia e meio e passou pela base dos paraquedistas, que ficou tudo a abanar, porque tinham prometido aos paraquedistas que os aviões estavam no chão, não havia Fiats. E eles tinham estado conosco na guerra, sabiam o que é que o Fiat faz. De maneira que as descrições que temos agora da nossa passagem por Tancos e pela Base Área 6.

Abalados psicologicamente.

Estavam todos a abanar.

Vacilaram.

"Afinal, os aviões estão a voar". E o mesmo aconteceu com Álvaro Cunhal. Nós estamos convencidos que na recontagem das espingardas que ele fez depois -- e a Zita Seabra dá aqui esta noção -- verificou que afinal o poder aéreo não estava neutralizado. Na contagem das espingardas, quando ele deu ordem para avançar, também em Comitê Central, as tropas da Zita Seabra, da UEC e das centrais sindicais da zona Sul irem para as casas e à espera das armas, que estavam em boas mãos. Nesta recontagem, ele verificou que tinha uma não a seu favor, mas a desfavor. No nosso entender, foram os aviões da Força Aérea.

E daí achar que se o seu grupo não tivesse tomado aquelas precauções para retirar os aviões da zona de Lisboa.

Estavam no papo, tinham ganho.

As coisas podiam ter corrido de uma maneira completamente diferente.

Havia uma guerra civil, de certeza absoluta, porque ninguém estava disposto também a ceder assim no primeiro momento.

Claro.

E como havia, além dos militares sublevados, que eram os paraquedistas, havia depois as tropas civis da UEC, da Zita Seabra e da Intersindical e companhia que estiveram nas casas à espera de levarem as armas de beirolas, e outras, isso ia dar uma guerra civil. Porque o Norte não ia submeter. O 25 de novembro, pra nós, tem dois momentos. Tem o primeiro momento em que havia o comando completo do objetivo de Cunhal. E a segunda fase que começa quando ele faz o recuo estratégico, e ele faz o recuo estratégico muito inteligentemente, penso eu, dadas as circunstâncias, porque conseguiu a sobrevivência do partido e conseguiu manter na Constituição as conquistas revolucionárias e implantou no comunicado que fez do Comitê Central logo a seguir a esse recuo, plantou a semente que eles não participaram em nada, eles foram vítimas e aquilo era um golpe das direitas. Está lá, se lerem o comunicado, está lá isso já plantado. Houve uma espécie de tripla vitória. Conseguiu a sobrevivência do partido, conseguiu manter as conquistas revolucionárias na Constituição e reescrever a história. Como se começa aí o reescrito histórico, que depois continuou com esses historiadores todos.

Mas muito por causa desses voos, não conseguiu fazer voar a revolução no sentido em que ele queria, de certa forma.

Exatamente. Depois nesse dia, houve mais um voo de dois Fiats que vieram apoiar os Jaime Neves para a libertação de Monsanto, por volta das 8 h, um voo noturno, e dois T-37 que também vieram fazer barulho sobre Monsanto.

Os Fiats, o apoio que dão ao Regimento de Comandos, vinham armados os aviões?

Eu não me recordo se vinham armados, mas eu penso que ninguém estava a pensar em largar bombas estúpidas de 50 quilos sobre Monsanto.

Sobre Monsanto.

Mas aquilo era mais o efeito psicológico. Mas se fosse preciso, havia armamento.

Havia armamento. Tinham o armamento lá em cima?

Sim.

Tinham o armamento lá em cima.

Mas o Jaime Neves sempre disse assim: "Se eu tenho a Força Aérea do meu lado, eu não tenho problema".

Mas seria uma imprudência usar.

Seria uma imprudência usar.

Seria muito difícil conseguir precisão.

Sim.

Há bocado, o senhor general disse precisamente a experiência que as tropas tinham da guerra em África, da importância da Força Aérea. O não terem a Força Aérea do seu lado ou terem a Força Aérea do seu lado tinha um impacto muito grande em termos das unidades militares.

Coisa que muito deve ter surpreendido Cunhal. O Cunhal tinha aquela mentalidade. Duvido muito que ele tivesse algum conselheiro sobre poder aéreo. Mas o que é facto é que eu acho que o facto de não terem conseguido neutralizar a Força Aérea foi, sem desprimor para outros atores, porque a sequência das operações leva-nos a crer que há suficientes indícios para ser esse o fator principal no recuo estratégico que deu.

E é como diz, no dia 25, a grande operação do lado que não está com o golpe, a grande operação é esses voos da Força Aérea.

Depois houve outra à noite, já com os comandos Jaime Neves, que foram também decisivos, mas é o que chamamos já a segunda fase do golpe, porque já tinha havido o recuo estratégico, portanto, já não tinham direção política.

Então estabeleceu contacto com os comandantes de outras bases aéreas? Não.

Não.

Da Base Aérea nº 5.

Sim, isso fiz. Isso foi quando chegamos depois do voo, porque soubemos que o comandante da Base Aérea nº 5 estava ainda preso. Havia uma hipótese de comunicar que era o rádio de ondas curtas, todas as operações tinham esses rádios, e realmente cheguei a falar com ele, pedi para ele ir lá e cheguei a falar com ele. Lhes dei uma ameaça.

Foi tudo em alta voz, de certa forma.

Passado pouco tempo, também.

Já agora fale-nos desse apoio popular lá em Corte de Graça, as populações que acorreram para também participar na defesa da base.

Foi importante e foi exemplar também, um movimento de resistência. E depois em Monte Real, porque primeiro houve uma manifestação daquelas fábricas que havia ali, dos vidreiros e não sei o que mais, da área e do PCP, que vieram apoiar os parquistas logo pela manhã. Acabaram por retirar e depois a seguir veio uma da área do PSD e do CDS, que vieram apoiar também a Base Aérea nº 5. Mas o mais decisivo foi lá em cima. Acho que não havia hipótese deles.

Conseguirem. Portanto, ali sentiram-se-

E estavam lá, já me esquecia de mencionar, não posso, os 123 oficiais parquistas que tinham saído da BTP, que imediatamente acorreram a Ovar, a maior parte deles quando eu cheguei lá às 11h30 já lá estavam.

Já lá estavam. Qual era a história que eles contavam do que tinha se passado nos parquistas? Eles tinham sentido que lhes tinham tirado a-

Eles saíram porque não tinham capacidade de comandar e, portanto, ou ficavam ali e sendo cúmplices com o que estava a passar e com as consequências do que estava a passar, viram que não tinham capacidade de comando e foram-se embora. Mas informaram os chefes do Estado-Maior.

E é um choque mesmo entre a classe dos oficiais e os sargentos e os praças.

Os sargentos estavam totalmente radicalizados, não todos, mas havia muitos e esses muitos conseguiam dominar.

Na manhã do dia 26, a Força Aérea também foi chamada a intervir de alguma forma.

No dia 26 houve uma operação da qual eu fui o comandante de dois aviões. Essa missão foi-me dada a mim já verbalmente pelo meu comandante, o coronel Vasques, que saiu ao fim da tarde. Ele depois quando conseguiu sair de Monsanto, e foram navegando as barricadas por acima, pelas estradas secundárias até Ovar, e foi me acordar às-

Não havia avião para os levar

...às 4h da manhã do dia 26. Acordou-me, disse: "Há uma missão, às 08h30 vocês têm que estar na Calçada da Ajuda. Vai haver uma operação do Jaime Neves e vocês vão passar para apoiar essa operação".

E depois o que é que aconteceu?

Foi dada verbalmente, não há ordens escritas. E nós descolamos, e as instruções era quando chegarem perto de Lisboa, contactam com o Monsanto, porque o Monsanto nessa altura já estava em boas mãos, e eles depois dão as instruções sobre o que fazer. E quando contactámos, era o tenente-coronel Cuba, ainda me lembro do nome dele, disse: "Mantenham-se em espera aí sobre o rádio-farol a norte de Lisboa, porque a operação já está em movimento e não é preciso vocês virem para Lisboa". Nós chegámos a sobrevoar Lisboa nessa altura. E aqui há a tal coisa que eu descrevo no meu papel, que há aqui uma desconexão entre o que tinha sido combinado entre o meu comandante e o Jaime Neves para a rendição da Polícia Militar na Calçada da Ajuda, que tinha sido combinada às 08h30. E ele começou a operação às 08h00.

E isto pode ter feito diferença depois nos efeitos.

Pode ter feito diferença. Eu estou convencido que se tivessem corrido bem as coisas, provavelmente não teria sido morto as três baixas que houve. Uma do lado dos revoltosos.

Se a Força Aérea tivesse estado presente à mesma hora em que começou a operação. Sim, tivesse dado aquele impacto da presença dos aviões.

Mas isso é uma suposição minha.

Pois.

Não retira nada ao valor e à coragem dos homens que fizeram essa operação, e do Jaime Neves.

E essa descoordenação, claro, deve ter sido provocada por-

Não sei. Ali há uma coisa que eu já consegui descortinar, que há uma ordem do general Costa Gomes, para eles se renderem. Até às tantas horas. E eles até às tantas horas não se renderam, e depois há ali a ordem que o Jaime Neves recebeu, suponho que também da presidência, para avançar. E há aí essa discrepância.

Isto afetou muito as suas relações pessoais com militares do outro lado?

O que mais nos custou foi ver que houve malta que tinha estado conosco, ter alinhado nisso, como o Costa Martins. O Costa Martins, para vocês saberem, fez comigo a academia, os três anos da academia. Ele é uma pessoa inteligentíssima. Foi o número um do curso da Academia da Força Aérea. Nesse curso eu fui o número dois. Eram meus amigos. E ele começou a ter problemas na sua primeira comissão em Angola. Houve ali uns grandes atritos com o comando e ele chegou a ser punido, e bem, porque recebemos lá uma ordem para fazer um voo com o major Costa Martins, capitão nessa altura, porque ele disse que tinha medo de voar. Declarou nas inspeções rotinas que se fazem: "Eu tenho medo de voar sozinho". E a gente já sabia o que isso queria dizer. Não queria mais voar, porque voar acompanhado só se o pusessem nos transportes, não era muito útil para as qualificações dele. Mas eu acho que ele tinha desistido de voar e já havia aí qualquer coisa. Realmente fiz uns três ou quatro voos com ele, fui eu que voei com ele, era amigo dele e disse: "O Zé, o que tu queres? Estamos aqui a gastar horas de voo contigo. O que tu queres? Diz lá". E ele continuava a dizer: "Eu não quero nada, eu estou bem, eu só tenho medo de voar sozinho". Quando um piloto declara que tem medo de voar sozinho, não pode voar sozinho.

Pois.

Que foi esse o nosso relatório. O piloto está tudo bem, mas ele diz que continua a declarar que tem medo de voar sozinho. Não sei se vocês sabem, mas ele desertou.

Sim.

Em 1925 ele desapareceu. Eu depois reconstituí a história dele. Ele desertou realmente, foi protegido pelo PCP, tendo ficado numa casa, num safe house do PCP, na zona do Alentejo, acho eu, durante um mês e depois levaram-no para Madrid, também para um safe house. E depois esteve um mês em Madrid à espera de avião para Cuba. Depois esteve em Cuba dois meses e depois mandaram-no para Angola para outra missão. Que ele esteve embrulhado naquela história do Lino. Como é que ele se chamava?

Aquela revolta. Sim, aquela revolta de 1977.

Ele esteve metido nisso do lado contrário e foi condenado à morte. Ele esteve dois anos na cadeia lá e só não o executaram porque na primeira viagem que o Eanes fez a Angola conseguiu trazê-lo.

Durante o verão quente de 1965, teve alguns contactos com ele, com o Costa Martins?

Não, não tive diretamente, mas acompanhei o percurso dele.

Claro, sabia o que ele fazia.

Não tive diretamente. No caso, há uma coisa muito interessante, que tem a ver um bocadinho com a camaradagem que se desenvolve quando a gente anda lá pelos bancos da academia. Um amigo nosso que fez o curso conosco também, que é o Costa Pereira, a certa altura, já major, saiu da Força Aérea e foi para a indústria e era o CEO, o Chief Executive Officer de uma firma americana que produzia produtos para lavagem industrial. Era uma empresa grande, americana, de capitais americanos. E ele tinha casado em Lisboa com uma moça que nós conhecemos muito bem e a família tinha um hotel, e nesse hotel estava o tal senhor dono da empresa americana e um dia caiu com ele: "Então, o senhor não quer ir? Eu preciso, tenho ali a minha empresa, estou a precisar de um..." E ele foi para lá. E fez um bom trabalho. E então, naquelas ocupações que começou a haver.

Em 1975.

Sim. Um dia à noite, recebe uma chamada do ministro do Trabalho, Costa Martins: "Costa Pereira, toma as precauções que entenderes. Amanhã a tua fábrica vai ser ocupada". Vejam bem como isto funcionou.

E foi.

E lá estava, só que ele teve tempo de tomar as suas precauções.

As suas precauções. Digo uma coisa, 26 de novembro, têm a sensação que ganharam, mas depois percebem que o PCP vai continuar no governo. Como é que reagiram a isso? Nós sabemos, por exemplo, que o Jaime Neves reagiu mal.

Eu compreendo a reação do Jaime Neves. Nós estávamos comandados e ele também. Isto tudo tem que ser enquadrado nesse âmbito. Mas o que eu posso dizer é que muita malta achou que o PCP não merecia as palavras que o Melo Antunes disse que era necessário para o funcionamento da democracia. Mais ou menos estas palavras, ele disse de outra maneira, com a linguagem da época. Mas o que ele queria dizer é que é indispensável que o PCP continue a colaborar no desenvolvimento da democracia portuguesa. E eu, pessoalmente, penso também que o PCP nunca mereceu estas palavras. Porque o socialismo do PCP nunca foi democrático. O socialismo do PCP, ao contrário dos partidos comunistas espanhol, italiano e francês, continuava a seguir estritamente a doutrina soviética. Aquilo que a gente sentiu depois, como eu falei do Costa Martins, com outros foi a mesma coisa. A gente não os considerava como inimigos a abater, mas tinham estado do lado errado, realmente.

E reconciliou-se com eles? Com algumas dessas pessoas.

Não. Há uma coisa engraçada com o Costa Martins, porque ele quando veio de Angola e nessa altura era o conselheiro da Força Aérea para os analianos no ENQVA. Estava colocado no ENQVA.

No Estado-Maior-General das Forças Armadas.

Estamos a falar 1977, 1978.

1977, sim. O golpe do Anita Alves é de maio de 1977.

Dois anos depois. Anita Alves é em 1979.

1979, se calhar.

E recebi um telefonema dele, já não sabia dele há não sei quanto tempo: "Afonso, eu posso ir aí tomar um café contigo?" Eu disse: "Tu comigo, eu sou teu amigo, podes vir, mas depois vemos o que é que tu queres". Está bem. Ele apareceu, tomei um café, fomos para uma sala ao lado sozinhos. E ele diz: "Eu queria que tu interviesses da malta da Força Aérea, do nosso tempo e os outros, porque tudo o que eu fiz foi a favor da Força Aérea". "Zé, não tens hipóteses. Nunca mais vais ser aceito no grupo da Força Aérea." Qualquer coisa que tu possas dizer ou falar. Comigo podes continuar a falar porque sou teu amigo, não perdi esses laços, mas também não aprovo nada do que tu fizeste e, portanto, não penses que a Força Aérea alguma vez vai aceitar que tu voltes à comunidade da Força Aérea.

A explicação que ele dava para os atos dele era:

"Para a Força Aérea não ficar para trás", coisas dessas.

Para integrar a Força Aérea na revolução.

Coisas desse género.

E nunca reconheceu, obviamente, ligações ao PCP, nem nada, nem sintonia.

Isso não sei.

Eu estou a dizer consigo, isto é, não lhe disse: "Eu fiz aquela opção".

Não sei se tive conversas dessa com ele. Entre nós, não. Ele sabia perfeitamente qual era o meu posicionamento e eu sabia qual era o posicionamento dele. Mas que ele foi apoiado pelo PCP, depois que houve aquela situação dele para sair. Quando ele recebeu a sentença que lhe deu razão.

No caso do deviro de fundos?

Não. No caso de deserção.

No caso de deserção.

Deserção da Força Aérea. O tribunal acabou por lhe dar razão e recebeu uma indemnização de cerca de 100 mil contos. Na altura, era muito dinheiro, foram os vencimentos todos que ele devia ter recebido desde que desertou.

Desde 1975.

E ele ganhou em tribunal por quê? Por uma coisa técnica. Porque o General Lemos Ferreira quando o declarou desertor, e ele desertou de facto, mas por lei, a declaração de deserção só tem valor jurídico se for feita por um juiz. A Força Aérea, naquela altura, com aquela confusão toda, esqueceu-se de mandar o despacho do chefe do Estado-Maior para o tribunal militar, nessa altura ainda havia tribunal militar, e seria um juiz do tribunal militar que diria: "É desertor", porque ele desertou, toda a gente sabe que ele desertou.

E eles esqueceram-se de fazer isso.

Aquilo passou e foi isso que levou à sua absolvição. Mas nesse dia em que ele foi absolvido, veja bem, apresentou-se em frente do Estado-Maior da Força Aérea, de costas para a Força Aérea, com uma bateria de jornalistas e televisões, a dizer: "Finalmente ganhei". Agora veja, se fosse outra pessoa, se teria essa possibilidade. E depois convidou-me, foi a última vez, foi falar comigo, porque ele depois ia para casa para passar à reforma, à reserva, e foi ter comigo e perguntou-me se queria ir almoçar comigo. "Está bem, vamos almoçar comigo é a última vez". Porque eu tinha que se apresentar, eu era o comandante pessoal nessa altura da Força Aérea, tinha que se apresentar todos os meses a mim e eu dispensei. Disse: "Vem quando quiseres, vai para casa, não te preocupes".

Então pagou-lhe o almoço com a indemnização.

Fomos almoçar e aí é que conheci o advogado a quem ele tinha dado de prenda um carro novo como será, um carro bom, daqueles carroões, além de outras coisas. Há uma coisa que é importante, que é quando as pessoas dizem: "É um golpe de direita". Não, não é um golpe de direita. Foi um movimento de resistência e não é só das pessoas que fizeram voos nesse dia, é das pessoas que nas unidades tomaram posições, mesmo estando as unidades ocupadas. E são atos de resistência.

Sim, como impedir o voo.

Exatamente. Isso é ao nível do cabo e do sargento.

Pois.

Não receberam comando de ninguém, porque estava tudo preso, estava tudo tolhido. A pessoa a quem se deve dar o crédito ou a maior parte do crédito, porque quando se emprega o poder aéreo é sempre um grande trabalho de equipa, portanto, há imensa gente a participar, mas a pessoa a quem se deve dar o maior crédito sobre o desempenho da Força Aérea no 25 de novembro é o Tenente-General Vasquez, na altura Tenente-Coronel comandante da Base Aérea 6. E ao seu comando, o segundo comandante, o General Cardoso e o General Bispo.

Por ter sido ele a preparar esta operação e a mobilizar.

Ele era o líder.

E apesar de tolhido, dar ordem para a saída dos aviões.

Ele era o líder.

Ele era o vosso líder.

E as coisas eram ao nível da confiança. Vaz isto e a gente faz. Se fosse outro, não fazia.

Muito bem. General Vaz Afonso, muito obrigado por esta entrevista e por nos ter dado a conhecer a forma como a Força Aérea viveu o 25 de novembro e teve um papel tão importante nesta data histórica. Muito obrigado. Chegamos assim ao fim deste episódio do programa "A Vida em Revolução". Voltamos na próxima semana. Até para a semana.